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sábado, 21 de novembro de 2009

Apocalypse Now


"Apocalypse Now" de Francis Ford Coppola (baseado no livro de Joseph Conrad) é desses filmes que surgem a cada 20, 30 anos tamanha é sua genialidade, portanto, se você ainda não viu o filme (você é um dos poucos!!) não perca essa oportunidade (o DVD da versão "Redux" está nas locadoras - alugue, adiante a seqüência dos franceses que foi incluída e assista ao resto com a maior atenção do mundo).
Tudo neste filme é espetacular a começar pelo nome que é excelente. Existem lá certas pessoas que dizem que o final é fraco (eu li algum crítico dizendo isso) e a esse respeito só posso dizer que a insanidade foi além do filme e atingiu certos críticos. Também existem umas poucas pessoas que consideram "Nascido Para Matar" (de Stanley Kubrick) como um filme superior, mais uma vez, a insanidade paira no ar. Ok, isso dito, vamos a obra prima.
"Apocalypse Now" (totalmente injustiçado pelo Oscar - levou apenas dois prêmios - fotografia e som) é muito mais do que um filme de guerra, é um filme sobre a influência que uma guerra gera nas pessoas, sobre o quão despropositados são os atos cometidos em uma guerra, é um filme surreal e - por mais contraditório que seja - ao mesmo tempo cruelmente real...
O filme de Coppola se passa no Vietnã - mas poderia se passar em qualquer outra guerra - e é lá que o Capitão Willard (Martin Sheen - que teve um famoso ataque cardíaco durante as filmagens nas Filipinas - os bastidores da complicada filmagem são um filme a parte - atrasando assim, a produção de um filme que era visto por todos como uma loucura de Coppola) é encarregado de encontrar (e exterminar) o renegado Coronel Kurtz (Marlon Brando) que enlouqueceu e fundou uma seita no meio da selva.
Desde a primeira seqüência do filme dá pra perceber a genialidade (estou voltando a essa palavra por não conseguir pensar em outra melhor...) pela qual Coppola e todo elenco estavam tomados durante as filmagens. A cena, com Martin Sheen bêbado no quarto, a música do Doors, o som dos helicópteros se confundindo com o som do ventilador de teto é simplesmente espetacular, e daí em diante não há um só momento de "Apocalypse Now" que não seja sensacional (não custa repetir que na versão "Redux" a maior seqüência incluída - a dos franceses - não condiz com o resto do filme, portanto se você assistir a essa versão, esqueça a seqüência citada).
Um dos pontos altíssimos do filme é o personagem de Robert Duvall, o coronel surfista Bill Kilgore, que é (mais uma vez) genial (na versão "Redux" o personagem de Duvall ganha mais espaço para mostrar as suas maluquices). É dele a mais famosa frase do filme "adoro o cheiro de napalm pela manhã" e também se deve a ele uma das mais surreais seqüências de "Apocalypse Now", aquela em que ao som de "A Cavalgada das Valquírias", de Wagner, helicópteros americanos atacam uma vila vietcongue.
Outro ótimo personagem é o seguidor alucinado do Coronel Kurtz feito por Dennis Hopper (que à época das filmagens vivia envolvido com drogas e eu arrisco dizer que a loucura vista na tela vai além de uma grande interpretação).
Além das ótimas atuações de Duvall e Hopper o filme ainda tem Marlon Brando - sempre envolto por sombras na versão original (foi uma exigência do ator que começava em 79 a ganhar as formas arredondadas de hoje) e aparecendo no claro na versão "Redux" - que compõe o insano Coronel Kurtz magistralmente. Sem esquecer de Martin Sheen excelente - inesquecível a cena em que ele levanta da água. (ainda temos no filme Laurence Fishburne - adolescente - como um dos soldados que parte em missão com o Capitão Willard e uma rápida aparição de Harrison Ford).
Contando com excelentes interpretações, direção excepcional e uma fotografia de chorar de tão boa (de Vittorio Storaro), "Apocalypse Now" é um filme estarrecedor e extremamente complexo, absolutamente obrigatório a todo fã de cinema. É sem dúvida um marco da sétima arte e dificilmente será superado algum dia.

http://www.cinepop.com.br/criticas/apocalypse.htm

A Conversação



Pequeno projeto pessoal de Coppola é thriller de espionagem genial e maravilhoso estudo de personagem
Por: Rodrigo Carreiro

