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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sweeney Todd



Tim Burton constrói ópera macabra e criativa a partir de uma conhecida lenda urbana inglesa sobre barbeiro assassino
Por: Rodrigo Carreiro

Tim Burton é uma excrescência, um tumor no panorama contemporâneo da indústria do cinema. Não há outro cineasta que conseguiu construir um bolsão cinematográfico tão excêntrico e antiquado, enquanto permanecia sendo bancado por grandes estúdios. Existem vários diretores que merecem o rótulo de “autores”, mas a maior parte deles (Lars Von Trier, Michael Haneke) milita no cinema independente, onde estão livres para experimentar. Dentro de Hollywood, ser um autor é bem mais difícil. Quem consegue (Clint Eastwood, Woody Allen) quase sempre trabalha seguindo as convenções clássicas de gênero, seja comédia, thriller ou faroeste. Tim Burton não faz isso. O ex-desenhista da Disney criou um nicho personalista para acomodar uma obra que não se encaixa em padrões normais. Ele trabalha em algum lugar que fica na fronteira entre o horror, a comédia e, mais recentemente, o musical.
“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, EUA/Reino Unido, 2007) oferece um mergulho vigoroso no universo macabro e sofisticado do cineasta norte-americano. Mesmo trabalhando como diretor contratado, Burton obtém sucesso na tarefa de agregar à fábula sinistra do barbeiro assassino, cuja lenda urbana circula pelas ruas de Londres desde meados do século XIX, a atmosfera de horror engraçado que é característica principal de sua obra pessoal. Afinal de contas, há enorme distância entre o horror praticado por Tim Burton e o horror barato e comercial dos filmes de adolescentes que lotam as salas de cinema ao redor do mundo. O horror de Tim Burton não tenta reproduzir a realidade. É estilizado e irreal, cheio de referências literárias e teatrais, gráfico e engraçado. Macabro, mas sem se levar a sério.
Trata-se do terceiro filme consecutivo do diretor com seqüências musicais mas, ao contrário do que havia ocorrido antes com “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e “A Noiva-Cadáver” (2006), Tim Burton não se limita a apenas flertar com o gênero musical, inserindo canções dentro de um filme normal. Ele radicaliza. Nos trabalhos anteriores, os números musicais tinham o formato de canções populares, com versos, estribilhos e refrões, e eram intercalados por longos trechos falados normalmente. Já em “Sweeney Todd”, o formato é de uma ópera sombria, sangrenta, em que os atores falam cantando durante 90% do tempo. Na verdade, este formato é algo natural, uma vez que o filme foi baseado no premiado espetáculo musical de Stephen Sondheim, criado em 1979. O longa-metragem utiliza, com poucas alterações, as músicas originais compostas para a peça. Daí o fato de o parceiro natural de Tim Burton, Danny Elfman, não aparecer nos créditos, como de costume.
Por outro lado, se não conta com um fiel escudeiro, Burton se cercou de gente de confiança. “Sweeney Todd” marca a sexta colaboração entre o diretor e o astro Johnny Depp, que revela mais uma faceta de seu talento ao soltar a voz com confiança. Helena Bonham Carter aparece na quarta parceria profissional com o marido, e se sai muito bem no principal papel feminino. A dupla soa afinada em todos os sentidos. Além de possuírem certa semelhança física e demonstrarem afinação e tempo precisos para desfiar as melodias intrincadas, os dois possuem estilos muito parecidos de interpretação, com leve pendor para a caricatura. É uma característica que cai muito bem na atmosfera estilizada das produções de Burton. A curta e delirante aparição de Sacha Baron Cohen (“Borat”), como um barbeiro italiano, também prima pelo aspecto caricatural, e quase rouba a cena. Alan Rickman, na pele de um arrogante juiz, também brilha.
