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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Origem

Quando se achava que as boas historias de ficção ciêntica estavam fadadas a filmagens de livros e contos de Philip K. Dick e Izaac Asimov, temos então um ótimo roteiro de ficção original de Christopher Nolan, com seu filme “A Origem”, que era o mais aguardado filme do ano.
Entre os bons filmes de ficção, sim, temos “Matrix”, que arrebatou público e crítica, que surpreendeu, encantou, mas que também se perdeu em suas continuações.Então chega Nolan, com uma história, que podemos até dizer que usa referências de Matrix, quando se fala em uma realidade paralela e a forma como é coloda, mas não, não vá esperando a mesma colocação, realização, afirmação, não vá esperando um outro “Matrix“.
“A Origem” consegue ser superior em vários pontos. Por mais ficção, por mais “viagem” que sejá o roteiro de Nolan, ele nos permite essa viagem por pura e simplesmente se utilizar de um espaço onde tudo pode. Os nossos sonhos. Neles, podemos voar, matar, morrer, e até criar cidades inteiras, e mesmo estar ao lado de pessoas que já se foram. Nos sonhos, como já afirmei, tudo pode. E é aí que Nolan acerta em cheio.
A historia, é complicada, pelo menos inicialmente. Não há como negar. Mas o roteiro de Nolan é também um clássico. Sabe aquela historia do “grande assalto”, que parece que já vimos em algum lugar? Pois é, é um pouco assim também. Mas então o roteiro nos prêmia com uma novata, a Adiadne, vivida por Ellen Page, que não conhece a estrutura e aprende, junto com o espectador, tudo que que acontece na “viagem” do roteirista.
O diretor, Christopher Nolan, rege o filme com maestria. Realmente, sua filmografia (Amnésia, Batman – Beggins,
Batman-O Cavaleiro das Trevas ) tem provado que já pode ser colocado como um dos maiores diretores de sua geração. Ainda mais quando falamos, de um diretor essencialmente Hollywoodiano, podemos afirmar que sim, pode existir vida inteligente nos “blockbusters”.
Assim foi falado quando vimos Batman, tanto o Beggins quando o Cavaleiro das Trevas, e o mesmo repetimos agora. Nolan consegue agradar o público médio, e sim, o que espera um cinema acima da média.
Todos grandes efeitos visuais de seu filme de nada seviriam sem o roteiro bem amarrado, sem as interpretações grandiosas de seus atores. Outro ponto forte em seus filmes, é a direção de atores. Leonardo Di Caprio está aqui em um de seus melhores papeis, Marion Cotillard aparece menos do que gostariamos, mas sempre rouba a cena pra ela em suas aparições, temos ainda Ellen Page e Joseph Gordon Levitt com interpretações inesquecíveis. E mais um presente, Michael Caine, que mesmo com um pequeno personagem, mais uma vez, nos presenteia com sua presença forte e em um personagem pequeno, mas de grande importancia no filme.

Realmente, o elenco é um dos pontos mais fortes do filme. E é aí a grande sacada de Nolan, ao se preocupar essencialmente no roteiro, mesmo em um filme para o grande público. E ainda, com um elenco bem trabalhado, bem afinado, é meio caminho andado para filme de sucesso.
Porém as qualidades do filme não param por aí. Roteiro, como já foi citado, e os efeitos visuais que impressionam. São, apesar como em um sonho, são trabalhados para realmente acreditarmos neles. Parece que realmente vemos uma grande cidade se acabando com o vento, ou um trem passando no meio da cidade, ou qualquer coisa que o diretor nos coloca. Ele convence.
Então chegamos a mais um ponto, que aqui, foi fundamental para o clima do filme. Ou porque não falar de climax, que dura um terço do filme. O rítmo do filme, já alucinante, durante o ”grande golpe” é elevado ao quadrado. E a música de Hans Zimmer casado com as imagens de Nolan deixam nosso coração apertado, acelerado, enfim, nos deixam extasiados. Mais uma grande trilha sonora desse que é um Alemão, que hoje radicado nos EUA, é um dos melhores e mais solicitados compositores de Hollywood.
E mais uma vez, temos aqui, em “A Origem”, um cinema, por mais blockbuster que seja, é um cinema de autor. Nolan é além de roteirista e diretor, produtor de seu filme. O que lhe dá total comando em sua obra. Citando então o grande crítico Luiz Carlos Mertem eu comemoro com ele “E viva o cinemão de autor”
“A Origem” é um desses filmes, que assistimos e levamos pra casa. Pensamos, conversamos sobre ele, e ele passa semanas nos fazendo companhia. É um desses filmes que nos deixa extasiados no cinema, que dá vontade de rever, e logo, ainda no cinema. Pois o bom cinema é assim. E a experiência de um bom filme, em uma boa sala de cinema é insubistituível.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Origem


