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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Che O Argentino / A Guerrilha




Steven Soderbergh busca o Ernesto de la Serna Guevara por trás do mito
Érico Borgo/Omelete
Ernesto Guevara de La Serna, o "Che": Uma das figuras mais imediatamente reconhecíveis do século 20. Uns o vêem como um exemplo, um ideal, outros como assassino romantizado. Mas, independente de como o guerrilheiro, escritor e médico argentino seja visto, sua importância histórica é inegável. O cineasta Steven Soderbergh também tem sua visão própria do ícone, mas optou por mostrar nas telas a história do homem, não o mito.
Em seu épico de 4 horas e meia, o diretor que mais alterna superproduções e filmes autorais em Hollywood (ele vai de
Onze Homens e um Segredo a Bubble, de Traffic a Full Frontal) acompanha Che desde o primeiro encontro com Fidel Castro em 1956 até a morte na Bolívia em 1967.
É uma cinebiografia, sim, mas uma que não faz as infames concessões mercadológicas que costumam arruinar produções do gênero. Não vemos "os amores de Guevara". Não o temos um momento sequer em poses consagradas, como as famosas imagens registradas pelas lentes de Alberto Korda. Não são amenizados os crimes cometidos em nome da liberdade. Não há hiperdramatização. O Che de Soderbergh e do protagonista Benicio Del Toro (
Coisas Que Perdemos Pelo Caminho) não é uma idéia, mas um homem movido por uma.
A primeira metade do longa, que será lançado em duas partes pela inviabilidade da duração proposta, cobre, com um belo formato Scope digital e quase sem trilha sonora, os anos da revolução cubana. Batizado Che (The Argentine), o filme tem estrutura não-linear, saltando entre a turnê de Guevara por Nova York em 1964 e seu famoso discurso na ONU (gravados em preto e branco granulado), a viagem do barco Granma (que levou 82 revolucionários à ilha caribenha) e as batalhas para derrubar o regime de Fulgencio Batista. O segundo filme, Che - A Guerrilha (Guerrilla) faz uma breve recapitulação dos seis anos que se passaram desde o primeiro segmento e começa com Che chegando à Bolívia.
Apesar de contarem uma grande história, os dois filmes têm tons distintos. Enquanto o primeiro parece mais otimista e acelerado, o segundo - linear e alternando saturações de cores - é mais sombrio e contemplativo, retratando a seqüência de derrotas físicas e morais de Che e seus comandados na América do Sul. Soderbergh em alguns momentos se parece até com Terrence Malick em Além da Linha Vermelha, parando para observar o vento nas copas da árvores, os campos, as ravinas em que Che encontraria seu fim.
Tecnicamente, o filme é perfeito. O digital em alta definição (que provavelmente viabilizou o custo) funciona perfeitamente bem. Mais que isso, o filme é lindo (infelizmente, porém, a cópia que assisti tinha problemas de foco no canto esquerdo). Soderbergh superou-se não apenas como diretor, mas também como fotógrafo. E o roteiro de Peter Buchman e Benjamin A. van der Veen, inspirado nos diários do próprio Guevara, tem momentos de pura genialidade, como o final do primeiro ato, às portas da capital cubana. Capitaneado pelo inspiradíssimo Del Toro (impossível pensar em alguém melhor para o papel), o elenco eclético conta com Catalina Sandino Moreno, Demián Bichir, Rodrigo Santoro, Julia Ormond, Lou Diamond Phillips, Franka Potente e Benjamin Bratt, entre dezenas de outros. Não há pontos fracos.
Simples e honesto, Che resulta em um trabalho quase documental, contando como viveu e morreu o ícone. Se Guevara foi mesmo o "Guerrilheiro Poeta" romantizado ou um assassino que ajudou a substituir um regime por outro, cabe a cada espectador decidir.


