Mostrando postagens com marcador Tim Burton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tim Burton. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sweeney Todd



Tim Burton constrói ópera macabra e criativa a partir de uma conhecida lenda urbana inglesa sobre barbeiro assassino
Por: Rodrigo Carreiro

Tim Burton é uma excrescência, um tumor no panorama contemporâneo da indústria do cinema. Não há outro cineasta que conseguiu construir um bolsão cinematográfico tão excêntrico e antiquado, enquanto permanecia sendo bancado por grandes estúdios. Existem vários diretores que merecem o rótulo de “autores”, mas a maior parte deles (Lars Von Trier, Michael Haneke) milita no cinema independente, onde estão livres para experimentar. Dentro de Hollywood, ser um autor é bem mais difícil. Quem consegue (Clint Eastwood, Woody Allen) quase sempre trabalha seguindo as convenções clássicas de gênero, seja comédia, thriller ou faroeste. Tim Burton não faz isso. O ex-desenhista da Disney criou um nicho personalista para acomodar uma obra que não se encaixa em padrões normais. Ele trabalha em algum lugar que fica na fronteira entre o horror, a comédia e, mais recentemente, o musical.
“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, EUA/Reino Unido, 2007) oferece um mergulho vigoroso no universo macabro e sofisticado do cineasta norte-americano. Mesmo trabalhando como diretor contratado, Burton obtém sucesso na tarefa de agregar à fábula sinistra do barbeiro assassino, cuja lenda urbana circula pelas ruas de Londres desde meados do século XIX, a atmosfera de horror engraçado que é característica principal de sua obra pessoal. Afinal de contas, há enorme distância entre o horror praticado por Tim Burton e o horror barato e comercial dos filmes de adolescentes que lotam as salas de cinema ao redor do mundo. O horror de Tim Burton não tenta reproduzir a realidade. É estilizado e irreal, cheio de referências literárias e teatrais, gráfico e engraçado. Macabro, mas sem se levar a sério.
Trata-se do terceiro filme consecutivo do diretor com seqüências musicais mas, ao contrário do que havia ocorrido antes com “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e “A Noiva-Cadáver” (2006), Tim Burton não se limita a apenas flertar com o gênero musical, inserindo canções dentro de um filme normal. Ele radicaliza. Nos trabalhos anteriores, os números musicais tinham o formato de canções populares, com versos, estribilhos e refrões, e eram intercalados por longos trechos falados normalmente. Já em “Sweeney Todd”, o formato é de uma ópera sombria, sangrenta, em que os atores falam cantando durante 90% do tempo. Na verdade, este formato é algo natural, uma vez que o filme foi baseado no premiado espetáculo musical de Stephen Sondheim, criado em 1979. O longa-metragem utiliza, com poucas alterações, as músicas originais compostas para a peça. Daí o fato de o parceiro natural de Tim Burton, Danny Elfman, não aparecer nos créditos, como de costume.
Por outro lado, se não conta com um fiel escudeiro, Burton se cercou de gente de confiança. “Sweeney Todd” marca a sexta colaboração entre o diretor e o astro Johnny Depp, que revela mais uma faceta de seu talento ao soltar a voz com confiança. Helena Bonham Carter aparece na quarta parceria profissional com o marido, e se sai muito bem no principal papel feminino. A dupla soa afinada em todos os sentidos. Além de possuírem certa semelhança física e demonstrarem afinação e tempo precisos para desfiar as melodias intrincadas, os dois possuem estilos muito parecidos de interpretação, com leve pendor para a caricatura. É uma característica que cai muito bem na atmosfera estilizada das produções de Burton. A curta e delirante aparição de Sacha Baron Cohen (“Borat”), como um barbeiro italiano, também prima pelo aspecto caricatural, e quase rouba a cena. Alan Rickman, na pele de um arrogante juiz, também brilha.
O enredo narra o processo de transformação do pacato barbeiro Benjamin Barker (Depp) em um serial killer excêntrico. Trata-se de uma história aparentemente real, que circula no imaginário popular inglês desde o princípio do século XIX, tendo inspirado diversas peças teatrais, livros e filmes. Aqui, a história começa com o retorno de Barker a Londres, resgatado do mar após uma longa temporada na prisão (as circunstâncias deste resgate nunca são explicadas). Tendo sido afastado por décadas da amada e da filha recém-nascida, pela cobiça do juiz Turpin (Rickman), Barker agora se autodenomina Sweeney Todd. Nas primeiras cenas, o personagem parece ter um plano de vingança. À medida que o filme vai passando, porém, a gente descobre que ele não tem exatamente um plano, apenas um desejo irrefreável de vingança – um desejo que o leva lentamente à loucura. Enquanto ele imagina como castigar o juiz, se instala num velho sobrado, logo em cima de uma padaria decadente dirigida pela igualmente excêntrica Sra. Lovett (Bonham Carter).
Tim Burton sempre foi um romântico à moda antiga (lembrem-se de filmes como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “
Edward Mãos-de-Tesoura”), e não faz nenhum esforço para esconder que “Sweeney Todd” é, na verdade, uma clássica história de amor, só que encharcada de sangue, vísceras e tortas de carne humana. Na melhor tradição do cinema, o roteiro de John Logan enriquece a narrativa principal com várias subtramas que ecoam o tema do amor impossível. Todos os personagens do primeiro escalão amam sem serem correspondidos, por razões distintas, e sofrem por isso: a Sra. Lovett, o marinheiro Anthony Hope (Jamie Campbell Bower, andrógino e inexpressivo), a adolescente Johanna (Jayne Wisener, bonita mas um tanto apagada), e até mesmo o grande vilão da história, o juiz Turpin.
Demonstrando respeito pela tradição dos espetáculos musicais, Tim Burton mantém a música e o visual extravagante como fios condutores da história, usando a palavra falada como mero elemento de ligação entre os trechos musicais. Numa comparação direta com filmes de narrativa clássica, a música e os diálogos trocam de função em “Sweeney Todd”, e o resultado é uma obra que pode causar certa estranheza a uma platéia acostumada a um padrão de narrativa que se mantém imutável há várias décadas. Sabendo disso, Tim Burton providencia um primeiro ato deliberadamente lento, em que não faz mais do que estabelecer quem são os personagens e quais os laços afetivos que os unem, e dá espaço para que os espectadores possam se acostumar à cantoria. Após a entrada em cena do barbeiro rival Adolfo Pirelli (Baron Cohen, hilariante), “Sweeney Todd” engrena – e vira um filme delicioso, um banho de sangue ao mesmo tempo divertido e assustador.
Como de hábito, o trabalho do veterano designer de produção Dante Ferreti (“
Gangues de Nova York”) é avassalador, dando vida a uma Londres opaca, construída a partir de sombras e tonalidades acinzentadas. Tim Burton se aproveita da excelência dos cenários para criar momentos belos (o dueto musical entre o barbeiro e o juiz), assustadores (os assassinatos sangrentos) e engraçados (o duelo com Pirelli, os ensolarados devaneios da Sra. Lovett, com piqueniques na relva). Curiosamente, os problemas de “Sweeney Todd” estão justamente na abertura, com a aparição abrupta e mal explicada do personagem principal, e no final, quando Tim Burton inexplicavelmente deixa em aberto os destinos de dois personagens importantes, mantendo sem resolução uma subtrama que recebeu grande tempo de tela. Fica a impressão de que a inclusão de duas cenas, uma no início e outra no fim, deixaria o belo e estranho longa-metragem quase perfeito.

