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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Super Size Me


Hoje ganha força, graças ao fenômeno Michael Moore (Tiros em Columbine, Fahrenheit 11 de setembro), um tipo de documentário-panfleto. Não reivindica a imparcialidade jornalística, não analisa os fatos para tirar uma conclusão. Ao contrário, usa o sarcasmo, a retórica e a manipulação justamente para provar um ponto de vista preconcebido. Faz sucesso junto ao público, funciona como arma ideológica e sociopolítica, mas é discutível como documento.
Morgan Spurlock, por exemplo, tipo atlético e saudável, mora com a namorada vegetariana. Aos 33 anos, ele difere do perfil rotundo e adiposo da classe média dos Estados Unidos, também, por ser um nova-iorquino esclarecido. Tem tudo para fazer de Super size me - a dieta do palhaço (Super size me, 2004) - o documentário de estréia que protagoniza e dirige - um libelo irresistível contra o sedentarismo e a má alimentação. Ninguém indicaria a maior rede de comida industrializada do mundo como sinônimo de saúde, não é verdade? Spurlock entra com o jogo ganho.
Ele começa discursando contra o vício do colesterol, contra a progressiva engorda da população, escolhe justamente adolescentes obesos para entrevistar, exibe pinturas sinistras com o palhaço Ronald, faz piada com a propaganda dos fast-foods, cobre tudo com uma trilha sonora escolhida com esmero. E se oferece, em tom de zombaria, como cobaia de uma experiência: durante trinta dias, comerá no café, no almoço e no jantar apenas produtos do McDonalds.
E há uma cena específica, logo no começo do filme, que resume e reforça "muito tudo isso".
É a sequência mais importante, mais emblemática do filme. Segundo uma das suas regras, quando lhe oferecem o maior de todos os tamanhos, o Super size, com mais de um litro de refrigerante e 500g de batatas, Spurlock não pode recusar. Ele está no carro, pronto para o primeiro combinado sanduíche-refri-fritas extra grande da sua epopéia. Primeiro ele brinca com o quarteirão duplo com queijo. Depois de quinze minutos, mostra que metade das batatas ainda aguardam a vez. Leva mais vários minutos para terminar a refeição - e vomita tudo. Vomita pela janela do carro, a câmera faz questão de registrar.
Perceba que, a partir desse momento, mesmo sem querer, Spurlock conquista um argumento irrefutável: o seu estômago, que não possui opinião formada nem ambiciona vencer no mercado do cinema, rejeita a porção de comida que milhões de norte-americanos ingerem três, cinco, sete vezes por semana.
E o que era brincadeira para o espectador continua uma brincadeira, mas agora ganha contornos mais sérios. Aí A dieta do palhaço se torna indigesta de verdade. O cardiologista, a nutricionista, a gastroenterologista, o clínico-geral, os amigos e a namorada apontam os sintomas da degeneração física e tentam demover Spurlock da dieta. Mas ele - onze quilos a mais, hipertenso, fígado em decomposição, triglicerídeos nas alturas, crises de abstinência, dores de cabeça, tremores e indisposição sexual - segue bravo ao trigésimo dia.
Essa é a vantagem que Super size me leva em relação a Michael Moore. Não se trata de mera bravata. Aqui vale até a autoflagelação em nome do convencimento.