Francis Ford Coppola estava na crista da onda em 1974, pouco depois de ter lançado o fenomenal “O Poderoso Chefão”, e alcançado estupendo sucesso de crítica e público. Ao mesmo tempo em que preparava o segundo volume da trilogia, um longa-metragem que muita gente considera melhor do que a saga anterior dos Corleone, o cineasta ítalo-americano acalentava um pequeno thriller de espionagem que seria, também, um maravilhoso estudo de personagem. “A Conversação” (The Conversation, EUA, 1974) não fez muito sucesso, mas permanece na memória de muitos cinéfilos como um dos trabalhos mais fascinantes de Coppola.
O diretor, que também escreveu o roteiro, diz que a inspiração do thriller veio do fato que deu partida ao escândalo de Watergate, quando espiões foram pegos tentando instalar escutas clandestinas na sede do Partido Democrata, em época de
eleição (para mais detalhes sobre o caso, assista ao sensacional “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula). Enquanto os jornalistas investigavam os políticos por trás da espionagem, Coppola ficou pensando como seria a consciência daqueles espiões, pagos para escutar conversas alheias.
Das ruminações de Coppola nasceu Harry Caul (Gene Hackman), um personagem fascinante. Trata-se, claro, de um espião profissional. Um dos melhores, verdadeira lenda no círculo dos detetives particulares. Como conseqüência da profissão que abraçou, Caul é um homem profundamente solitário. Sua única diversão é tocar saxofone, mas ele não tem uma banda; acompanha seus discos prediletos de jazz, tentando preencher os espaços entre os solos lancinantes de Miles Davis. Visita freqüentemente uma prostituta, sente ciúmes dela, mas não se permite uma ligação mais profunda.
A primeira seqüência do filme, uma genial tour-de-force de fotografia e edição de som, mostra como Harry Caul é talentoso naquilo que faz. A cena abre com uma ampla tomada de uma praça cheia de gente. Há um lento zoom, até que a câmera focaliza Harry no meio da multidão. Ele e alguns empregados estão utilizando um método revolucionário de múltiplos microfones para gravar a conversa de um jovem casal. Outro espião teria dificuldades para cumprir a tarefa, mas não Harry. Mais tarde, ele opera três gravadores e consegue editar uma fita limpa, com a íntegra da conversa. Trabalho de gênio.
No entanto, o diálogo que emerge das fitas deixa Caul encucado. Ele foi contratado por um executivo (Robert Duvall) para provar que a esposa (Cindy Williams) está lhe traindo com um empregado bonitão (Frederic Forrest). Pelo papo que ouve, Harry acha que a conversa da fita pode significar que o empresário vá matar a mulher. O detetive é um homem católico, que carrega tremenda culpa por ter provocado, durante um trabalho realizado alguns anos antes, a morte de outro casal. Ele teme que possa acontecer novamente. Assim, a fita lhe traz um sentimento ambivalente: orgulho pela perfeição do trabalho, e medo do que pode acontecer a partir dele. A situação dispara um processo de
paranóia que foge do trabalho e se instala na vida pessoal do espião.
A narrativa de “A Conversação” se alterna entre a vida e o emprego de Harry Caul. Se no último ele é metódico e organizado, na primeira é o inverso. Sua vida pessoal é uma bagunça. Harry é um homem atormentado, sozinho, vulnerável. Tenta manter-se a todo custo numa redoma, mas fracassa miseravelmente: os proprietários do apartamento possuem a chave de lá, tanto clientes quanto amigos têm o número do telefone que ele pensa ser secreto, e a correspondência que chega à casa dele é seguidamente aberta. De forma magnífica, Coppola filma o momento de fusão entre a privacidade e a vida pública de Harry Caul, duas partes de sua existência que ele tentava a todo custo manter compartimentadas.
Desta forma, o cineasta cumpre com louvor a tarefa de realizar um duplo filme: um belíssimo e complexo estudo de personagem, e um thriller inteligente e cheio de tensão. A atuação de Gene Hackman – sutil, silenciosa e cheia de nuances – ajuda muito neste objetivo, mas há muitos outros pontos altos: o elenco coadjuvante sensacional (John Cazale, como em “Um Dia de Cão”, rouba a cena), a maravilhosa trilha sonora pontuada por linhas minimalísticas e melancólicas de piano, e o final ambíguo e surpreendente. Em resumo, um filmaço.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/conversacao-a/

O Poderoso Chefão 2



Seqüência do épico mantém a unidade estética e temática do anterior, ampliando o escopo em alguns pontos
Por: Rodrigo Carreiro

