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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Dúvida


Com muitos diálogos, filme discute temas difíceis como a pedofilia na Igreja Católica e as sutis diferenças entre fatos e impressões
Por: Rodrigo Carreiro
Um dos gêneros mais traiçoeiros para os diretores de cinema é o drama fincado em personagens, e não na ação. Com freqüência, esse tipo de filme se concentra, quase que exclusivamente, em diálogos (em algumas vezes, também monólogos). Numa época em que a dieta básica das platéias internacionais consiste em intercalar momentos mais calmos com seqüências envolvendo montagem hiperacelerada e efeitos sonoros bombásticos a cada 10 minutos de projeção, a tarefa de fisgar e manter a atenção dos espectadores em filmes mais serenos costuma ser bem complicada. Por outro lado, longas-metragens com essas características costumam ser sempre bem cotados em premiações como o Oscar, o que lhes confere um tipo diferente de valorização, por parte dos grandes estúdios.
Não é difícil explicar porque o Oscar quase sempre acaba nas mãos de diretores e produtores de filmes que põem os diálogos acima de todas as outras ferramentas narrativas. Esse gênero fílmico, afinal, está mais próximo da literatura; e na cultura norte-americana (assim como no Brasil), a literatura ocupa um patamar artístico mais nobre do que o cinema. Não deveria ser assim, mas boa parte das pessoas ainda acredita, lá no fundo, que os livros consistem em um tipo de produto artístico cujo valor intrínseco está acima dos filmes. A partir desse raciocínio, produções audiovisuais com ênfase na palavra – a mesma matéria-prima da literatura – ocupam uma posição superior na escala hierárquica cinematográfica. É por isso que filmes como “Dúvida” (Doubt, EUA, 2008) costumam atrair os melhores profissionais.
Não há dúvida de que reunir, num único longa-metragem, nomes do calibre de Maryl Streep, Philip Seymour Hoffman e o fotógrafo Roger Deakins, apenas para citar alguns, é uma façanha e tanto. Além disso, o trabalho de John Patrick Shanley apresenta evidentes ambições literárias. Aborda diretamente um tema espinhoso – a pedofilia dentro da Igreja Católica, que já rendeu polêmicas intermináveis dentro dos Estados Unidos – e, no subtexto, discute com inteligência a difícil dicotomia entre aquilo que é concreto e objetivo (os fatos) e a matéria subjetiva (as impressões) com que cada pessoa lida em seu dia-a-dia. Trata-se de um filme adulto, feito para platéias mais ou menos cultas, mas que peca pelo excesso típico em filmes que carregam o selo literário do Oscar: não confia no poder das imagens (e da sugestão), preferindo conferir às palavras a tarefa de contar a história.
Obviamente, “Dúvida” é um filme de atores. Praticamente toda a produção consiste de diálogos entre dois ou mais personagens. As cenas são bem mais longas do que o normal. Tome como exemplo a seqüência de abertura, que tem duplo propósito (apresentar o tema principal e também os personagens). Ela acontece numa missa, dentro do colégio interno onde o enredo toma forma. Nela, o padre O’Malley (Hoffman) profere um sermão sobre a dúvida. Enquanto ele fala, a rígida diretora da escola (Streep) passeia por entre os bancos da igreja, deslizando silenciosamente como um fantasma, repreendendo freiras e alunos distraídos. É um longo discurso, em que se pode perceber uma característica importante da obra: os personagens parecem ser construídos sobre velhos arquétipos narrativos. Há a freira impassivelmente rígida (a “vilã”), o padre caloroso e amigo (o “
herói”).
No meio dos dois, o cineasta John Patrick Shanley posiciona uma noviça (Amy Adams), em que repousa o
ponto de vista adotado pela narrativa. Ela teme a veterana, embora também admire sua correção; e sorve com prazer cada palavra dita pelo padre, apesar de estranhar alguns hábitos, digamos, mais amistosos que o normal para gente de batina. E é justamente após presenciar uma cena cujo significado ela não compreende que a jovem freira começa a duvidar. Ao fazê-lo, ela entra em conflito. Deve dividir esta dúvida com a superiora? Que conseqüências tal atitude poderia disparar para o padre e, principalmente, para a escola? Aos poucos, enquanto responde essas dúvidas, o diretor derruba clichês sobre os arquétipos e humaniza-os.