Confira o novo cartaz de A Origem
Desta vez o pôster não é um genérico de O Cavaleiro das Trevas...
22/12/2009Marcelo Hessel
A Origem (Inception), o novo longa-metragem de Christopher Nolan, o diretor de Batman - O Cavaleiro das Trevas, acaba de ganhar o seu segundo pôster. Desta vez não é um genérico das artes do Batman.
Veja, ampliado, na galeria.
Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe e Michael Caine estão no elenco. O projeto, cuja trama é mantido em segredo, é descrito como um filme de ação e ficção científica que acontece no interior da arquitetura da mente.
A estreia é prevista para 16 de julho de 2010.
Harry Potterices e Crepusculices a parte, com o trailer abaixo surge o filme mais aguardado de 2010! Não tem como ver as imagens de A Origem e ouvir a narração de Leonardo DiCaprio e não ser remetido há 10 anos, quando Matrix foi lançado.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Diamante de Sangue

Thriller de ação é apenas eficiente, mas ganha pontos por denunciar trabalho escravo e contrabando em Serra Leoa
Por: Rodrigo Carreiro

O diretor Edward Zwick é uma espécie de contrabandista de conteúdo cinematográfico. Ao longo da carreira, ele se especializou em disfarçar, como se fossem meros thrillers de ação, filmes-denúncia sobre política internacional, quase sempre estrelados por grandes astros de Hollywood, como Denzel Washington e Tom Cruise. Dois dos trabalhos que levam a assinatura dele (“Nova York Sitiada”, de 1998, e “O Último Samurai”, de 2003) foram baseados nessa fórmula. “Diamante de Sangue” (Blood Diamond, EUA, 2006) a repete mais uma vez, incluindo Leonardo Di Caprio na receita, e atinge resultado parecido – embora elogiável do ponto de vista ideológico, não vai além do eficiente e do convencional sob o aspecto cinematográfico.
Em “Nova York Sitiada” o cineasta fez uma leitura (deveras profética, observando-se que o atentado de 11 de setembro aconteceria três anos depois) sobre o problema dos radicais islâmicos infiltrados nas grandes metrópoles do Ocidente, e em “O Último Samurai” explorou a temática das diferenças culturais entre asiáticos e norte-americanos. “Diamante de Sangue” segue a mesma linha, investindo em pesada denúncia sobre o contrabando de pedras preciosas em Serra Leoa, o pequeno país africano imerso em guerra civil. Neste ponto, o resultado conseguido pelo filme é positivo, já que Zwick se esforça para elaborar em detalhes um pano de fundo que permita à platéia compreender sem esforço os motivos pelos quais a guerra nunca termina naquele território minúsculo.
Via de regra, Serra Leoa é um dos territórios mais ricos do mundo em minas de diamantes. Como o mercado de jóias está sempre ávido por aumentar a extração da pedra, grandes complexos de joalharia internacionais incentivam a ação de mercenários violentos que, incitando as divergências entre as diferentes tribos locais e abastecendo-as com armas pesadas, mantêm a região em permanente conflito. Toda a situação – inclusive o horrendo hábito dos guerreiros locais de cortar as mãos das crianças de tribos rivais, bem como a utilização de trabalho escravo – é explicada em minúcias durante o longa-metragem.
A história documenta o encontro de três personagens bem distintos. Um deles é Danny (Leonardo Di Caprio), mercenário sul-africano acostumado a trocar armas por diamantes. O segundo é a jornalista norte-americana Maddy (Jennifer Connelly), garota ambiciosa que está por lá para escrever uma reportagem que lhe permita desvendar o complexo esquema de contrabando montado pelas joalharias. O terceiro vértice do triângulo é um pescador humilde da etnia mende, Solomon (Djimon Hounson). Separado à força da família e levado a um campo ilegal de extração de minérios para trabalhar como escravo, ele dispara a ação ao encontrar uma enorme pedra de 100 quilates e escondê-la, despertando a cobiça de muita gente, de Danny aos peixes grandes.
“Diamante de Sangue” é um thriller político convencional, com um pequeno desdobramento paralelo romântico. Esta última parte, implausível e excessivamente melodramática, responde pelos trechos mais fracos do filme – é realmente difícil acreditar que duas pessoas tão diferentes quanto Danny e Maddy possam se apaixonar, mas afinal de contas o envolvimento amoroso do herói é inevitável nos
grandes filmes de Hollywood. Infelizmente, o trabalho de Edward Zwick não empolga em nenhuma frente: tem cenas de ação apenas competentes, mas que nunca impressionam, e usa personagens estereotipados (o mercenário amoral redimido pelo amor, a jornalista cheia de idealismo, o homem local para quem a família é tudo o que importa).
No todo, parece uma mistura de “Hotel Rwanda”(filme de Terry George que denunciou a violenta situação do país africano em 2004) com “O Jardineiro Fiel” (em que Fernando Meirelles também misturou thriller e
romance para contar uma história explosiva sobre ações irresponsáveis da indústria farmacêutica na África). No entanto, Zwick não consegue imprimir a ousadia do primeiro longa na escolha dos personagens (lá o herói era um belga negro, enquanto aqui eles são um branco e uma norte-americana) ou a estrutura arrojada do segundo, que investia numa montagem não-cronológica caminhando rumo a um final tão surpreendente quanto pessimista. “Diamante de Sangue” termina com um tom de esperança que não casa, de maneira alguma, com a horrível realidade que o filme se propõe a denunciar.
De certa forma, as melhores cenas acontecem quando os personagens de Leonardo Di Caprio e Jennifer Connelly, com desconfiômetros ligados ao máximo, estão se conhecendo. Entre um flerte e outro, eles se atracam em uma discussão interessante sobre a ética dos jornalistas investigativos (“eu uso Solomon tanto quanto você me usa”): afinal de contas, Maddy se esforça tanto para escrever uma grande reportagem por idealismo e senso de justiça? Ela deseja parar a guerra ou impressionar leitores? Quando um repórter força a barra para fazer uma entrevista com alguém que não quer responder as perguntas, está usando o entrevistado? Embora não aprofunde estas questões, “Diamante de Sangue” as levanta – e isto, juntamente com a denúncia de uma grave situação internacional que o cinema nunca havia feito antes, é uma virtude. Mais política do que cinematográfica, claro.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/diamante-de-sangue/

