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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Amor Sem Escalas


Quem não sabe que Amor Sem Escalas (Up In The Air, 2009) é uma adaptação de um livro lançado em 2001 pode achar que filme é datado, criado para este momento de crise econômica. Nada mais justo, afinal seu protagonista é Ryan Bingham (George Clooney), um Conselheiro de Transições de Carreira. Resumindo, ele é um executivo contratado por empresas desesperadas que precisam mandar pessoas embora, mas não têm coragem de sujar suas mãos e fazer isso elas mesmas. Ele é o cara que vai chegar sem ser anunciado, se sentar numa sala reservada e começar a chamar as pessoas que serão dispensadas. As reações, claro, vão do desdém ao desespero, passando por choro e ameaças de morte.
O atual cenário financeiro realmente deixa o filme bastante atualizado, mas ela é apenas pano de fundo para algo completamente atemporal: o comportamento humano. Depois de anos fazendo este trabalho, Bingham desenvolveu técnicas eficientes. Em sua mente já há um roteiro do que fazer em cada situação com respostas prontas e bem ensaiadas. Tudo para tornar o processo o mais humano possível, mostrando ao recém-desempregado que ele pode aproveitar aquele momento triste e tirar proveito para mudar sua vida, recomeçar. A cara de cachorro abandonado que Clooney faz ao levantar suas sobrancelhas e a sua voz sussurrada são ideais para o papel (e para manter as mulheres apaixonadas por ele).
Viajando de um lado para outro dos Estados Unidos, revezando check-ins de aeroportos e hotéis, Bingham tornou-se metódico e impessoal (suas dicas de como sobreviver em aeroportos valem ouro!). Seu único hobby é acumular milhas. Aliás, mais do que um hobby, é uma obsessão. Não há uma azeitona que não vire milhagem. Suas experiências na estrada serviram também de inspiração para uma palestra motivacional para outros executivos. Nela, Bingham prega que você deve viver apenas com aquilo que não é um peso em seus ombros, deixando de lado até mesmo família, amigos e casa.
Porém, duas mulheres entram em suas vidas. Quem vem primeiro é Alex (Vera Farmiga), uma versão de saias do próprio Bingham, que passa mais tempo viajando do que na sua casa, em Chicago. Igualmente sem comprometimentos, os dois abrem seus notebooks e começam a agendar encontros entre voos e trocar mensagens pelos seus blackberries. A outra é Natalie (Anna Kendrick), uma jovem recém-saída da faculdade que chega para implementar um sistema que possibilita demitir as pessoas usando videoconferência, um toque ainda mais impessoal ao processo.
Isso é tudo o que o diretor Jason Reiman (Juno, Obrigado Por Fumar) e o roteirista Sheldon Turner precisam para começar a mostrar os sentimentos escondidos (ou deveríamos dizer controlados?) do seu protagonista. Com Alex, Bingham revisita sua infância e acaba em um casamento. Com Natalie, mostra todo o seu profissionalismo que no início se confundia com uma falta de humanidade.
O título nacional pode dar a impressão de uma comédia romântica. Mas Amor Sem Escalas é mais do que isso. Há, sim elementos cômicos e algum romance no ar, mas há também toda a dramaticidade que vem de carona no emprego de Bingham. Pode até não ser o filme da sua vida, mas é um filme que certamente vai te fazer parar e pensar no que você está fazendo com sua vida.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Fantástico Sr. Raposo


Wes Anderson reafirma temas e estilos em sua primeira animação infantil
19/10/2009Marcelo Hessel
Não há norma de conduta que impeça muitos dos personagens de Wes Anderson de serem o que são. Em Três é Demais, Max Fischer realmente acha que pode namorar a professora, apesar da diferença de idade. Em Os Excêntricos Tenenbaums, Margot larga o marido de repente porque nunca deixou de amar o irmão. Em A Vida Marinha com Steve Zissou, o oceanógrafo está determinado a matar um peixe raro, por vingança. São tipos que não negam sua natureza, e é essa honestidade torta que nos cativa.