Temporada De Patos


Com Temporada de patos (2004), seu longa-metragem de estréia, o diretor e roteirista Fernando Eimbcke chegou sem qualquer alarde ao Festival de Cinema de Guadalajara e saiu como um dos favoritos de crítica e público. O sucesso rendeu também o sonhado contrato de distribuição que garantiu a exibição do trabalho nos cinemas mexicanos.
A comédia - totalmente rodada em preto e branco - começa lenta com Flama (Daniel Miranda) e Moko (Diego Cataño Elizondo), dois amigos de 13 anos, entediados numa manhã de domingo. Os dois acabam de ficar sozinhos em casa e têm tudo o que é necessário para uma tarde de marasmo: um videogame Xbox, dinheiro para a pizza (meia champignon, meia pepperoni) e um armário abastecido de junk food. Surge Rita (Danny Perea), a vizinha de 16 anos, que precisa usar o forno emprestado durante "só 15 minutinhos" para assar um bolo.
Para o desespero dos garotos, acaba a luz do bairro e com isso a diversão eletrônica. Hora de antecipar a pizza. Ulises (Enrique Arreola), o entregador, chega 11 segundos atrasado e os moleques se recusam a pagar, afinal, se passar de 30 minutos a entrega não é cobrada. O entregador se revolta (ele subiu 8 andares de escada!) e decide que só sai dali com o pagamento.
Com todos os personagens em cena, o filme começa de verdade. Com uma estrutura de pequenos quadros intercalados por fades, Temporada de patos encontra sua graça através de piadas sutis e situações divertidas, sem qualquer apelação. Vira um "House movie" - quase um filme de estrada preso dentro de quatro paredes - em que cada um dos personagens se desenvolve, amadurece e encontra nos outros e no ambiente suas motivações para o futuro.
Conforme conceitos são derrubados, a casa - e sua decoração - também desmorona perante a força das novas resoluções, em parte aprendidas com os "patos" do título, figuras em um quadro brega que teima em significar algo aos protagonistas.
Com essa produção sensível, inteligente e bastante agradável, a excepcional safra de filmes latinos ganhou mais um talentoso criador a ser acompanhado.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Contra Todos

O mar rosa granulado, quase um mar de sangue aguado, já anuncia. A carniceria de Contra todos (2004), filme de estréia de Roberto Moreira, não poupa ninguém.
Teodoro (Giulio Lopes) parece ser um evangélico empenhado, mas está longe de ser santo. A sua mulher, Claudia (Leona Cavalli, a Lígia de
Amarelo Manga), também se esconde atrás da devoção ao lar. Soninha (Silvia Lourenço) escolhe ser a filha incompreendida, mas se sente à vontade na apatia geral. Já Júlio (Ismael de Araujo) personifica o entregador da vizinhança, com os seus segredos lascivos. O amigo falastrão Waldomiro (Aílton Graça, o Majestade de Carandiru) parece ser o único sincero - não necessariamente confiável - no almoço feliz em torno da típica lasanha paulistana.
Uma vez que o lado sujo da Retomada - aquele que comprime a sociedade à sua violenta autodestruição - já ganhou forma, cheiro e cor, vale situar o filme no contexto. Assemelha-se a Amarelo Manga (de Cláudio Assis, 2002) ao ver na luxúria um componente do caos. Um pouco da crueza digital de
O Invasor (de Beto Brant, 2001) e Cama de gato (de Alexandre Stockler, 2002) se mistura à receita de Moreira que, dada a co-produção da O2 Filmes de Fernando Meirelles, teria em Cidade de Deus (2002) o seu equivalente mais imediato. Fala alto o pessimismo comum a cada um desses filmes.
Contra todos se diferencia pela excelência das atuações - o que certamente pesou ao ser eleito o melhor longa brasileiro no Festival do Rio 2004 pelo júri oficial (leia
aqui). Professor de dramaturgia e doutor pela ECA-USP, Moreira compensa a eventual carência de bagagem prática com a sua vasta carga teórica. Propôs que o elenco - atores e atrizes criados nas exigências do teatro - participasse do filme sem conhecer o roteiro, incentivou a discussão da trama nos ensaios, e só ao final do processo entregou o texto. Sem diálogos. Do início ao fim ele deu espaço para que as falas fossem todas improvisadas. Esse capricho confere ao longa um naturalismo e uma força que poucos filmes têm.
Sobra vigor, pois, mas falta cumplicidade. E essa questão é fundamental. As obras citadas tinham ao menos um protagonista decente, até mesmo uma vítima, ao qual as pessoas poderiam se agarrar, com quem se identificar. Aqui a descrença alcança o sadismo: evangélicos e classe média baixa raramente foram tão avacalhados. Ao optar pela condenação de todos, Moreira nega ao público a empatia. É como ler as manchetes do defunto Notícias Populares. Seguimos céticos, eventualmente rimos, por crer que esse mundo não é o nosso mundo.

