Mostrando postagens com marcador Johnny Depp. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Johnny Depp. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sweeney Todd



Tim Burton constrói ópera macabra e criativa a partir de uma conhecida lenda urbana inglesa sobre barbeiro assassino
Por: Rodrigo Carreiro

Tim Burton é uma excrescência, um tumor no panorama contemporâneo da indústria do cinema. Não há outro cineasta que conseguiu construir um bolsão cinematográfico tão excêntrico e antiquado, enquanto permanecia sendo bancado por grandes estúdios. Existem vários diretores que merecem o rótulo de “autores”, mas a maior parte deles (Lars Von Trier, Michael Haneke) milita no cinema independente, onde estão livres para experimentar. Dentro de Hollywood, ser um autor é bem mais difícil. Quem consegue (Clint Eastwood, Woody Allen) quase sempre trabalha seguindo as convenções clássicas de gênero, seja comédia, thriller ou faroeste. Tim Burton não faz isso. O ex-desenhista da Disney criou um nicho personalista para acomodar uma obra que não se encaixa em padrões normais. Ele trabalha em algum lugar que fica na fronteira entre o horror, a comédia e, mais recentemente, o musical.
“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, EUA/Reino Unido, 2007) oferece um mergulho vigoroso no universo macabro e sofisticado do cineasta norte-americano. Mesmo trabalhando como diretor contratado, Burton obtém sucesso na tarefa de agregar à fábula sinistra do barbeiro assassino, cuja lenda urbana circula pelas ruas de Londres desde meados do século XIX, a atmosfera de horror engraçado que é característica principal de sua obra pessoal. Afinal de contas, há enorme distância entre o horror praticado por Tim Burton e o horror barato e comercial dos filmes de adolescentes que lotam as salas de cinema ao redor do mundo. O horror de Tim Burton não tenta reproduzir a realidade. É estilizado e irreal, cheio de referências literárias e teatrais, gráfico e engraçado. Macabro, mas sem se levar a sério.
Trata-se do terceiro filme consecutivo do diretor com seqüências musicais mas, ao contrário do que havia ocorrido antes com “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e “A Noiva-Cadáver” (2006), Tim Burton não se limita a apenas flertar com o gênero musical, inserindo canções dentro de um filme normal. Ele radicaliza. Nos trabalhos anteriores, os números musicais tinham o formato de canções populares, com versos, estribilhos e refrões, e eram intercalados por longos trechos falados normalmente. Já em “Sweeney Todd”, o formato é de uma ópera sombria, sangrenta, em que os atores falam cantando durante 90% do tempo. Na verdade, este formato é algo natural, uma vez que o filme foi baseado no premiado espetáculo musical de Stephen Sondheim, criado em 1979. O longa-metragem utiliza, com poucas alterações, as músicas originais compostas para a peça. Daí o fato de o parceiro natural de Tim Burton, Danny Elfman, não aparecer nos créditos, como de costume.
Por outro lado, se não conta com um fiel escudeiro, Burton se cercou de gente de confiança. “Sweeney Todd” marca a sexta colaboração entre o diretor e o astro Johnny Depp, que revela mais uma faceta de seu talento ao soltar a voz com confiança. Helena Bonham Carter aparece na quarta parceria profissional com o marido, e se sai muito bem no principal papel feminino. A dupla soa afinada em todos os sentidos. Além de possuírem certa semelhança física e demonstrarem afinação e tempo precisos para desfiar as melodias intrincadas, os dois possuem estilos muito parecidos de interpretação, com leve pendor para a caricatura. É uma característica que cai muito bem na atmosfera estilizada das produções de Burton. A curta e delirante aparição de Sacha Baron Cohen (“Borat”), como um barbeiro italiano, também prima pelo aspecto caricatural, e quase rouba a cena. Alan Rickman, na pele de um arrogante juiz, também brilha.
O enredo narra o processo de transformação do pacato barbeiro Benjamin Barker (Depp) em um serial killer excêntrico. Trata-se de uma história aparentemente real, que circula no imaginário popular inglês desde o princípio do século XIX, tendo inspirado diversas peças teatrais, livros e filmes. Aqui, a história começa com o retorno de Barker a Londres, resgatado do mar após uma longa temporada na prisão (as circunstâncias deste resgate nunca são explicadas). Tendo sido afastado por décadas da amada e da filha recém-nascida, pela cobiça do juiz Turpin (Rickman), Barker agora se autodenomina Sweeney Todd. Nas primeiras cenas, o personagem parece ter um plano de vingança. À medida que o filme vai passando, porém, a gente descobre que ele não tem exatamente um plano, apenas um desejo irrefreável de vingança – um desejo que o leva lentamente à loucura. Enquanto ele imagina como castigar o juiz, se instala num velho sobrado, logo em cima de uma padaria decadente dirigida pela igualmente excêntrica Sra. Lovett (Bonham Carter).
Tim Burton sempre foi um romântico à moda antiga (lembrem-se de filmes como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “
Edward Mãos-de-Tesoura”), e não faz nenhum esforço para esconder que “Sweeney Todd” é, na verdade, uma clássica história de amor, só que encharcada de sangue, vísceras e tortas de carne humana. Na melhor tradição do cinema, o roteiro de John Logan enriquece a narrativa principal com várias subtramas que ecoam o tema do amor impossível. Todos os personagens do primeiro escalão amam sem serem correspondidos, por razões distintas, e sofrem por isso: a Sra. Lovett, o marinheiro Anthony Hope (Jamie Campbell Bower, andrógino e inexpressivo), a adolescente Johanna (Jayne Wisener, bonita mas um tanto apagada), e até mesmo o grande vilão da história, o juiz Turpin.
Demonstrando respeito pela tradição dos espetáculos musicais, Tim Burton mantém a música e o visual extravagante como fios condutores da história, usando a palavra falada como mero elemento de ligação entre os trechos musicais. Numa comparação direta com filmes de narrativa clássica, a música e os diálogos trocam de função em “Sweeney Todd”, e o resultado é uma obra que pode causar certa estranheza a uma platéia acostumada a um padrão de narrativa que se mantém imutável há várias décadas. Sabendo disso, Tim Burton providencia um primeiro ato deliberadamente lento, em que não faz mais do que estabelecer quem são os personagens e quais os laços afetivos que os unem, e dá espaço para que os espectadores possam se acostumar à cantoria. Após a entrada em cena do barbeiro rival Adolfo Pirelli (Baron Cohen, hilariante), “Sweeney Todd” engrena – e vira um filme delicioso, um banho de sangue ao mesmo tempo divertido e assustador.
Como de hábito, o trabalho do veterano designer de produção Dante Ferreti (“
Gangues de Nova York”) é avassalador, dando vida a uma Londres opaca, construída a partir de sombras e tonalidades acinzentadas. Tim Burton se aproveita da excelência dos cenários para criar momentos belos (o dueto musical entre o barbeiro e o juiz), assustadores (os assassinatos sangrentos) e engraçados (o duelo com Pirelli, os ensolarados devaneios da Sra. Lovett, com piqueniques na relva). Curiosamente, os problemas de “Sweeney Todd” estão justamente na abertura, com a aparição abrupta e mal explicada do personagem principal, e no final, quando Tim Burton inexplicavelmente deixa em aberto os destinos de dois personagens importantes, mantendo sem resolução uma subtrama que recebeu grande tempo de tela. Fica a impressão de que a inclusão de duas cenas, uma no início e outra no fim, deixaria o belo e estranho longa-metragem quase perfeito.