sábado, 21 de novembro de 2009

Os Infiltrados


Scorsese faz um brilhante exercício de cinema brutal em forma de thriller/tragédia denso, mas pouco original
Por: Rodrigo Carreiro

O mesmo filme pode ser um exercício brilhante de cinema brutal e, ainda assim, deixar um gosto de decepção da boca do espectador? “Os Infiltrados” (The Departed, EUA, 2006), de Martin Scorsese, prova que sim, este paradoxo é possível. Saudado de forma quase unânime pela crítica internacional como a primeira obra-prima do diretor desde “Os Bons Companheiros” (1990), o longa-metragem tem tudo o que um thriller precisa ter: é tenso e violento, elegante e meticulosamente construído, tem o realismo vulgar e os típicos diálogos “de rua” de Scorsese, dois protagonistas fascinantes, coadjuvantes de peso dramático indiscutível, interpretações calibradas e outras virtudes. Uma produção impecável, mas infelizmente pouco original.
Para a minoria de cinéfilos que já teve a oportunidade de checar o título asiático “
Conflitos Internos” (2002), o filme de Scorsese empalidece. Não se trata de plágio, pois os créditos estão devidamente colocados – “Os Infiltrados” é oficialmente uma refilmagem da mesma história. Aliás, quando observada especificamente pelo aspecto dramático, uma excelente refilmagem. Tem o primeiro ato devidamente ampliado, de forma a reforçar a psicologia dos dois personagens e tornar mais densas suas histórias individuais, suas motivações, seus passados obscuros, seus demônios pessoais. O objetivo, bastante claro, é expandir os conflitos morais sugeridos no enredo original para além do puro thriller, até atingir o nível de uma moderna tragédia urbana de tintas épicas. Neste sentido, auxiliado pelo roteirista William Monaghan, Martin Scorsese fez um bom trabalho.
O primeiro ato, aliás, não foi expandido apenas para realçar o aspecto moral da história, mas funciona como arcabouço perfeito para que o cineasta possa imprimir no filme suas marcas pessoas. Está tudo lá: o ambiente vulgar, ríspido e violento dos subúrbios de uma metrópole, o vocabulário “boca suja”, as obsessões com sexo (o personagem de Jack Nicholson) e religião (o menino coroinha cujos amigos são pilantras), a trilha sonora repleta de gemas pop dos anos 1960 e 70 retiradas da coleção particular do diretor (“Gimme Shelter”, dos Rolling Stones, bate ponto pela terceira vez em um longa de Scorsese, acompanhada pela obscura e genial “Let it Loose”, também dos Stones, e por um cover de “Confortably Numb”, do Pink Floyd).
Ao contrário dos habituais filmes de gângsteres do diretor, a ação não se passa em Nova York, mas na comunidade de descendentes irlandeses radicados em Boston. A alteração foi realizada para deixar os personagens mais críveis, já que os italianos distribuídos nos subúrbios da Grande Maçã prezam por valores diferentes. Lá, a instituição familiar exerce grande influência nos jovens (quem viu a trilogia “O Poderoso Chefão”, de Coppola, sabe muito bem disso), e os laços de família são profundamente estimados. Esta característica tornaria sem sentido um personagem como Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), rapaz pobre nascido no meio de gângsteres que, na adolescência, decide se afastar por completo dos parentes, tornando-se um policial.
Billy cursa a Academia de Polícia, mas acaba recrutado por dois oficiais, Queenan (Martin Sheen) e Dignam (Mark Whalberg), para uma missão especial. Devido aos laços familiares com o submundo, ele será um agente da polícia infiltrado entre os homens de Frank Costello (Jack Nicholson), maior mafioso local. O outro protagonista tem a mesma origem humilde de Billy, mas segue o caminho oposto: Colin Sullivan (Matt Damon) entra na polícia a mando de Costello, para informar os bandidos sobre as ações dos detetives. Quando fica claro para ambos os lados que há alguém passando informações aos adversários, a situação fica difícil para Billy e Colin – cada um deles, curiosamente, recebe a missão de descobrir a
identidade do infiltrado. Sem saber, os dois ainda dividem a mesma mulher, a psicóloga Madolyn (Vera Farmiga).
A jornada percorrida pelos dois personagens principais é bem semelhante à de Henry Hill, o herói (ou anti-herói) de “Os Bons Companheiros”, filme com o qual “Os Infiltrados” realmente guarda muitas semelhanças. Durante os anos em que permanecem infiltrados nas fileiras dos inimigos, Billy e Colin são obrigados a lidar com sentimentos ambivalentes, como lealdade, confiança e traição. Ambos são atores interpretando durante 100% do tempo, e ainda por cima em ambiente hostil e durante um período de tempo que abarca vários anos. Evidentemente, a situação deixa os dois com os nervos à flor da pele, um problema especialmente difícil para um cara de pavio curto como Billy.