Sideways


Comédia leve e humana é verdadeiro estudo sobre vulnerabilidade e carência em homens de meia-idade
Por: Rodrigo Carreiro
Oficialmente, “Sideways” (EUA/Hungria, 2004), que no Brasil ganhou o pavoroso subtítulo “Entre Umas e Outras”, é um filme que narra a viagem de dois amigos pelas fazendas vinícolas da Califórnia, como despedida de solteiro de um deles. A verdade é que o quarto longa-metragem do cineasta
Alexander Payne (de “As Confissões de Schmidt”) vai muito além de narrar uma breve e inconseqüente temporada de desbunde alcoólico. A viagem de carro é mero pretexto para o cineasta tecer uma comovente e engraçada história sobre carência afetiva em pessoas que se aproximam da meia-idade.
Para fazer isso, Payne criou um quarteto de personagens que beira os 40 anos, todos envolvidos em fracassos pessoais e profissionais, e tentando lidar com a questão do envelhecimento, enquanto seguem adiante com suas vidas medíocres. Com metáforas inesperadas e personagens perfeitos, Payne constrói uma pequena jóia, desde já séria candidata a clássico cult.
Na verdade, o roteiro escrito pelo diretor e por Jim Taylor transcende os ensinamentos lidos nas dezenas de manuais de roteiros que circulam em Hollywood. Esses livros costumam dizer que há duas maneiras de escrever bons roteiros. A mais comum é criar uma situação de conflito e, depois, desenvolver os personagens em função dela. A outra, mais rara, manda criar antes os personagens e, depois, envolvê-los em uma trama. Na opção A, personagens são subordinados à trama; no item B, ocorre o contrário. “Sideways” consegue a proeza de criar um equilíbrio entre os dois componentes do roteiro. O filme tem personagens profundos e densos, que se entrelaçam em uma trama humana de toques cômicos, mas repleta de pequenas metáforas sobre a vida. Tudo isso de forma levemente melancólica.
Tudo começa em uma sexta-feira. Miles (Paul Giamatti) é o professor de ginásio e aspirante a escritor que organiza uma viagem de uma semana para comemorar o casamento do melhor amigo, Jack (Thomas Haden Church), um ator e dublador de TV. Ambos estão na casa dos 30 e poucos anos. A grande paixão da vida de Miles são os vinhos; por isso, ele decide que a semana de folga será passada nas vinícolas do sul da Califórnia, região famosa pela produção de bebidas de boa qualidade. Miles deseja ensinar a Jack alguns ensinamentos que considera básicos para que se possa apreciar um bom vinho.
O vinho, a rigor, tem sido o refúgio de Miles desde o divórcio, dois anos antes. Sem sorte no amor, ele aguarda mais sorte no trabalho, pois acaba de escrever o terceiro
romance, depois de ter duas novelas rejeitadas por todas as grandes editoras dos EUA. A separação lhe deixou um enorme trauma, quase do tamanho de sua baixa auto-estima. Ele toma calmantes, e parece ter perdido a confiança de fazer a corte de mulheres bonitas, mesmo quando elas demonstram claramente que também estão interessadas.
Jack é quase o oposto. Ele lembra o personagem Joey, do seriado “Friends”. Jack é um ator medíocre, que trabalha fazendo comerciais e pontas em séries de TV. Seu vinho são as mulheres. É louco por elas. Essa característica é amplificada pela proximidade do casamento, que desperta em Jack um verdadeiro pavor da responsabilidade. Ele reage a isso de maneira meio histérica, enlouquecida, passando a tentar dormir com todas as mulheres que passam pela frente. Algo fácil de acontecer em uma despedida de solteiro, certo?