"Quem sou eu?", pergunta-se o Sr. Raposo em O Fantástico Sr. Raposo, o primeiro filme animado e infantil de Anderson, adaptação da fábula Raposas e Fazendeiros, de Roald Dahl. O Sr. Raposo tem esposa e filho e trabalha em um jornal. Preocupa-se com o mercado imobiliário. Conversa com seu advogado. Em certa cena, toma café da manhã, com sua camisa branca de mangas curtas e gravata listrada; daí quando a Sra. Raposa coloca uma pilha de panquecas na frente dele, o Sr. Raposo trucida nacos da comida em dois segundos, como se tivesse perdido a razão. Como se não fosse gente.
A cena espanta pelo vigor, pela violência até, mas teoricamente não deveria - quando o personagem sorri, mostrando inteiras duas fileiras de dentes, vemos que os caninos sobressaem... Estamos falando de uma raposa, afinal. A ironia e a graça do filme é que, diante do antropomorfismo exacerbado, que transforma bichinhos peludos em adultos com crises existenciais, o que está em discussão é justamente o direito deles de serem... animais.
Ou seja, à moda de Wes Anderson, estamos, de novo, diante de um herói ao encontro de sua natureza. No caso, o Sr. Raposo uma hora percebe que a única coisa que o completa é caçar a cria dos vizinhos. Nem seria preciso dizer, mas O Fantástico Sr. Raposo tende a agradar mais os fãs do cineasta do que o seu suposto público alvo. Há muita correria no filme, algumas situações cômicas "fáceis", para a criançada, mas ele não deixa de ser típico - o Sr. Raposo lembra Royal Tenenbaum, o Raposo Filho é um loser convencido como Max Fischer, e no final rola até uma epifania à la tubarão-jaguar.
O que a animação em stop-motion adiciona, então, à filmografia de Anderson? Digamos que ela simultaneamente potencializa e desnuda muitos dos tiques de linguagem do diretor. Aliás, A Vida Marinha já era assim, como um ensaio aberto, um constante making-of, com atores que literalmente esperavam parados no canto do quadro a ordem para se mover. O diretor parece, a todo momento, querer dividir seus métodos conosco - nem que seja, como em A Vida Marinha, flertando com a autosabotagem da encenação. Em O Fantástico Sr. Raposo é um pouco assim também.
Com o stop-motion, Anderson não só amplifica seu gosto pelo cinema tableau (os enquadramentos geométricos cheios de referências pelos cantos agora são pensados em miniatura e frame a frame) como também, ao truncar a fluência da animação, para deixá-la com cara artesanal, permite-nos enxergar seu artificialismo. Os close-ups nas lágrimas falsas das raposas e nos pêlos do rosto que se movem um a um são de um descaramento... O cinema de Wes Anderson é só pose, você diz? E o que é o stop-motion senão poses?
Da mesma forma como Anderson traz para a premissa um tema que antes era apenas subtexto em seus trabalhos (a questão da natureza incontornável dos personagens), O Fantástico Sr. Raposo também escancara a opção do diretor de buscar a sua verdade via artifício. O que ele está fazendo sempre, e ainda mais visivelmente aqui, é ir ao encontro de sua própria natureza.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Confissões De Uma Mente Perigosa


"Cool" é uma expressão da língua inglesa que é muito usada para destacar algo ou alguém que é muito legal, descolado, acima da média, excepcional, estiloso, obrigatório. Esta palavrinha de apenas quatro letras (três, na verdade, se levar em consideração que uma delas se repete) vem sendo falada há tanto tempo que ninguém sabe ao certo quando começou. Alguns relatos dizem que foram os negros, que começaram a usá-la na década de 30, mas que a popularização veio mesmo com os jazzistas dos anos 40 e que a 2ª Guerra Mundial tratou de espalhá-la no mundo todo.
Em português não há uma palavra que tenha a mesma força. Já usaram o "da hora", "do balacobaco", "irado", "animal", mas estas expressões acabam logo caindo em desuso.