A pergunta óbvia de quem deseja se informar sobre “O Poderoso Chefão 2” (The Godfather: Part II, EUA, 1974): é melhor do que o primeiro? Pois bem, não dá para saber. As preferências dos cinéfilos se equivalem. A única resposta objetiva possível é que se trata de um filme maior, porque tem 20 minutos a mais. Melhor ou pior, não importa; importa que é sensacional, sim, e mantém a unidade estética e temática do anterior, ampliando o escopo em alguns pontos e tecendo uma teia complexa de relações que já não era fácil de acompanhar. Além disso, marca uma característica interessante da trilogia, que será aprofundada de maneira definitiva na terceira parte – o uso de fatos históricos reais que são penetrados pela ficção.
Boa parte da trama de “O Poderoso Chefão 2” se passa em Cuba, para onde Michael Corleone (Al Pacino) viaja, junto com o irmão Fredo (John Casale), a fim de fechar um negócio importante. Após assumir em definitivo o lugar deixado vago pelo pai, e eliminar concorrentes, Michael transformou a família Corleone na mais poderosa máquina mafiosa dos EUA. Agora, ele deseja mudar a base geográfica, transportando tudo para a Califórnia (EUA), além de diversificar os negócios – investindo em jogos de azar, em ações de empresas multinacionais e na política – e, finalmente, legalizá-los. Para isso, precisa administrar problemas familiares com os irmãos Fredo e Connie (Talia Shire) e com a mulher Kay (Diane Keaton).
Essa é a trama número 1 do filme, mas existe outra, cronologicamente anterior: a saga de Don Vito Corleone (Robert De Niro), de imigrante italiano que chega aos EUA sem um tostão a homem poderoso do
submundo nova-iorquino. Via de regra, o filme salta de uma história para outra a cada 20 minutos. A montagem é bem feita, mas é também o ponto fraco da película, pois não há simetria entre as duas histórias. Coppola teve problemas com a opção pela montagem paralela. Chegou a modificá-la, após uma exibição-teste em que recebeu muitas críticas por ter fragmentado demais as duas histórias. Por isso, combinou-as em intervalos regulares mais longos. Funciona, OK, mas não é fluido e perfeito como na parte 1 da trilogia.
Se não existe simetria nas duas histórias, essa qualidade está presente quando os dois filmes são colocados lado a lado. Como na produção anterior, Coppola inicia “O Poderoso Chefão 2” com uma festa. Há um atentado contra Michael, e em seguida o filme o mostra se dedicando aos negócios. Embora o enredo seja complicado e inteligente, Coppola faz um trabalho brilhante ao mostrar como Michael, ao tentar proteger os Corleone da única maneira que sabe, acaba se afastando cada vez mais da família – dos irmãos e da esposa Kay (Diane Keaton) – sem poder reverter o processo. Para proteger quem ele ama, Michael precisa se afastar deles. Novamente, este é o grande tema do filme: o amor pela família.
“O Poderoso Chefão 2” é, de fato, a fachada de Michael: impassível, poderosa, resoluta. Ele aparenta ser um homem de aço, que nunca hesita. A experiência o transformou em expert no jogo político, o jogo das aparências. Mas é apenas fachada. No íntimo, Michael é um homem torturado, amargo e, claro, hesitante. Só que esse é um Michael que jamais conseguimos vislumbrar. Talvez esteja aí o truque supremo de Coppola: ele filma “O Poderoso Chefão 2” do
ponto de vista de Fredo e Connie, colocando a platéia na mesma posição dos irmãos do grande chefe. Os dois vêem tudo acontecer, e pensam que entendem o que estão vendo, mas na verdade nunca conseguem ir além do jogo de aparências, e só compreendem de fato os acontecimentos depois que eles viram passado.
No elenco, o grande destaque é Robert De Niro, que recebeu um dos seis Oscar destinados à produção. De Niro se mudou para a Sicília, estudou italiano (a maior parte dos diálogos dele é travada nessa língua) e até modificou a voz, passando a utilizar uma entonação rouca, que se aproxima do sussurrar de Marlon Brando no primeiro filme. Sua postura altiva e silenciosa, de olhos penetrantes e às vezes melancólicos, nos faz acreditar que ele é mesmo a versão jovem do velho Vito. Quanto a Al Pacino, a verdade é que a magnética interpretação conseguida no primeiro filme facilita o trabalho, e nos faz acreditar que ele é Michael Corleone, e não um ator interpretando. Resumindo, é perfeito.
Outro destaque é a fotografia assombrosa de Gordon Willis, que vai ainda mais fundo no uso do contraluz e faz algumas tomadas inigualáveis com o uso da sombra. Anos mais tarde, ele se mostraria arrependido por radicalizar tanto nos contrastes claro/escuro – há tomadas em que praticamente só se consegue vislumbrar o branco nos olhos dos personagens –, mas o resultado final é realmente único, e belíssimo; algumas tomadas parecem quadros de
Caravaggio. A reconstituição de época de Dean Tavoularis, que preparou alguns quarteirões de Nova York para filmar o trecho com De Niro em locação, também impressiona pela perfeição. Para completar, há mais uma galeria de cenas inesquecíveis, incluindo o primeiro assassinato de Vito (a mão de De Niro pegando fogo talvez seja a imagem mais forte do filme), uma discussão incrivelmente realista entre Michael e Kay e, claro, o epílogo sombrio exibido sob o som de uma oração. Lindo, lindo, lindo.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/poderoso-chefao-2-o/