A Noiva Cadáver



Tim Burton comprova fase inspirada com uma macabra (porém colorida) animação em stop-motion
Por: Rodrigo Carreiro

O segundo filme de Tim Burton lançado em 2005 é um tributo nostálgico aos primórdios do cineasta na indústria do entretenimento, quando ele trabalhava como animador para a Disney. “A Noiva-Cadáver” (Corpse Bride, Inglaterra, 2005) é uma animação de visual belíssimo, que resgata a velha técnica de stop-motion (já utilizada por Burton em “O Estranho Mundo de Jack”, que ele produziu em 1993) e a leva a um novo patamar. O filme, uma comédia musical, confirma a fase inspirada por que passa o norte-americano. Ele é o único diretor do cinema atual que consegue filmar contos soturnos de forma infantil e alegre, mas sem deixar de ser macabro – e esse é um elogio dos grandes.
A produção de US$ 40 milhões, considerada modesta para os padrões de Hollywood, se constitui em um feliz casamento entre superprodução e filme caseiro. Em termos de tempo e esforço, o filme é bem grande. Ao todo, os animadores tiveram que construir 34 cenários em miniaturas. Para cada um dos 20 personagens importantes, construíram nada menos do que 14 bonecos de aço e silicone. As filmagens duraram 55 semanas, em Londres. Cada equipe de animadores – uma por cenário – conseguia produzir em média quatro segundos de filme por semana.
A maior inovação técnica é o uso de máquinas fotográficas digitais para registrar o filme. Ao todo, foram batidas 109 mil fotos. Todo esse material foi animado com o uso de um programa caseiro de computadores, o Apple Final Cut. Ao contrário do que muitos pensam, Burton não esteve nos sets durante as filmagens. Enquanto dirigia “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, ele se reunia diariamente com o co-diretor Mike Johnson para aprovar e supervisionar o andamento do trabalho. Em outras palavras, a produção de “A Noiva-Cadáver” foi muito diferente do que existe normalmente nos bastidores de um longa-metragem, e muita gente chegou a temer que a ausência física do diretor no dia-a-dia das filmagens pudesse ser prejudicial ao trabalho.
O resultado final dissipou esses medos, e isso em parte se deve ao caráter mais intimista com que Tim Burton conduziu o projeto. Ele se cercou de amigos e colaboradores de longa data, como Danny Elfman (trilha sonora) e John August (roteiro). Além disso, colocou boa parte do elenco do outro filme que fazia para gravar vozes de “A Noiva-Cadáver”, inclusive o amigo Johnny Depp e a esposa Helena Bonham Carter. A mistura de tudo isso gerou um filme cheio de energia e criatividade. Curto e engraçado, “A Noiva-Cadáver” apresenta as marcas registradas de Burton por toda parte, a começar pelo visual gótico-vitoriano dos filmes de horror B. Ainda por cima, corrige pequenos defeitos do antecessor de 1993, tendo menos cenas musicais, por exemplo, e portanto ritmo mais ágil.
O enredo do filme é baseado em uma lenda do folclore russo. Passa-se na Europa do século XIX, e conta a história de um rapaz rico, Victor Van Dort (Depp), que é obrigado a se casar com uma moça de ascendência nobre, mas cuja família está falida. O detalhe é que Victoria (Emily Watson) e Victor nunca se viram, até a véspera do casamento. Os dois são românticos de carteirinha e a empatia é imediata. O problema surge quando Victor, durante uma passeio noturno pela floresta local, põe a aliança no que pensa ser um galho de árvore que é, na verdade, o dedo descarnado de uma garota local, assassinada na véspera do casamento. A brincadeira desperta o defunto de Emily (Bonham Carter) e põe Victor numa torturante jornada entre duas dimensões, o mundo dos vivos e o dos mortos.
A concepção visual distinta dos dois mundos é um dos maiores trunfos de “A Noiva-Cadáver”. O diretor mostra os vivos em tons monocromáticos, cinzentos e melancólicos, quase sem vida; já o universo dos mortos é apresentado em cores explosivas, alegres e vibrantes, muito vivas. É uma inversão curiosa que ilustra bem a visão de mundo do diretor. O estonteante trabalho visual dos animadores cria personagens bem divertidos. O mais interessante deles é a minhoca que vive na cabeça de Emily e funciona como uma espécie de consciência, uma referência sutil ao grilo falante de “
Pinóquio”. Há também um barman cujo crânio é carregado por besouros, e esqueletos por toda a parte. Lá, no mundo dos mortos, Victor reencontra o cão de estimação da época quando era criança, obviamente agora um esqueleto canino (“Role! Finja-se de morto! Ops!”).
Um dos pontos que mais chama a atenção é o extraordinário trabalho de iluminação, pilotado pelo fotógrafo Pete Kozachik. Preste atenção, por exemplo, como a Noiva-Cadáver possui uma espécie de aura suave em torno dela, mais ou menos como as antigas donzelas da era de ouro em Hollywood eram retratadas (anos 1930/40). Para conseguir o efeito, Kozachik usou três fontes de luz, dispostas de modo a criar uma auréola de luz em volta do boneco, nas cenas com Emily. Ele fotografava as seqüências utilizando um filtro de difusão acoplado à câmera digital. O efeito obtido é uma espécie de atualização de um antigo truque dos fotógrafos das divas de Hollywood, que lambuzavam as lentes com vaselina antes de filmar as estrelas. Ficou sutil e muito bonito.
Além das peripécias visuais, o roteirista John August e Tim Burton providenciaram uma grande quantidade de referências a filmes e personagens do mundo do cinema. O piano que Victor e Emily dividem numa das melhores cenas na cidade dos mortos, por exemplo, é da marca Harryhausen, o sobrenome do maior de todos os mestres do stop-motion, Ray, responsável por muitos filmes nos anos 1950. O personagem do pastor, vivido pela voz cavernosa de Christopher Lee, usa um cajado e caminha encurvado, assim como o mago Saruman “O Senhor dos Anéis”, papel anterior do ícone dos filmes B de horror. O cão de estimação do protagonista lembra “O Estranho Mundo de Jack”. Um dos personagens declama romanticamente a célebre frase de encerramento de “
E o Vento Levou” (interessante notar que pouca gente na platéia percebe a referência). Há referências em profusão e de todos os tipos, para quem quiser procurar.
De nada adiantaria nada disso, contudo, se o texto não fosse bom – e as roteiristas Pamela Pettler e Caroline Thompson (o roteiro recebeu forma final pelas mãos de John August) entregam um texto seco e vigoroso, cheio de tiradas refinadas com o melhor do humor negro estilo britânico, ferino sem ser escrachado. Só como exemplo: em certo momento, Victoria questiona os pais sobre casamento sem amor. “E se eu e Victor não gostarmos um do outro?”. A mãe responde: “Como se isso tivesse a ver com casamento! Você acha que eu e seu pai nos gostamos?”, pergunta a senhora Everglot. “Um pouco”, murmura Victoria. “É claro que não!!”, grita Finnis, o pai.
“A Noiva-Cadáver” marca mais um ponto positivo na carreira de Tim Burton, e revela mais uma verdade fundamental no estilo personalista e exótico do criador. Sim, ele é apaixonado por visuais melodramáticos e macabros, mas filtra esse universo lúgubre com um olhar infantil inconfundível. Seus filmes abordam temas pesados, como a morte, com uma leveza e um senso de humor desconcertantes, o que torna filmes como este apropriados para pessoas de todas as idades. Ainda por cima, são raras as produções que deixam escapar, como “A Noiva-Cadáver”, o prazer revigorante do criador que vê suas criaturas ganharem vida. Quando esse prazer acaba por contaminar também o espectador, como aqui, o filme vira um organismo vivo. No mundo do cinema, poucas coisas são tão entusiasmantes como isso.

A Fantástica Fábrica de Chocolate


Tim Burton imprime marca pessoal à refilmagem de um clássico infantil dos anos 1970 e cria fábula sinistra e melancólica
Por: Rodrigo Carreiro