O enredo narra o processo de transformação do pacato barbeiro Benjamin Barker (Depp) em um serial killer excêntrico. Trata-se de uma história aparentemente real, que circula no imaginário popular inglês desde o princípio do século XIX, tendo inspirado diversas peças teatrais, livros e filmes. Aqui, a história começa com o retorno de Barker a Londres, resgatado do mar após uma longa temporada na prisão (as circunstâncias deste resgate nunca são explicadas). Tendo sido afastado por décadas da amada e da filha recém-nascida, pela cobiça do juiz Turpin (Rickman), Barker agora se autodenomina Sweeney Todd. Nas primeiras cenas, o personagem parece ter um plano de vingança. À medida que o filme vai passando, porém, a gente descobre que ele não tem exatamente um plano, apenas um desejo irrefreável de vingança – um desejo que o leva lentamente à loucura. Enquanto ele imagina como castigar o juiz, se instala num velho sobrado, logo em cima de uma padaria decadente dirigida pela igualmente excêntrica Sra. Lovett (Bonham Carter).
Tim Burton sempre foi um romântico à moda antiga (lembrem-se de filmes como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “
Edward Mãos-de-Tesoura”), e não faz nenhum esforço para esconder que “Sweeney Todd” é, na verdade, uma clássica história de amor, só que encharcada de sangue, vísceras e tortas de carne humana. Na melhor tradição do cinema, o roteiro de John Logan enriquece a narrativa principal com várias subtramas que ecoam o tema do amor impossível. Todos os personagens do primeiro escalão amam sem serem correspondidos, por razões distintas, e sofrem por isso: a Sra. Lovett, o marinheiro Anthony Hope (Jamie Campbell Bower, andrógino e inexpressivo), a adolescente Johanna (Jayne Wisener, bonita mas um tanto apagada), e até mesmo o grande vilão da história, o juiz Turpin.
Demonstrando respeito pela tradição dos espetáculos musicais, Tim Burton mantém a música e o visual extravagante como fios condutores da história, usando a palavra falada como mero elemento de ligação entre os trechos musicais. Numa comparação direta com filmes de narrativa clássica, a música e os diálogos trocam de função em “Sweeney Todd”, e o resultado é uma obra que pode causar certa estranheza a uma platéia acostumada a um padrão de narrativa que se mantém imutável há várias décadas. Sabendo disso, Tim Burton providencia um primeiro ato deliberadamente lento, em que não faz mais do que estabelecer quem são os personagens e quais os laços afetivos que os unem, e dá espaço para que os espectadores possam se acostumar à cantoria. Após a entrada em cena do barbeiro rival Adolfo Pirelli (Baron Cohen, hilariante), “Sweeney Todd” engrena – e vira um filme delicioso, um banho de sangue ao mesmo tempo divertido e assustador.
Como de hábito, o trabalho do veterano designer de produção Dante Ferreti (“
Gangues de Nova York”) é avassalador, dando vida a uma Londres opaca, construída a partir de sombras e tonalidades acinzentadas. Tim Burton se aproveita da excelência dos cenários para criar momentos belos (o dueto musical entre o barbeiro e o juiz), assustadores (os assassinatos sangrentos) e engraçados (o duelo com Pirelli, os ensolarados devaneios da Sra. Lovett, com piqueniques na relva). Curiosamente, os problemas de “Sweeney Todd” estão justamente na abertura, com a aparição abrupta e mal explicada do personagem principal, e no final, quando Tim Burton inexplicavelmente deixa em aberto os destinos de dois personagens importantes, mantendo sem resolução uma subtrama que recebeu grande tempo de tela. Fica a impressão de que a inclusão de duas cenas, uma no início e outra no fim, deixaria o belo e estranho longa-metragem quase perfeito.

A Noiva Cadáver



Tim Burton comprova fase inspirada com uma macabra (porém colorida) animação em stop-motion
Por: Rodrigo Carreiro

O segundo filme de Tim Burton lançado em 2005 é um tributo nostálgico aos primórdios do cineasta na indústria do entretenimento, quando ele trabalhava como animador para a Disney. “A Noiva-Cadáver” (Corpse Bride, Inglaterra, 2005) é uma animação de visual belíssimo, que resgata a velha técnica de stop-motion (já utilizada por Burton em “O Estranho Mundo de Jack”, que ele produziu em 1993) e a leva a um novo patamar. O filme, uma comédia musical, confirma a fase inspirada por que passa o norte-americano. Ele é o único diretor do cinema atual que consegue filmar contos soturnos de forma infantil e alegre, mas sem deixar de ser macabro – e esse é um elogio dos grandes.