Scorsese se sai muito bem durante esta primeira metade, em que pode dedicar bastante tempo para definir cada personagem, inclusive os coadjuvantes. Observe, por exemplo, o instigante paralelo criado entre os personagens de Jack Nicholson (um tarado insaciável) e Matt Damon (impotente), sugerindo que a tensão e o sentimento de culpa do segundo interferem com sua vida sexual de uma forma que o primeiro sequer conhece. Uma grande sacada que apenas os espectadores mais ligados vão reconhecer.
Os atores aproveitam a oportunidade para entregar ótimos desempenhos – Jack Nicholson, em particular, está tremendamente à vontade no papel do arqui-vilão da história. Nesta parte inicial, Scorsese se beneficia do enorme conhecimento sobre a vida de gângster que acumulou nos filmes que já dirigiu sobre o tema, e repete o que sabe fazer melhor: desenhar uma tragédia clássica sobre a vida no submundo de uma grande metrópole, com bastante realismo (os tiroteios e cenas de pancadaria parecem tirar sangue de verdade) e linguagem vulgar (a palavra “fuck” é repetida 237 vezes!).
É a partir da metade da produção, mais especificadamente a partir da cena em que policiais e ladrões descobrem a existência de gente inimiga infiltrada nos respectivos lados, que os problemas começam a aparecer. Em resumo, Scorsese parece acometido de preguiça, e segue fielmente a história original, repetindo situações dramáticas, locações, enquadramentos de câmera e até mesmo detalhes narrativos utilizadas pelo filme chinês para contá-la.
Todas as cenas-chave de “Conflitos Internos” foram mantidas praticamente inalteradas. Se isto fosse feito por um diretor menos renomado, não haveria problema. Um novato teria obrigação de sentir orgulho por assinar um remake de tamanha qualidade. Quando se considera a estatura do cineasta envolvido, porém, a coisa muda de figura. Martin Scorsese é um gigante, um dos maiores diretores de todos os tempos. De profissionais do calibre dele não se pode esperar nada menos do que 100% de originalidade. E isto, infelizmente, não é o que se pode conferir em “Os Infiltrados”.
Na verdade, quando Scorsese anunciou que faria o remake de um filme de gângsteres oriental, a comunidade cinematográfica se agitou. Muita gente não entendeu como um cineasta do porte dele se rebaixaria a fazer uma refilmagem. Por isso, imaginou-se que ele apenas aproveitaria o argumento original, engenhoso e complexo, para construir uma obra inteiramente original. Mas ele só fez isso no primeiro ato. No restante do filme, Scorsese seguiu rigorosamente a mesma progressão dramática, do começo ao final, iniciando a história com flashbacks da infância e do treinamento policial dos dois protagonistas, e depois avançando para o presente.
Além das cenas, Scorsese também clonou cenários. Um dos encontros mais tensos entre dois personagens ocorre dentro de um cinema. Outra seqüência importante acontece sobre a cobertura de um prédio, mesmo local onde ocorre o clímax do filme. As duas locações são idênticas às utilizadas no longa-metragem de Hong Kong. Como se não bastasse, até mesmo na mise-en-scéne (a organização visual dos elementos dentro da imagem de uma cena), uma das grandes virtudes de Scorsese desde sempre, recorreu-se à fonte original. Observe, por exemplo, durante um assassinato a tiros que ocorre dentro de um elevador, a posição em que cai o corpo morto de um personagem – a cena é idêntica, até mesmo nos enquadramentos escolhidos, à exibida no filme chinês.
Claro que a maior parte dos espectadores não vai reconhecer tantas semelhanças, por uma razão muito simples: “Conflitos Internos” é um thriller empolgante, mas quase desconhecido. Já o longa-metragem de Scorsese se tornou, após uma passagem vitoriosa pelas bilheterias dos Estados Unidos, o maior sucesso de toda a carreira do cineasta, faturando US$ 26 milhões no primeiro final de semana em cartaz e ultrapassando a cifra de US$ 100 milhões no total. Além disso, alcançou 92% de aprovação no Rotten Tomatoes, banco de dados que compila críticas escritas por mais de 500 especialistas em todo o mundo. Não há dúvida de que “Os Infiltrados” é, sim, cinema de primeira qualidade. O que falta ao longa-metragem de Scorsese é originalidade, característica profundamente importante quando se fala de um diretor fundamental para a história do cinema contemporâneo.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/infiltrados-os/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Aviador