Uma prova incontestável da qualidade de um cineasta é a direção de um grande projeto de estúdio. Diretores com estilo pessoal e iconoclasta têm dificuldade em imprimir uma marca pessoal a esse tipo de filme, em geral produtos de orçamento gigantesco. Se o projeto é, ainda por cima, a refilmagem de um filme que marcou uma geração, o problema pode ser ainda maior. Em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (Charlie and the Chocolate Factory, EUA/Inglaterra, 2005), Tim Burton passa no teste com louvor. O cineasta de “Ed Wood” entrega não apenas um longa-metragem de apelo irresistível a crianças e adultos, mas também uma fábula sinistra e melancólica que remete diretamente aos trabalhos mais inspirados de sua carreira.
Visto de um ponto de vista estritamente racional, a versão cinematográfica de 2005 do famoso livro do galês Roald Dahl é superior ao filme feito em 1971. É evidente que cinéfilos que foram crianças nos anos 1970 terão dificuldades em comparar os dois produtos, uma vez que devem possuir uma relação afetiva especial com a obra-prima do diretor Mel Stuart. Mas o filme de Tim Burton vai mais longe, criando cenários deslumbrantes, de beleza plástica inigualável, e uma atmosfera ao mesmo tempo encantadora e sinistra. A obra exala fascínio infantil capaz de fazer adultos se sentirem crianças de novo, por alguns instantes. Além disso, o bom roteiro de John August leva a imaginação da platéia a um patamar que o longa de 1971 não conseguiu atingir. Em duas palavras: fidelidade e contexto.
São dois conceitos interligados. Tim Burton foi fiel não apenas ao filme antecessor, mas ao livro que inspirou as duas versões cinematográficas. E essa fidelidade se comprova justamente no contexto criado pelo diretor, que proporciona um passado para os personagens e, dessa forma, dá a eles motivações. Até mesmo pequenos personagens, como o vovô Joe (David Kelly) do protagonista Charlie Bucket (Freddie Highmore), saíram ganhando nesse processo. O velho inválido do primeiro filme virou, aqui, um dos operários desempregados pelo chocolateiro, quinze anos antes dos eventos mostrados em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Quando Willy Wonka fechou a fábrica a decretou demissão coletiva, também condenou a família de Charlie à pobreza.
O maior beneficiado pelo cuidado com os detalhes foi o sinistro chocolateiro Willy Wonka (Johnny Depp). Ele deixou de ser apenas um homem excêntrico de meia-idade para se tornar o traumatizado produto de uma família infeliz. Em uma série de flashbacks (sempre disparados pelos comentários argutos do pequeno Charlie), Wonka relembra como era uma criança solitária que desenvolveu um fascínio especial por doces devido à proibição absoluta do pai, um dentista (Christopher Lee), para que comesse açúcar. É interessante saber, também, que essa subtrama – que ocupa poucos minutos na tela – não existia no livro de Roald Dahl. O passado de Willy Wonka é a contribuição pessoal de Tim Burton ao filme, e também aquilo que transforma “A Fantástica Fábrica de Chocolate” em algo maior do que um mero projeto de estúdio: em uma obra de arte.
O paralelo é simples. De posse das informações certas, fica evidente que Willy Wonka é, na verdade, uma versão ficcional do próprio Tim Burton. Como o chocolateiro, Burton foi uma criança solitária que se afastou da família durante a adolescência. Como Willy Wonka, ele se esmerou em uma profissão diferente e se especializou em criar universos de fábula, ao mesmo tempo infantis e soturnos. Depois que teve um filho, Burton sentiu necessidade de analisar o próprio passado e fez as pazes com a memória do pai (já morto), algo celebrado no filme “Peixe Grande”. Em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, ele aproveita os milhões de dólares da Warner para acertar as contas de vez com o passado e, de quebra, fazer um filme delicioso como o rio de chocolate que atravessa a fábrica de Willy Wonka.
Em linhas gerais, o longa-metragem narra a mesma história do filme de 1971. Após 15 anos produzindo os doces mais gostosos do mundo, sem que os habitantes da cidade onde a fábrica está localizada saibam quem de fato trabalha lá, Wonka decide abrir as portas do majestoso lugar por um dia. Mas apenas cinco sortudos que encontrarem cupons dourados escondidos dentro de barras de chocolate terão a chance de fazer a turnê pelo local.