Com a ajuda valiosa do veterano Roger Deakins, Shanley organiza a mise-en-scéne de cada cena com habilidade. Os figurinos, o desenho de som, as cores, a iluminação e a movimentação dos atores dentro do quadro reforçam o que está sendo dito nos diálogos, mas não escondem o fato de que são as palavras que conduzem a narrativa. Tome como exemplo a trecho em que o diretor intercala os jantares dos padres e das freiras. O ambiente entre os homens é barulhento; eles bebem vinho e cerveja, fumam, contam piadas com palavrões, comem em uma mesa desarrumada, e a câmera filma tudo a partir de ângulos oblíquos, que acentuam deliberadamente esta desorganização calorosa. Os tons predominantes são marrons e vermelhos – cores quentes convidativas. As mulheres comem em silêncio sepulcral, com disciplina quase militar. Não conversam. O branco gélido domina o ambiente (elas bebem leite, a toalha da mesa é de linho branco e não tem manchas). A composição visual da tomada busca um ângulo geométrico impecável. A sensação de ordem é avassaladora.
O esforço de Shanley para criar uma mise-en-scéne elegante e elaborada, que carregue o filme para uma dimensão mais rica do que a fornecida apenas pelas palavras, é perceptível. Talvez perceptível em excesso, como se pode perceber na longa cena-chave do filme, que ocorre bem na metade da projeção, e que consiste num tenso debate entre três personagens. O que não existe, porém, é a sutileza que daria ao filme o toque imperfeito e humano, imprescindível para transformá-lo em algo mais do que uma narrativa gélida e bem articulada sobre os temas expressos pelo roteiro. Em seu favor, os personagens de “Dúvida” mostram-se mais complexos e menos maniqueístas do que sugerido pela cena inicial (e isso inclui o jovem negro que é pivô da confusão). Por outro lado, a absurda e ridícula seqüência final, que praticamente grita a “mensagem edificante” para o espectador, implode o esforço do diretor para dotar o filme desse caráter mais humano.

Desventuras Em Série


O Divirta-se, guia cultural hebdomadário do Jornal da Tarde, faz uma brincadeira com o prêmio da Academia, elegendo Oscars de Melhor homem de salto alto (Má Educação) e Melhor meninas superpoderosas (Kill Bill), entre outros. Se eles decidirem dar um Oscar de Melhor animação nos créditos finais, Desventuras em Série (Lemony Snicket´s A series of unfortunate events, 2004) com certeza será o vencedor. Aquelas letrinhas que geralmente são chatas e fazem quase todo mundo sair do cinema mesmo com as luzes ainda apagadas são mostradas aqui de uma forma diferenciada, animada. E por animada, eu quero dizer "em movimento" e não "cheio de vida e energia", afinal, este não é um filme infantil alegre. Se é algo bonitinho e com personagens cantarolantes que você quer, melhor voltar para a página de estréias da semana, ou procurar na lista de DVDs que foram lançados nos últimos dias.
Quem já leu pelo menos um dos livros da série Desventuras em série, escrita e narrada por Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), sabe que a vida não é fácil para os irmãos Baudelaire. Violet (Emily Browning, de
Navio Fantasma), Klaus (Liam Aiken, de Estrada para Perdição) e a bebê Sunny (papel dividido entre as gêmeas Kara e Shelby Hoffman) estavam na Praia de Sal quando receberam a mensagem de que seus pais haviam morrido em um misterioso incêndio que aconteceu em sua mansão. Ainda em choque, eles são levados à casa de seu novo tutor, o ator conhecido como Conde Olaf (Jim Carrey), que fará de tudo para colocar as mãos na enorme fortuna herdada pelos três.