A produção de US$ 40 milhões, considerada modesta para os padrões de Hollywood, se constitui em um feliz casamento entre superprodução e filme caseiro. Em termos de tempo e esforço, o filme é bem grande. Ao todo, os animadores tiveram que construir 34 cenários em miniaturas. Para cada um dos 20 personagens importantes, construíram nada menos do que 14 bonecos de aço e silicone. As filmagens duraram 55 semanas, em Londres. Cada equipe de animadores – uma por cenário – conseguia produzir em média quatro segundos de filme por semana.
A maior inovação técnica é o uso de máquinas fotográficas digitais para registrar o filme. Ao todo, foram batidas 109 mil fotos. Todo esse material foi animado com o uso de um programa caseiro de computadores, o Apple Final Cut. Ao contrário do que muitos pensam, Burton não esteve nos sets durante as filmagens. Enquanto dirigia “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, ele se reunia diariamente com o co-diretor Mike Johnson para aprovar e supervisionar o andamento do trabalho. Em outras palavras, a produção de “A Noiva-Cadáver” foi muito diferente do que existe normalmente nos bastidores de um longa-metragem, e muita gente chegou a temer que a ausência física do diretor no dia-a-dia das filmagens pudesse ser prejudicial ao trabalho.
O resultado final dissipou esses medos, e isso em parte se deve ao caráter mais intimista com que Tim Burton conduziu o projeto. Ele se cercou de amigos e colaboradores de longa data, como Danny Elfman (trilha sonora) e John August (roteiro). Além disso, colocou boa parte do elenco do outro filme que fazia para gravar vozes de “A Noiva-Cadáver”, inclusive o amigo Johnny Depp e a esposa Helena Bonham Carter. A mistura de tudo isso gerou um filme cheio de energia e criatividade. Curto e engraçado, “A Noiva-Cadáver” apresenta as marcas registradas de Burton por toda parte, a começar pelo visual gótico-vitoriano dos filmes de horror B. Ainda por cima, corrige pequenos defeitos do antecessor de 1993, tendo menos cenas musicais, por exemplo, e portanto ritmo mais ágil.
O enredo do filme é baseado em uma lenda do folclore russo. Passa-se na Europa do século XIX, e conta a história de um rapaz rico, Victor Van Dort (Depp), que é obrigado a se casar com uma moça de ascendência nobre, mas cuja família está falida. O detalhe é que Victoria (Emily Watson) e Victor nunca se viram, até a véspera do casamento. Os dois são românticos de carteirinha e a empatia é imediata. O problema surge quando Victor, durante uma passeio noturno pela floresta local, põe a aliança no que pensa ser um galho de árvore que é, na verdade, o dedo descarnado de uma garota local, assassinada na véspera do casamento. A brincadeira desperta o defunto de Emily (Bonham Carter) e põe Victor numa torturante jornada entre duas dimensões, o mundo dos vivos e o dos mortos.
A concepção visual distinta dos dois mundos é um dos maiores trunfos de “A Noiva-Cadáver”. O diretor mostra os vivos em tons monocromáticos, cinzentos e melancólicos, quase sem vida; já o universo dos mortos é apresentado em cores explosivas, alegres e vibrantes, muito vivas. É uma inversão curiosa que ilustra bem a visão de mundo do diretor. O estonteante trabalho visual dos animadores cria personagens bem divertidos. O mais interessante deles é a minhoca que vive na cabeça de Emily e funciona como uma espécie de consciência, uma referência sutil ao grilo falante de “
Pinóquio”. Há também um barman cujo crânio é carregado por besouros, e esqueletos por toda a parte. Lá, no mundo dos mortos, Victor reencontra o cão de estimação da época quando era criança, obviamente agora um esqueleto canino (“Role! Finja-se de morto! Ops!”).