Charlie Bucket, o garoto mais pobre da região, só come chocolate uma vez por ano, mas é fascinado pela fábrica – tem até uma miniatura da construção feita com tampas de tubos de pasta de dente – e acaba pondo as mãos em um dos cupons. Junto com mais quatro crianças, Charlie vai à excursão, onde Wonka distribui doces e punições para cada atitude errada dos meninos. Não seria errado fazer uma leitura em que Charlie é o segundo reflexo de Tim Burton dentro do filme, talvez como a criança que o diretor gostaria de ter sido: solitária, sim, mas altruísta, que entende os pais (e é entendida por eles).
O incrível visual de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é a marca mais visível da assinatura de Tim Burton. O diretor acertaa mão já na abertura, criando uma bizarra construção torta de um cômodo para a família de Charlie. O casebre parece uma homenagem ao clássico expressionista “O Gabinete do Dr. Caligari”, com suas portas e janelas tortas e seus ângulos estranhos. Se Burton já provoca fascínio com essa visão esquisita, imagine o que ele é capaz de fazer com os incríveis ambientes internos da fábrica, inclusive com uma floresta completa feita de doces (um lugar onde o rio, as árvores e até a grama podem ser comidos)?
Tim Burton não economizou para criar alguns dos cenários mais deslumbrantes que o cinema já viu. Em vez de fazer tudo digital, o cineasta optou por filmar nos gigantescos estúdios Pinewood, em Londres (onde
Stanley Kubrick fez suas obras-primas), e construir todas as locações à moda antiga, com toneladas de chocolate derretido de verdade. O resultado é que os cenários não são apenas lindos, mas possuem textura. É quase possível sentir o cheiro de doce quando a câmera passeia e mergulha na paisagem colorida de bombons e pirulitos.
Burton também se esmerou na escalação do elenco. Johnny Depp, no quarto trabalho com o diretor, é um ótimo Willy Wonka. A performance e a caracterização têm sido muito comentadas, e dizem que ele se inspirou em Michael Jackson para fazer o chocolateiro. À parte a maquiagem facial, porém, o ator parece ter feito uma nova visitinha ao baú dos Rolling Stones. Se em “Piratas do Caribe” ele buscou inspiração em Keith Richards, aqui ele parece ter tirado o sobretudo de veludo, as luvas e a cartola (mais o corte de cabelo) do guarda-roupa do falecido Brian Jones. O sorriso sinistro e os gestos levemente exagerados compõem um todo perfeito. Junto a ele, some o rosto angelical de Freddie Highmore e a leveza do vovô Joe, e você tem um elenco sensacional.
Tem mais: o habitual colaborador de Tim Burton, Danny Elfman, faz uma trilha sonora encantadora, bem na linha “contos de fadas em negativo”. Ainda por cima, entrega cinco canções pop de ótimo nível para as engraçadas coreografias dos diminutos umpa-lumpas (aqui acertadamente mostrados não como anões, mas como homenzinhos com um quarto do tamanho de seres humanos normais). Sim, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” tem momentos musicais, mas eles não são chatos ou modorrentos como nos antigos filmes da Disney. Repare no número dançado dentro da “sala da TV”, por exemplo, e tente não gargalhar. Você verá que é tarefa difícil!
Aqui e acolá, Tim Burton ainda encontra espaço para inserir referências e homenagens às influências mais importantes da própria carreira. Um ator ícone dos filmes de horror B, Christopher Lee, ganha participação especial importante (Vincent Price já aparecera em “
Edward Mãos-de-Tesoura”, e Bela Lugosi foi retratado de forma afetuosa em “Ed Wood”). A seqüência completa da “sala da TV”, talvez a mais engraçada de todo o filme, faz piadas legais com os clássicos “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (uma gag talvez deslocado do humor soturno do resto do filme) e “Psicose”. E a própria obra de Tim Burton ganha uma referência escondida: a primeira imagem de Johnny Depp no filme, que mostra o dia da inauguração da fábrica de chocolate, flagra Willy Wonka com uma tesoura na mão.
Esta é a imagem que liga de forma indelével “A Fantástica Fábrica de Chocolate” a “Edward Mãos-de-Tesoura”, a primeira obra-prima de Tim Burton, feita em 1990. Na verdade, os dois são filmes-irmãos, que poderiam se passar na mesma cidade. A paleta de cores, a atmosfera bizarra e melancólica, o misto de excentricidade, solidão e humor negro são características que os dois longas-metragens compartilham. O melhor de tudo é que “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é filme infantil de verdade, que tem tudo para deixar crianças de 5 a 10 anos pulando nas cadeiras e sonhando com um reino feito inteiramente de doce. Aproveite: uma fantasia extasiante e duradoura como esta, em projetos de grandes estúdios, não acontece todos os dias.