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Desinformante

Matt Damon vive um mitômano que acaba ajudando o FBI em uma investigação internacional. Ou não.
Marcelo Forlani/Omelete
No último mês, a Fórmula 1 viveu o maior escândalo de sua história: o piloto Nelsinho Piquet, da Renault, confessou ter batido propositadamente o seu carro no GP de Cingapura de 2008 para assim aumentar as chances de vitória do seu companheiro de equipe (Fernando Alonso) e, acima de tudo, facilitar a renovação do seu contrato para a temporada deste ano. O caso só veio a público depois que o piloto fora demitido da escuderia no meio do campeonato de 2009. O plano é uma engenhosa teia de mentiras que envolveu (e derrubou), além do piloto brasileiro, o ex-chefe da equipe, Flavio Briatore, e o diretor de engenharia, Pat Symonds. Não me espantaria se um dia isso virar um filme. Afinal, algo muito parecido e tornou O Desinformante (The Informant!, 2009), novo filme de Steven Soderbergh, que gira em torno de um mundo de mentiras inventadas por Mark Whitacre (Matt Damon), químico e alto executivo da empresa ADM, que lucra alto fabricando aqueles ingredientes que vemos em todas as embalagens de alimentos e não sabemos o que são.
Com muita narração em off do seu protagonista, o filme começa mostrando o dia-a-dia de Whitacre na companhia, desde o seu caminho para a fábrica até o seu escritório. Aprendemos que mesmo sem saber consumimos muitos derivados do milho diariamente. E é isso que ajuda o bigodudo e bem-nutrido personagem criado por Matt Damon a manter um Porsche e outros carros na sua garagem, além de já planejar um estábulo onde vai criar cavalos. É o início da década de 1990 e ele - assim como o milho - está no topo da cadeia alimentar.
Porém, um telefonema muda o rumo da história. É um executivo japonês conhecido de Whitacre que tem informações sobre um vírus que vem atacando a lisina produzida pela fábrica e causando prejuízos de 7 milhões de dólares por mês. O tal informante diz que sabe quem está sabotando a ADM e pede 10 milhões de dólares para dar o nome do agente duplo e uma vacina contra a tal bactéria. Em questão de minutos, o FBI está envolvido e o inocente Whitacre começa a dar com a língua nos dentes e, além de dar informações sobre o caso da chantagem, abre o jogo e conta ao agente Brian Shepard (Scott Bakula) que a ADM é uma das principais organizadoras de um cartel internacional criado para controlar o preço do milho ao redor do mundo, com ligações na Europa, América Latina e Ásia.
A trilha sonora criada por Marvin Hamlisch é cheia de "barulhinhos" e deixa claro que é uma comédia. Mas a graça demora a chegar. Não vá esperando sair do cinema com o queixo doendo de tanto dar risada. Não é este tipo de filme. O timing das piadas é diferente e o humor aqui é inteligente, que não se rebaixa a flatulências, piadas sobre sexo e ao pastelão, calcando-se apenas nas situações surreais que o protagonista se coloca a cada nova mentira e no texto afiado do roteirista Scott Z. Burns. Traduzindo, é um filme coheniano dirigido por Soderbergh.
Depois de voltar a atacar de independente em
Confissões de Uma Garota de Programa, o cineasta de Traffic, Erin Brokovich e da trilogia 11, 12 e 13 Homens e todos aqueles segredos volta ao cinema um pouco mais comercial. Seus filmes parecem ser, primeiramente, feitos para agradar a si mesmo. Se cair no gosto do público, beleza. Se não cair, vamos pro próximo. E graças a um Matt Damon que consegue mentir até para si mesmo sem perder a cara de bom moço, O Desinformante (The Informant, 2009) tem elementos suficientes para agradar a quem procura um filme diferente, divertido e cheio de denúncias sobre o mundo egoísta e ganancioso em que vivemos. Nelsinho Piquet, Flavio Briatore e Pat Symonds já têm o que fazer durante suas "férias".

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Confissões De Uma Garota De Programa

Filme reúne Steven Soderbergh, vencedor do Oscar por Traffic em 2001, e a atriz pornô Sasha Grey

Steven Soderbergh queria uma garota diferente para seu novo projeto. Encontrou o que procurava, a protagonista perfeita para Confissões de Uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience, 2009), num perfil publicado em 2006 na revista do jornal Los Angeles Times. A moça em questão tinha 18 anos e uma incipiente carreira de atriz pornô.
Alguns meses, e dezenas de filmes depois, a história era outra: Sasha Grey passou de desconhecida a estrela consagrada. Soderbergh adorou a pornstar jovem, bonita e competente que circula com igual desenvoltura tanto por sets eróticos quando pelo universo pop. Ela gosta de música, graphic novels e adora cinema. Entre seus favoritos estão Herzog, Cassavetes e Truffaut. Chegou a pensar em adotar como pseudônimo Anna Karina, nome da ex-mulher de Godard e protagonista de vários de seus filmes, como Alphaville (1965).
O diretor não pestanejou: marcou um encontro pelo MySpace e a convidou para estrelar o filme.
Essa pequena digressão se faz necessária por um motivo bastante simples. Não fosse o diretor ser quem é e a protagonista despertar tanta curiosidade, é possível que Confissões de Uma Garota de Programa passasse batido, perdido na programação de algum festival independente.
Rodado em poucas semanas, com um elenco todo formado por não-atores - a exemplo do crítico de cinema Glenn Kenny no papel do reptílico The Erotic Connoisseur -, o filme acompanha alguns dias na vida de uma garota de programa high class, vivida por Sasha.
Chelsea não é simplesmente uma moça que se pague para uma ou duas horas de sexo. Ela oferece a “experiência de uma namorada”, sutileza que o título em português fez questão de ignorar. Quando sai com um cliente, ela se veste bem, e de maneira discreta, conversa com seus acompanhantes, ouve as queixas, ri das piadas... Sexo parece ser apenas uma conseqüência.
Para ela, receber para transar é só mais uma profissão. E assim também parece pensar seu namorado. Mas essa vida aparentemente equilibrada está prestar a entrar em colapso. Chelsea se interessa por um cliente. Que se interessa por ela. Ou assim parece.
Confissões é um filme curiosamente experimental, dirigido por um cara que já ganhou um Oscar, é preciso lembrar. Meio irregular é verdade, com cenas que beiram o enfadonho, outras vividamente interessantes - especialmente para quem está familiarizado com a “outra” carreira de Sasha.
Os atores, a despeito da inexperiência, saem-se bem e como num conto moral, Soderbergh recorre à experiência do veterano ator pornô Jamie Gillis para ensinar à Chelsea, e ao público, um fato da vida: "A splendid time is absolutely not guaranteed for all", diz ele no clássico x-rated The Opening of Misty Beethoven (1976).

Cintia Bertolino/Omelete