A Noiva Cadáver



Tim Burton comprova fase inspirada com uma macabra (porém colorida) animação em stop-motion
Por: Rodrigo Carreiro

O segundo filme de Tim Burton lançado em 2005 é um tributo nostálgico aos primórdios do cineasta na indústria do entretenimento, quando ele trabalhava como animador para a Disney. “A Noiva-Cadáver” (Corpse Bride, Inglaterra, 2005) é uma animação de visual belíssimo, que resgata a velha técnica de stop-motion (já utilizada por Burton em “O Estranho Mundo de Jack”, que ele produziu em 1993) e a leva a um novo patamar. O filme, uma comédia musical, confirma a fase inspirada por que passa o norte-americano. Ele é o único diretor do cinema atual que consegue filmar contos soturnos de forma infantil e alegre, mas sem deixar de ser macabro – e esse é um elogio dos grandes.
A produção de US$ 40 milhões, considerada modesta para os padrões de Hollywood, se constitui em um feliz casamento entre superprodução e filme caseiro. Em termos de tempo e esforço, o filme é bem grande. Ao todo, os animadores tiveram que construir 34 cenários em miniaturas. Para cada um dos 20 personagens importantes, construíram nada menos do que 14 bonecos de aço e silicone. As filmagens duraram 55 semanas, em Londres. Cada equipe de animadores – uma por cenário – conseguia produzir em média quatro segundos de filme por semana.
A maior inovação técnica é o uso de máquinas fotográficas digitais para registrar o filme. Ao todo, foram batidas 109 mil fotos. Todo esse material foi animado com o uso de um programa caseiro de computadores, o Apple Final Cut. Ao contrário do que muitos pensam, Burton não esteve nos sets durante as filmagens. Enquanto dirigia “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, ele se reunia diariamente com o co-diretor Mike Johnson para aprovar e supervisionar o andamento do trabalho. Em outras palavras, a produção de “A Noiva-Cadáver” foi muito diferente do que existe normalmente nos bastidores de um longa-metragem, e muita gente chegou a temer que a ausência física do diretor no dia-a-dia das filmagens pudesse ser prejudicial ao trabalho.
O resultado final dissipou esses medos, e isso em parte se deve ao caráter mais intimista com que Tim Burton conduziu o projeto. Ele se cercou de amigos e colaboradores de longa data, como Danny Elfman (trilha sonora) e John August (roteiro). Além disso, colocou boa parte do elenco do outro filme que fazia para gravar vozes de “A Noiva-Cadáver”, inclusive o amigo Johnny Depp e a esposa Helena Bonham Carter. A mistura de tudo isso gerou um filme cheio de energia e criatividade. Curto e engraçado, “A Noiva-Cadáver” apresenta as marcas registradas de Burton por toda parte, a começar pelo visual gótico-vitoriano dos filmes de horror B. Ainda por cima, corrige pequenos defeitos do antecessor de 1993, tendo menos cenas musicais, por exemplo, e portanto ritmo mais ágil.
O enredo do filme é baseado em uma lenda do folclore russo. Passa-se na Europa do século XIX, e conta a história de um rapaz rico, Victor Van Dort (Depp), que é obrigado a se casar com uma moça de ascendência nobre, mas cuja família está falida. O detalhe é que Victoria (Emily Watson) e Victor nunca se viram, até a véspera do casamento. Os dois são românticos de carteirinha e a empatia é imediata. O problema surge quando Victor, durante uma passeio noturno pela floresta local, põe a aliança no que pensa ser um galho de árvore que é, na verdade, o dedo descarnado de uma garota local, assassinada na véspera do casamento. A brincadeira desperta o defunto de Emily (Bonham Carter) e põe Victor numa torturante jornada entre duas dimensões, o mundo dos vivos e o dos mortos.
A concepção visual distinta dos dois mundos é um dos maiores trunfos de “A Noiva-Cadáver”. O diretor mostra os vivos em tons monocromáticos, cinzentos e melancólicos, quase sem vida; já o universo dos mortos é apresentado em cores explosivas, alegres e vibrantes, muito vivas. É uma inversão curiosa que ilustra bem a visão de mundo do diretor. O estonteante trabalho visual dos animadores cria personagens bem divertidos. O mais interessante deles é a minhoca que vive na cabeça de Emily e funciona como uma espécie de consciência, uma referência sutil ao grilo falante de “
Pinóquio”. Há também um barman cujo crânio é carregado por besouros, e esqueletos por toda a parte. Lá, no mundo dos mortos, Victor reencontra o cão de estimação da época quando era criança, obviamente agora um esqueleto canino (“Role! Finja-se de morto! Ops!”).
Um dos pontos que mais chama a atenção é o extraordinário trabalho de iluminação, pilotado pelo fotógrafo Pete Kozachik. Preste atenção, por exemplo, como a Noiva-Cadáver possui uma espécie de aura suave em torno dela, mais ou menos como as antigas donzelas da era de ouro em Hollywood eram retratadas (anos 1930/40). Para conseguir o efeito, Kozachik usou três fontes de luz, dispostas de modo a criar uma auréola de luz em volta do boneco, nas cenas com Emily. Ele fotografava as seqüências utilizando um filtro de difusão acoplado à câmera digital. O efeito obtido é uma espécie de atualização de um antigo truque dos fotógrafos das divas de Hollywood, que lambuzavam as lentes com vaselina antes de filmar as estrelas. Ficou sutil e muito bonito.
Além das peripécias visuais, o roteirista John August e Tim Burton providenciaram uma grande quantidade de referências a filmes e personagens do mundo do cinema. O piano que Victor e Emily dividem numa das melhores cenas na cidade dos mortos, por exemplo, é da marca Harryhausen, o sobrenome do maior de todos os mestres do stop-motion, Ray, responsável por muitos filmes nos anos 1950. O personagem do pastor, vivido pela voz cavernosa de Christopher Lee, usa um cajado e caminha encurvado, assim como o mago Saruman “O Senhor dos Anéis”, papel anterior do ícone dos filmes B de horror. O cão de estimação do protagonista lembra “O Estranho Mundo de Jack”. Um dos personagens declama romanticamente a célebre frase de encerramento de “
E o Vento Levou” (interessante notar que pouca gente na platéia percebe a referência). Há referências em profusão e de todos os tipos, para quem quiser procurar.
De nada adiantaria nada disso, contudo, se o texto não fosse bom – e as roteiristas Pamela Pettler e Caroline Thompson (o roteiro recebeu forma final pelas mãos de John August) entregam um texto seco e vigoroso, cheio de tiradas refinadas com o melhor do humor negro estilo britânico, ferino sem ser escrachado. Só como exemplo: em certo momento, Victoria questiona os pais sobre casamento sem amor. “E se eu e Victor não gostarmos um do outro?”. A mãe responde: “Como se isso tivesse a ver com casamento! Você acha que eu e seu pai nos gostamos?”, pergunta a senhora Everglot. “Um pouco”, murmura Victoria. “É claro que não!!”, grita Finnis, o pai.
“A Noiva-Cadáver” marca mais um ponto positivo na carreira de Tim Burton, e revela mais uma verdade fundamental no estilo personalista e exótico do criador. Sim, ele é apaixonado por visuais melodramáticos e macabros, mas filtra esse universo lúgubre com um olhar infantil inconfundível. Seus filmes abordam temas pesados, como a morte, com uma leveza e um senso de humor desconcertantes, o que torna filmes como este apropriados para pessoas de todas as idades. Ainda por cima, são raras as produções que deixam escapar, como “A Noiva-Cadáver”, o prazer revigorante do criador que vê suas criaturas ganharem vida. Quando esse prazer acaba por contaminar também o espectador, como aqui, o filme vira um organismo vivo. No mundo do cinema, poucas coisas são tão entusiasmantes como isso.

A Fantástica Fábrica de Chocolate


Tim Burton imprime marca pessoal à refilmagem de um clássico infantil dos anos 1970 e cria fábula sinistra e melancólica
Por: Rodrigo Carreiro

