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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Katyn


Se é certo que todos os países sofreram com a Segunda Guerra Mundial, também é que a Polônia guarda uma grande carga de prejuízo. Em agosto de 1939, foi invadida pelos nazistas. No mês seguinte, pelos soviéticos, que não declararam formalmente guerra à Polônia. Cerca de 500 mil pessoas foram deportadas para a Sibéria durante a guerra. Após 1945, o país foi dominado pela União Soviética, situação que permaneceu até a queda do muro de Berlim, em 1989. Katyn , de Andrzej Wajda, pousa sua atenção sobre uma falsa verdade histórica, cuja aberração já é prenunciada no início do filme. O longa começa com o Pacto Molotov-Ribbentrop, entre alemães e russos, que na guerra viriam a se tornar adversários. O jovem oficial Andrzej (Artur Zmijewski), apesar dos pedidos de sua esposa Anna (Maja Ostaszewska), permanece, no caos da situação, ao lado dos companheiros de exército, classificados como prisioneiros de guerra. Os oficiais são mantidos presos e com o tempo são levados para a floresta de Katyn, onde foram executados cerca de 20 mil oficiais polacos. Como a Polônia foi anexada aos soviéticos no pós-guerra e os alemães saíram derrotados, a culpa do massacre recaiu sobre os nazistas, apesar de Stalin ter sido, de fato, o mentor dos assassinatos. O longa de Wadja parte da história do oficial Andrzej, que anotou o cotidiano da prisão em um diário, para falar sobre os resistentes à mentira histórica de que os alemães, e não os soviéticos, foram responsáveis pelo massacre. Sem tons aventureiros, Katyn , indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008, mostra duas possibilidades de resistir. Seja por meio da ação direta, que pode ter como conseqüência a morte (caso de dois jovens), ou por meio da preservação dos arquivos dos mortos, realizada por pesquisadores, Wadja se posiciona em relação ao fato e presta uma homenagem a quem não aceitou a mentira. A posição de Wadja, inclusive, pode gerar polêmica, pois é possível defender que seria melhor manter-se vivo, mesmo que admitindo algo sabidamente infundado. Debate aberto. A abordagem apaixonada de Andrzej Wadja justifica-se pela sua própria biografia. Seu pai, Jakub Wadja, foi um dos oficiais executados em Katyn e sua mãe, Aniela, foi uma das mulheres que esperaram pelos maridos – exatamente o ponto de vista narrativo do filme. Com capacidade de se comunicar a quem se interessa pela construção da História, Katyn toma dimensões maiores ainda quando dialoga com quem foi vítima dos acontecimentos. Deve ser um efeito parecido para um judeu assistindo a The Last Days , de James Moll, ou a um descendente indígena frente ao western Quando é Preciso Ser Homem , de Ralph Nelson.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Guerra ao Terror



Elenco: Ralph Fiennes, Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce.
Direção: Kathryn Bigelow
Gênero: Guerra
Duração: 128 min.
Distribuidora: Imagem Filmes
Estreia: Direto em DVD - Abril 2009
Sinopse: Para um grupo de soldados americanos, alguns dias os separam do retorno para casa. Um período relativamente curto, se não fosse por tantas ocorrências que transformassem esse fim de jornada em um verdadeiro inferno. As forças armadas precisam de especialistas não só nos campos de combate mas também no dia a dia, na proteção do grupo contra insurgentes que promovem atentados, matando milhares de cidadãos. Conheça a dura realidade destes soldados e descubra que, ao contrário do que todos eles pensam, a luta jamais terminará..

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Leões e Cordeiros


Drama ataca a política beligerante de George W. Bush dando muita importância à palavra e pouca à imagem
Por: Rodrigo Carreiro