Um dos pontos que mais chama a atenção é o extraordinário trabalho de iluminação, pilotado pelo fotógrafo Pete Kozachik. Preste atenção, por exemplo, como a Noiva-Cadáver possui uma espécie de aura suave em torno dela, mais ou menos como as antigas donzelas da era de ouro em Hollywood eram retratadas (anos 1930/40). Para conseguir o efeito, Kozachik usou três fontes de luz, dispostas de modo a criar uma auréola de luz em volta do boneco, nas cenas com Emily. Ele fotografava as seqüências utilizando um filtro de difusão acoplado à câmera digital. O efeito obtido é uma espécie de atualização de um antigo truque dos fotógrafos das divas de Hollywood, que lambuzavam as lentes com vaselina antes de filmar as estrelas. Ficou sutil e muito bonito.
Além das peripécias visuais, o roteirista John August e Tim Burton providenciaram uma grande quantidade de referências a filmes e personagens do mundo do cinema. O piano que Victor e Emily dividem numa das melhores cenas na cidade dos mortos, por exemplo, é da marca Harryhausen, o sobrenome do maior de todos os mestres do stop-motion, Ray, responsável por muitos filmes nos anos 1950. O personagem do pastor, vivido pela voz cavernosa de Christopher Lee, usa um cajado e caminha encurvado, assim como o mago Saruman “O Senhor dos Anéis”, papel anterior do ícone dos filmes B de horror. O cão de estimação do protagonista lembra “O Estranho Mundo de Jack”. Um dos personagens declama romanticamente a célebre frase de encerramento de “
E o Vento Levou” (interessante notar que pouca gente na platéia percebe a referência). Há referências em profusão e de todos os tipos, para quem quiser procurar.
De nada adiantaria nada disso, contudo, se o texto não fosse bom – e as roteiristas Pamela Pettler e Caroline Thompson (o roteiro recebeu forma final pelas mãos de John August) entregam um texto seco e vigoroso, cheio de tiradas refinadas com o melhor do humor negro estilo britânico, ferino sem ser escrachado. Só como exemplo: em certo momento, Victoria questiona os pais sobre casamento sem amor. “E se eu e Victor não gostarmos um do outro?”. A mãe responde: “Como se isso tivesse a ver com casamento! Você acha que eu e seu pai nos gostamos?”, pergunta a senhora Everglot. “Um pouco”, murmura Victoria. “É claro que não!!”, grita Finnis, o pai.
“A Noiva-Cadáver” marca mais um ponto positivo na carreira de Tim Burton, e revela mais uma verdade fundamental no estilo personalista e exótico do criador. Sim, ele é apaixonado por visuais melodramáticos e macabros, mas filtra esse universo lúgubre com um olhar infantil inconfundível. Seus filmes abordam temas pesados, como a morte, com uma leveza e um senso de humor desconcertantes, o que torna filmes como este apropriados para pessoas de todas as idades. Ainda por cima, são raras as produções que deixam escapar, como “A Noiva-Cadáver”, o prazer revigorante do criador que vê suas criaturas ganharem vida. Quando esse prazer acaba por contaminar também o espectador, como aqui, o filme vira um organismo vivo. No mundo do cinema, poucas coisas são tão entusiasmantes como isso.

A Fantástica Fábrica de Chocolate


Tim Burton imprime marca pessoal à refilmagem de um clássico infantil dos anos 1970 e cria fábula sinistra e melancólica
Por: Rodrigo Carreiro

Uma prova incontestável da qualidade de um cineasta é a direção de um grande projeto de estúdio. Diretores com estilo pessoal e iconoclasta têm dificuldade em imprimir uma marca pessoal a esse tipo de filme, em geral produtos de orçamento gigantesco. Se o projeto é, ainda por cima, a refilmagem de um filme que marcou uma geração, o problema pode ser ainda maior. Em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (Charlie and the Chocolate Factory, EUA/Inglaterra, 2005), Tim Burton passa no teste com louvor. O cineasta de “Ed Wood” entrega não apenas um longa-metragem de apelo irresistível a crianças e adultos, mas também uma fábula sinistra e melancólica que remete diretamente aos trabalhos mais inspirados de sua carreira.