No primeiro café da manhã que dividem durante a viagem, o assunto do papo gira em torno de mulheres e bons vinhos. Os dois, portanto, têm objetivos bem distintos na viagem. Jack quer ir para a cama com tantas garotas quanto puder, e se possível arrumar uma namorada para o parceiro. Miles deseja apenas experimentar o maior número possível de bons vinhos, e ensinar ao colega uma coisinha ou outra sobre a bebida.
Em circunstâncias casuais, eles acabam conhecendo mesmo duas mulheres. Maya (Virginia Madsen) trabalha como garçonete, enquanto completa um mestrado em Horticultura. É conhecedora de vinhos, como Miles, e sonha em trabalhar numa vinícola. Stephanie (Sandra Oh) atende experts em vinhos em uma dessas fazendas. O diretor Alexander Payne leva um longo tempo estabelecendo a psicologia de cada personagem, mas faz isso com destreza, fazendo a ação se desenrolar tranqüilamente, em ritmo leve, quase casual. As duas garotas vão acompanhar os dois amigos em parte da viagem. Falar mais do que isso seria revelar demais sobre o filme.
Embora seja uma história de quatro pessoas, “Sideways” é sobre Miles. O filme começa com ele, termina com ele, e tem a participação do sujeito em todas as cenas. Mas a narrativa não adota o
ponto de vista do aspirante a escritor; ela invade a intimidade dele, acompanhando-o nos momentos mais embaraçantes, e continuando lá em todas as horas, sejam engraçadas, trágicas ou rotineiras. A direção de Payne é discreta e eficiente, imprindo ao longa um ritmo jovial, o que permite que a projeção atravesse alguns momentos barra-pesada sem que a história perca um leve tom de comédia.
Para um filme assim funcionar, bons atores são fundamentais, e “Sideways” tem seus grandes trunfos nessa área. Haden Church faz um Jack magnífico, uma espécie de adolescente crescido, obcecado por sexo (a mania rende uma seqüência hilariante, perto do final, que soa um pouco deslocada do humor mais elegante do resto do filme). Sandra Oh, que tem o personagem menos explorado pelo roteiro, não decepciona. Já Virginia Madsen, intérprete de Maya, e Paul Giamatti, o mau-humorado Miles, estão simplesmente sensacionais. Os dois dividem uma das seqüências românticas mais belas e românticas dos últimos anos.
A cena acontece durante a primeira noite em que o casal sai junto. Decepcionado por ter descoberto naquele mesmo dia que a ex-mulher tinha casado novamente, Miles bebe além da conta. Isso só aumenta o desconforto dele diante da situação: eles paqueram, ela está acessível, mas ele perdeu o jeito de lidar com a situação, que se transforma em embaraçosa. Maya tenta quebrar o gelo conversando sobre vinhos. Ela pergunta porque ele prefere os vinhos produzidos com uvas Pinot Noir. Ele inicia uma reflexão quase filosófica até que, em certo momento, Maya percebe (e a platéia também) que Miles não está falando sobre vinhos, mas sobre si mesmo. Assim, quando ele devolve a pergunta, ela responde usando o mesmo código. É uma cena tocante, belíssima, suave e extremamente romântica, que termina da maneira mais honesta e real possível.
“Sideways” é um triunfo do cinema independente, um filme que discorre longamente sobre um assunto difícil e elitista – os vinhos, é claro – sem jamais se tornar chato, modorrento ou arrogante. Não se preocupe: você pode não entender nada de vinhos, como eu, e amar “Sideways” do fundo do coração, porque os vinhos representam, em uma escala maior, a mesma metáfora para o espectador que representam para Miles: a vida. No final das contas, o road movie etílico vira uma comédia sóbria (sem trocadilhos) e elegante, despretensiosa e profunda, um verdadeiro estudo sobre a vulnerabilidade e a carência que todos nós, seres humanos, compartilhamos no dia-a-dia. Maravilha de filme.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Kung-Fusão