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça


Tim Burton mistura comédia, horror e romance em filme divertido e visualmente esplêndido
Por: Rodrigo Carreiro

Uma grossa gota de sangue pinga em cima de um pergaminho. Mas espere um momento, não é sangue; é cera, cera de vela! A câmera se afasta um pouco, é mostra a cena completa. Trata-se de um advogado, ricamente vestido em um extravagante terno vitoriano, lacrando um testamento com um selo à moda antiga. O sujeito sai para uma assustadora viagem noturna de carruagem, é perseguido por algo que tem origem aparentemente sobrenatural, e termina decapitado dentro de um milharal, bem na frente de um espantalho cuja cabeça é uma abóbora com um rosto talhado, à moda de uma festa de Halloween. Imaginou a cena? A abertura de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (Sleepy Hollow, EUA, 1999), de Tim Burton, dá o tom do filme: horror gótico, homenageando os antigos filmes da produtora Hammer, com toques de humor e romance.
“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” é baseado em um conto muito popular nos EUA, de autoria de Washington Irving. Já havia sido levada às telas pelo menos duas vezes, antes que o diretor de “
Edward Mãos-de-Tesoura” começasse a torcer e retorcer a história original, quase a ponto de torná-la irreconhecível. O objetivo de Burton, obviamente, nunca foi simplesmente tornar o enredo diferente, mas apenas adaptá-lo ao elaborado universo de extravagância gótica que, desde o início da carreira, sempre se dedicou minuciosamente a erguer. O resultado é perfeito. “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” é um filme divertido, de visual deslumbrante, que tem uma textura única e narra uma história de amor bizarra como somente Tim Burton sabe fazer.
O protagonista é Ichabold Crane (Johhny Depp). O rapaz é um detetive de Nova York, discriminado pelos colegas por ter verdadeira obsessão em criar métodos científicos de investigação – métodos que possam substituir a tortura. Crane é um inventor de estranhos instrumentos, como curiosas lentes de aumento que funcionam como óculos gigantes, presumivelmente capazes de ajudar a provar cientificamente a culpa, ou a inocência, de um suspeito de crime. Mais para ser mantido longe do que se considera um trabalho sério, ele é enviado por seus superiores para resolver um caso esquisito num condado rural chamado Sleepy Hollow. Lá, homens estão sendo decapitados por um assassino desconhecido.
A aventura de Crane em Sleepy Hollow é uma mistura perfeita de gêneros que aparentemente não combina, mas viram um coquetel delicioso nas mãos de Tim Burton. Há comédia – Crane é um sujeito medroso, que desmaia a casa visão estranha que tem durante as investigações. Há romance – o detetive se apaixona por Katrina Van Tassel (Christina Ricci), a filha do rico líder da comunidade. Há mistérios por resolver – quase todos os habitantes de Sleepy Hollow aparentam esconder algum segredo dos demais. E há, sem duvida, horror – são 18 decapitações nos 100 minutos de duração do longa-metragem, algumas delas bastante explícitas.
O filme é um flerte explícito com o tipo de estética desenvolvido pela produtora Hammer, responsável por alguns dos filmes de visual mais gótico dos anos 1950 e 60. Burton já havia se aproximado daquela estética em “
Ed Wood”, mas aqui ele adiciona uma paleta explosiva de cores fortes à mistura, além dos figurinos extravagantes que são uma marca registrada de sua carreira. No aspecto visual, que envolve direção de arte, fotografia e figurinos, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” é um deleite, uma perfeição monumental, o melhor filme de um diretor conhecido por erguer obras de beleza gótica estonteante.
No plano narrativo, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” não tem maiores ambições, e oferece uma eficiente aventura, cheia de lances engraçados, com roteiro (de Andrew Kevin Walker, responsável pelo fantástico “Seven”) levemente mórbido. “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” existe em um mundo de sonhos, e talvez por isso as seqüências em que Ichabold Crane sonha estejam tão perfeitamente integradas à narrativa, quando poderiam facilmente funcionar como distração desinteressante para a platéia. Um filme delicioso.