Não é novidade para ninguém que a maioria dos atores e diretores que trabalham em Hollywood tem posição política liberal, e apresenta afinidade com as idéias do Partido Democrata. Se os atentados de 11 de setembro de 2001 fizeram a turma politizada esquecer as divergências e apoiar cegamente o presidente republicano George W. Bush, a invasão ao Iraque em 2003 fez as coisas retomarem o rumo habitual. “Leões e Cordeiros” (Lions for Lambs, EUA, 2007), que marca o retorno de Robert Redford à direção após um hiato de sete anos, é um drama político que ataca a política externa beligerante de Bush, mas não de maneira aberta. O filme convida setores apolíticos a assumir uma postura crítica diante do assunto, e bate abertamente na juventude e na mídia, chamando-os respectivamente de acomodada e covarde.
Há muito de verdade e inteligência na análise política levada a cabo por Robert Redford, mas nenhuma das duas qualidades faz um filme ser realmente bom. É o caso de por “Leões e Cordeiros” – e olha que o longa tem a palavra Oscar carimbada por todos os lados. Além de levar a assinatura de um dos veteranos mais queridos da indústria cinematográfica, traz no elenco dois nomes de prestígio junto ao público adulto, cujas preferências servem como referência para a Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Tom Cruise e Meryl Streep, aliados ao próprio Redford, dão credibilidade e respeito ao projeto, que marca ainda a estréia da gestão de Cruise no estúdio United Artists, no que não deixa de ser um passo bastante arriscado por parte do galã dublê de empresário. Afinal de contas, trata-se de uma obra sem potencial de bilheteria, por mirar em um público muito urbano, muito liberal e muito velho para os padrões da indústria do cinema.
Embora seja curto e direto, “Leões e Cordeiros” é um filme exaustivo e pouco cinematográfico, porque dá muita importância à palavra, e pouca à imagem. Praticamente sem nenhuma cena de ação, é inteiramente construído com base em longos diálogos, tão evasivos quanto inteligentes. Dois terços do enredo se passam dentro de gabinetes e consistem em personagens conversando. Os diálogos, a cargo do roteirista Matthew Michael Carnahan, são espirituosos e bem construídos. Apesar disso, e de contar na equipe com o ótimo e oscarizado fotógrafo Philippe Rousselot (parceiro habitual de
Tim Burton, e isso já diz tudo), Redford cai na armadilha de filmar tudo no exaustivo e habitual esquema do plano/contra-plano, o que torna a experiência bastante cansativa para o espectador. Se você desconhece o contexto político dos Estados Unidos, pior ainda. Corre o risco de achar tudo meio chato e incompreensível.
Curiosamente, a estrutura narrativa é compacta. São três histórias aparentemente independentes que acontecem simultaneamente e vão sendo contadas de forma alternada, em uma longa montagem paralela. Aos poucos, o espectador vai descobrindo as ligações entre as três histórias. Em Washington, um jovem e ambicioso senador republicano (Tom Cruise) tenta convencer uma repórter veterana (Meryl Streep) a publicar matéria sobre a nova estratégia dos militares norte-americanos no Afeganistão. Enquanto isso, nas montanhas geladas afegãs, uma patrulha de soldados realiza a primeira incursão ao país inimigo dentro desta nova estratégia. No mesmo horário, do outro lado do país, um professor universitário (Robert Redford) tenta convencer um aluno promissor (Andrew Garfield) a se aplicar mais nos estudos.
Assumindo sem medo um tom verborrágico e panfletário, Redford não cai na tentação de tornar o drama menos político e mais humano. Tal decisão significaria desenvolver melhor os personagens, mas destruiria aquilo que o filme tem de melhor: a tensão do relógio, o andamento em tempo real, o clima de urgência que se estabelece igualmente em três frentes distintas. O diretor veterano mostra coragem ao criticar abertamente o desinteresse, o egoísmo e a ignorância da juventude contemporânea. Também compra briga com a mídia, afirmando que os grandes jornais e redes de TV têm parte da culpa do fracasso americano no Iraque, por ter apoiado (ou no mínimo se esquivado de criticar) os planos da invasão ocorrida em 2003.
Embora os disparos contra a postura militarista dos Estados Unidos após o ataque terrorista em Nova York não sejam novidade no cinema (vide “
Fahrenheit 11 de Setembro”), “Leões e Cordeiros” contribui para adicionar duas novas abordagens críticas ao contexto social em que aconteceram as reações dos EUA à agressão de 2001. Por outro lado, as críticas aos bastidores da política externa, assumindo que ambições individuais e partidárias sempre estiveram acima do conceito de nação, não trazem novidade alguma a quem acompanha o problema de perto. “Leões e Cordeiros” têm o mérito de abrir um debate político importante sobre os Estados Unidos e sua política externa, mas o excesso de diálogos e a pobreza estética o comprometem como espetáculo cinematográfico.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Três Reis


Comédia de humor negro enfoca Guerra do Iraque de perspectiva original e corajosa
Por: Rodrigo Carreiro