Uma prova incontestável da qualidade de um cineasta é a direção de um grande projeto de estúdio. Diretores com estilo pessoal e iconoclasta têm dificuldade em imprimir uma marca pessoal a esse tipo de filme, em geral produtos de orçamento gigantesco. Se o projeto é, ainda por cima, a refilmagem de um filme que marcou uma geração, o problema pode ser ainda maior. Em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (Charlie and the Chocolate Factory, EUA/Inglaterra, 2005), Tim Burton passa no teste com louvor. O cineasta de “Ed Wood” entrega não apenas um longa-metragem de apelo irresistível a crianças e adultos, mas também uma fábula sinistra e melancólica que remete diretamente aos trabalhos mais inspirados de sua carreira.
Visto de um ponto de vista estritamente racional, a versão cinematográfica de 2005 do famoso livro do galês Roald Dahl é superior ao filme feito em 1971. É evidente que cinéfilos que foram crianças nos anos 1970 terão dificuldades em comparar os dois produtos, uma vez que devem possuir uma relação afetiva especial com a obra-prima do diretor Mel Stuart. Mas o filme de Tim Burton vai mais longe, criando cenários deslumbrantes, de beleza plástica inigualável, e uma atmosfera ao mesmo tempo encantadora e sinistra. A obra exala fascínio infantil capaz de fazer adultos se sentirem crianças de novo, por alguns instantes. Além disso, o bom roteiro de John August leva a imaginação da platéia a um patamar que o longa de 1971 não conseguiu atingir. Em duas palavras: fidelidade e contexto.
São dois conceitos interligados. Tim Burton foi fiel não apenas ao filme antecessor, mas ao livro que inspirou as duas versões cinematográficas. E essa fidelidade se comprova justamente no contexto criado pelo diretor, que proporciona um passado para os personagens e, dessa forma, dá a eles motivações. Até mesmo pequenos personagens, como o vovô Joe (David Kelly) do protagonista Charlie Bucket (Freddie Highmore), saíram ganhando nesse processo. O velho inválido do primeiro filme virou, aqui, um dos operários desempregados pelo chocolateiro, quinze anos antes dos eventos mostrados em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Quando Willy Wonka fechou a fábrica a decretou demissão coletiva, também condenou a família de Charlie à pobreza.
O maior beneficiado pelo cuidado com os detalhes foi o sinistro chocolateiro Willy Wonka (Johnny Depp). Ele deixou de ser apenas um homem excêntrico de meia-idade para se tornar o traumatizado produto de uma família infeliz. Em uma série de flashbacks (sempre disparados pelos comentários argutos do pequeno Charlie), Wonka relembra como era uma criança solitária que desenvolveu um fascínio especial por doces devido à proibição absoluta do pai, um dentista (Christopher Lee), para que comesse açúcar. É interessante saber, também, que essa subtrama – que ocupa poucos minutos na tela – não existia no livro de Roald Dahl. O passado de Willy Wonka é a contribuição pessoal de Tim Burton ao filme, e também aquilo que transforma “A Fantástica Fábrica de Chocolate” em algo maior do que um mero projeto de estúdio: em uma obra de arte.
O paralelo é simples. De posse das informações certas, fica evidente que Willy Wonka é, na verdade, uma versão ficcional do próprio Tim Burton. Como o chocolateiro, Burton foi uma criança solitária que se afastou da família durante a adolescência. Como Willy Wonka, ele se esmerou em uma profissão diferente e se especializou em criar universos de fábula, ao mesmo tempo infantis e soturnos. Depois que teve um filho, Burton sentiu necessidade de analisar o próprio passado e fez as pazes com a memória do pai (já morto), algo celebrado no filme “Peixe Grande”. Em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, ele aproveita os milhões de dólares da Warner para acertar as contas de vez com o passado e, de quebra, fazer um filme delicioso como o rio de chocolate que atravessa a fábrica de Willy Wonka.
Em linhas gerais, o longa-metragem narra a mesma história do filme de 1971. Após 15 anos produzindo os doces mais gostosos do mundo, sem que os habitantes da cidade onde a fábrica está localizada saibam quem de fato trabalha lá, Wonka decide abrir as portas do majestoso lugar por um dia. Mas apenas cinco sortudos que encontrarem cupons dourados escondidos dentro de barras de chocolate terão a chance de fazer a turnê pelo local.
Charlie Bucket, o garoto mais pobre da região, só come chocolate uma vez por ano, mas é fascinado pela fábrica – tem até uma miniatura da construção feita com tampas de tubos de pasta de dente – e acaba pondo as mãos em um dos cupons. Junto com mais quatro crianças, Charlie vai à excursão, onde Wonka distribui doces e punições para cada atitude errada dos meninos. Não seria errado fazer uma leitura em que Charlie é o segundo reflexo de Tim Burton dentro do filme, talvez como a criança que o diretor gostaria de ter sido: solitária, sim, mas altruísta, que entende os pais (e é entendida por eles).
O incrível visual de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é a marca mais visível da assinatura de Tim Burton. O diretor acertaa mão já na abertura, criando uma bizarra construção torta de um cômodo para a família de Charlie. O casebre parece uma homenagem ao clássico expressionista “O Gabinete do Dr. Caligari”, com suas portas e janelas tortas e seus ângulos estranhos. Se Burton já provoca fascínio com essa visão esquisita, imagine o que ele é capaz de fazer com os incríveis ambientes internos da fábrica, inclusive com uma floresta completa feita de doces (um lugar onde o rio, as árvores e até a grama podem ser comidos)?
Tim Burton não economizou para criar alguns dos cenários mais deslumbrantes que o cinema já viu. Em vez de fazer tudo digital, o cineasta optou por filmar nos gigantescos estúdios Pinewood, em Londres (onde
Stanley Kubrick fez suas obras-primas), e construir todas as locações à moda antiga, com toneladas de chocolate derretido de verdade. O resultado é que os cenários não são apenas lindos, mas possuem textura. É quase possível sentir o cheiro de doce quando a câmera passeia e mergulha na paisagem colorida de bombons e pirulitos.
Burton também se esmerou na escalação do elenco. Johnny Depp, no quarto trabalho com o diretor, é um ótimo Willy Wonka. A performance e a caracterização têm sido muito comentadas, e dizem que ele se inspirou em Michael Jackson para fazer o chocolateiro. À parte a maquiagem facial, porém, o ator parece ter feito uma nova visitinha ao baú dos Rolling Stones. Se em “Piratas do Caribe” ele buscou inspiração em Keith Richards, aqui ele parece ter tirado o sobretudo de veludo, as luvas e a cartola (mais o corte de cabelo) do guarda-roupa do falecido Brian Jones. O sorriso sinistro e os gestos levemente exagerados compõem um todo perfeito. Junto a ele, some o rosto angelical de Freddie Highmore e a leveza do vovô Joe, e você tem um elenco sensacional.
Tem mais: o habitual colaborador de Tim Burton, Danny Elfman, faz uma trilha sonora encantadora, bem na linha “contos de fadas em negativo”. Ainda por cima, entrega cinco canções pop de ótimo nível para as engraçadas coreografias dos diminutos umpa-lumpas (aqui acertadamente mostrados não como anões, mas como homenzinhos com um quarto do tamanho de seres humanos normais). Sim, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” tem momentos musicais, mas eles não são chatos ou modorrentos como nos antigos filmes da Disney. Repare no número dançado dentro da “sala da TV”, por exemplo, e tente não gargalhar. Você verá que é tarefa difícil!
Aqui e acolá, Tim Burton ainda encontra espaço para inserir referências e homenagens às influências mais importantes da própria carreira. Um ator ícone dos filmes de horror B, Christopher Lee, ganha participação especial importante (Vincent Price já aparecera em “
Edward Mãos-de-Tesoura”, e Bela Lugosi foi retratado de forma afetuosa em “Ed Wood”). A seqüência completa da “sala da TV”, talvez a mais engraçada de todo o filme, faz piadas legais com os clássicos “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (uma gag talvez deslocado do humor soturno do resto do filme) e “Psicose”. E a própria obra de Tim Burton ganha uma referência escondida: a primeira imagem de Johnny Depp no filme, que mostra o dia da inauguração da fábrica de chocolate, flagra Willy Wonka com uma tesoura na mão.
Esta é a imagem que liga de forma indelével “A Fantástica Fábrica de Chocolate” a “Edward Mãos-de-Tesoura”, a primeira obra-prima de Tim Burton, feita em 1990. Na verdade, os dois são filmes-irmãos, que poderiam se passar na mesma cidade. A paleta de cores, a atmosfera bizarra e melancólica, o misto de excentricidade, solidão e humor negro são características que os dois longas-metragens compartilham. O melhor de tudo é que “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é filme infantil de verdade, que tem tudo para deixar crianças de 5 a 10 anos pulando nas cadeiras e sonhando com um reino feito inteiramente de doce. Aproveite: uma fantasia extasiante e duradoura como esta, em projetos de grandes estúdios, não acontece todos os dias.