Visto de um ponto de vista estritamente racional, a versão cinematográfica de 2005 do famoso livro do galês Roald Dahl é superior ao filme feito em 1971. É evidente que cinéfilos que foram crianças nos anos 1970 terão dificuldades em comparar os dois produtos, uma vez que devem possuir uma relação afetiva especial com a obra-prima do diretor Mel Stuart. Mas o filme de Tim Burton vai mais longe, criando cenários deslumbrantes, de beleza plástica inigualável, e uma atmosfera ao mesmo tempo encantadora e sinistra. A obra exala fascínio infantil capaz de fazer adultos se sentirem crianças de novo, por alguns instantes. Além disso, o bom roteiro de John August leva a imaginação da platéia a um patamar que o longa de 1971 não conseguiu atingir. Em duas palavras: fidelidade e contexto.
São dois conceitos interligados. Tim Burton foi fiel não apenas ao filme antecessor, mas ao livro que inspirou as duas versões cinematográficas. E essa fidelidade se comprova justamente no contexto criado pelo diretor, que proporciona um passado para os personagens e, dessa forma, dá a eles motivações. Até mesmo pequenos personagens, como o vovô Joe (David Kelly) do protagonista Charlie Bucket (Freddie Highmore), saíram ganhando nesse processo. O velho inválido do primeiro filme virou, aqui, um dos operários desempregados pelo chocolateiro, quinze anos antes dos eventos mostrados em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Quando Willy Wonka fechou a fábrica a decretou demissão coletiva, também condenou a família de Charlie à pobreza.
O maior beneficiado pelo cuidado com os detalhes foi o sinistro chocolateiro Willy Wonka (Johnny Depp). Ele deixou de ser apenas um homem excêntrico de meia-idade para se tornar o traumatizado produto de uma família infeliz. Em uma série de flashbacks (sempre disparados pelos comentários argutos do pequeno Charlie), Wonka relembra como era uma criança solitária que desenvolveu um fascínio especial por doces devido à proibição absoluta do pai, um dentista (Christopher Lee), para que comesse açúcar. É interessante saber, também, que essa subtrama – que ocupa poucos minutos na tela – não existia no livro de Roald Dahl. O passado de Willy Wonka é a contribuição pessoal de Tim Burton ao filme, e também aquilo que transforma “A Fantástica Fábrica de Chocolate” em algo maior do que um mero projeto de estúdio: em uma obra de arte.
O paralelo é simples. De posse das informações certas, fica evidente que Willy Wonka é, na verdade, uma versão ficcional do próprio Tim Burton. Como o chocolateiro, Burton foi uma criança solitária que se afastou da família durante a adolescência. Como Willy Wonka, ele se esmerou em uma profissão diferente e se especializou em criar universos de fábula, ao mesmo tempo infantis e soturnos. Depois que teve um filho, Burton sentiu necessidade de analisar o próprio passado e fez as pazes com a memória do pai (já morto), algo celebrado no filme “Peixe Grande”. Em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, ele aproveita os milhões de dólares da Warner para acertar as contas de vez com o passado e, de quebra, fazer um filme delicioso como o rio de chocolate que atravessa a fábrica de Willy Wonka.
Em linhas gerais, o longa-metragem narra a mesma história do filme de 1971. Após 15 anos produzindo os doces mais gostosos do mundo, sem que os habitantes da cidade onde a fábrica está localizada saibam quem de fato trabalha lá, Wonka decide abrir as portas do majestoso lugar por um dia. Mas apenas cinco sortudos que encontrarem cupons dourados escondidos dentro de barras de chocolate terão a chance de fazer a turnê pelo local.