Comédia mistura desenhos de Pernalonga, filmes de gângsters dos anos 1930/40 e artes marciais
Por: Rodrigo Carreiro

O homem aterrorizado está caído no chão. Olha para cima e vê um gângster de paletó e gravata negros, com camisa branca, caminhar em direção a ele. A trilha sonora ataca com um tema de jazz. Aí o gângster, com um machado na mão, começa a dançar no ritmo dos metais da canção. Depois que mata a vítima, se junta aos outros capangas – todos vestidos com roupas idênticas – e começa uma coreografia abusada. A cena faz parte da abertura de “Kung-Fusão” (Gong Fu, Japão/EUA, 2005) e serve de aperitivo para o coquetel alucinado de humor, desenho animado e artes marciais que o filme de Stephen Chow oferece ao espectador.
Chow, aos 41 anos e no sétimo longa-metragem como diretor, é um dos mais populares diretores chineses entre os jovens. Os filmes que ele faz poderiam ser descritos como o lado fast food dos filmes orientais. Enquanto cineastas como o sul-coreano Park Chan-Wook tentam arrumar espaço na cinematografia ocidental pela porta da frente, trabalhando com temas universais (como a vingança, no caso citado) à moda oriental, Stephen Chow apronta um coquetel de influências que inclui filmes do Pernalonga, musicais da Broadway, Bruce Lee, games de Playstation, os irmãos Marx e “Matrix”. Quer entrar pela porta de trás. E o resultado é aloprado, original e divertido, embora não vá mudar o mundo.
O filme se passa nos anos 1930/40, em Hong Kong. O personagem principal se chama Sing (o próprio diretor Chow) e é um bandido de terceiro categoria. Ele se faz passar por mafioso da Gangue do Machado, grupo de marginais que domina a cidade, para tentar arrumar uns trocados em uma favela chamada Chiqueiro, na periferia da cidade. No momento em que Sing passa vergonha apanhando dos bêbados da favela (cuja líder é uma impagável senhora que veste camisola, bobs nos cabelos e cigarro no canto da boca, como uma Dona Florinda de olhos puxados), a gangue aparece no lugar para tomar satisfações. O que se segue é uma paródia da famosa seqüência de Neo contra 50 versões do Sr. Smith, em “
Matrix Reloaded”, elevado ao cubo.
A violência de “Kung-Fusão”, muito bem definida pela seqüência, é a mesma dos desenhos de Chuck Jones (“Pernalonga”): uma violência que não dói. Os murros quebram paredes, os chutes atiram adversários dezenas de metros para trás, e os personagens correm em velocidade supersônica, de modo que a platéia não consegue ver as pernas deles, mas apenas a poeira levantada pelos pés, à maneira do Papa-Léguas. Tudo isso é feito com o uso de truques de montagem, efeitos computadorizados, trampolins escondidos, ginástica olímpica e ângulos bizarros de câmera. Detalhe: o orçamento magro de US$ 20 milhões não atrapalha, pois a ilusão é perfeita. Sem precisar ser realistas, as cenas ficam impressionantes.
Outra coisa que impressiona é o apetite do diretor Stephen Chow pelas referências visuais, que não páram de aparecer na tela. A trilogia “Matrix” é emulada em muitas cenas (inclusive com o uso do conceito do “salvador da humanidade”), há diversos trechos inspirados em western spaghetti (trilha sonora, enquadramentos e montagem em câmera lenta) e uma hilariante seqüência que parece retirada diretamente dos filmes de Robert Rodriguez sobre assassinos mexicanos que se travestem de músicos. Se muitas das cenas são claramente exageradas, isso não importa: tenha em mente que Stephen Chow está fazendo uma comédia de ação, misturada com filme de gângsteres e desenho animado com atores de carne e osso. Não é um filme tradicional de artes marciais.
Claro que isso nem sempre se traduz em cenas eficientes. Muito do humor existente no longa-metragem é revisitado dos filmes anteriores do cineasta (como o brilhante e superior “
Kung Fu Futebol Clube”, que pode ser encontrado em DVD), o que faz o filme ser menos engraçado para aqueles que já conhecem o que Chow é capaz de fazer. Além disso, algumas seqüências de luta ficaram longas demais – é o caso da batalha final entre dois lutadores, que fazem uma briga inspirada no quebra-pau entre Neo e Smith (“Matrix Revolutions”), só que bem-humorada. A duração excessiva faz a piada perder a graça antes do fim, o que não é boa coisa. Mas deslizes eventuais como esse não tiram o brilho de “Kung-Fusão”.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/kung-fusao/