Ed Wood



Tim Burton faz dupla homenagem carinhosa (e criativa): ao cineasta do título e aos filmes de terror B
Por: Rodrigo Carreiro

Tim Burton é um cineasta estranho e um sujeito estranho, que gosta de filmes estranhos com personagens estranhos. E depois de repetir quatro vezes a mesma palavra em uma única frase, é fácil chegar à conclusão de que o vocábulo é a melhor definição possível para “Ed Wood” (EUA, 1994). Estranho e adorável, esse filme em preto-e-branco do diretor de “Edward Mãos-de-Tesoura”. Apesar de pretensamente ser uma cinebiografia, talvez seja este o trabalho mais autoral de Tim Burton. E o melhor também.
Uma análise atenta de “Ed Wood” pode permitir ao espectador aproximar-se bastante do cerne da obra de Tim Burton, que é essencialmente emocional. Os filmes que esse diretor da aparência excêntrica (cabelos desarrumados, óculos e camisas invariavelmente pretas) produz são obras de alguém que teve a infância solitária e sempre se sentiu um desajustado social. Alguns temas relampejam insistentemente nos filmes que ele produziu, mesmo aqueles comandados por grandes estúdios (os dois primeiro “Batman”, principalmente); todos esses temas estão firmes e claros em “Ed Wood”.
Em primeiro lugar, o mundo da imaginação do cineasta está localizado em algum recôndito escondido nos anos 1950. Isso era latente em “Edward Mãos-de-Tesoura”, retorna com força em “
Peixe Grande” e dá vislumbres em vários outros filmes. A cinebiografia do pior cineasta de todos os tempos é logicamente ambientada nessa época. Não por coincidência, foi a época em que Burton era criança e vivia na Califórnia, com os pais, em uma casa cujas janelas eram forradas com pano negro e jamais ficavam abertas.
O menino Burton viveu, portanto, num mundo sombrio, algo como um programa de terror B de televisão. E é exatamente isso que, acima de tudo, “Ed Wood” homenageia, filtrando esse mundo subterrâneo pela ótica de um sujeito que jamais se dá conta do que se passa ao redor dele. Ed Wood, o cineasta, é retratado no filme com tamanho carinho que se torna impossível não adorá-lo, não perdoá-lo pelos filmes horríveis que fez. Wood era um cara que vivia num outro mundo, localizado dentro da própria imaginação.
Talvez por isso, cada pedaço de celulóide filmado por ele lhe parece uma obra-prima genial. Cada ator de terceira categoria que ele contrata é, para ele, um gênio da sétima arte. Tim Burton aumenta ainda mais a identificação da platéia com o homem patético que ele é contrapondo a ele a figura da namorada, Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker), o lastro das fantasias tresloucadas de Wood (“vejo que a corja de vagabundos e drogados está toda aqui”, diz ela, a certa altura do filme). Ela está correta, claro, mas os delírios de Ed Wood não param. Tamanha ingenuidade só poderia ser recompensada com a simpatia eterna da platéia.
Por outro lado, do
ponto de vista estético, Burton foi meticuloso e mesclou brilhantemente a atmosfera dos filmes do próprio Ed Wood ao estilo dos seriados de terror que ele próprio (Burton, não Wood) tanto ama. O filme foi inteiramente rodado em preto-e-branco, em fotografia que dá ênfase aos contrastes e usa abundantemente fumaça de gelo seco. A música de Danny Elfman é puro filme B, incluindo até mesmo aqueles uivos e assobios dos filmes antigos de vampiros. Diga a verdade: não parece que o verdadeiro Ed Wood, de carne e osso, vivia dentro de um dos filmes que fez?
É exatamente essa a chave para entender – e amar – o filme de Tim Burton. O cineasta de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” se esmerou para produzir uma homenagem a um desajustado social que encontrou uma válvula de escape à rejeição refugiando-se dentro dos próprios sonhos, como ele próprio fez, três décadas depois. “Ed Wood” talvez seja mais uma autobiografia do que uma cinebiografia.
Além disso, há ainda o charme ingênuo de Johnny Depp, cujo rosto angelical emoldura perfeitamente os delírios do protagonista, e um elenco de apoio absolutamente perfeito. Somente um homem cego, surdo e mudo é capaz de não se emocionar com a brilhante atuação de Martin Landau, praticamente reencarnando o húngaro Bela Lugosi em seus últimos e trágicos momentos (a atuação valeu um Oscar a Landau). O pedaço de celulóide que mostra Landau colhendo uma flor emociona tanto a Ed quanto a todos nós. Precisamos de mais “Ed Woods”, que tal?