Charlie Bucket, o garoto mais pobre da região, só come chocolate uma vez por ano, mas é fascinado pela fábrica – tem até uma miniatura da construção feita com tampas de tubos de pasta de dente – e acaba pondo as mãos em um dos cupons. Junto com mais quatro crianças, Charlie vai à excursão, onde Wonka distribui doces e punições para cada atitude errada dos meninos. Não seria errado fazer uma leitura em que Charlie é o segundo reflexo de Tim Burton dentro do filme, talvez como a criança que o diretor gostaria de ter sido: solitária, sim, mas altruísta, que entende os pais (e é entendida por eles).
O incrível visual de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é a marca mais visível da assinatura de Tim Burton. O diretor acertaa mão já na abertura, criando uma bizarra construção torta de um cômodo para a família de Charlie. O casebre parece uma homenagem ao clássico expressionista “O Gabinete do Dr. Caligari”, com suas portas e janelas tortas e seus ângulos estranhos. Se Burton já provoca fascínio com essa visão esquisita, imagine o que ele é capaz de fazer com os incríveis ambientes internos da fábrica, inclusive com uma floresta completa feita de doces (um lugar onde o rio, as árvores e até a grama podem ser comidos)?
Tim Burton não economizou para criar alguns dos cenários mais deslumbrantes que o cinema já viu. Em vez de fazer tudo digital, o cineasta optou por filmar nos gigantescos estúdios Pinewood, em Londres (onde
Stanley Kubrick fez suas obras-primas), e construir todas as locações à moda antiga, com toneladas de chocolate derretido de verdade. O resultado é que os cenários não são apenas lindos, mas possuem textura. É quase possível sentir o cheiro de doce quando a câmera passeia e mergulha na paisagem colorida de bombons e pirulitos.
Burton também se esmerou na escalação do elenco. Johnny Depp, no quarto trabalho com o diretor, é um ótimo Willy Wonka. A performance e a caracterização têm sido muito comentadas, e dizem que ele se inspirou em Michael Jackson para fazer o chocolateiro. À parte a maquiagem facial, porém, o ator parece ter feito uma nova visitinha ao baú dos Rolling Stones. Se em “Piratas do Caribe” ele buscou inspiração em Keith Richards, aqui ele parece ter tirado o sobretudo de veludo, as luvas e a cartola (mais o corte de cabelo) do guarda-roupa do falecido Brian Jones. O sorriso sinistro e os gestos levemente exagerados compõem um todo perfeito. Junto a ele, some o rosto angelical de Freddie Highmore e a leveza do vovô Joe, e você tem um elenco sensacional.
Tem mais: o habitual colaborador de Tim Burton, Danny Elfman, faz uma trilha sonora encantadora, bem na linha “contos de fadas em negativo”. Ainda por cima, entrega cinco canções pop de ótimo nível para as engraçadas coreografias dos diminutos umpa-lumpas (aqui acertadamente mostrados não como anões, mas como homenzinhos com um quarto do tamanho de seres humanos normais). Sim, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” tem momentos musicais, mas eles não são chatos ou modorrentos como nos antigos filmes da Disney. Repare no número dançado dentro da “sala da TV”, por exemplo, e tente não gargalhar. Você verá que é tarefa difícil!
Aqui e acolá, Tim Burton ainda encontra espaço para inserir referências e homenagens às influências mais importantes da própria carreira. Um ator ícone dos filmes de horror B, Christopher Lee, ganha participação especial importante (Vincent Price já aparecera em “
Edward Mãos-de-Tesoura”, e Bela Lugosi foi retratado de forma afetuosa em “Ed Wood”). A seqüência completa da “sala da TV”, talvez a mais engraçada de todo o filme, faz piadas legais com os clássicos “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (uma gag talvez deslocado do humor soturno do resto do filme) e “Psicose”. E a própria obra de Tim Burton ganha uma referência escondida: a primeira imagem de Johnny Depp no filme, que mostra o dia da inauguração da fábrica de chocolate, flagra Willy Wonka com uma tesoura na mão.