Napoleão Dynamite


Cópia xerox dos trabalhos de Wes Anderson, filme é comédia melancólica razoável
Por: Rodrigo Carreiro

Pequenas sutilezas separam os grandes artistas dos menores. A máxima serve para explicar porque o badalado hype criado em torno do filme independente “Napoleão Dynamite” (Napoleon Dynamite, EUA, 2004) não vai muito além disso: apenas um hype. Estréia na direção de Jared Hess, o longa-metragem foi aplaudidíssimo no Festival de Sundance, comprado pela distribuidora Fox Searchlights e lançado em escala global nos EUA. Seguiu-se uma enxurrada de críticas positivas e um movimento boca-a-boca entre cinéfilos, que levaram o filme a faturar US$ 43 milhões, cifra excelente para uma produção que custou só US$ 400 mil. Baixada a poeira, fica a pergunta: o filme é tão bom quanto dizem?
“Napoleão Dynamite” é uma pequena comédia melancólica, em tom nostálgico e leventemente onírico, irreal, uma crônica idealizada da vida adolescente numa pequena cidade rural nos Estados Unidos. É um filme engraçado, sim, embora essa graça não deva ser medida pela quantidade de gargalhadas, porque não há piadas. O filme se situa bem longe do tipo de comédia rasgada que Hollywood gosta de praticar quando retrata o cotidiano dos adolescentes em filmes bobalhões e estridentes. “Napoleão Dynamite” não é isso. Só que fica pequeno junto de filmes alternativos feitos para o mesmo público. Não tem a vibração de um “
Donnie Darko”, nem a critividade de “Três É Demais”, nem a veia satírica do velho clássico “Curtindo a Vida Adoidado”.
O longa-metragem retrata uma fatia da vida do Napoleon Dynamite do título (Jon Heder). O sujeito é meticulosamente apresentado como uma espécie de rei dos nerds. Cabelo ruivo encaracolado, camisetas com estampas dos anos 1970, óculos enormes de lentes grossas, Napoleon leva a vida mais modorrenta e monótona que se pode imaginar, na pequena cidade de Idaho. Joga speedyball, desenha figuras de animais nos cadernos e leva porrada dos grandalhões da escola. Só reclama com gírias em desuso (“Heck!”), como aquele vizinho esquisito que teima em dizer “tri-legal”. E faz tudo isso sozinho. Napoleon é tão nerd que nem os outros nerds se aproximam dele. Isso faz dele um solitário crônico.
Vindo de uma família desajustada, o rapaz não poderia ser outra coisa. A família Dynamite mora num casarão que parece ter saído de uma máquina do tempo. O irmão mais velho, Kip (Aaron Ruell), passa os dias participando de chats na Internet e se apaixonando por garotas que não sabe como parecem. O tio Rico (Jon Gries) é vendedor e só pensa em voltar ao passado para jogar uma certa partida que, acha, lhe daria a chance de virar profissional de futebol. E a avó não pára em casa, vivendo em excursões com a namorada (?) e deixando para Napoleon a missão ingrata de alimentar uma lhama de estimação. Sim, você leu direito: uma lhama. “Napoleão Dynamite” é meticulosamente construído com elementos insólitos, bizarros. Essa é a sua verdadeira piada.
A estréia de Jared Hess na direção é interessante, mas tem um problema evidente: a falta de originalidade. Hess é um “copycat”, um imitador perfeito, mas não possui uma visão de mundo particular. Ele se revela um admirador tão maníaco do diretor Wes Anderson que praticamente construiu o filme com pedaços aleatórios do universo do cineasta texano. “Napoleão Dynamite” toma emprestados elementos de duas pérolas dirigidas por Anderson (“Três É Demais” e “Os Excêntricos Tenenbaums”), reorganiza tudo e cria um híbrido que repete, nos mínimos detalhes, todos os cacoetes e manias desses filmes. O único momento verdadeiramente original é a abertura, com os créditos colocados em pratos de comida e cadernos escolares, de maneira inteligente e barata.
De “Três É Demais”, Jared Hess roubou o visual ensolarado e colorido, a locação principal (um colégio secundarista de uma cidade pequena), bem como o personagem principal, que é uma óbvia variação do estudante Max Fischer, interpretado por Jason Schwartzman. De “Os Excêntricos Tenenbaums”, ele pegou a galeria de coadjuvantes insólitos (lembram-se de Pagoda, o indiano de calças cor-de-rosa?), a trilha sonora com hits dos anos 1970 e 1980 e até mesmo o tipo de tomada característica de Wes Anderson, com os atores de frente para a câmera, parados, de olhos vazios, recitando o texto sem emoção aparente.
“Napoleão Dynamite”, com o perdão da expressão, é uma cópia xerox dos trabalhos de Anderson, mas não possui aquele algo mais, a assinatura particular que retira o texano da multidão de diretores razoáveis e o coloca no patamar de autor. Falta a Jared Hess, talvez, o carinho insuspeito pelos personagens que Wes Anderson sabe demonstrar tão bem. Enfim, falta a Hess aquele toque sutil que o transformaria de artista mediano em craque.