Peixe Grande



Tim Burton dá um passo rumo à maturidade, mas mantém pé no reino da fantasia e entrega filme emocional
Por: Rodrigo Carreiro

Quando produtores e executivos da indústria cinematográfica têm em mãos um filme ambientado em um mundo de fantasia, onírico ou mesmo surreal, logo pensam em Tim Burton. Esse foi o motivo pelo qual o cineasta recebeu o projeto de “Peixe Grande” (Big Fish, EUA, 2003), um longa-metragem que parece ter nascido sob encomenda para o diretor. Não foi assim. Aliás, curiosamente, a película aconteceu em um momento particularmente singular da vida de Burton. Talvez por isso, a edição final do trabalho parece ter capturado um cineasta menos corrosivo e mais emocional. Em outras palavras, menos infantil e mais adulto.
Nos últimos três anos, enquanto esteve envolvido com a produção de “Peixe Grande”, Tim Burton perdeu o pai e a mãe. Ele não falava com nenhum dos dois desde que tinha 12 anos, quando forçou uma mudança para a casa da avó. Além disso, Burton enfrentou um divórcio e um novo casamento, com a atriz Helena Bonham Carter, que logo engravidou. O primeiro filho do diretor de “
Ed Wood” nasceu em outubro passado. Todos esses fatos pessoais parecem ter influenciado bastante a notável mudança de postura que o diretor assume em “Peixe Grande”.
Na verdade, é um Tim Burton mais maduro que emerge das belas imagens do longa-metragem. Alguns dos temas mais característicos do diretor – como a crítica cínica e corrosiva à maneira como a sociedade ocidental trata pessoas de índole marginal – marcam presença, como sempre, mas agora filtrados por uma nova ótica, menos ácida. Tudo isso pode dar a impressão de que a paternidade e a perda dos pais amoleceram o cineasta, dissipando a aura de enfant terrible que sempre o acompanhou e tornando-o um homem mais compreensível.
Discorrer sobre esse raciocínio, contudo, é um perigo. Desde que os críticos franceses da Cahiers du Cinèma lançaram a “teoria do autor”, na década de 1950, costuma-se atribuir uma responsabilidade por vezes exagerada à figura do diretor. “Peixe Grande”, por exemplo, é um filme de estúdio, um projeto que já estava caminhando quando Tim Burton assumiu o leme. Nem tudo o que está na tela, dessa forma, deve ser compreendido como criação dele. Mas basta examinar o tema principal do filme para ficar claro o quanto ele é autobiográfico.
A história gira em torno do jornalista Will Bloom (Billy Crudup, contido e eficiente). Ele retorna à casa da família quando o pai, Edward Bloom (Ewan McGregor quando jovem e Albert Finney na velhice, ambos excelentes), está no leito de morte. Os dois não se falam há três anos. Brigaram na noite do casamento de Will, porque este não consegue entender o fato de o pai sempre precisar florear as experiências que teve na juventude, transformando narrativas banais em histórias extraordinárias e impossíveis. O filme se dedica a relatar a trajetória de Ed, sob a ótica peculiar do sujeito. Assim, os episódios fantásticos da vida do caixeiro viajante envolvem irmãs siamesas, um peixe enorme, um homem gigante e um lobisomem.
Fantasia ou realidade? Na verdade, isso não importa muito. As histórias são deliciosas, e o visual criado por Tim Burton, absolutamente encantador. Imagine um cruzamento entre a delicada cidadezinha colorida de cercas brancas, de “
Edward Mãos-de-Tesoura”, e a aspereza gótica de “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”. Fotografia e direção de arte são, definitivamente, pontos altos do filme, bem como a boa trilha sonora elaborada por Danny Elfman, que cruza temas originais razoáveis com canções de época realmente memoráveis.
O que diferencia “Peixe Grande” de outros filmes de Tim Burton pode ser resumido em duas observações. Primeiro, o fato de que Burton assume, pela primeira vez, que existe uma “realidade” feia, suja e chata correndo em paralelo ao mundo fantástico de Ed Bloom. Talvez seja a primeira vez em que Tim Burton abandona a dimensão surreal que criou para ambientar seus filmes, fincando um pé (mesmo que hesitante, a contragosto) no mundo real. Efeitos da paternidade, talvez.
Em segundo lugar, impressiona a maneira com que o diretor aborda a temática dos conflitos entre pai e filho. Burton parece ter usado o longa-metragem para exorcizar os próprios fantasmas, algo que não conseguiu fazer na vida real. Daí o final previsível e até certo ponto decepcionante do longa-metragem, que contraria frontalmente a tradição cínica dos filmes de Burton. Esse final, porém, parece perfeitamente coerente quando se conhece os fatos recentes da vida do diretor, por trás da fantasia do cinema. Dessa maneira, o embate entre realidade e fantasia, que sempre ocupou lugar de destaque na vida do cineasta, assume em “Peixe Grande” uma nova dimensão. O que de maneira alguma desmerece as qualidades do longa-metragem.

Planeta dos Macacos



Refilmagem de clássico da ficção científica tem visual gótico impressionante, mas roteiro fraco
Por: Rodrigo Carreiro

O lançamento do novo “Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, EUA, 2001) deveria servir de lição aos estúdios e distribuidoras do mundo inteiro, pelo menos no aspecto da organização. Apesar do cronograma apertado, os prazos foram todos cumpridos à risca pelo diretor Tim Burton: o filme foi finalizado apenas uma semana antes do lançamento, em agosto último, e somente três meses se passaram antes que um pacote duplo em DVD chegasse às locadoras.
Já os méritos artísticos do filme em si são bastante discutíveis. Embora seja uma aventura agradável de visual bacana, o senso comum já o elegeu como obra mais fraca da carreira do diretor. O final do filme, incompreensível para muitos, é motivo principal de toda a polêmica em torno da refilmagem. Houve quem esperasse pelo DVD apenas para conferir o comentário em áudio de Tim Burton, para que o próprio diretor pudesse esclarecer a dúvida.
Para essa turma, o luxuoso disco duplo da Fox é uma decepção: o cineasta enrola durante quase dez minutos para dizer que o único propósito do enigmático final não teve absolutamente nada a ver com criatividade ou inspiração. O motivo foi mesmo financeiro – Burton quis deixar uma porta aberta para que o estúdio realizasse uma continuação, se assim o desejasse. Ele aproveita, no comentário, para descartar a idéia de dirigir um segundo filme. O pior é que esse comentário não tem legendas em português.
Portanto, o lançamento é altamente recomendado, mas apenas para fãs da refilmagem do clássico de 1968. A história conta a saga do astronauta Leo Davidson (Mark Whalberg, numa interpretação desinteressada), que, ao tentar recuperar um macaco lançado no espaço durante uma tempestade elétrica, num futuro próximo, acaba caindo num planeta aterrorizante, dominado por gorilas e chimpanzés falantes, onde os humanos são escravos.
O visual extravagante estilo “pré-história gótica” e a maquiagem impressionante e assustadora dos macacos são o ponto alto do filme. Já a atuação de Whalberg e as soluções narrativas que se afastam do
impacto gerado pelo filme original parecem fracas e pouco inspiradas. O destaque vai para a interpretação fascinante de Tim Roth, na pele do general Thade, um chimpanzé violento. De resto, a aventura não apresenta o subtexto inteligente e nem o final impactante da obra original. Mesmo assim, é diversão garantida.

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça


Tim Burton mistura comédia, horror e romance em filme divertido e visualmente esplêndido
Por: Rodrigo Carreiro

Uma grossa gota de sangue pinga em cima de um pergaminho. Mas espere um momento, não é sangue; é cera, cera de vela! A câmera se afasta um pouco, é mostra a cena completa. Trata-se de um advogado, ricamente vestido em um extravagante terno vitoriano, lacrando um testamento com um selo à moda antiga. O sujeito sai para uma assustadora viagem noturna de carruagem, é perseguido por algo que tem origem aparentemente sobrenatural, e termina decapitado dentro de um milharal, bem na frente de um espantalho cuja cabeça é uma abóbora com um rosto talhado, à moda de uma festa de Halloween. Imaginou a cena? A abertura de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (Sleepy Hollow, EUA, 1999), de Tim Burton, dá o tom do filme: horror gótico, homenageando os antigos filmes da produtora Hammer, com toques de humor e romance.
“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” é baseado em um conto muito popular nos EUA, de autoria de Washington Irving. Já havia sido levada às telas pelo menos duas vezes, antes que o diretor de “
Edward Mãos-de-Tesoura” começasse a torcer e retorcer a história original, quase a ponto de torná-la irreconhecível. O objetivo de Burton, obviamente, nunca foi simplesmente tornar o enredo diferente, mas apenas adaptá-lo ao elaborado universo de extravagância gótica que, desde o início da carreira, sempre se dedicou minuciosamente a erguer. O resultado é perfeito. “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” é um filme divertido, de visual deslumbrante, que tem uma textura única e narra uma história de amor bizarra como somente Tim Burton sabe fazer.
O protagonista é Ichabold Crane (Johhny Depp). O rapaz é um detetive de Nova York, discriminado pelos colegas por ter verdadeira obsessão em criar métodos científicos de investigação – métodos que possam substituir a tortura. Crane é um inventor de estranhos instrumentos, como curiosas lentes de aumento que funcionam como óculos gigantes, presumivelmente capazes de ajudar a provar cientificamente a culpa, ou a inocência, de um suspeito de crime. Mais para ser mantido longe do que se considera um trabalho sério, ele é enviado por seus superiores para resolver um caso esquisito num condado rural chamado Sleepy Hollow. Lá, homens estão sendo decapitados por um assassino desconhecido.
A aventura de Crane em Sleepy Hollow é uma mistura perfeita de gêneros que aparentemente não combina, mas viram um coquetel delicioso nas mãos de Tim Burton. Há comédia – Crane é um sujeito medroso, que desmaia a casa visão estranha que tem durante as investigações. Há romance – o detetive se apaixona por Katrina Van Tassel (Christina Ricci), a filha do rico líder da comunidade. Há mistérios por resolver – quase todos os habitantes de Sleepy Hollow aparentam esconder algum segredo dos demais. E há, sem duvida, horror – são 18 decapitações nos 100 minutos de duração do longa-metragem, algumas delas bastante explícitas.
O filme é um flerte explícito com o tipo de estética desenvolvido pela produtora Hammer, responsável por alguns dos filmes de visual mais gótico dos anos 1950 e 60. Burton já havia se aproximado daquela estética em “
Ed Wood”, mas aqui ele adiciona uma paleta explosiva de cores fortes à mistura, além dos figurinos extravagantes que são uma marca registrada de sua carreira. No aspecto visual, que envolve direção de arte, fotografia e figurinos, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” é um deleite, uma perfeição monumental, o melhor filme de um diretor conhecido por erguer obras de beleza gótica estonteante.
No plano narrativo, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” não tem maiores ambições, e oferece uma eficiente aventura, cheia de lances engraçados, com roteiro (de Andrew Kevin Walker, responsável pelo fantástico “Seven”) levemente mórbido. “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” existe em um mundo de sonhos, e talvez por isso as seqüências em que Ichabold Crane sonha estejam tão perfeitamente integradas à narrativa, quando poderiam facilmente funcionar como distração desinteressante para a platéia. Um filme delicioso.