O Poderoso Chefão


Primeira parte da trilogia tem mais momentos inesquecíveis do que qualquer outro filme da história do cinema
Por: Rodrigo Carreiro

A simples menção ao título do filme “O Poderoso Chefão” (The Godfather, EUA, 1972) traz à mente de qualquer cinéfilo a imagem, inesquecível, de um Marlon Brando com bochechas estofadas por bolas de algodão e olhar flutuando entre o insolente e o melancólico. A associação entre título e personagem é feita pelo próprio diretor do filme, Francis Ford Coppola, na seqüência de abertura da obra, que o apresenta à audiência: um comerciante pede um favor ao “padrinho” (a tradução literal do título original), leva uma reprimenda e, humildemente, beija a mão de Brando. Ele é mesmo um poderoso chefão. Mas o título também faz referência, talvez não intencional, ao personagem de Al Pacino. Porque é a trajetória de Michael Corleone, e não a do Don Vito de Brando, que a platéia vai acompanhar nos gloriosos 171 minutos desta obra-prima.
“O Poderoso Chefão” dispensa comentários. O empresário interpretado por Tom Hanks na comédia “Mens@gem Para Você” resume tudo: “O Poderoso Chefão é o I Ching, a soma de todos os conhecimentos, a resposta para todas as perguntas”, diz ele. A mística em torno da obra é tão grande que os milhares de usuários do maior banco de dados sobre cinema do planeta, o Internet Movie Database (IMDB), elegeram este o melhor filme da história do cinema. Quando o fizeram, certamente estavam pensando em Brando ou Pacino, já que ambos oferecem dois dos maiores desempenhos de atores que podem ser vistos em filmes.
Pacino é Michael Corleone. Herói de guerra, Michael é claramente o filho favorito de Don Vito Corleone, chefe de uma das famílias mafiosas mais poderosas dos EUA. Ele é tão favorito que foi criado para ser o homem honesto do clã. Michael é um peixe fora d’água quando está com o pai e os irmãos, algo que Coppola genialmente traduz em imagem no momento da foto oficial do casamento de Connie (Talia Shire), a festança que abre o filme. Todos mundo lá usa trajes de gala, com ternos e gravatas negros, camisas brancas e sapatos brilhando de novos. Michael veste a característica farda verde-oliva dos militares em serviço. Ele é diferente.
Como foi dito antes, “O Poderoso Chefão” não é sobre Don Vito. É sobre Michael. Ou melhor, é sobre o amor. Parece estranho? Pois observe com atenção a trajetória de Michael. O homem honesto e tranqüilo, que quer distância dos negócios escusos da família Corleone no início do filme, transformou-se um tenso e furioso chefe mafioso no final. Qual o motor de tamanha transformação, senão o amor pelo pai, ou em última instância pela família? Sim, o amor pode tudo. É chavão, mas é verdade, e Coppola prova isso contando uma história impossível com tamanha graça e habilidade que ela se torna não apenas possível, mas absolutamente natural.
Impressionante é saber que o cineasta conseguiu um resultado tão sublime regendo uma orquestra cinematográfica em pleno caos, pois a produção foi cercada de conflitos e contratempos. Um exemplo: se dependesse dos estúdios Paramount, que financiavam a obra, o papel de Michael Corleone nunca teria ficado com Al Pacino. Este era apenas um desconhecido ator de teatro em 1972. Os executivos queriam uma estrela, de preferência um galã louro (?), como Ryan O’Neal ou Robert Redford. Pior: desejavam transportar a ação da década de 1940 em Nova Iorque para a Kansas City dos anos 1970. Ainda por cima, embirraram com o nome de Marlon Brando, que consideravam um arruaceiro, para o papel-título.
Na verdade, a Paramount havia comprado os direitos do livro e escalado Coppola para dirigir a
adaptação quando o romance de Mario Puzo ainda era um manuscrito. Depois de publicado, o livro viu as vendagens explodirem. Aí o estúdio quis mudar de diretor, mas Coppola já estava em pleno processo de pré-produção. O que se viu, a partir de então, foi puro terrorismo psicológico. Os executivos obrigaram o cineasta a fazer testes com vários atores para o papel de Michael, pois não aceitavam Pacino. James Caan (escalado para interpretar o irmão Sonny), Martin Sheen e Robert De Niro fizeram testes. Coppola bateu o pé. Aí, os mesmos executivos compareciam às gravações apenas para dar risadas de deboche enquanto Al estava gravando. Chegaram mesmo a colocar um diretor reserva nos sets. Diziam, então, que ao menor sinal de vacilo demitiriam o jovem cineasta ítalo-americano.
Os deuses do cinema, com uma mãozinha do produtor Robert Evans (que comandava o estúdio e gostava de apostas arriscadas), mostraram que Copolla estava certo. Permitiram não apenas que o diretor escalasse um elenco de sonhos (de Diane Keaton a James Caan, passando por Talia Shire, cada um dos 21 intérpretes de personagens importantes está perfeito em seu papel), mas também incluíram uma galeria impecável de profissionais atrás das câmeras. O diretor de fotografia, Gordon Willis, deu o toque final de perfeição à obra-prima, criando uma fotografia em tom dourado tão severamente escura e pesada que lhe deu o apelido de “Príncipe das
Sombras” – e se transformou em referência para todo e qualquer filme de máfia rodado a partir dali.
“O Poderoso Chefão” é uma sucessão ininterrupta de seqüências primorosas, dessas de deixar cinéfilo salivando: o casamento de Connie, o atentado na barraca de frutas, o duplo assassinato no restaurante, o ataque cardíaco na plantação de tomates, a surra no meio da rua, o tiroteio no pedágio, sem falar do batizado que encerra o filme, com uma montagem paralela espetacular que marca o clímax da produção. A primeira parte da trilogia de Coppola tem mais momentos inesquecíveis do que qualquer outro grande filme da história do cinema (com a possível exceção de “
Cidadão Kane”). Ou seja, é material para se ver e rever muitas vezes.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/poderoso-chefao-o/