Se você for atrás do DVD lançado nos EUA (Região 1), vai encontrar um pequeno bônus após os créditos: uma seqüência de seis minutos que foi exibida durante um segundo lançamento do filme nos cinemas. Não é nada muito especial, mas impressiona o fato de que, como foi filmada após as exibições em Sundance, a cena custou US$ 200 mil, a metade do orçamento do filme inteiro. Um fato significativo, que mostra como o poder do hype aumenta o valor das coisas de uma maneira irracional. Talvez isso explique também a hipervalorização com que a crítica norte-americana recebeu o razoável trabalho de Jared Hess.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/napoleao-dynamite/

Huckabees – A Vida É Uma Comédia


Comédia alucinada de David O. Russell segue estilo surpreendente do roteirista Charlie Kaufman
Por: Rodrigo Carreiro

Albert é um poeta e ativista ambiental que acredita em coincidências como sinais de algum evento místico. Depois de esbarrar por três vezes consecutivas com um refugiado sudanês vestido de porteiro de hotel, em plena metrópole norte-americana, o rapaz fica convencido de que o acontecimento deve simbolizar algo importante para a sua vida. Por isso, decide procurar uma dupla de investigadores, intitulados “detetives existenciais”, a fim de descobrir o que se esconde por trás de tal coincidência. Essa é a trama que dá partida ao bizarro “Huckabees – A Vida É Uma Comédia” (I Heart Huckabees, EUA/Alemanha, 2004), peripécia cinematografica cometida pelo cineasta David O. Russell, talentoso e irreverente diretor responsável pela sátira de guerra “Três Reis”.
Russell é o mais célebre seguidor das tramas tresloucadas do célebre roteirista Charlie Kaufman. De fato, Kaufman foi o sujeito que estabeceleu esse novo gênero de filme (poderíamos chamá-lo de “comédias dramáticas surrealistas com toques de metalinguagem”) como sucesso, em 1999, com “
Quero Ser John Malkovich”. Russell faz parte do time criativo que rodeia o roteirista: escalou como ator o diretor Spike Jonze (de “Malkovich”) na brilhante sátira “Três Reis”, e até fez uma ponta como ator no filme seguinte da parceria Jonze + Kaufman, “Adaptação”. Em “Huckabees”, ele tenta refletir sobre algumas das questões mais antigas a serem discutidos pela Filosofia: quem somos nós, humanos? De onde viemos? Para onde vamos?
Se a tentativa dá certo ou não, fica ao gosto do espectador. “Huckabees” é o tipo de filme que se ama ou se odeia, e é difícil ficar no meio termo. É um filme verborrágico, repleto de diálogos, com muitos personagens que se ligam das maneiras mais disparatadas ou absurdas, e tem muitos momentos de riso fácil, às vezes acompanhados de tiradas instigantes sobre as questões filosóficas acima citadas. Um dos detetives existenciais contratados por Albert, por exemplo, tem uma teoria segundo a qual tudo, no universo, está ligado por conexões invisíveis, e exemplifica a sua teoria usando um cobertor.
O elenco de “Huckabees” é um dos pontos fortes do longa-metragem. Albert, o protagonista, é interpretado por Jason Schwartzman (de “