Marte Ataca!


A idéia de Tim Burton ao fazer Marte Ataca! foi criar um filme bem “trash”, como aqueles que costumava a ver quando era criança, tanto os de terror quanto de ficção científica dos anos 50, inspirado em figurinhas colecionáveis que existiram durante sua infância. Longe de ser apenas uma bizarra comédia, este filme assume também um caráter crítico/sarcástico diante da sociedade norte-americana, se observados com cuidado cada personagem e sua história, com seus vícios, nacionalismo cego, conservadorismo, etc. E talvez Burton quisesse realmente atacar os valores materialistas das sociedades ocidentais usando seus marcianos. Como tradição, mais uma vez o diretor se põe na tela, não só como alienígenas destruidores, mas também como o garoto Ritch Norris, que lembra Tim até na aparência em sua juventude.
“Marte Ataca!” (Mars Attacks!, 1996), dirigido por Tim Burton, é uma grande paródia em homenagem aos filmes de Ficção Científica dos anos 1950, a década de ouro do cinema fantástico, época nostálgica da invasão dos discos voadores e alienígenas de olhos esbugalhados. Entre as diversas curiosidades, citações e homenagens, podemos destacar as seguintes (podem conter SPOILERS): * Referências a diversos filmes, entre eles: - “A Guerra dos Mundos” (The War of the Worlds, 1954), através das naves espaciais com tentáculos atacando as cidades e à destruição dos marcianos por causa de um vírus da Terra; - A pérola de baixo orçamento “A Invasão dos Discos Voadores” (Earth Vs. The Flying Saucers, 1956), na concepção idêntica dos discos voadores e em cenas de destruição de monumentos tradicionais americanos; - O clássico “O Planeta dos Macacos” (The Planet of the Apes, 1968), na cena em que os marcianos tiram uma foto posando em frente de ruínas (no filme de Franklin J. Schaffner os macacos tiram uma foto posando com vários humanos capturados numa caçada); - O divertido filme do subgênero “Big Bug” chamado “O Começo do Fim” (Beginning of the End, 1957), onde gafanhotos gigantes são destruídos por ondas sonoras eletrônicas, numa idéia similar igualmente utilizada em “Marte Ataca!”; - O clássico “O Dia Em Que a Terra Parou” (1951), na cena de aterrissagem da nave marciana no deserto de Nevada, onde os invasores destróem inicialmente apenas as armas terráqueas, simulando intenções pacíficas e mais tarde revelando um maquiavélico plano de invasão hostil. * As naves alienígenas invasoras e os marcianos são tipicamente no estilo dos filmes dos anos 50, ou seja, discos voadores que giram e possuem garras mecânicas para pousar em terra firme, e os marcianos possuem cérebros enormes e desproporcionais em relação ao resto do corpo, além dos tradicionais olhos esbugalhados (sem contar que seu idioma lembra ruídos de patos e suas armas são pistolas coloridas que carbonizam a carne humana). * Os marcianos respiram nitrogênio e os cientistas humanos alegaram que não tinham descoberto vida em Marte devido às fundas crateras com até 160 Km de profundidade, as quais não eram alcançadas para serem estudadas. * O filme reuniu um elenco estelar com nomes como Jack Nicholson (como o Presidente dos Estados Unidos), Annete Benning e Glenn Close (esposa do Presidente), além de participações rápidas de Michael J. Fox (como um repórter de TV), Danny DeVito, Joe Don Baker (da série dos anos 70 “Havaí 5-0”), Pierce Brosnan (como um cientista), Rod Steiger, Tim Brown, Pam Grier, Natalie Portman e Sarah Jessica Parker (como uma repórter de TV). * Uma característica interessante é que vários desses atores conhecidos do público e com suas carreiras já consagradas, acabaram morrendo impiedosamente no filme, alguns carbonizados pelos marcianos como Michael J. Fox e Danny DeVito, ou como o caso de Glenn Close, que morreu esmagada por um gigantesco lustre, ou ainda o próprio Jack Nicholson, que foi empalado por uma mão mecânica marciana.

Ed Wood



Tim Burton faz dupla homenagem carinhosa (e criativa): ao cineasta do título e aos filmes de terror B
Por: Rodrigo Carreiro

Tim Burton é um cineasta estranho e um sujeito estranho, que gosta de filmes estranhos com personagens estranhos. E depois de repetir quatro vezes a mesma palavra em uma única frase, é fácil chegar à conclusão de que o vocábulo é a melhor definição possível para “Ed Wood” (EUA, 1994). Estranho e adorável, esse filme em preto-e-branco do diretor de “Edward Mãos-de-Tesoura”. Apesar de pretensamente ser uma cinebiografia, talvez seja este o trabalho mais autoral de Tim Burton. E o melhor também.
Uma análise atenta de “Ed Wood” pode permitir ao espectador aproximar-se bastante do cerne da obra de Tim Burton, que é essencialmente emocional. Os filmes que esse diretor da aparência excêntrica (cabelos desarrumados, óculos e camisas invariavelmente pretas) produz são obras de alguém que teve a infância solitária e sempre se sentiu um desajustado social. Alguns temas relampejam insistentemente nos filmes que ele produziu, mesmo aqueles comandados por grandes estúdios (os dois primeiro “Batman”, principalmente); todos esses temas estão firmes e claros em “Ed Wood”.
Em primeiro lugar, o mundo da imaginação do cineasta está localizado em algum recôndito escondido nos anos 1950. Isso era latente em “Edward Mãos-de-Tesoura”, retorna com força em “
Peixe Grande” e dá vislumbres em vários outros filmes. A cinebiografia do pior cineasta de todos os tempos é logicamente ambientada nessa época. Não por coincidência, foi a época em que Burton era criança e vivia na Califórnia, com os pais, em uma casa cujas janelas eram forradas com pano negro e jamais ficavam abertas.
O menino Burton viveu, portanto, num mundo sombrio, algo como um programa de terror B de televisão. E é exatamente isso que, acima de tudo, “Ed Wood” homenageia, filtrando esse mundo subterrâneo pela ótica de um sujeito que jamais se dá conta do que se passa ao redor dele. Ed Wood, o cineasta, é retratado no filme com tamanho carinho que se torna impossível não adorá-lo, não perdoá-lo pelos filmes horríveis que fez. Wood era um cara que vivia num outro mundo, localizado dentro da própria imaginação.
Talvez por isso, cada pedaço de celulóide filmado por ele lhe parece uma obra-prima genial. Cada ator de terceira categoria que ele contrata é, para ele, um gênio da sétima arte. Tim Burton aumenta ainda mais a identificação da platéia com o homem patético que ele é contrapondo a ele a figura da namorada, Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker), o lastro das fantasias tresloucadas de Wood (“vejo que a corja de vagabundos e drogados está toda aqui”, diz ela, a certa altura do filme). Ela está correta, claro, mas os delírios de Ed Wood não param. Tamanha ingenuidade só poderia ser recompensada com a simpatia eterna da platéia.
Por outro lado, do
ponto de vista estético, Burton foi meticuloso e mesclou brilhantemente a atmosfera dos filmes do próprio Ed Wood ao estilo dos seriados de terror que ele próprio (Burton, não Wood) tanto ama. O filme foi inteiramente rodado em preto-e-branco, em fotografia que dá ênfase aos contrastes e usa abundantemente fumaça de gelo seco. A música de Danny Elfman é puro filme B, incluindo até mesmo aqueles uivos e assobios dos filmes antigos de vampiros. Diga a verdade: não parece que o verdadeiro Ed Wood, de carne e osso, vivia dentro de um dos filmes que fez?
É exatamente essa a chave para entender – e amar – o filme de Tim Burton. O cineasta de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” se esmerou para produzir uma homenagem a um desajustado social que encontrou uma válvula de escape à rejeição refugiando-se dentro dos próprios sonhos, como ele próprio fez, três décadas depois. “Ed Wood” talvez seja mais uma autobiografia do que uma cinebiografia.
Além disso, há ainda o charme ingênuo de Johnny Depp, cujo rosto angelical emoldura perfeitamente os delírios do protagonista, e um elenco de apoio absolutamente perfeito. Somente um homem cego, surdo e mudo é capaz de não se emocionar com a brilhante atuação de Martin Landau, praticamente reencarnando o húngaro Bela Lugosi em seus últimos e trágicos momentos (a atuação valeu um Oscar a Landau). O pedaço de celulóide que mostra Landau colhendo uma flor emociona tanto a Ed quanto a todos nós. Precisamos de mais “Ed Woods”, que tal?