O cineasta David O. Russell provocou uma enorme polêmica, inadvertidamente, ao dar uma entrevista casual enquanto promovia o filme de guerra “Três Reis” (Three Kings, EUA, 1999). Um dos entrevistadores lhe questionou como tinham sido feitas as incríveis tomadas que mostram o percurso de uma bala dentro de um corpo humano. Russell não pestanejou. Com a cara mais lisa do mundo, disse que os produtores haviam comprado cadáveres de verdade no mercado negro para filmar aquelas cenas. Isso foi publicado, e milhares de espectadores fugiram do filme, horrorizados, antes que Russell viesse a público para explicar que estava brincando, e que as cenas tinham sido feitas, na verdade, com a ajuda de computadores. Mas o estrago já estava feito. “Três Reis” sumiu no esquecimento.
Foi a polêmica errada na hora errada. O conteúdo do filme, a rigor, tinha muito potencial para a polêmica, especialmente dentro dos Estados Unidos. Desde “M.A.S.H.”, de Robert Altman, que um filme não mostrava a guerra de uma forma tão cínica e verdadeira; no caso, a Guerra do Iraque, em 1991. O enredo de “Três Reis”, na verdade, é bem simples. Situado em março de 1991, quando a invasão norte-americana ao Iraque culmina com a rendição do país de Saddam Hussein, o filme mostra as aventuras vividas por três soldados (Mark Whalberg, Spike Jonze e Ice Cube). Acompanhados de um oficial (
George Clooney), os pracinhas decidem seguir as indicações de um mapa secreto, encontrado com um prisioneiro iraquiano, para “liberar” um depósito de barras de ouro, construídas com metal roubado do Kwait pelos guardas de Saddam.
“Três Reis” não é um drama de guerra, mas uma comédia de humor negro. Filmes de guerra normais quase sempre denunciam o belicismo de uma perspectiva épica, mostrando com solenidade os dramas humanos vividos pelos participantes desses conflitos. David O. Russell segue uma trilha oposta. Ele também denuncia a inutilidade e a estupidez da guerra, mas de uma perspectiva totalmente diferente, e nada convencional.
Em determinado momento do filme, por exemplo, os soldados dos EUA chegam a um vilarejo do Kwait ainda dominado por militares iraquianos. A população passa fome, apesar de haver lá um caminhão-pipa carregado de leite, confiscado pelos inimigos mais bem armados. Ocorre que os ianques não estão suando no deserto para ajudar ninguém. Eles estão interessados em roubar o ouro roubado. Afinal, ladrão que rouba ladrão tem sete anos de perdão, certo? E se alguém está morrendo de fome, o problema não é deles.
David O. Russell narra essa fábula em negativo com humor negro e espírito cínico de fazer inveja aos
irmãos Farrelly. A narrativa é ágil e cheia de lances surpreendentes, como uma discussão entre os pracinhas ianques que culmina com a explosão de uma vaca. Isso mesmo, você leu direito: uma vaca! O enredo do longa-metragem não tem nada de convencional, e possui inúmeros momentos insólito, tanto quanto um final completamente anticlimático e coerente com a narrativa apresentada. De alguma maneira, lembra um cruzamento de “M.A.S.H.” (uma influência óbvia) com “O Tesouro de Sierra Madre”.
“Três Reis” tem uma direção de fotografia dinâmica e moderna. Tom Siegel submeteu as imagens a uma lavagem especial para ficar com contrastes mais saturados, de esse tratamento deixou as cores estouradas, brilhantes. A câmera na mão e os cortes rápidos garantem um estilo mais documental. Enquanto isso, a trilha sonora eclética dá o toque final de modernidade, misturando Public Enemy com Bach, Eddie Murphy (sim!) e Beach Boys.
A canção que ilustra melhor o clima do filme é “In God’s Country”, do U2, usada para sublinhar a vastidão, o calor e a aridez do deserto iraquiano. Atente para o título da música, sem esquecer que o Iraque fica na região onde Cristo nasceu e pregou. Daí vem, também, o título do longa-metragem, que remete à fábula dos reis magos, viajantes estrangeiros que cruzaram o deserto iraquiano carregando um tesouro. “Três Reis” é um dos filmes mais inteligentes e corajosos dos últimos tempos, e merece ser redescoberto.
A Warner lançou o DVD do filme de David O. Russell no Brasil em 2000, quando as legendas em português ainda não eram artigo comum nos extras. Por isso, o ótimo disco, que tem imagens com o corte original (widescreen) e trilha Dolby Digital 5.1, ficam sem legendas no bom documentário que o acompanha, e também no comentário de áudio de Russell.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/tres-reis/