Neste misto de drama, aventura e fantasia, o diretor Brad Silberling e o roteirista Robert Gordon conseguiram transportar para a telona um pouco do senso de humor um tanto quanto bizarro que há nos livros e ainda aumentaram o clima sombrio. Boa parte desta última característica é uma conseqüência do trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, do designer de produção Rick Heinrichs e da figurinista Collenn Atwood. Os três são parceiros recorrentes do cineasta
Tim Burton, dono de um estilo único que equilibra o bizarro e o rebuscado, como se pode ver em longas como Edwards Mãos de tesoura, Ed Wood e Peixe Grande.
Apesar de mimetizar muito bem os ambientes e situações que Burton costuma criar, fica a curiosidade de saber o que o Burton de verdade faria com este universo. Talvez a primeira coisa seria mandar embora o ótimo (mas geralmente exagerado) Jim Carrey e contratar Johnny Depp. Depp já provou inúmeras vezes que consegue interpretar papéis bem diferentes entre si e conseguiria facilmente recriar os personagens que Olaf interpreta para tentar dar cabo dos pequenos Baudelaire. Uma outra ótima saída seria manter Carrey, porém com rédeas mais curtas, domado e no seu devido lugar. Afinal, as crianças deveriam ser as estrelas da série, mas o barulho feito pelo Conde Olaf de Carrey é tão alto que abafa qualquer ruído feito pelos sempre bem-educados órfãos, que por isso continuam em perigo durante todos os 108 minutos da fita.
Participações especiais em série
Mas Jim Carrey não é o único famoso do grupo. Para os papéis dos tios Monty e Josephine, foram chamados Billy Connolly (
Linha do tempo, O último samurai) e Meryl Streep (As horas, Adaptação). Quem empresta voz e perfil para narrador Lemony Snicket é Jude Law (Alfie, o sedutor, Perto demais). O guardião dos direitos dos meninos é Timothy Spall, de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e Agora ou nunca. E, para simplificar a lista, vale dizer também que Dustin Hoffman aparece rapidamente no papel de um crítico de teatro.
Porém, quem merece mesmo os créditos são as crianças, que estão ótimas. Logo na apresentação, já ficamos sabendo que Violet, de 14 anos, é a inventora da família e que quando ela prende suas madeixas com a fita, é porque está pensando em algo e não quer que uma coisa boba como um cabelo no rosto a atrapalhe. Klaus, dois anos mais novo, passa horas na biblioteca da família e consegue absorver todas as informações pelas quais já passou seus olhos. No entanto, a mais carismática é mesmo Sunny, cujo único dom até o momento é que ela gosta muito de morder as coisas. Qualquer coisa. Ah, e ela ainda não fala... pelo menos não a nossa língua. Mas não se preocupe com isso, pois até mesmo os seus grunhidos são legendados.
Desventuras em série se tornou um enorme sucesso literário porque apesar de ser feito para crianças não é infantil. E isso o filme conseguiu captar muito bem. Apesar das bocas e caras de Carrey, que podem causar caretas em alguns adultos, trata-se de uma aventura tão ou mais interessante que Pequenos espiões e Harry Potter. O motivo é simples: ao contrário do que acontece na história, Daniel Handler, ou Lemony Snicket, ouve as crianças e por isso mesmo, não as trata como seres não pensantes. Seria tão bom se os filmes nacionais voltados aos pequenos seguissem esta mesma trilha...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Leões e Cordeiros


Drama ataca a política beligerante de George W. Bush dando muita importância à palavra e pouca à imagem
Por: Rodrigo Carreiro

Não é novidade para ninguém que a maioria dos atores e diretores que trabalham em Hollywood tem posição política liberal, e apresenta afinidade com as idéias do Partido Democrata. Se os atentados de 11 de setembro de 2001 fizeram a turma politizada esquecer as divergências e apoiar cegamente o presidente republicano George W. Bush, a invasão ao Iraque em 2003 fez as coisas retomarem o rumo habitual. “Leões e Cordeiros” (Lions for Lambs, EUA, 2007), que marca o retorno de Robert Redford à direção após um hiato de sete anos, é um drama político que ataca a política externa beligerante de Bush, mas não de maneira aberta. O filme convida setores apolíticos a assumir uma postura crítica diante do assunto, e bate abertamente na juventude e na mídia, chamando-os respectivamente de acomodada e covarde.