Martin Scorsese entrega cinebiografia grandiosa e coerente sobre milionário excêntrico
Por: Rodrigo Carreiro

Quando Martin Scorsese anunciou a intenção de dirigir a cinebiografia do milionário excêntrico Howard Hughes, uma personalidade lendária de Hollywood, muita gente estranhou. Na superfície, a vida de Hughes parece não ter nenhuma relação com as temáticas mais recorrentes da obra do cineasta norte-americano: a vida de personagens que vivem à margem da sociedade (“Touro Indomável”, “Taxi Driver”) e o submundo da máfia (“Os Bons Companheiros”, “Cassino”). Uma análise mais acurada de “O Aviador” (The Aviator, EUA, 2004), porém, mostra que o filme é um legítimo representante da obra de Scorsese, e é uma marca honesta na carreira de um diretor que já tem lugar reservado entre os mais importantes homens de Cinema de todos os tempos.
De fato, a vida de Howard Hughes tem muita semelhança com as trajetórias de Travis Bickle e Jake La Motta, os dois personagens mais importantes de Scorsese, ambos imortalizados por interpretações antológicas de Robert De Niro. Hughes também era, à sua maneira, um marginal, um homem que não era levado a sério nas rodas que freqüentava. O retrato que Scorsese pinta desse homem é complexo, humano, cheio de altos e baixos. Hughes era um sujeito fascinante: impetuoso, movido a paixões instantâneas, um homem que não tinha medo de tomar decisões empresarialmente arriscadas apenas por simpatizar com um projeto.
Se fosse pobre, Howard Hughes jamais seria levado a sério. Como herdeiro da fortuna de um bilionário texano do ramo do petróleo, contudo, ele podia se dar ao luxo de passar dois anos e meio sem trabalhar, metendo-se a diretor de cinema. Pior: fazendo um único filme, ao custo de milhares de dólares por dia, apenas porque queria esperar pelas nuvens certas para filmar uma seqüência de ataques aéreos. Hughes era fascinado por aviação. Ele voava sempre que possível, dava pitaco nos projetos aerodinâmicos dos aviões que construía e não hesitou em comprar a TWA, uma das maiores empresas do ramo, quando a empresa ficou em dificuldades.
Há uma brilhante cena, logo no início de “O Aviador”, que mostra o quanto Hughes era obstinado e, ao mesmo tempo, ridicularizado por gente do mesmo tope. Em um restaurante da moda, ele aborda Louis B. Mayer (Harridon Held), chefão do estúdio MGM, para pedir duas câmeras emprestadas, a fim de completar as filmagens de uma cena importante para seu épico “Anjos do Inferno”. Ciente das excentricidades do então rapaz, o executivo o recebe, intrigado, com um leve sorriso. Eles travam o seguinte diálogo:
- Preciso de algumas câmeras. Duas, para ser mais exato. Já comprei todas as câmeras que pude encontrar, mas precisamos de mais duas. Desesperadamante. Acha que a MGM pode me ajudar?- Não temos o hábito de ajudar a competição. Quantas câmeras você tem?- Vinte e quatro.
Mayer olha de lado, incrédulo.
- Tem 24 câmeras e precisa de mais duas? Não dá para rodar a cena com 24?- Não, senhor.
O executivo sorri, zombeteiro.
- Vou te dar um conselho. Pegue seu dinheiro do petróleo e ponha no banco. Se continuar filmando assim, ninguém vai querer distribuí-lo. Ninguém irá querer assistir ao filme. E seu dinheiro do petróleo vai acabar. Ele ironiza: – Bem-vindo a Hollywood.- Vou me lembrar disto, Sr. Mayer.