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Jardins de Pedra


- Qual é a de Francis Coppola?
Eis uma pergunta que se faz em muitos círculos cinematográficos. Afinal, é incrível a capacidade de trabalho deste americano de 48 anos que tal como ensina a filosofia do samba de Paulo Vanzolini, está sempre pronto para dar a volta por cima.
Garoto-prodígio de sua geração, estreou com um longa-metragem que lhe serviu como trabalho de graduação no curso de cinema - "Meu Filho, Agora Você é um Homem" (1967, reprisado já várias vezes na televisão) e nestes 20 anos de carreira, tem acumulado imensos sucessos e grandes fracassos. Sua empresa, a Zoetrop, faliu várias vezes, após produções ambiciosas como "O Fundo do Coração" (quando insistiu em refazer em estúdios o cenário de Las Vegas, que poderia filmar ao vivo), mas nem por isso Coppola deixou de bancar produções de outros realizadores - de Akira Kurosawa ("Kagemusha"), a Geofrey Raggio ("Koyaanisqatsi"), além de fazer o lançamento nos EUA, no sistema para o qual foi concebido, da superprodução "Napoleon", de Abel Gance, realizado em 1926, para ser projetado por 3 aparelhos.
A falência de sua produtora foi vencida na primeira vez quando "Apocalypse Now" conquistou a Palma de Ouro em Cannes, após quatro anos de produção. Os Oscars de "O Poderoso Chefão" - as duas partes foram fortalecidas com os aplausos por "A Conversação", para muitos o seu melhor filme. Depois de dois filmes modestos, sobre jovens - "The Outsiders" e "O Selvagem da Motocicleta" (inédito em Curitiba, mas à disposição em vídeo alternativo), Coppola surpreendeu com o emocionante "Peggy Sue - Seu Destino a Espera". Agora, Coppola está novamente em evidência: há um mês e meio estreou nos EUA o seu último longa: "Jardins de Pedra" (Gardens of Stone), com lançamento programado para as próximas semanas no Brasil.
A crítica recebeu a pedradas este filme que se passa no ambiente de caserna. Mas há defensores entusiásticos - como sempre ocorre com os filmes de Coppola. Afinal, "Cotton Club" - outra produção caríssima, que abalou suas finanças - dividiu os espectadores, mas não há como negar o seu fascínio.
"Gardens of Stone" tem muitas seqüências no Cemitério Nacional de Arlington. Os vastos montes verdes pontilhados de lajes de mármore. O cemitério dos militares americanos. Deste clima para a caserna, Coppola constrói um drama poético, ambientado em 1968 - ano de tantas transformações no mundo, em termos comportamentais e da escalada na guerra do Vietnã. O personagem central é o sargento Clell Hazard (James Caan), um combatente condecorado que, devido a burocracia e manobras políticas, é designado para realizar tarefas no Cemitério Nacional de Arlington. Favorável ao Exército, mas contra a Guerra do Vietnã, Clell aguarda sua transferência para o Fort Benning, onde se sentiria melhor. Anjelica Houston - filha do cineasta John, Oscar de melhor coadjuvante por "A Honra do Poderoso Prizzi" - é Samantha Davis, uma repórter pacifista do "Washington Post", ativista pacifista, que se torna amante de Clell.
Assim, tendo por cenário um espaço até hoje nunca focalizado no cinema - embora conste do roteiro turístico de quem visita a capital dos EUA - "Jardins de Pedra" propõe reflexões sobre o Exército, os soldados - temas tantas vezes revisitados pelo cinema, embora poucas vezes com profundidade e audácia. Trabalhando sobre um romance de Nicholas Proffitt, Coppola pretende que seu filme não seja apenas uma leitura superficial do militarismo.
O Exército americano gostou. A produção teve toda a ajuda para as filmagens e no final Coppola ganhou o título de membro honorário da Velha Guarda, quando o coronel John Myers disse:
- "Do ponto de vista do Exército, a descrição do militarismo no filme é perfeita".

http://www.millarch.org/artigo/os-jardins-de-francis-coppola

sábado, 21 de novembro de 2009

Apocalypse Now


"Apocalypse Now" de Francis Ford Coppola (baseado no livro de Joseph Conrad) é desses filmes que surgem a cada 20, 30 anos tamanha é sua genialidade, portanto, se você ainda não viu o filme (você é um dos poucos!!) não perca essa oportunidade (o DVD da versão "Redux" está nas locadoras - alugue, adiante a seqüência dos franceses que foi incluída e assista ao resto com a maior atenção do mundo).
Tudo neste filme é espetacular a começar pelo nome que é excelente. Existem lá certas pessoas que dizem que o final é fraco (eu li algum crítico dizendo isso) e a esse respeito só posso dizer que a insanidade foi além do filme e atingiu certos críticos. Também existem umas poucas pessoas que consideram "Nascido Para Matar" (de Stanley Kubrick) como um filme superior, mais uma vez, a insanidade paira no ar. Ok, isso dito, vamos a obra prima.
"Apocalypse Now" (totalmente injustiçado pelo Oscar - levou apenas dois prêmios - fotografia e som) é muito mais do que um filme de guerra, é um filme sobre a influência que uma guerra gera nas pessoas, sobre o quão despropositados são os atos cometidos em uma guerra, é um filme surreal e - por mais contraditório que seja - ao mesmo tempo cruelmente real...
O filme de Coppola se passa no Vietnã - mas poderia se passar em qualquer outra guerra - e é lá que o Capitão Willard (Martin Sheen - que teve um famoso ataque cardíaco durante as filmagens nas Filipinas - os bastidores da complicada filmagem são um filme a parte - atrasando assim, a produção de um filme que era visto por todos como uma loucura de Coppola) é encarregado de encontrar (e exterminar) o renegado Coronel Kurtz (Marlon Brando) que enlouqueceu e fundou uma seita no meio da selva.
Desde a primeira seqüência do filme dá pra perceber a genialidade (estou voltando a essa palavra por não conseguir pensar em outra melhor...) pela qual Coppola e todo elenco estavam tomados durante as filmagens. A cena, com Martin Sheen bêbado no quarto, a música do Doors, o som dos helicópteros se confundindo com o som do ventilador de teto é simplesmente espetacular, e daí em diante não há um só momento de "Apocalypse Now" que não seja sensacional (não custa repetir que na versão "Redux" a maior seqüência incluída - a dos franceses - não condiz com o resto do filme, portanto se você assistir a essa versão, esqueça a seqüência citada).
Um dos pontos altíssimos do filme é o personagem de Robert Duvall, o coronel surfista Bill Kilgore, que é (mais uma vez) genial (na versão "Redux" o personagem de Duvall ganha mais espaço para mostrar as suas maluquices). É dele a mais famosa frase do filme "adoro o cheiro de napalm pela manhã" e também se deve a ele uma das mais surreais seqüências de "Apocalypse Now", aquela em que ao som de "A Cavalgada das Valquírias", de Wagner, helicópteros americanos atacam uma vila vietcongue.
Outro ótimo personagem é o seguidor alucinado do Coronel Kurtz feito por Dennis Hopper (que à época das filmagens vivia envolvido com drogas e eu arrisco dizer que a loucura vista na tela vai além de uma grande interpretação).
Além das ótimas atuações de Duvall e Hopper o filme ainda tem Marlon Brando - sempre envolto por sombras na versão original (foi uma exigência do ator que começava em 79 a ganhar as formas arredondadas de hoje) e aparecendo no claro na versão "Redux" - que compõe o insano Coronel Kurtz magistralmente. Sem esquecer de Martin Sheen excelente - inesquecível a cena em que ele levanta da água. (ainda temos no filme Laurence Fishburne - adolescente - como um dos soldados que parte em missão com o Capitão Willard e uma rápida aparição de Harrison Ford).
Contando com excelentes interpretações, direção excepcional e uma fotografia de chorar de tão boa (de Vittorio Storaro), "Apocalypse Now" é um filme estarrecedor e extremamente complexo, absolutamente obrigatório a todo fã de cinema. É sem dúvida um marco da sétima arte e dificilmente será superado algum dia.