Batman – O Retorno



Estilizado e repleto de influências do expressionismo alemão, filme é legítimo filho de Tim Burton
Por: Rodrigo Carreiro
Tim Burton é um camarada esperto. Após o avassalador sucesso do primeiro “Batman”, que dirigiu em 1989, ele aproveitou a fama para dirigir um projeto pessoal, “Edward Mãos-de-Tesoura”. A fábula com Johnny Depp se tornaria o primeiro grande filme autoral da lavra do cineasta, definindo seu universo narrativo (personagens socialmente inadaptados) e visual (monstros e aberrações filtrados por olhar infantil). Enquanto isso, a Warner implorava para que o diretor fizesse uma seqüência do longa-metragem do homem-morcego. Burton só concordou quando ganhou carta branca para fazer “Batman – O Retorno” (Batman Returns, EUA/Inglaterra, 1992) do jeito que bem entendesse.
O resultado: a aventura é mais um filme legítimo de Tim Burton, e menos um filme do Batman. Admiradores em geral da franquia do morcegão concordam, de forma quase unânime, que o trabalho é superior ao primeiro longa-metragem. Fãs mais radicais do herói, no entanto, sempre reclamaram que ele é visto no filme como um homem monótono, sem charme e insosso, quase entediante. Por outro lado, o Pingüim (Danny DeVito) e a
Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer), os vilões, são personagens muito mais sólidos e interessantes. Estão certíssimos. Dá até para ir mais longe: a grande estrela de “Batman – O Retorno” é o Pingüim.
Todo mundo sabe que Tim Burton sempre foi um grande fã dos filmes integrantes do movimento expressionista alemão. Em “O Retorno”, o diretor deu um jeito de incluir generosas referências aos filmes dos mestres do gênero, a começar pelo vilão principal. A figura do Pingüim (baixinho, roliço, careca, pele lívida, grandes olheiras negras, cartola e fraque) é diretamente inspirada no Dr. Caligari, do filme de 1919. Como se não fosse o bastante, Burton ainda criou um personagem, o empresário mafioso Max Schreck (Christopher Walken), e deu-lhe o nome do ator que encarnou o vampiro Nosferatu no filme de F.W. Murnau. Duas homenagens óbvias.
A influência, contudo, não pára aqui. Tudo em “Batman – O Retorno”, desde a cenografia grandiosa de toques góticos (mais da metade dos galpões dos estúdios da Warner foram utilizados para a construção dos sets) até os ângulos de câmera estranhos e incomuns, remetem aos filmes alemães. A segunda parte é um filme muito mais estilizado do que o primeiro “Batman”, e isso fica evidente quando vemos locações épicas como o esconderijo do Pingüim, nos subterrâneos do zoológico, e o cemitério da cidade, que Burton (como amante desses locais) deu um jeito de incluir na trama.
Também nesse filme, o diretor explorou ao máximo as tomadas conceituais, incluindo inúmeros planos subjetivos (logo na abertura, ele nos mostra os pais do bebê-pingüim vistos da perspectiva da criança recém-nascida, trancada numa gaiola). Além disso, Burton abusou do uso de plongées e contra-plongées, que são respectivamente as tomadas com a câmera posicionada de cima para baixo e de baixo para cima. Esses ângulos são normalmente utilizados com discrição, pois os espectadores costumam reclamar devido à perspectiva distorcida dos personagens e situações. Com a liberdade criativa que teve, no entanto, Burton pôde usar a estratégia à vontade.
Maior esmero teve o cineasta na construção cuidadosa da história do Pingüim. Para começar, Burton sublinha a tragédia na vida do vilão, traçando paralelos interessantes com figuras bíblicas. Como Moisés, o Pingüim foi um bebê abandonado pelos pais em um cesto, dentro de um riacho. Nesse caso, entretanto, a criança estava sendo rejeitada, por ter deformações físicas. Depois desse episódio, o Pingüim só reapareceu em sociedade aos 33 anos, após uma infância obscura – e esse é outro paralelo inteligente, dessa vez com a vida de Jesus Cristo. De fato, o Pingüim nem poderia ser chamado de vilão, pois é um sujeito desajustado e obviamente enlouquecido pela solidão. Criado nos esgotos de Gotham por animais, ele se juntou a outras aberrações de circo, que formam a gangue terrorista de figurinos berrantes (palhaços, mulheres barbadas) que ataca a cidade. Danny DeVito está perfeito no papel.
O outro vilão é bem menos interessante. A Mulher-Gato é uma secretária atrapalhada que descobre um segredo sujo e é atirada de uma janela pelo mafioso Max Schreck (em uma cena, aliás, tecnicamente bem feita, que demonstra como Tim Burton evoluiu desde o primeiro “Batman”, pois esse filme também tinha uma cena de queda, muito mais fake), e ressuscitada por gatos. Ela faz também o papel de interesse romântico do Batman, já que a fotógrafa Vicki Vale não volta para este filme. O
romance entre os dois é o ponto fraco da trama e nunca chega a engrenar.
A maior parte do longa-metragem consiste na apresentação e no desenvolvimento das histórias dos dois vilões, contadas em paralelo. Uma vez que a premissa dramática está estabelecida – a aliança entre o Pingüim e Max Schreck, a relação entre Batman e a Mulher-Gato – o filme corre velozmente rumo a um final um tanto abrupto. Vale ressaltar, no entanto, que Tim Burton demonstra bem mais segurança nas cenas de ação, o que fica evidente por exemplo na cena em que Batman precisa retomar o controle do Batmóvel, dirigido à distância pelo Pingüim.
Por fim, uma menção à excelente trilha sonora de Danny Elfman deve ser feita. O compositor preferido de Tim Burton realça o universo macabro-porém-infantil (o veículo do Pingüim, por exemplo, é um pato amarelo daqueles com que as crianças costumam brincar enquanto tomam banho) com melodias épicas que circulam entre o lúgubre e o lúdico. Elfman já estava presente no primeiro filme, mas as intervenções instrumentais eram bem mais tímidas; dessa vez se mostram muito mais ousadas. De certa forma, isso faz parelha com o roteiro, que está repleto de insinuações de duplo sentido, algumas vezes intraduzíveis (“Life’s a bitch”, diz o Pingüim à Mulher-Gato, em certo momento, reclamando da vida ao mesmo tempo em que a insulta de forma elegante).