O espectador encontra tudo nesse diálogo: a ironia fina de um profissional que pensa estar lidando com um amador, a surda e feroz competição entre os estúdios de Hollywood, a arrogância do aprendiz diante da zombaria do mestre. O diálogo é um excelente exemplo do bom roteiro de John Logan. O texto, filmado pelo diretor certo, ergue uma biografia quase perfeita de um titã, um homem que, mesmo nadando em dinheiro, foi sistematicamente rejeitado pelos colegas de altas rodas sociais, porque ousou peitar o establishment durante toda a sua vida. Ele sofreu as compreensíveis punições sociais por causa disso, como a segunda metade do filme, dominada pela briga com o empresário rival Juan Trippe (Alec Baldwin), dono da Pan Am, deixa claro.
Leonardo DiCaprio encarna o protagonista de modo impecável, destilando charme e energia juvenis e obtendo um registro de voz mais agudo do que o normal, para salientar a aparente fragilidade do jovem milionário. DiCaprio é apenas uma das pontas de um elenco tão farto quanto homogêneo em sua excelência. No meio de tantas feras, como John C. Reilly, Ian Holm e Jude Law (que faz uma ponta hilariante como o ator Errol Flynn), duas atrizes que interpretam namoradas de Hughes se destacam de modo oposto. A australiana Cate Blanchett, no papel de Katherine Hepburn, mostra a mistura exata de classe e fina inteligência, emolduradas por um sotaque de alta sociedade impecável. Já Kate Beckinsale, como Ava Gardner, é o contraponto negativo, o elo mais fraco do elenco, sem expressão e sem força. Acaba ganhando menos espaço na montagem por causa disso.
A montagem, costumeiramente um ponto forte nos filmes de Scorsese, aqui escorrega em alguns momentos. Obrigada a comprimir muitas cenas em 2h50 de filme, Thelma Schoonmaker acelera demais algumas seqüências, sobretudo na primeira metade do filme, que concentra a narrativa nas aventuras de Howard dentro de Hollywood. Mesmo assim, há uma boa quantidade de grandes cenas, como a linda passagem em que dezenas de aviões monomotores levantam vôo com o céu nublado, para a gloriosa filmagem de “Anjos do Inferno”. Outro momento brilhante, uma das mais deliciosas cenas do filme, é o passeio noturno de Hughes e Hepburn sobre Los Angeles, de avião. Ali, o rapaz seduz a altiva atriz com suas travessuras e, ao mesmo tempo, dá a primeira pista sobre a neurose obsessivo-compulsiva que iria lhe transformar em magnata recluso na meia-idade, muitos anos depois.
Como de hábito, Scorsese promove uma reconstituição de época minuciosa e impecável, com a ajuda de colaboradores fiéis, como o cenógrafo Dante Ferretti. A Hollywood dos anos 1930 e 1940 ganha, então, um retrato belíssimo. A exigência de Scorsese para com os detalhes é tão grande que ele exigiu do fotógrafo Robert Richardson que cada período aparecesse, no filme, com a textura e o uso de cores que remetessem à tecnologia de captação de imagens da época. Assim, as imagens do início de “O Aviador” possuem um tratamento de cores mais precário, típico do Technicolor. À medida que o longa vai avançando no tempo, as cores vão se tornando mais naturalistas, mais fiéis à realidade.
Para completar, Scorsese também demonstra que é um cineasta completo ao filmar a seqüência da queda de um avião, repleta de efeitos especiais gerados por computador, com impressionante grau de realismo. Tudo bem, “O Aviador” pode não ter o sabor de novidade de “Taxi Driver”, o impacto inigualável de “Touro Indomável” e nem a sofisticação narrativa de “Os Bons Companheiros”. Mas apresenta coerência com a temática que domina a obra de Scorsese e tem muito mais qualidades do que defeitos.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/aviador-o/

Gangues de Nova York



Scorsese filma vida caótica durante o século XIX na grande metrópole com grande senso de realidade
Por: Rodrigo Carreiro