Há muito de verdade e inteligência na análise política levada a cabo por Robert Redford, mas nenhuma das duas qualidades faz um filme ser realmente bom. É o caso de por “Leões e Cordeiros” – e olha que o longa tem a palavra Oscar carimbada por todos os lados. Além de levar a assinatura de um dos veteranos mais queridos da indústria cinematográfica, traz no elenco dois nomes de prestígio junto ao público adulto, cujas preferências servem como referência para a Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Tom Cruise e Meryl Streep, aliados ao próprio Redford, dão credibilidade e respeito ao projeto, que marca ainda a estréia da gestão de Cruise no estúdio United Artists, no que não deixa de ser um passo bastante arriscado por parte do galã dublê de empresário. Afinal de contas, trata-se de uma obra sem potencial de bilheteria, por mirar em um público muito urbano, muito liberal e muito velho para os padrões da indústria do cinema.
Embora seja curto e direto, “Leões e Cordeiros” é um filme exaustivo e pouco cinematográfico, porque dá muita importância à palavra, e pouca à imagem. Praticamente sem nenhuma cena de ação, é inteiramente construído com base em longos diálogos, tão evasivos quanto inteligentes. Dois terços do enredo se passam dentro de gabinetes e consistem em personagens conversando. Os diálogos, a cargo do roteirista Matthew Michael Carnahan, são espirituosos e bem construídos. Apesar disso, e de contar na equipe com o ótimo e oscarizado fotógrafo Philippe Rousselot (parceiro habitual de
Tim Burton, e isso já diz tudo), Redford cai na armadilha de filmar tudo no exaustivo e habitual esquema do plano/contra-plano, o que torna a experiência bastante cansativa para o espectador. Se você desconhece o contexto político dos Estados Unidos, pior ainda. Corre o risco de achar tudo meio chato e incompreensível.
Curiosamente, a estrutura narrativa é compacta. São três histórias aparentemente independentes que acontecem simultaneamente e vão sendo contadas de forma alternada, em uma longa montagem paralela. Aos poucos, o espectador vai descobrindo as ligações entre as três histórias. Em Washington, um jovem e ambicioso senador republicano (Tom Cruise) tenta convencer uma repórter veterana (Meryl Streep) a publicar matéria sobre a nova estratégia dos militares norte-americanos no Afeganistão. Enquanto isso, nas montanhas geladas afegãs, uma patrulha de soldados realiza a primeira incursão ao país inimigo dentro desta nova estratégia. No mesmo horário, do outro lado do país, um professor universitário (Robert Redford) tenta convencer um aluno promissor (Andrew Garfield) a se aplicar mais nos estudos.
Assumindo sem medo um tom verborrágico e panfletário, Redford não cai na tentação de tornar o drama menos político e mais humano. Tal decisão significaria desenvolver melhor os personagens, mas destruiria aquilo que o filme tem de melhor: a tensão do relógio, o andamento em tempo real, o clima de urgência que se estabelece igualmente em três frentes distintas. O diretor veterano mostra coragem ao criticar abertamente o desinteresse, o egoísmo e a ignorância da juventude contemporânea. Também compra briga com a mídia, afirmando que os grandes jornais e redes de TV têm parte da culpa do fracasso americano no Iraque, por ter apoiado (ou no mínimo se esquivado de criticar) os planos da invasão ocorrida em 2003.
Embora os disparos contra a postura militarista dos Estados Unidos após o ataque terrorista em Nova York não sejam novidade no cinema (vide “
Fahrenheit 11 de Setembro”), “Leões e Cordeiros” contribui para adicionar duas novas abordagens críticas ao contexto social em que aconteceram as reações dos EUA à agressão de 2001. Por outro lado, as críticas aos bastidores da política externa, assumindo que ambições individuais e partidárias sempre estiveram acima do conceito de nação, não trazem novidade alguma a quem acompanha o problema de perto. “Leões e Cordeiros” têm o mérito de abrir um debate político importante sobre os Estados Unidos e sua política externa, mas o excesso de diálogos e a pobreza estética o comprometem como espetáculo cinematográfico.