Caminhos Mal Traçados


Esta obra do jovem Francis Ford Coppola, que eu não conhecia nem de ouvir falar, é um dos primeiros longa-metragens dele como diretor. Antes, ele havia feito Agora Você é um Homem/You’re a big boy now (também com a mesma boa atriz, Shirley Knight, uma comédia sobre o início da influência da contracultura, uma espécie de versão nova-iorquina de A Primeira Noite de um Homem/The Graduate), e O Caminho do Arco-Íris/Finian’s Rainbow (em que resolveu se aventurar no musical, com o já velho Fred Astaire e a cantora inglesa Petula Clark). Neste aqui, de 1969, Coppola se antecipa em três décadas aos road-movies feministas, Thelma & Louise e os demais.
Na primeira cena do filme, Shirley Knight está acordada na cama, de madrugada, em Long Island, enquanto o marido dorme. Está grávida, saberemos mais tarde. Não sabe se quer ter o filho, mas sabe que não quer ser dona de casa. Levanta-se cedinho, passa na casa dos pais para avisar que está indo embora, e bota o pé na estrada, sem rumo, sem direção, sem saber o que quer.
Interessante. Outro dia, numa entrevista (este texto é de 1996), o Coppola disse que está fazendo filmes que espera que tenham sucesso, para depois fazer um filme pessoal, written by Francis Coppola, como os filmes de Woody Allen e Martin Scorsese. Este aqui é written by um muito jovem Francis Ford Coppola. Tem os defeitos da juventude, mas tem também as vantagens dela – ousadia, fuga dos esquemas – e já a marca de gênio.Leonard Maltin notou que “o tema estava anos à frente de seu tempo”. E Pauline Kael escreveu que o filme de fato é pouco conhecido.