Bom, todo este blablablá foi só para você entender o que é "cool", porque George Clooney É COOL!
Foram se os tempos em que ele era o Dr. Doug Ross, o médico bonitão da série E.R. (Plantão médico, quando passava na Globo). Hoje, ele é uma das pessoas mais importantes de Hollywood. Ator de filmes como Três Reis (Three Kings, de David O. Russell - 1999) e E aí, meu irmão, cadê você? (O Brother, Where Art Thou?, dos irmão Cohen - 2000). Clooney assumiu também a função de produtor. Ao lado de Steven Soderbergh (
Traffic) criou a Section Eight, de onde saíram Onze Homens e um segredo (Oceans Eleven - 2001) e Solaris (idem - 2002).
Agora, Clooney deu mais um passo e virou também diretor. O resultado de sua primeira aventura por trás das câmeras é Confissões de uma mente perigosa (Confessions of a Dangerous Mind - 2002). O filme conta a história de Chuck Barris, um produtor de TV americano que inventou game-shows como The Dating Game e The Gong Show. Nunca ouviu falar? Errado. Você conhece estes dois programas, mas eles passavam (ainda passam?) na TV brasileira com outros nomes. O primeiro show foi chamado no Brasil de Namoro na TV e o segundo é o Show de calouros. Mas não é só isso. Barris diz que enquanto inventava estas atrações foi também um agente da CIA e matou 33 pessoas! Está tudo escrito na sua autobiografia.
O roteiro baseado no livro foi feito por Charlie Kaufman, o mesmo que escreveu os ótimos Quero ser John Malkovich (Being John Malkovich, de Spike Jonze - 1999) e
Adaptação (Adaptation, de Spike Jonze - 2002). Clooney havia gostado tanto do projeto que continuava interessado em interpretar o agente Jim Byrd mesmo depois de ver o filme sendo cancelado três vezes e passar nas mãos de diretores do quilate de David Fincher (O quarto do pânico) e Curtis Hanson (8 Mile). Mas quando Bryan Singer (X-Men) pulou fora do barco, Clooney resolveu que seria a hora de finalmente dirigir um longa-metragem.
Apaixonado pelos filmes dos anos 60 e 70, o diretor "emprestou" muito da estética dos filmes desta época. As passagens de câmera são um dos pontos altos da parte técnica da fita. Cenários, luzes, pessoas e câmeras se movem de forma discreta para mostrar a passagem do tempo de uma forma inteligente. Para o papel principal foi chamado Sam Rockwell (
As Panteras), um ator não muito famoso para o público em geral, mas bastante talentoso. O elenco de apoio foi conseguido à base de uma poderosa agenda telefônica. Em algumas ligações, Clooney conseguiu chamar seus amigos Drew Barrymore e Julia Roberts para os papéis secundários e ainda Brad Pitt e Matt Damon para uma ponta rapidíssima, mas muito engraçada.
O resultado final de tudo isso é tão cool que nem parece que se tratar da estréia de Clooney na direção. Aliás, se continuar assim, ele vai ter que mudar seu nome para George Coolney.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Queime Depois De Ler

Joel e Ethan Coen mostram o que acontece quando se leva o mundo da espionagem a sério demais
Marcelo Hessel/Omelete
O lacônico agradecimento dos irmãos Joel e Ethan Coen no Oscar 2008, depois de levarem os troféus de melhor roteiro, direção e filme por
Onde os Fracos não Têm Vez, é a síntese da postura dos dois diante de Hollywood. Uma postura irônica - e que percorre por inteiro Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008), a nova comédia dos irmãos.
Desta vez, os Coen satirizam os filmes de espionagem. Seguimos um ex-agente da CIA, Osbourne Cox (John Malkovich), que pediu demissão quando a agência lhe ofereceu um posto burocrático. Cox sente falta da ação dos tempos da Guerra Fria, diz ele. Pois ação não falta quando o livro de memórias que Cox está escrevendo cai nas mãos de dois palermas, instrutores de academia, Linda (Frances McDormand) e Chad (Brad Pitt) - que querem lucrar com o material.