http://www.cinepop.com.br/criticas/apocalypse.htm

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Nascido Para Matar


Quando se fala em Guerra do Vietnã no cinema, uma "Santíssima Trindade" de filmes vem de imediato à cabeça: APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola (1979), PLATOON, de Oliver Stone (1986) e este NASCIDO PARA MATAR (FULL METAL JACKET, 1987), de Stanley Kubrick. Dos três, considero o filme de Coppola o melhor disparado (principalmente em sua versão original, já que a "Redux" inclui uma subtrama que alonga demais o filme e pulveriza seu impacto), com o de Stone vindo em um honroso segundo lugar. O problema com a incursão bélica de Kubrick é que ela não tem o impacto das demais - em que pese muitos a considerarem outra das grandes obras-primas do diretor, ou até mesmo "o melhor filme de guerra já feito". Para mim ele é dos filmes mais fracos do diretor, que teve a louvável intenção de fazer um filme de guerra estilizado, focado no processo de transformação de jovens comuns em máquinas de matar. E essa linha é muito bem explorada na primeira metade do filme, sem dúvida a que mais vale a pena ser assistida.No primeiro ato, que se passa em um campo de treinamento de fuzileiros nos EUA, o fio condutor é o personagem Gomer (Vincent D'Onofrio), um bonachão gorducho e "devagar", que é implacavelmente atormentado pelo instrutor, o Sargento Hartman (o ótimo R. Lee Ermey, em uma caracterização antológica). Os insultos politicamente incorretos de Hartman dirigidos aos recrutas são um show à parte - mais sadicamente engraçados, impossível. Nos treinamentos Gomer sempre fracassa, e ao seu colapso físico segue-se também o colapso mental, acelerado pela retaliação de seus colegas provocada pelos castigos do instrutor a todo o pelotão, em função dos erros dele. Após o desmoronamento de Gomer, narrado por Kubrick de forma similar ao enlouquecimento progressivo de Jack Torrance em O ILUMINADO (1980), entramos na segunda parte do filme, onde Joker (Matthew Modine), testemunha privilegiada da degradação de Gomer, busca fugir das atrocidades da guerra atuando como jornalista do exército. Porém ele acaba indo para a linha de frente com o pelotão de seu ex-colega de treinamento, Cowboy, que passa a ser dizimado por um franco-atirador vietnamita oculto nas ruínas da cidade de Hue.O problema deste segundo segmento de NASCIDO PARA MATAR é que, após um primeiro ato soberbo, nele vemos apenas um filme de guerra padrão - mesmo contando com a perícia de Kubrick para tentar reafirmar os temas abordados inicialmente. O final, que seria a conclusão do inevitável processo de desumanização dos jovens soldados, carece da brutalidade e impacto necessários para tornar o filme o clássico que merecia ter sido. Ainda que vermos os jovens marchando e cantando a canção do Clube do Mickey provoque uma ironia à altura do talento de Kubrick. Outro senão é que, comparado à fantástica atuação de D'Onofrio, o desempenho de Modine, que teria de levar a segunda metade do filme nas costas, é para dizer o mínimo discreto, não gerando muita empatia com o espectador. De qualquer modo, NASCIDO PARA MATAR é um filme obrigatório para qualquer cinéfilo, já que faz parte da obra de um dos maiores cineastas da história. Nele facilmente notamos a genialidade de seu criador, que mesmo não tendo atingido todo seu potencial, ao final das contas criou um filme de guerra incomum e desafiador.