Edward Mãos-de-Tesoura


Tim Burton constrói fabula atemporal com visual belíssimo e roteiro inteligente
Por: Rodrigo Carreiro
“Edward Mãos-de-Tesoura” (Edward Scissorhands, EUA, 1990) é uma fábula que se passa nos Estados Unidos, em algum momento entre as décadas de 1950 e 1980. Ponto. Não é preciso ser muito perspicaz para perceber esse detalhe durante os primeiros minutos de projeção, mas muita gente estranhou. É normal, já que fábulas se passam, por tradição, em uma “Terra do Nunca” sem idade.
Na verdade, existe uma “Terra do Nunca” no filme. É o mundo gótico, esquisito e adorável criado pelo diretor Tim Burton. No comando de filmes de estúdio (“Planeta dos Macacos”) ou projetos pessoais (“
Ed Wood”), o cineasta sempre conseguiu a proeza de ambientar os envolventes enredos numa atmosfera onírica, contraditória, sombria e aconchegante ao mesmo tempo. Esse é o mundo de Tim Burton, um dos estetas visuais mais interessantes a filmar em Hollywood.
De certa forma, dá para dizer que “Edward Mãos-de-Tesoura” é a obra-prima de Tim Burton. Ainda que ele tenha sofisticado tanto sua capacidade narrativa quanto a bela ambientação gótica em filmes subseqüentes, nenhum filme que ele realizou conseguiu unir tão bem a poesia visual, a simplicidade narrativa e o tom de fábula que o cineasta tenta (e quase sempre consegue) imprimir em cada polegada de celulóide que filma.
Edward (Johnny Depp, na primeira colaboração com o diretor) é um jovem que mora sozinho num castelo, com fama de mal-assombrado, na periferia de uma pequena cidade típica dos EUA da década de 1950. Numa tarde, ele é visitado por Peg Boggs (Dianne Wiest), uma vendedora da Avon que passa por um período de vendas particularmente ruim. Peg se compadece da solidão e da dificuldade do jovem, que tem tesouras no lugar das mãos porque o inventor que o criou (Vincent Price, numa ponta deliciosa) morreu antes de terminar a criação. Ela o leva para morar com a família Boggs.
Investindo num tema que vai se mostrar obsessivo em trabalhos vindouros (a péssima capacidade dos norte-americanos em aceitar gente diferente do padrão normal), Tim Burton criou um filme mágico e atemporal. O uso de cores é o detalhe que mais chama a atenção: casas,
carros e objetos são pintados em tons monocromáticos e berrantes, dando a impressão de que são brinquedos rústicos. O céu azul-bebê e a falta de sombras (com exceção para as cenas elaboradas dentro do castelo de Edward) contribuem para intensificar o clima onírico.
O visual parece, na verdade, uma mistura dos anos 1950 (cercas brancas, jardins verdes, jaquetas de couro) com a década de 1980 (penteados enormes). Isso acentua a impressão de que Burton se esforçou para criar um tempo e um espaço particulares para a sua obra. E conseguiu, com a ajuda providencial de um Johnny Depp iluminado, oferecendo sua primeira grande interpretação e sem precisar de muitas palavras para isso. Condensando todos esses elementos numa narrativa ágil e simples, Burton criou um conto de fadas que pode ser apreciado por crianças e adultos, sem distinção, e que jamais apela para a pieguice em busca de lições de moral. Ah, se todo filme fosse assim…

Batman


O ano de 1989 foi um divisor de águas para os filmes baseados em HQs, sub-gênero padecendo do de descaso em Hollywood desde o fim dos anos 70, o último “boom” de produções do gênero. Fora os esporádicos filmes do Super-Homem e uma ou outra produção sem vergonha, os quadrinhos passaram longe das telas. A retomada deve se a Batman - o filme.
Na verdade, esta película só se tornou possível graças ao bom e velho Cavaleiro das trevas de Frank Miller, publicado nos Estados Unidos em 1985 e que resgatou o Morcegão do ostracismo, verdadeira ressaca do seriado cômico dos anos 60. Até então quando se falava em Batman, a primeira imagem que vinha à cabeça do público era um bufão barrigudo e de músculos flácidos, acompanhado por um moleque de meias-calça, que combatia vilões engraçados. O fenômeno deflagrado por Miller não só resgatou a imagem do Morcego como ajudou a levantar a moral dos quadrinhos como um todo. Várias graphic novels depois, os executivos dos estúdios já estavam de orelha em pé com os lucros em potencial de um longa-metragem sério do nosso herói.
Dado o ponta-pé inicial, a primeira polêmica em torno do filme foi a contratação de um diretor praticamente desconhecido para o projeto. Tim Burton até então só havia dirigido dois filmes cômicos: A grande aventura de pee-wee e Os fantasmas se divertem. Os fãs tremeram. Batman nas mãos de um diretor de coisas assim&qt& No entanto, quando o nome do alucinado Jack Nicholson foi confirmado como o Coringa, os ânimos voltaram a se elevar! A euforia tornou-se generalizada assim que outros nomes de peso juntaram-se ao elenco. Para completar, os produtores prometeram um roteiro com elementos da mini-série de Miller e da graphic novel A piada mortal de Alan Moore. Tudo isto ainda viria embalado por um orçamento milionário como os fãs de quadrinhos não viam desde o primeiro Superman. O banho de água fria, no entanto, veio com a escalação do protagonista: Michael Keaton.
Comediante de filmes de segunda, Keaton, que havia trabalhado com Burton em Os fantasmas se divertem era tampinha, calvo e não gozava da menor semelhança com o milionário Bruce Wayne. Primeira opção do diretor, ele se tornou um martírio para os fãs. Burton justificou-se que não queria um Super-homem, mas um herói plausível, um homem comum, com o qual o público pudesse se identificar.
As primeiras imagens de Keaton posando de uniforme até que tranqüilizaram o público. Afinal, era uma armadura, algo. em si. mais lógico até do que um colante. E o filme seguiu em paz até sua estréia.
TINHA TUDO PARA DAR CERTO
Sinistro, sombrio, opressor mas... equivocado. É assim que pode se definir o filme. A atmosfera era a certa. Os cenários deslumbrantes; a trilha sonora de Danny Elfman, épica; o vilão excelente, mas o roteiro que é bom... necas! A história demora para decolar e depois entra em queda-livre. Tim Burton parece ter dirigido o filme algemado e com uma espingarda apontada para a cabeça. Sua direção foi burocrática como uma modorrenta repartição pública. Personagens entram e saem com a profundidade de um pires, transitando por situações mal-resolvidas e cenas de ação nada empolgantes. Resultado: um filme morno, muito longe do que estava sendo prometido.
PECADOS CAPITAIS
O filme comete alguns pecados que limaram todo seu potencial:
Michael Keaton: Definitivamente, esse cara NÃO é o Batman. Mais parecido com uma fuinha do que com um morcego, sua personagem é mal construída. Em vez de um playboy, temos um milionário excêntrico e debilóide. Menção especial para a cena em que ele revela sua identidade secreta à fotógrafa Vicky Vale. Os dois mal se conheciam e dormiram juntos uma única vez!
A Armadura: Era muito bonita quando Batman estava parado e bem longe, no meio das sombras. De prática, porém, não tinha nada. Keaton parecia ter vestido a roupa de seu irmão mais velho. A máscara dançava folgada sobre seu rosto. O restante do traje era rígido como um Robocop, e o herói não podia olhar para os lados. Um verdadeiro modelito-torcicolo, natural como um bloco de cimento nas sofríveis cenas de ação.
O elenco de apoio: Pat Hingle no papel de Comissário Gordon (ou gordo, por motivos óbvios) está um desperdício. A fotógrafa Vicky Vale (Kim Basinger, interpretando a si mesma) é um bibelô descartável. Seu colega Alex Knox (Robert Wuhl) é um mala-sem-alça. Harvey Dent (Billy Dee Williams) está ali simplesmente por estar. O mesmo pode se dizer do mafioso Grisson (Jack Palance) e a namorada do Coringa, Alicia (a ex-Sra. Mick Jagger, Jerry Hall), que estão na história só para encher lingüiça.
O Coringa matando os pais do Batman: Ora, seria melhor se tudo continuasse sendo um acaso trágico. Essa palhaçada só serve para justificar uma frase de efeito do protagonista: “Eu criei você, mas você me criou primeiro”. Eeeeca! A cena do assassinato em si é cafona. Uma pífia tentativa de reproduzir a maravilhosa seqüência muda em Cavaleiros das trevas. Tudo em nome da simplificação da trama e do clichê. Só faltava o Coringa dizer: “Eu sou seu pai”!
A morte do Coringa: Idiota e ridícula! Não há pior clichê do que vilão caindo para a morte no fim do filme! Sem falar que a cena em si é tecnicamente deprimente. O Coringa que cai é uma animação muito da sem-vergonha.
AS VIRTUDES DO FILME:
Abriu o filão de adaptações milionárias baseadas em HQs, que começou nos anos 90 e chega à maturidade nos dias de hoje.
Possibilitou a criação do novo desenho animado do morcego em 1992. Essa produção revolucionou as animações americanas de aventura na TV, impondo um novo padrão de qualidade e respeito com as personagens.
Projetou as carreiras de Tim Burton (que pôde realizar os excelentes Edward-Mãos de Tesoura, Ed Wood e O Estranho mundo de Jack) e Danny Elfman, um dos mais requisitados compositores de trilhas da atualidade. Detalhe: Elfman é quem mais compõe para filmes de HQ.
Jack Nicholson, apesar de “gorducho” para o papel de Coringa, carrega o filme nas costas.
O mordomo Alfred (Michael Cough) é correto desde o primeiro momento. Parece ser a única personagem, além do Coringa, representada com adequação. Ponto para o veterano Cough, que garantiu o emprego em todas as continuações, a exemplo do inexpressivo Comissário vivido por Pat Hingle.
Não há o mala-sem-alça do Robin!
O filme ganhou o Oscar de melhor direção de arte, tendo sido indicado a vários outras categorias técnicas.
QUEM RI POR ÚLTIMO, RI MELHOR.
Com sua campanha de marketing inigualável, o filme tornou-se uma febre mundial. Seu sucesso instantâneo fez dele uma das maiores bilheterias de todos os tempos, até então; para a alegria especial de Nicholson, que abriu mão de seu cachê por uma porcentagem dos lucros. Na época, o doido de plantão em Hollywood embolsou 65 milhões de verdinhas!!! Realmente, o Coringa, roubou o filme!