À trama de chantagem somam-se a esposa de Cox, Katie (Tilda Swinton), que o trai com um segurança do governo, Harry Pfarrer (George Clooney), que marca um encontro pela Internet com Linda, que antes de mais nada está querendo fazer umas plásticas para ficar mais jovem, e por aí vai... É a trama circular de um Grande Lebowski pontuada pelo tom farsesco e sarcástico, banalizando a violência, de um Fargo.
Desde os cartazes à la Saul Bass, passando pela trilha sonora "tensa", até o estilo de filmagem que evoca os Bournes da vida (câmera simulando mira telescópica, ponto de vista de satélite, etc.), tudo em que Queime Depois de Ler funciona em função da sátira ao gênero. Curiosamente, os Coen aliam a sátira à homenagem: é a segunda vez, depois de E aí, meu Irmão, Cadê Você?, que George Clooney aparece em um filme dos irmãos pegando um cineminha.
O melhor do filme, porém, não é a sátira ao visual das histórias de espionagem, mas à empafia do gênero. Queime Depois de Ler mostra que a vida dos espiões é tão ridícula quanto a nossa: até mesmo um 007 tem cheques sem fundo devolvidos, e quando Cox recebe uma ligação em seu telefone secreto no porão, é engano. Mais do que isso: pode haver mais intriga, segredos e traições em uma relação de marido e mulher do que numa relação EUA - Rússia.
A chave é não se levar a sério demais. Foi essa a mensagem antipsicologizante que os Coen passaram no Oscar e essa é a mensagem que está implícita até no título do filme. Assista, divirta-se, ponto.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Três Reis


Comédia de humor negro enfoca Guerra do Iraque de perspectiva original e corajosa
Por: Rodrigo Carreiro

O cineasta David O. Russell provocou uma enorme polêmica, inadvertidamente, ao dar uma entrevista casual enquanto promovia o filme de guerra “Três Reis” (Three Kings, EUA, 1999). Um dos entrevistadores lhe questionou como tinham sido feitas as incríveis tomadas que mostram o percurso de uma bala dentro de um corpo humano. Russell não pestanejou. Com a cara mais lisa do mundo, disse que os produtores haviam comprado cadáveres de verdade no mercado negro para filmar aquelas cenas. Isso foi publicado, e milhares de espectadores fugiram do filme, horrorizados, antes que Russell viesse a público para explicar que estava brincando, e que as cenas tinham sido feitas, na verdade, com a ajuda de computadores. Mas o estrago já estava feito. “Três Reis” sumiu no esquecimento.
Foi a polêmica errada na hora errada. O conteúdo do filme, a rigor, tinha muito potencial para a polêmica, especialmente dentro dos Estados Unidos. Desde “M.A.S.H.”, de Robert Altman, que um filme não mostrava a guerra de uma forma tão cínica e verdadeira; no caso, a Guerra do Iraque, em 1991. O enredo de “Três Reis”, na verdade, é bem simples. Situado em março de 1991, quando a invasão norte-americana ao Iraque culmina com a rendição do país de Saddam Hussein, o filme mostra as aventuras vividas por três soldados (Mark Whalberg, Spike Jonze e Ice Cube). Acompanhados de um oficial (
George Clooney), os pracinhas decidem seguir as indicações de um mapa secreto, encontrado com um prisioneiro iraquiano, para “liberar” um depósito de barras de ouro, construídas com metal roubado do Kwait pelos guardas de Saddam.
“Três Reis” não é um drama de guerra, mas uma comédia de humor negro. Filmes de guerra normais quase sempre denunciam o belicismo de uma perspectiva épica, mostrando com solenidade os dramas humanos vividos pelos participantes desses conflitos. David O. Russell segue uma trilha oposta. Ele também denuncia a inutilidade e a estupidez da guerra, mas de uma perspectiva totalmente diferente, e nada convencional.