A associação com o infame produtor Harvey Weinstein foi boa e má para o diretor Martin Scorsese. O ponto positivo é que o cineasta, sem dúvida um dos grandes da história de Hollywood, finalmente obteve os recursos necessários para filmar um projeto que acalentava há muitos anos. O ponto negativo é que, devido à má reputação de Weinstein dentro da indústria cinematográfica, “Gangues de Nova York” (Gangs of New York, EUA, 2002) foi rotulado como um filme problemático e irregular, para não dizer ruim, antes mesmo que as pessoas o vissem. Injustiça. O violento épico se encaixa na filmografia de Scorsese com coerência, embora não seja uma obra-prima.
É fácil perceber porque o projeto de transformar em filme o livro homônimo de Herbert Asbury seduzia Scorsese desde 1978. A obra do diretor de “
Taxi Driver” sempre teve um viés meio sociológico, sempre exprimiu uma visão panorâmica da vida urbana nas grandes metrópoles. O autor de “Touro Indomável” filma as idiossincrasias da vida na cidade grande como nenhum outro colega. Por isso, carregou consigo os diretos de filmagem da obra durante anos, esperando que algum produtor lhe concedesse o enorme orçamento necessário para erguer a produção. Weinstein foi o homem que possibilitou a realização do sonho antigo de Scorsese.
Não há como saber se “Gangues de Nova York” ficaria diferente, caso o diretor tivesse mais liberdade nos sets. Weinstein não é esse tipo de produtor. Ele visitava as filmagens com regularidade, teve discussões públicas homéricas com o diretor e exigiu cortes generosos na montagem final, de modo que o longa-metragem ficasse abaixo de três horas de duração, conforme estipulado no contrato. Além disso, fez um marketing agressivo para que o filme faturasse muitos Oscar, conseguindo o efeito inverso: indicado para dez estatuetas douradas, “Gangues de Nova York” saiu de mãos abanando da premiação. O público também foi afetado por essas confusões, e fracassou nas bilheterias, fazendo apenas US$ 77 milhões nos EUA, depois de ter custado US$ 97 milhões.
A recepção desconfiada que o longa-metragem obteve parece ter sido fruto desses problemas, pois se trata de um belo filme. Veja a longa seqüência de abertura, por exemplo. Ela mostra o Padre Vallon (Liam Neeson) se preparando para uma batalha, numa caverna escavada dentro das rochas em
Manhattan, nos anos 1840. Ele é observado pelo filho pequeno, Amsterdam. O que se segue é uma violenta briga de gangues sobre a neve, bem no centro da praça denominada Cinco Pontas, o local mais perigoso da Nova York da época. Ao final da batalha, o branco foi tingido de vermelho e os corpos se acumulam no chão. Vallon caiu, pelas mãos do líder rival Bill The Butcher (Daniel Day-Lewis). Amsterdam, que assistiu a tudo, vai acalentar a vingança por duas décadas, internado em um orfanato, até retornar ao lugar, incógnito, interpretado pelo galã Leonardo DiCaprio.
A história da vingança de Amsterdam é o ponto fraco do filme. Ela envolve a reorganização de muitos clichês do cinema, desde a formação de um triângulo amoroso distorcido (com Bill e a prostituta/ladra Jenny, feita por Cameron Diaz, e o próprio Bill) até a clássica história do homem que sente uma atração irresistível pelo charme rude do inimigo mais odiado. Se o enredo não traz novidades, por outro lado é narrado com absoluta competência por Scorsese. Mas o que o cineasta faz melhor é mesmo retratar a caótica vida nos fétidos subúrbios de Nova York durante as duas décadas que o filme cobre.
Famílias inteiras vivem em cavernas recortadas na rocha, ou em casebres de madeira podre. Porcos e galinhas dividem as ruas com os moradores doentes. Negros e imigrantes são hostilizados abertamente nas ruas, quando não espancados. Grupos rivais de bombeiros voluntários saqueiam livremente as casas que pegam fogo, sob o olhar cúmplice dos policiais corruptos que rondam o lugar. Políticos canalhas roubam, pilham, matam, sem a menor possibilidade de punição.
As condições indignas de sobrevivências fizeram de Cinco Pontas uma panela de pressão prestes a explodir. E ela explode, em 1860. Os dois eventos que abrem e fecham “Gangues de Nova York” – a briga entre as gangues dos Coelhos Mortos (irlandeses imigrantes) e Nativistas (americanos brancos e pobres), e o tumulto que levou a centenas de saques e milhares de mortes em toda a cidade – são dramatizações de episódios reais. O que Scorsese faz, de forma brilhante, é relacioná-los às trajetórias convergentes de Amsterdam e Bill, dois personagens que são como a cara e a coroa de uma moeda. Ambos são, às suas maneiras, repugnantes e fascinantes.
Scorsese sempre teve fama de bom diretor de elencos, mas em “Gangues de Nova York” ele faz um trabalho coletivo excepcional. Cameron Diaz e DiCaprio, dois bons atores, oferecem desempenhos acima da média. Os veteranos Brendan Gleeson, John C. Reilly e Jim Broadbent fazem bonito. E Daniel Day-Lewis é um show à parte com o Açougueiro. Ele é um ator completo: tem expressão corporal arisca, sotaque perfeito, olhar penetrante. Compõe um personagem fascinante, um homem feroz e corrupto, mas que acredita profundamente nos valores esquizóides que defende.
Por fim, os sets impressionantes do italiano Dante Ferretti merecem uma menção honrosa. O sujeito recriou, a partir de desenhos e fotografias antigas, três quarteirões completos da antiga Nova York, dentro dos estúdios da Cinecità, em Roma (Itália), em minúcias. “Gangues de Nova York” é um filme feito à moda antiga, sem efeitos especiais ou truques de edição. Talvez por isso, transpira a atmosfera decadente, sórdida, da vida nos subúrbios em uma época extremamente cruel. Scorsese fez um filme intenso, bem fotografado, com personagens interessantes e enredo seguro. Se não tem a inspiração mágica de uma obra-prima como “Taxi Driver”, está muito acima do que 99% dos seus colegas andam fazendo em Hollywood.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/gangues-de-nova-york/