Glória Feita De Sangue


Contundente, surpreendente e marcante. Assim é Glória Feita de Sangue, drama sobre a Primeira Guerra Mundial que permanece forte como uma obra-prima cinematográfica sobre o tema da guerra. Estabeleceu de uma vez por todas e de forma brilhante o status de grande diretor que Stanley Kubrick já esboçara em O Grande Golpe, feito no ano anterior.
Kirk Douglas, um dos principais responsáveis pela execução do filme (que encontrara rejeição dos estúdios devido ao tema delicado do roteiro), faz o papel do Coronel Dax, comandante de um destacamento que faz oposição aos alemães na fronteira da França. Relutantemente ele aceita do arrogante general Mireau a missão suicida de tomar a colina de Ant Hill, dominada pelos inimigos. A investida é realizada, mas não é bem-sucedida, e as conseqüências do fracasso determinam o tom do resto do filme. O general instaura corte marcial para julgamento de parte da tropa por covardia diante do inimigo, cuja punição esperada é o pelotão de fuzilamento. É então que Dax, na vida civil um advogado em direitos humanos, decide assumir a defesa dos soldados e tentar reverter a decisão absurda.
O filme foi proibido por décadas em vários países, inclusive a França. Sua força reside em mostrar de forma transparente os jogos de política e interesse por trás de uma guerra, que muitas vezes terminam por sacrificar as vidas de muitos soldados em resposta à arrogância de militares incompetentes. Os diálogos são incisivos, marcantes, e em alguns momentos recheados de metáforas que atingem profundamente a figura intocável do sistema militar. Kirk Douglas e George MacReady estão excelentes como Dax e Mireau, respectivamente, assim como o resto do elenco. Curiosidade: Susanne Christian, que aparece cantando na inesquecível seqüência final do filme, viria a ser a futura sra. Kubrick.
O trailer original do filme está na seção de extras do DVD, assim como um artigo sobre a realização da produção.

http://www.kollision.biz/movies/mov_files/mov_pathsofglory.htm

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Che O Argentino / A Guerrilha




Steven Soderbergh busca o Ernesto de la Serna Guevara por trás do mito
Érico Borgo/Omelete
Ernesto Guevara de La Serna, o "Che": Uma das figuras mais imediatamente reconhecíveis do século 20. Uns o vêem como um exemplo, um ideal, outros como assassino romantizado. Mas, independente de como o guerrilheiro, escritor e médico argentino seja visto, sua importância histórica é inegável. O cineasta Steven Soderbergh também tem sua visão própria do ícone, mas optou por mostrar nas telas a história do homem, não o mito.
Em seu épico de 4 horas e meia, o diretor que mais alterna superproduções e filmes autorais em Hollywood (ele vai de
Onze Homens e um Segredo a Bubble, de Traffic a Full Frontal) acompanha Che desde o primeiro encontro com Fidel Castro em 1956 até a morte na Bolívia em 1967.
É uma cinebiografia, sim, mas uma que não faz as infames concessões mercadológicas que costumam arruinar produções do gênero. Não vemos "os amores de Guevara". Não o temos um momento sequer em poses consagradas, como as famosas imagens registradas pelas lentes de Alberto Korda. Não são amenizados os crimes cometidos em nome da liberdade. Não há hiperdramatização. O Che de Soderbergh e do protagonista Benicio Del Toro (
Coisas Que Perdemos Pelo Caminho) não é uma idéia, mas um homem movido por uma.
A primeira metade do longa, que será lançado em duas partes pela inviabilidade da duração proposta, cobre, com um belo formato Scope digital e quase sem trilha sonora, os anos da revolução cubana. Batizado Che (The Argentine), o filme tem estrutura não-linear, saltando entre a turnê de Guevara por Nova York em 1964 e seu famoso discurso na ONU (gravados em preto e branco granulado), a viagem do barco Granma (que levou 82 revolucionários à ilha caribenha) e as batalhas para derrubar o regime de Fulgencio Batista. O segundo filme, Che - A Guerrilha (Guerrilla) faz uma breve recapitulação dos seis anos que se passaram desde o primeiro segmento e começa com Che chegando à Bolívia.
Apesar de contarem uma grande história, os dois filmes têm tons distintos. Enquanto o primeiro parece mais otimista e acelerado, o segundo - linear e alternando saturações de cores - é mais sombrio e contemplativo, retratando a seqüência de derrotas físicas e morais de Che e seus comandados na América do Sul. Soderbergh em alguns momentos se parece até com Terrence Malick em Além da Linha Vermelha, parando para observar o vento nas copas da árvores, os campos, as ravinas em que Che encontraria seu fim.
Tecnicamente, o filme é perfeito. O digital em alta definição (que provavelmente viabilizou o custo) funciona perfeitamente bem. Mais que isso, o filme é lindo (infelizmente, porém, a cópia que assisti tinha problemas de foco no canto esquerdo). Soderbergh superou-se não apenas como diretor, mas também como fotógrafo. E o roteiro de Peter Buchman e Benjamin A. van der Veen, inspirado nos diários do próprio Guevara, tem momentos de pura genialidade, como o final do primeiro ato, às portas da capital cubana. Capitaneado pelo inspiradíssimo Del Toro (impossível pensar em alguém melhor para o papel), o elenco eclético conta com Catalina Sandino Moreno, Demián Bichir, Rodrigo Santoro, Julia Ormond, Lou Diamond Phillips, Franka Potente e Benjamin Bratt, entre dezenas de outros. Não há pontos fracos.
Simples e honesto, Che resulta em um trabalho quase documental, contando como viveu e morreu o ícone. Se Guevara foi mesmo o "Guerrilheiro Poeta" romantizado ou um assassino que ajudou a substituir um regime por outro, cabe a cada espectador decidir.