Em determinado momento do filme, por exemplo, os soldados dos EUA chegam a um vilarejo do Kwait ainda dominado por militares iraquianos. A população passa fome, apesar de haver lá um caminhão-pipa carregado de leite, confiscado pelos inimigos mais bem armados. Ocorre que os ianques não estão suando no deserto para ajudar ninguém. Eles estão interessados em roubar o ouro roubado. Afinal, ladrão que rouba ladrão tem sete anos de perdão, certo? E se alguém está morrendo de fome, o problema não é deles.
David O. Russell narra essa fábula em negativo com humor negro e espírito cínico de fazer inveja aos
irmãos Farrelly. A narrativa é ágil e cheia de lances surpreendentes, como uma discussão entre os pracinhas ianques que culmina com a explosão de uma vaca. Isso mesmo, você leu direito: uma vaca! O enredo do longa-metragem não tem nada de convencional, e possui inúmeros momentos insólito, tanto quanto um final completamente anticlimático e coerente com a narrativa apresentada. De alguma maneira, lembra um cruzamento de “M.A.S.H.” (uma influência óbvia) com “O Tesouro de Sierra Madre”.
“Três Reis” tem uma direção de fotografia dinâmica e moderna. Tom Siegel submeteu as imagens a uma lavagem especial para ficar com contrastes mais saturados, de esse tratamento deixou as cores estouradas, brilhantes. A câmera na mão e os cortes rápidos garantem um estilo mais documental. Enquanto isso, a trilha sonora eclética dá o toque final de modernidade, misturando Public Enemy com Bach, Eddie Murphy (sim!) e Beach Boys.
A canção que ilustra melhor o clima do filme é “In God’s Country”, do U2, usada para sublinhar a vastidão, o calor e a aridez do deserto iraquiano. Atente para o título da música, sem esquecer que o Iraque fica na região onde Cristo nasceu e pregou. Daí vem, também, o título do longa-metragem, que remete à fábula dos reis magos, viajantes estrangeiros que cruzaram o deserto iraquiano carregando um tesouro. “Três Reis” é um dos filmes mais inteligentes e corajosos dos últimos tempos, e merece ser redescoberto.
A Warner lançou o DVD do filme de David O. Russell no Brasil em 2000, quando as legendas em português ainda não eram artigo comum nos extras. Por isso, o ótimo disco, que tem imagens com o corte original (widescreen) e trilha Dolby Digital 5.1, ficam sem legendas no bom documentário que o acompanha, e também no comentário de áudio de Russell.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/tres-reis/

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O amor Custa Caro


Um advogado especializado em divórcios se apaixona por uma beldade cujo talento é procurar um marido milionário e deixá-lo na miséria. A partir dessa trama básica, absolutamente tudo na campanha promocional de “O Amor Custa Caro” (Intolerable Cruelty, EUA, 2003) aponta para mais uma comédia romântica insípida, um projeto de estúdio, daqueles filmes a que a platéia vai assistir sabendo como a trama vai acabar. O título nacional não ajuda. O cartaz, que traz os astros George Clooney e Catherine Zeta-Jones fazendo pose, parece confirmar a idéia. Mas tudo isso vai por água abaixo quando você vê o nome do direitor: Joel Coen.
Sim, “O Amor Custa Caro” é um filme dos
irmãos Coen. Mas não é um trabalho comum da dupla, que quase sempre filma de forma independente, com orçamentos pequenos, sem dar bola para as bilheterias. Trata-se, na verdade, de um projeto associado, uma parceria entre os Coen e o produtor Brian Grazer, um nome peso-pesado na hierarquia informal de Hollywood. Grazer é o homem por trás do insosso “Uma Mente Brilhante”, grande vencedor do Oscar em 2001, e de vários outros blockbusters (“O Grinch”, “O Professor Aloprado 2”). Nesse caso, uma olhada na lista de créditos pode informar muito sobre a qualidade da película. Ela mostra muitos profissionais que trabalham normalmente com os Coen, do protagonista Clooney ao fotógrafo Roger Deakins, passando pelo responsável pela música, Carter Burwell. Mas o que isso quer dizer?