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ilha do Medo



Surge do meio da neblina, como o carro no começo de Taxi Driver, a balsa que leva o agente federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) à Ilha do Medo. Se o autor do livro que serve de base ao filme, Dennis Lehane, já dizia que a sua ideia era homenagear gêneros, dos filmes B aos terrores góticos, na adaptação Martin Scorsese também abraça as múltiplas referências - a começar pela referência a si mesmo.
Como em Taxi Driver, a neblina é um enigma, simboliza um tormento. No caso, descobrimos rapidamente que Teddy está chegando ao presídio psiquiátrico na ilha Shutter, acompanhado do agente Chuck Aule (Mark Ruffalo), não só para investigar o desaparecimento de uma paciente, como também para resolver questões particulares que o assombram desde a morte de sua esposa, Dolores (Michelle Williams).
A partir daí a colagem de referências é tão intensa que Scorsese parece estar jogando pistas falsas para incitar interpretações do espectador. Filme de guerra (seria o hospital uma espécie de campo de concentração?), filme policial (estaria Teddy, como todo detetive de noir, sendo vítima de uma conspiração?) e filme-delírio (o que afinal é real na Shutter Island?) se misturam. Até o título nacional, que sugere um suspense sobrenatural, entra involuntariamente nesse jogo de espelhos.
E aí vai muito da disposição do espectador para entrar na brincadeira. Se você se incomoda com a mania de Lost, por exemplo, de apresentar novos personagens a cada temporada, vai se irritar com a quantidade de gente que, numa razão de 15 em 15 minutos, aparece do nada em Ilha do Medo. Herança dos filmes B, por sua vez, os diálogos variam do genérico ("o cais é o único caminho para entrar e o único para sair") ao hiperexpositivo (conte quantas vezes eles repetem que a Ala C é onde ficam os mais perigosos...).
O que deve agradar os fãs de Scorsese é acompanhar como o cineasta, um assimilador de referências por natureza, usa de seu estoque formal para se adequar às regras do gênero. Se a ideia é confundir o espectador, como nas cenas em que Teddy se encontra com Dolores, ele quebra o eixo de câmera descaradamente para "duplicar" Dolores (o que na mão de qualquer outro seria visto apenas como barbeiragem). Se o objetivo é exagerar na tensão, vamos logo de John Cage e "Music for Marcel Duchamp" na trilha sonora.
Ademais, quem mais abusaria de chicotes (aquelas pans rápidas que vão de um personagem a outro sem corte) de forma tão temerária? Ilha do Medo tem alguns momentos constrangedores (estátua de fauno, sério mesmo?) e outros transcendentais, como os flashbacks do Holocausto - um Holocausto meio barroco, reimaginado sob influência da química do hospício, o que não deixa de ser interessante. Ambos os extremos têm seu apelo. Não trata-se de tentar tirar uma média, mas de acompanhar, com certo prazer, como Scorsese passa do sublime ao desastroso sem se abalar.
No fim, olhando para os trabalhos do diretor na última década, recebidos de forma amistosa pela crítica e pela mídia, não é difícil aferir que Ilha do Medo é o mais ousado, para o bem e para o mal. Será recebido com opiniões polarizadas, mas pelo menos fica o alívio de que, depois do Oscar, o diretor não se acomodou.