Os Fantasmas se Divertem


Anotação em 2008: Não sei como as pessoas classificam o estilo de Tim Burton, mas o que me ocorreu, logo depois de ver Beetlejuice pela primeira vez, numa sessão da tarde, 20 anos depois que o filme foi feito, é que o visual dele é surreal-psicodélico-gótico.
Pensei também que muito do sensacional visual dos dois MIBs, os Homens de Preto, vem deste filme aqui.
A história é uma imensa e deliciosa bobagem. Um jovem casal feliz, Adam e Barbara (Geena Davis e Alec Baldwin, jovens demais, com caras de bebês), sai de sua casinha feliz de carro para fazer compras na loja da pequeníssima cidadezinha em que vivem, em Connecticut, e na volta, para não atropelar um cachorro, cai no rio e morre.
Adam e Barbara reaparecem na sua casinha feliz para constatar o inevitável: sim, estão mortos. E pouco depois chega à casa deles uma família que acabou de comprar o imóvel; a família é absolutamente disfuncional, desagradável e doida: a mulher (Catherine O’Hara) se acha uma grande artista plástica, e a filha do marido, enteada da mulher, é uma adolescente dark, gótica, melancólica, entediadíssima, que pensa na morte quase todo o tempo – um papel perfeito para o talento de Winona Ryder, essa atriz extraordinária que já era ótima aos 17 anos.
A madrasta quer reformar inteiramente a casa – e o casal de mortos fará de tudo para assombrar, assustar, botar a família para correr. Sem qualquer sucesso.
O que importa é o visual fantástico, fascinante. Tim Burton cria figuras e ambientes absolutamente monstruosos, malucos, brilhantes, como a repartição pública onde os mortos vão pedir ajuda e assistência social. A mulher que vai cuidar do jovem casal, Juno (Sylvia Sidney), fuma e a fumaça sai por um gigantesco corte no pescoço dela. Uma mulher que espera sua vez tem o corpo dividido ao meio; alguns mortos têm o rosto do tamanho de uma bola de tênis. São dezenas, dezenas de criaturas com visual louquíssimo. Um corredor é completamente torto, exatamente como se tivesse saído de um quadro de Salvador Dalí, como Mary observou na hora.
É um visual que torna o de Poltergeist fichinha, brincadeira de criança.
E o personagem título, o Beetlejuice de Michael Keaton – um bio-exorcista, como ele mesmo se define – é um dos fantasmas mais pirados, mais doidos que já passaram pela tela.
Mas é Winona que rouba totalmente a cena, como a única viva que, por pensar tanto na morte, consegue ver os mortos Adam e Barbara, e se comunicar com eles. Winona dançando no ar e dublando Harry Belafonte em Jump in the Line (Shake, Shake, Señora), é espetacular.
(Aliás, o filme tem umas três ou quatro músicas de Belafonte, da época do calipso.)
Ah, sim: Mary reparou uma coisa ótima. A trama básica do filme – aqui levada no escracho, na brincadeira – é bem parecida com a de Os Outros/The Others, de Alejandro Amenábar, de 2001, um dos melhores, mais apavorantes filmes de terror que eu já vi.
Vou agora aos alfarrábios.
Foi o segundo longa-metragem dirigido por Tim Burton, depois de As Grandes Aventuras de Pee Wee/Pee Wee’s Big Adventure; em seguida ele faria Edward Mãos de Tesoura/Edward Scissorshands, também com a maravilhosa Winona, e depois os dois Batmans, de 1989 e 1992.
Foi o terceiro filme da carreira de Winona. Geena Davis havia estreado em
Tootsie, em 1982, e nos seis anos até este filme fez vários episódios de séries de TV e o papel feminino central da refilmagem de A Mosca/The Fly, de 1986.
O filme ganhou o Oscar de maquiagem – e o trabalho de maquiagem realmente é impressionante. Teve outros seis prêmios e oito indicações.

As grandes Aventuras de Pee Wee


Pee-Wee Herman (Paul Reubens) ama sua bicicleta. Porém, certo dia, ela é roubada. Ele parte então para a grande aventura de sua vida, viajando pelos Estados Unidos tentando reencontrar seu bem mais precioso. Muitos personagens bizarros aparecerão em seu caminho, mostrando que o diretor Tim Burton já possuía seu estilo especial desde o começo da carreira.

Frankenweenie


considerado o primeiro filme de Burton e foi feito dentro dos estúdios da Disney. Ficou trancando lá por muito tempo, pois foi considerado impróprio para as crianças. No entanto, você pode encontrá-lo hoje em dia nas edições especiais do DVD de O Estranho Mundo de Jack. A obra narra uma história verídica da vida de Tim até certo ponto. Conta a história de um menino que adorava fazer filmes de monstros – “nosso filho é o novo Hitchcock”, dizem seus pais – e adorava ainda mais o seu cachorro Spark, que acaba morrendo atropelado por um carro. Aqui começa a ficção. Depois de uma aula de biologia, Victor, o menino, tem a idéia de como ressuscitar seu amado cãozinho. Somos transferidos aí para uma adaptação da história de Frankenstein em preto-e-branco e com um final feliz.

Vincent

A primeira animação dirigida por Burton não tem nem seis minutos de duração. Porém, deve ser considerado o trabalho mais importante para compreender Thimoty William Burton. Veio de um poema escrito por ele sobre um menino de sete anos chamado Vincent Malloy, que gostaria de ser... Vincent Price, maior ídolo de Burton, desde a infância! Aliás, pode-se dizer que Malloy é Burton em sua forma mais pura: uma pessoa educada e atenciosa que prefere, porém, criar todo um mundo de fantasia para escapar da realidade, pois essa realidade não é tão divertida ou prazerosa. Ou talvez nem exista realidade e fantasia, e sim um mundo que funciona de acordo com seus desejos e outro não. No filme, a mãe de Vicent Malloy procura despertar o filho de suas ilusões, mas o menino deixa-se dominar por suas criações. Tim Burton pode não ser Vincent Price, mas se tornou um artista de mesmo nível e também uma lenda, por merecimento. Price foi o narrador do filme, o qual ele considerou uma honra: “melhor forma de ser imortalizado do que uma estrela em Hoolywood Boulevard”. Trabalhou de novo com Burton em Edward Mãos de Tesoura e os dois foram muito amigos, até a morte do ator. Burton chegou a gravar entrevistas para um futuro documentário sobre Price, que não ficou pronto por ocasião de seu falecimento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Alice in Wonderland


A trama será uma espécie de sequência do clássico original: Alice (Mia Wasikowska), aos 17 anos, vai a uma festa vitoriana e descobre que está prestes a ser pedida em casamento perante centenas de socialites. Ela então foge, seguindo um coelho branco, e vai parar no País das Maravilhas, um local que ela visitou há dez anos, mas não se lembrava.
Alice no País das Maravilhas é, ao lado de Frankenweenie, um dos dois projetos do diretor com o Walt Disney Studios que serão exibidos em 3D. Johnny Depp, Anne Hathaway, Alan Rickman, Matt Lucas, Michael Sheen, Helena Bonham Carter, Crispin Glover, Christopher Lee e Eleanor Tomlinson também estão no elenco.
O filme estreia em 5 de março de 2010.