O projeto associado passa exatamente a impressão que deixa antever: um híbrido de filme de autores (com A maiúsculo) e projeto de estúdio. “O Amor Custa Caro” é comédia romântica ligeira, mas construída com os personagens exóticos que os Coen sabem construir como ninguém. Ocorre que, dessa vez, esses personagens não formam 100% da fauna humana que surge na tela. Eles não entram em cena com tanta naturalidade, como se tivesse vida própria fora do cinema. Alguns (o barão Krauss Von Espy, por exemplo) parecem caricatos, exagerados demais, construídos apenas para o filme. Esse é o tipo de problema que os Coen jamais tiveram dificuldade de driblar. Naturalmente, essa falta de sutileza parece ser um problema de produção, decorrente de uma falta de liberdade nos sets que os irmãos só agora experimentam. É normal, portanto, que os conhecedores da obra da dupla sintam um certo desconforto diante do trabalho.
A cena de abertura de “O Amor Custa Caro” ilustra bem esse dilema – e a falta de sutileza que transparece, em muitos momentos da narrativa. Ela mostra um produtor de TV (Geoffrey Rush, cada vez mais canastrão, numa ponta de luxo) flagrando a esposa com um vendedor de piscinas atraente e burro. O sujeito atira nos dois, que fogem, não sem antes espetar a bunda dele usando o troféu que ele ganhou no Emmy. Apesar da licença poética cínica, a seqüência tem a grosseria típica de um filme de outros irmãos cineastas, os Farrelly. A essa altura, um fã do cinema dos Coen vai ficar questionando se entrou na sala correta e se está vendo o filme certo. Mas aí vem a adorável abertura, uma belíssima animação que poderia ter sido assinada por
Terry Gilliam (responsável pelas aberturas dos filmes do Monty Python), se ele tivesse nascido na Idade Média. Sozinhos, esses créditos já valem o preço do ingresso. Eles dissipam qualquer dúvida.
Na verdade, o abismo estético entre essas duas cenas vai se repetir durante todo o filme. Nele, um advogado genial e entediado, Miles Massey (George Clooney, divertindo-se como nunca) vai enfrentar no tribunal uma ‘caçadora de maridos’ (Catherine Zeta-Jones, adoravelmente caricata) bem mais esperta e sedutora do que o normal. O desenvolvimento da trama principal é delicioso, com carimbo do padrão de qualidade dos Coen – o espectador nunca sabe bem o que está vendo, os personagens estão sempre pregando peças uns nos outros (e na platéia), e as cenas muitas vezes transcorrem de foerma diferente daquilo que imaginávamos.
Há, contudo, pequenos detalhes que destoam do conjunto, bem como subtramas que soam óbvias demais para os Coen. Levando em conta as condições peculiares da produção, isso dá margem à desconfiança de que possa ter havido interferência no trabalho dos irmãos. Se existem momentos em que a assinatura da dupla é evidente (os encontros de Massey com o chefe, impagáveis), existem outros que parecem dirigidos por um cineasta de aluguel (qualquer cena que inclua o ajudante retardado de Massey, um coadjuvante cômico que repete um clichê extremamente gasto, e totalmente dispensável, desse tipo de filme). Como o roteiro é assinado, pela primeira vez, por gente estranha à turma dos Coen (Robert Ramsey e Matthew Stone) é lógico pensar que o projeto era muito mais ‘normal’.
O longa segue assim, alternando alguns momentos óbvios (muito raros na carreira dos diretores), e cenas inspiradas. Infelizmente, essas últimas são minoria. Mesmo assim, quem assistir ao filme vai se deparar com algumas piadas com o cinismo característico dos Coen e um dos coadjuvantes mais engraçados dos últimos tempos, Joe Chiado. A bomba de asma do sujeito protagoniza a cena mais hilária de 2003, filmada com uma elegância insuspeita pela câmera sempre surpreendente de Roger Deakins. Filme dos irmãos Coen é assim, feito sexo: mesmo quando é ruim, é bom.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/amor-custa-caro-o/

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?