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Os Falsários

Drama mostra grupo de judeus que falsifica dinheiro para o exército alemão durante Segunda Guerra
Marcelo Forlani/Omelete
Quantos filmes ambientados da Segunda Guerra você ainda aguenta assistir? Eu achava que tinha chegado ao meu limite quando em menos de uma semana vi
Milagre em Sta. Anna, Um Ato de Liberdade e este Os Falsários (Die Fälscher, 2007). Em comum, os longa-metragens mantêm seus holofotes em minorias que tentam sobreviver aos nazistas. No primeiro, estamos falando dos negros estadunidenses e nos outros, sobre os grandes perseguidos: os judeus. Se a temática já chegou ao seu saturamento, não sou eu que vou dizer, mas é fato que a Academia de Cinema de Hollywood continua demonstrando a sua predileção, tanto é que premiou Os Falsários com o Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro de 2008.
A estatueta não é, de maneira alguma, injusta. Os Falsários é um bom filme, drama que carrega paralelos inegáveis com a obra-prima de Steven Spielberg,
A Lista de Schindler. Não pela forma ou estética, mas pela história de uma pessoa que trabalha junto aos alemães e consegue salvar a vida dos que estavam ao seu lado. O protagonista aqui é Salomon Sorowitsch (Karl Markovics), um artista conhecido como "Sally", que prefere usar seu dom para criar dinheiro falso do que quadros. Seu lema é algo do tipo "Poderia pintar para ganhar dinheiro, mas por que fazer isso se posso fazer meu próprio dinheiro?"
Acostumado à boa vida, Sally se descuida, vai preso e acaba em um campo de concentração. Seus dotes artísticos e sua perspicácia salvam sua vida quando ele se torna o retratista dos guardas da SS - em troca de alguma imunidade e um prato extra de comida. Mas com a guerra já em estágio avançado e os cofres alemães cada vez mais vazios, Sally é transferido para Sachsenhausen, onde vai liderar para os alemães um grupo de prisioneiros com especialidades que vão de química a fotografia e artes, na confeção de dinheiro falso. Primeiro a libra esterlina e depois o dólar.
Apesar de utilizar nomes fictícios, o filme é inspirado em fatos reais, contados no livro The Devil's Workshop, de Adolf Burger, um dos artistas que trabalhou nessas oficinas de falsificação. De acordo com os dados divulgados no filme, a "Operação Bernhard", como ficou conhecida, imprimiu 134 milhões de libras, o equivalente a três vezes a reserva dos cofres britânicos, o que certamente ajudou a enfraquecer a economia do Reino Unido, mas não mudou o rumo da guerra.
O que destaca o filme dirigido por Stefan Ruzowitzky de outros tantos que são produzidos anualmente, é que ele não se preocupa apenas em ficar mostrando como sofreram os judeus durante o holocausto. Ele usa seu trabalho também para mostrar o debate ético sobre o que era mais importante naquele momento: sobreviver, mesmo que para isso eles estivessem ajudando os nazistas e consequentemente trabalhando contra seu próprio povo; ou sabotar a operação e saber que vai pagar por isso?
O filme não responde a esta pergunta, mas ajuda a solucionar a questão inicial. Ainda dá, sim, para assistir a mais filmes sobre a Segunda Guerra, desde que as histórias sejam boas e, principalmente, bem contadas.