Esta é a imagem que liga de forma indelével “A Fantástica Fábrica de Chocolate” a “Edward Mãos-de-Tesoura”, a primeira obra-prima de Tim Burton, feita em 1990. Na verdade, os dois são filmes-irmãos, que poderiam se passar na mesma cidade. A paleta de cores, a atmosfera bizarra e melancólica, o misto de excentricidade, solidão e humor negro são características que os dois longas-metragens compartilham. O melhor de tudo é que “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é filme infantil de verdade, que tem tudo para deixar crianças de 5 a 10 anos pulando nas cadeiras e sonhando com um reino feito inteiramente de doce. Aproveite: uma fantasia extasiante e duradoura como esta, em projetos de grandes estúdios, não acontece todos os dias.

Peixe Grande



Tim Burton dá um passo rumo à maturidade, mas mantém pé no reino da fantasia e entrega filme emocional
Por: Rodrigo Carreiro

Quando produtores e executivos da indústria cinematográfica têm em mãos um filme ambientado em um mundo de fantasia, onírico ou mesmo surreal, logo pensam em Tim Burton. Esse foi o motivo pelo qual o cineasta recebeu o projeto de “Peixe Grande” (Big Fish, EUA, 2003), um longa-metragem que parece ter nascido sob encomenda para o diretor. Não foi assim. Aliás, curiosamente, a película aconteceu em um momento particularmente singular da vida de Burton. Talvez por isso, a edição final do trabalho parece ter capturado um cineasta menos corrosivo e mais emocional. Em outras palavras, menos infantil e mais adulto.
Nos últimos três anos, enquanto esteve envolvido com a produção de “Peixe Grande”, Tim Burton perdeu o pai e a mãe. Ele não falava com nenhum dos dois desde que tinha 12 anos, quando forçou uma mudança para a casa da avó. Além disso, Burton enfrentou um divórcio e um novo casamento, com a atriz Helena Bonham Carter, que logo engravidou. O primeiro filho do diretor de “
Ed Wood” nasceu em outubro passado. Todos esses fatos pessoais parecem ter influenciado bastante a notável mudança de postura que o diretor assume em “Peixe Grande”.
Na verdade, é um Tim Burton mais maduro que emerge das belas imagens do longa-metragem. Alguns dos temas mais característicos do diretor – como a crítica cínica e corrosiva à maneira como a sociedade ocidental trata pessoas de índole marginal – marcam presença, como sempre, mas agora filtrados por uma nova ótica, menos ácida. Tudo isso pode dar a impressão de que a paternidade e a perda dos pais amoleceram o cineasta, dissipando a aura de enfant terrible que sempre o acompanhou e tornando-o um homem mais compreensível.
Discorrer sobre esse raciocínio, contudo, é um perigo. Desde que os críticos franceses da Cahiers du Cinèma lançaram a “teoria do autor”, na década de 1950, costuma-se atribuir uma responsabilidade por vezes exagerada à figura do diretor. “Peixe Grande”, por exemplo, é um filme de estúdio, um projeto que já estava caminhando quando Tim Burton assumiu o leme. Nem tudo o que está na tela, dessa forma, deve ser compreendido como criação dele. Mas basta examinar o tema principal do filme para ficar claro o quanto ele é autobiográfico.
A história gira em torno do jornalista Will Bloom (Billy Crudup, contido e eficiente). Ele retorna à casa da família quando o pai, Edward Bloom (Ewan McGregor quando jovem e Albert Finney na velhice, ambos excelentes), está no leito de morte. Os dois não se falam há três anos. Brigaram na noite do casamento de Will, porque este não consegue entender o fato de o pai sempre precisar florear as experiências que teve na juventude, transformando narrativas banais em histórias extraordinárias e impossíveis. O filme se dedica a relatar a trajetória de Ed, sob a ótica peculiar do sujeito. Assim, os episódios fantásticos da vida do caixeiro viajante envolvem irmãs siamesas, um peixe enorme, um homem gigante e um lobisomem.