Os irmãos Joel e Ethan Coen são donos do mais peculiar e impagável senso de humor entre os cineastas contemporâneos. Os dois apresentaram a obra-prima “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você” (Oh Brother, Where Art Thou, EUA, 2000) ao público internacional durante o Festival de Cannes, na França, sem informar a ninguém sobre o parentesco da obra com a “Odisséia”, de Homero. Alguns críticos notaram a semelhança e questionaram a dupla sobre ela, durante a entrevista coletiva que se seguiu. A resposta: não, o filme não fora baseado no épico grego. Eles nem sequer conheciam a “Odisséia”. O resultado da brincadeira é que muitos críticos despreparados escreveram sobre a incrível semelhança entre o enredo do filme dos Coen e uma das mais conhecidas obras da literatura ocidental.
O episódio é bastante ilustrativo. Primeiro, retrata bem a ignorância da uma generosa parcela de resenhistas cinematográficos. Porque não é preciso ser um gênio intelectual para deduzir que Joel e Ethan estão exercitando seu típico senso de humor, desta vez do lado de cá da tela, quando fingem negar uma coisa óbvia. Além disso, também demonstra a maneira zombeteira e desleixada com que criadores do nível dos
irmãos Coen encaram a turba do maior palco de cinema do mundo. Demonstra, afinal, o estado em que a platéia dos filmes no século XXI se encontra atualmente: anestesiada, desatenta, quase burra, a ponto de não perceber uma brincadeira de dois dos meninos mais travessos e talentosos da Sétima Arte.
O filme dos
irmãos Coen é uma delícia, um road movie empagável que celebra a história rural norte-americana. No coquetel alucinado de referências tramado pelos Coen, entram o esqueleto narrativo da “Odisséia”, casos pitorescos que pontuam o período dos anos 1930 nos EUA, a Ku Klux Klan e até lendas modernas de inspiração faustiana que Goethe teria orgulho em assinar. Tudo isso vem embalado em uma trilha sonora que carimba lugar instantâneo entre as mais belas que o cinema já foi capaz de produzir: uma coletânea impecável de canções country, blues e gospel do período, a maioria recriada por artistas que reverenciam o passado de modo fiel, capaz de deixar apreciadores desse tipo de música à beira das lágrimas.
A história narra a odisséia (sem trocadilhos) de Ulysses (
George Clooney). O sujeito, um almofadinha que cuida obsessivamente dos cabelos com brilhantina francesa e touca, foge da cadeia com dois colegas a quem está acorrentado, Pete (John Turturro) e Delmar (Tim Blake Nelson). O objetivo do trio é cruzar o país para encontrar e desenterrar um tesouro enterrado, cuja localização Ulysses garante saber. A fuga é repleta de encontros impagáveis: um blueman negro que vendeu a alma ao Diabo para tocar violão melhor, Tommy Johnson (Chris Thomas King); um gângster violento, George Babyface Nelson (Michael Badalucco); um caixeiro viajante caolho, Big Dan Teague (John Goodman). Isso sem falar de belas lavadeiras que cantam com uma perfeição capaz de hipnotizar qualquer homem.
Trata-se de uma viagem divertida diretamente ao centro da alma do trovador norte-americano por excelência, retratada com perfeição até mesmo no ritmo lânguido e indolente da direção. A trilha sonora de T. Bone Burnett apenas realça esse choque cultural, enquanto outro colaborar habitual dos Coen, o fotógrafo Roger Deakins, entrega um trabalho revolucionário da concepção à realização. O filme, todo criado em tons marrons e verdes, foi digitalizado e teve o excesso de cores removido digitalmente, de forma a ganhar as tonalidades de uma plantação de milho. Ficou lindo.
Como sempre, Joel assina “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você” como diretor, Ethan tem o crédito de produtor e ambos dividem o roteiro. Não que isso importe muito, pois o filme é perfeito do começo ao fim, e tem lugar garantido entre os destaques de uma filmografia consistente como poucos autores são capazes no cinema norte-americano após a década de 1970.