Edward Mãos-de-Tesoura


Tim Burton constrói fabula atemporal com visual belíssimo e roteiro inteligente
Por: Rodrigo Carreiro
“Edward Mãos-de-Tesoura” (Edward Scissorhands, EUA, 1990) é uma fábula que se passa nos Estados Unidos, em algum momento entre as décadas de 1950 e 1980. Ponto. Não é preciso ser muito perspicaz para perceber esse detalhe durante os primeiros minutos de projeção, mas muita gente estranhou. É normal, já que fábulas se passam, por tradição, em uma “Terra do Nunca” sem idade.
Na verdade, existe uma “Terra do Nunca” no filme. É o mundo gótico, esquisito e adorável criado pelo diretor Tim Burton. No comando de filmes de estúdio (“Planeta dos Macacos”) ou projetos pessoais (“
Ed Wood”), o cineasta sempre conseguiu a proeza de ambientar os envolventes enredos numa atmosfera onírica, contraditória, sombria e aconchegante ao mesmo tempo. Esse é o mundo de Tim Burton, um dos estetas visuais mais interessantes a filmar em Hollywood.
De certa forma, dá para dizer que “Edward Mãos-de-Tesoura” é a obra-prima de Tim Burton. Ainda que ele tenha sofisticado tanto sua capacidade narrativa quanto a bela ambientação gótica em filmes subseqüentes, nenhum filme que ele realizou conseguiu unir tão bem a poesia visual, a simplicidade narrativa e o tom de fábula que o cineasta tenta (e quase sempre consegue) imprimir em cada polegada de celulóide que filma.
Edward (Johnny Depp, na primeira colaboração com o diretor) é um jovem que mora sozinho num castelo, com fama de mal-assombrado, na periferia de uma pequena cidade típica dos EUA da década de 1950. Numa tarde, ele é visitado por Peg Boggs (Dianne Wiest), uma vendedora da Avon que passa por um período de vendas particularmente ruim. Peg se compadece da solidão e da dificuldade do jovem, que tem tesouras no lugar das mãos porque o inventor que o criou (Vincent Price, numa ponta deliciosa) morreu antes de terminar a criação. Ela o leva para morar com a família Boggs.
Investindo num tema que vai se mostrar obsessivo em trabalhos vindouros (a péssima capacidade dos norte-americanos em aceitar gente diferente do padrão normal), Tim Burton criou um filme mágico e atemporal. O uso de cores é o detalhe que mais chama a atenção: casas,
carros e objetos são pintados em tons monocromáticos e berrantes, dando a impressão de que são brinquedos rústicos. O céu azul-bebê e a falta de sombras (com exceção para as cenas elaboradas dentro do castelo de Edward) contribuem para intensificar o clima onírico.
O visual parece, na verdade, uma mistura dos anos 1950 (cercas brancas, jardins verdes, jaquetas de couro) com a década de 1980 (penteados enormes). Isso acentua a impressão de que Burton se esforçou para criar um tempo e um espaço particulares para a sua obra. E conseguiu, com a ajuda providencial de um Johnny Depp iluminado, oferecendo sua primeira grande interpretação e sem precisar de muitas palavras para isso. Condensando todos esses elementos numa narrativa ágil e simples, Burton criou um conto de fadas que pode ser apreciado por crianças e adultos, sem distinção, e que jamais apela para a pieguice em busca de lições de moral. Ah, se todo filme fosse assim…

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Alice in Wonderland


A trama será uma espécie de sequência do clássico original: Alice (Mia Wasikowska), aos 17 anos, vai a uma festa vitoriana e descobre que está prestes a ser pedida em casamento perante centenas de socialites. Ela então foge, seguindo um coelho branco, e vai parar no País das Maravilhas, um local que ela visitou há dez anos, mas não se lembrava.
Alice no País das Maravilhas é, ao lado de Frankenweenie, um dos dois projetos do diretor com o Walt Disney Studios que serão exibidos em 3D. Johnny Depp, Anne Hathaway, Alan Rickman, Matt Lucas, Michael Sheen, Helena Bonham Carter, Crispin Glover, Christopher Lee e Eleanor Tomlinson também estão no elenco.
O filme estreia em 5 de março de 2010.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

The Imaginarium of Doctor Parnassus


Muito mais do que apenas o último filme de Heath Ledger
Marcelo Forlani/Omelete
Genial e azarado. Esses são os dois adjetivos que melhor resumem o que é Terry Gilliam. O único estadunidense a fazer parte do grupo cômico Monty Python, Gilliam começou fazendo as animações non-sense que envolviam pés gigantes, cabeças que se abriam e mulheres assanhadas das vinhetas da série de TV e depois passou à direção de cinema. Estão no seu currículo filmes clássicos como Monty Python e o Cálice Sagrado, cultuados como Brazil e esquecidos como o recente Contra-Ponto, que saiu aqui direto em DVD. Mas ao assistir ao making of de Os 12 Macacos e ao documentário Lost in La Mancha é que vemos como os deuses do cinema vivem testando a fé de Gilliam. Principalmente neste último, que chegou a ser cancelado e tudo o que podia dar errado, deu. Do protagonista morrendo de dores nas costas e proibido de andar a cavalo a uma chuva torrencial que arrasou seu set de filmagens.
Depois de conseguir finalizar sem maiores problemas seus dois últimos projetos (Os Irmãos Grimm e o já citado Contra-Ponto), parecia que a maré de azar tinha passado. Até que veio o 22 de janeiro de 2008. Gilliam estava no meio das filmagens de O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus, 2009) e em um dos papéis principais estava Heath Ledger, incessantemente elogiado a cada nova cena que surgia da sua interpretação do Coringa em Batman - O Cavaleiro das Trevas, a ser lançado no meio daquele ano. O ator morreu em Nova York, deixando órfão sua pequena filha Matilda e sem rumo os amigos com quem filmava.
Gilliam quase teve de fechar as portas de sua produção de novo. E foi aí que entraram os amigos Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel, que deram um passo à frente e se ofereceram para terminar o papel que o australiano interpretava. E quer saber? Se o filme fosse pensado dessa forma, talvez não ficasse tão bom. As cenas em que os três atores aparecem se passam dentro do tal mundo imaginário do Dr. Parnassus e lá você pode ser quem você quiser. Quem você sonhar. E por isso, a mudança de atores, que muita gente pode até estranhar no início, veste como uma luva em uma daquelas mãos que tem uma cabeça no seu topo.
Sim, a imagem é "gilliamética" e saiu mesmo da mente do desvairado autor. Essa e tantas outras, como águas vivas gigantes, balões de ar em formatos de cabeça flutuando por mundos coloridos, bocas que são "chupadas" nas caras das pessoas, cobras que aparecem do contorno de rios e escadas sem fim. Não há dúvida que Parnassus é o filme mais visual que Gilliam já construiu, equilibrando como nunca efeitos práticos com computação gráfica, como na cena em que acompanhamos o diabo conhecido como Nick (Tom Waits) chegando ao templo onde Parnassus (Christopher Plummer) comanda outros monges em meditações sobre tapetes voadores. Os dois fazem um pacto: em troca da imortalidade, Parnassus promete ao Diabo a sua filha quando ela completar seus 16 anos. Pensando ser mais esperto que o senhor das trevas, Parnassus não imagina ter filhos e consegue se manter invicto, até que conhece e se apaixona por uma mulher, a mãe de Valentina (Lily Cole). Quando o filme começa, Nick está de volta para cobrar seu prêmio. Tão bêbado quando desesperado, Parnassus tenta uma última cartada para manter a delicada e linda filha: conseguir cinco almas para ele antes do aniversário de Valentina, em três dias.
Tony (Ledger, Depp, Law, Farrel) entra em cena amnésico, pendurado pelo pescoço em uma ponte de Londres. É logo incorporado à trupe de Parnassus e com sua lábia vai ajudando a recolher as almas, para o desespero de Anton (Andrew Garfield), que sofre ao ver sua amada Valentina se apaixonando pelo novato. Porém, não se deve confiar em um personagem que foi batizado em "homenagem" ao ex-primeiro ministro britânico Tony Blair, descrito por Gilliam como um cara que "diria as coisas mais insanas e provavelmente acreditaria nelas".
Parnassus, no meio de todas as viagens entre o mundo imaginário e o cotidiano, ainda consegue guardar espaço para fazer críticas às pessoas que estão sempre atrasadas a ponto de deixar de sonhar e ao capitalismo. E há ainda um estranho número musical típico de Monty Python.
Talvez a história não agrade a todo mundo. Mas uma obra de Terry Gilliam jamais vai conseguir atingir tal feito. Sua mente funciona em uma frequência diferente. Seus sonhos são mais coloridos. Seus devaneios, mais sinistros. E seus filmes, bom, estes são cada vez mais ímpares no meio das fórmulas usadas pelas pessoas que podem até ser mais sortudas, mas não têm a mesma genialidade.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Inimigos Públicos