Bastardos Inglorios

A Segunda Guerra na visão fusionista-nerd de Quentin Tarantino
Érico Borgo/Omelete
Nos videogames existem os chamados mod developers, sujeitos que pegam games existentes no mercado e interferem em seu funcionamento, dando aos jogos novas características, fundindo temas e franquias, mas quase sempre trabalhando dentro de uma estrutura funcional pré-estabelecida. De um clássico, portanto, pode surgir algo novo e que acaba tão - ou em alguns casos, mais - apreciado quanto o título original.
Quando penso no cinema de Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds) não consigo deixar de compará-lo a um mod developer - e um dos bons.
Como é habitual na cinematografia do cineasta, ele mistura linguagens, épocas e escolas - que praticamente desaparecem no resultado, tornando-se algo só dele. Dos faroestes de Sergio Leone (que já haviam inspirado Kill Bill Volume 2) vêm a inspiração para a música (Ennio Morricone está na trilha!) e a tensão nos duelos (verbais ou físicos). De John Ford ele empresta a temática da vingança, todo o "Capítulo 1" e um enquadramento arrancado de Rastros de Ódio (The Searchers, 1956). A criação do personagem Aldo Rayne (Brad Pitt) vem de atores como Aldo Ray (1926-1991) e John Wayne (1907-1979). De um obscuro filme de guerra italiano de 1978 o título do filme. Da nouvelle vague o teor do "Capítulo 3", com a Shosanna de Mélanie Laurent lembrando as personagens dos filmes de Truffaut... a lista é extensa... e tenho certeza que triplicará quando eu assistir ao filme novamente.
Tarantino, supernerd cinéfilo, apanha todas essas coisas que lhe são queridas, com as quais cresceu, e as transforma. Ele já fez isso antes muitas vezes, mas neste busca uma certa organização sutil separando os gêneros que emula através de uma organização em capítulos. São quase todos excelentes. O problema é justamente quando, superconfiante, ele deixa escapar uns arroubos pops. Normalmente eles funcionam nas mãos dele, mas aqui - é um filme de época, afinal - causam estranheza em um ou outro momento. "Cat People (Putting Out Fire)" de David Bowie na Segunda Guerra? Exagero (ainda que a cena daria um videoclipe e tanto se isolada).
A história começa na França ocupada pelos nazistas, onde Shosanna Dreyfus (Laurent) testemunha a execução de sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz merecia uma crítica à parte). Após uma introdução brilhante com uma intensa conversa entre os personagens de Denis Menochet e Waltz, a jovem consegue escapar e foge para Paris, onde cria uma nova identidade como dona de cinema. Enquanto isso, também na Europa, o tenente Aldo Raine (Pitt) inferniza ao lado de seu grupo de soldados judeus os nazistas. Conhecido por seus inimigos como Os Bastardos, o esquadrão de Raine se junta à atriz alemã e agente infiltrada Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger) em uma missão para derrubar os líderes do Terceiro Reich. E os destinos convergem para o cinema onde Shosanna está planejando a sua própria vingança.
Inteligente, ainda que mantida rigorosamente simples, a trama investe nos atores - e a direção de elenco é a melhor da carreira já celebrada por essa característica de Tarantino. E se comentei acima que Christoph Waltz merecia sua própria crítica, dedico-lhe ao menos um parágrafo. O ator austríaco não dá chance a quem quer que divida a cena com ele. Seu vilão é tão sensacional que Bastardos Inglórios torna-se, sem querer, quase como um filme do Batman, em que são os antagonistas que valem o ingresso. Brad Pitt? Bom e caricato, como o filme exige. Mas Waltz está simplesmente em outra esfera de talento.
Caricaturas, aliás, são o pão-com-manteiga do filme. É divertida a maneira como Tarantino conscientemente reduz personagens aos seus estereótipos conhecidos (o americano caipira e bruto, a francesa blasé, o inglês supereducado, os nazistas engomadinhos...) para economizar tempo em explicações e construção de personagens. O único com quem ele realmente se preocupa é, de novo, Hans Landa, e isso causou certa polêmica entre a crítica. Adorar o nazista, mesmo com o tresloucado e historicamente alucinado clímax que o filme oferece, não é algo de fácil digestão mesmo.
Também passível de discussão é a eterna "violência tarantinesca". Uns amam, outros odeiam. Considerando os filmes anteriores do diretor, achei desta vez ela até contida, deixada para poucos momentos de impacto. Mas isso por que não me importo em ver escalpos e tacos de baseball esfacelando cabeças. O cinema de Tarantino tem mesmo essa propriedade um tanto anestésica em alguns em relação à sangreira. Ele consegue transformar o "gore" em "cool" dentro de determinados públicos. Mas fica o aviso - há quem tenha criticado duramente a produção por conta disso, gente que considera Tarantino um eterno adolescente fascinado com seus brinquedos. Não é o caso desta crítica, mas consigo entender as razões dessas pessoas. Tarantino é mesmo inconsequente - mas enquanto tiver seu público cativo, formado por gente como ele, seguirá em seu mundinho. Eu, pelo menos, agradeço.