Fantasia ou realidade? Na verdade, isso não importa muito. As histórias são deliciosas, e o visual criado por Tim Burton, absolutamente encantador. Imagine um cruzamento entre a delicada cidadezinha colorida de cercas brancas, de “
Edward Mãos-de-Tesoura”, e a aspereza gótica de “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”. Fotografia e direção de arte são, definitivamente, pontos altos do filme, bem como a boa trilha sonora elaborada por Danny Elfman, que cruza temas originais razoáveis com canções de época realmente memoráveis.
O que diferencia “Peixe Grande” de outros filmes de Tim Burton pode ser resumido em duas observações. Primeiro, o fato de que Burton assume, pela primeira vez, que existe uma “realidade” feia, suja e chata correndo em paralelo ao mundo fantástico de Ed Bloom. Talvez seja a primeira vez em que Tim Burton abandona a dimensão surreal que criou para ambientar seus filmes, fincando um pé (mesmo que hesitante, a contragosto) no mundo real. Efeitos da paternidade, talvez.
Em segundo lugar, impressiona a maneira com que o diretor aborda a temática dos conflitos entre pai e filho. Burton parece ter usado o longa-metragem para exorcizar os próprios fantasmas, algo que não conseguiu fazer na vida real. Daí o final previsível e até certo ponto decepcionante do longa-metragem, que contraria frontalmente a tradição cínica dos filmes de Burton. Esse final, porém, parece perfeitamente coerente quando se conhece os fatos recentes da vida do diretor, por trás da fantasia do cinema. Dessa maneira, o embate entre realidade e fantasia, que sempre ocupou lugar de destaque na vida do cineasta, assume em “Peixe Grande” uma nova dimensão. O que de maneira alguma desmerece as qualidades do longa-metragem.

Planeta dos Macacos



Refilmagem de clássico da ficção científica tem visual gótico impressionante, mas roteiro fraco
Por: Rodrigo Carreiro

O lançamento do novo “Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, EUA, 2001) deveria servir de lição aos estúdios e distribuidoras do mundo inteiro, pelo menos no aspecto da organização. Apesar do cronograma apertado, os prazos foram todos cumpridos à risca pelo diretor Tim Burton: o filme foi finalizado apenas uma semana antes do lançamento, em agosto último, e somente três meses se passaram antes que um pacote duplo em DVD chegasse às locadoras.
Já os méritos artísticos do filme em si são bastante discutíveis. Embora seja uma aventura agradável de visual bacana, o senso comum já o elegeu como obra mais fraca da carreira do diretor. O final do filme, incompreensível para muitos, é motivo principal de toda a polêmica em torno da refilmagem. Houve quem esperasse pelo DVD apenas para conferir o comentário em áudio de Tim Burton, para que o próprio diretor pudesse esclarecer a dúvida.
Para essa turma, o luxuoso disco duplo da Fox é uma decepção: o cineasta enrola durante quase dez minutos para dizer que o único propósito do enigmático final não teve absolutamente nada a ver com criatividade ou inspiração. O motivo foi mesmo financeiro – Burton quis deixar uma porta aberta para que o estúdio realizasse uma continuação, se assim o desejasse. Ele aproveita, no comentário, para descartar a idéia de dirigir um segundo filme. O pior é que esse comentário não tem legendas em português.
Portanto, o lançamento é altamente recomendado, mas apenas para fãs da refilmagem do clássico de 1968. A história conta a saga do astronauta Leo Davidson (Mark Whalberg, numa interpretação desinteressada), que, ao tentar recuperar um macaco lançado no espaço durante uma tempestade elétrica, num futuro próximo, acaba caindo num planeta aterrorizante, dominado por gorilas e chimpanzés falantes, onde os humanos são escravos.
O visual extravagante estilo “pré-história gótica” e a maquiagem impressionante e assustadora dos macacos são o ponto alto do filme. Já a atuação de Whalberg e as soluções narrativas que se afastam do
impacto gerado pelo filme original parecem fracas e pouco inspiradas. O destaque vai para a interpretação fascinante de Tim Roth, na pele do general Thade, um chimpanzé violento. De resto, a aventura não apresenta o subtexto inteligente e nem o final impactante da obra original. Mesmo assim, é diversão garantida.