Michael Mann faz um filme de gângster moderno em todos os aspectos

Melvin Purvis (Christian Bale) havia capturado Pretty Boy Floyd à moda antiga: com um balaço na barriga, depois de rápido duelo a céu aberto. Quando foi chamado por J. Edgar Hoover para ajudar a formar o FBI e prender John Dillinger, porém, Purvis ouviu que teria que adotar outros métodos de ação - os métodos da Era Moderna, nas palavras do chefe.
Esse conceito de era moderna, por mais amplo e genérico que pareça, percorre Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) o tempo inteiro, em dois aspectos principais: um temático, outro técnico.
O primeiro, temático: estamos no ápice da Depressão, e os "inimigos públicos" como Dillinger, ladrões de bancos ou de trem, começam a dar lugar ao crime organizado, como as máfias de apostas. Ao mesmo tempo, a criação do Bureau de Investigação Federal unifica operações em todo os Estados Unidos - e essa rede vasta de informações pressupõe "procedimentos" de interrogatório mais rígidos. Não é difícil enxergar Inimigos Públicos como a história da gênese dos EUA que conhecemos hoje: um Estado corporativo e policial.
Ao mesmo tempo, Inimigos Públicos é moderno em seu registro. Não é de hoje que o diretor Michael Mann abraça a captação digital de alta definição como uma opção estética, mas é a primeira vez que ele conta uma história de época sem usar película. (
Ali se passa nos anos 70 e foi rodado parcialmente em digital, mas é um filme solar, não vale.) Inimigos Públicos depende demais das sombras para impor sua atmosfera, e desta vez não há a profusão de luzes de uma metrópole noturna dos anos 2000, como em Miami Vice, para ajudar.
Mann e seu diretor de fotografia, Dante Spinotti, desafiam então a capacidade de exposição de suas câmeras HD em ambientes de baixa luz. O resultado não é granulado nem turvo. Pelo contrário, o efeito expressionista alcançado em algumas cenas beira o maravilhamento: é fantasmagórico nos corredores de hotel onde cresce a silheta do chapéu de Purvis, e é catártico nos tiroteios noturnos. A submetralhadora de Baby Face Nelson descontrolada na cena da cabana, com a luz intermitente de seus disparos, parece um estroboscópio de danceteria.
Existe aquela coisa do crítico que fica elogiando a fotografia pra não dizer que o filme é uma merda, mas não é o caso aqui. Mann não está tentando fazer o Barry Lyndon dos nossos dias. Seus cacoetes de luz têm uma função narrativa muito bem definida: eliminar tudo o que há de supérfluo nos enquadramentos e isolar o que há de fundamental, ainda que seja apenas um meio sorriso de John Dillinger (em composição certeira de Johnny Depp). Já era assim quando Tom Cruise e Jamie Foxx se viram num duelo por uma Los Angeles deserta, em
Colateral. O duelo aqui só muda de contexto.
Ao final de uma projeção que pode ser insatisfatória para alguns (infelizmente não há nos grandes multiplexes do Brasil projetores digitais com resolução ideal para dar conta dos matizes do filme, ainda), o modernismo de Inimigos Públicos se encerra como qualquer obra moderna que se preze: assimilando o clássico, o passado. John Dillinger está sendo caçado nacionalmente, mas arruma tempo para ir ao cinema, assistir ao crepúsculo dos anti-heróis glamurizados em película daquela época que chegava ao fim.

Marcelo Hessel/Omelete
Download Inimigos Públicos: http://baixae.com/download-filme-inimigos-publicos-public-enemies/