Três É Demais, filme de Wes Anderson, autor cuja influência também é possível perceber em “Huckabees”). Durante o filme, Albert faz amizade com um bombeiro, Tommy (Mark Whalberg). Os dois detetives, marido e mulher, são Bernard (Dustin Hoffman, com um penteado estilo anos 1960 hilariante) e Vivian (Lily Tomlin). A francesa Isabelle Huppert aparece com destaque no papel de Caterine, uma espécie de guru de auto-ajuda que vem a ser, na verdade, a maior rival do casal de detetives. Há ainda Jude Law e Naomi Watts, fazendo um casal da moda – ele um empresário, dono da loja Huckabees do título, e ela modelo de TV – que pode, ou não, estar conectado aos problemas de Albert. Isso se você acreditar na teoria do casal de detetives, sim?
“Huckabees” é um verdadeiro moto-contínuo de idéias. A impressão que se tem é que David O. Russel passou os cinco anos que separam este projeto de “Três Reis”, seu filme anterior, juntando pedaços de piadas, gags, teorias existencialistas, frases bacanas, diálogos espertos, e depois deu um jeito de enfiar tudo num só longa-metragem. Como nos filmes escritos por Charlie Kaufman, há muitas surpresas e lances desconcertantes, além de grandes cenas de comédia (o jantar na casa da família do refugiado do Sudão é especialmente engraçado). Faz falta, no entanto, um fio condutor mais firme, que una todas as cenas em um enredo mais suave, mais fácil de seguir e menos pretensioso. Sim, pretensioso. Por trás de toda a descontração e o clima de improviso, existe uma vontade nítida do filme: ser levado a sério.
Na época do lançamento nos EUA, Russell afirmou que a idéia central para o longa-metragem havia surgido após os ataques de 11 de setembro, em Nova York. O diretor diz que as pessoas passaram os três ou quatro meses seguintes mergulhados em longas discussões a respeito de temas profundos, como a origem do universo e o sentido da vida – e foi o clima frenético e alucinado dessas conversas, diz Russell, que ele quis captar. Se essa foi a idéia, o diretor acertou na mosca: frenético é a palavra exata para descrever “Huckabees”. Mas um pouco mais de despretensão não faria mal a ninguém.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/huckabees-a-vida-e-uma-comedia/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Aviador


Martin Scorsese entrega cinebiografia grandiosa e coerente sobre milionário excêntrico
Por: Rodrigo Carreiro

Quando Martin Scorsese anunciou a intenção de dirigir a cinebiografia do milionário excêntrico Howard Hughes, uma personalidade lendária de Hollywood, muita gente estranhou. Na superfície, a vida de Hughes parece não ter nenhuma relação com as temáticas mais recorrentes da obra do cineasta norte-americano: a vida de personagens que vivem à margem da sociedade (“Touro Indomável”, “Taxi Driver”) e o submundo da máfia (“Os Bons Companheiros”, “Cassino”). Uma análise mais acurada de “O Aviador” (The Aviator, EUA, 2004), porém, mostra que o filme é um legítimo representante da obra de Scorsese, e é uma marca honesta na carreira de um diretor que já tem lugar reservado entre os mais importantes homens de Cinema de todos os tempos.
De fato, a vida de Howard Hughes tem muita semelhança com as trajetórias de Travis Bickle e Jake La Motta, os dois personagens mais importantes de Scorsese, ambos imortalizados por interpretações antológicas de Robert De Niro. Hughes também era, à sua maneira, um marginal, um homem que não era levado a sério nas rodas que freqüentava. O retrato que Scorsese pinta desse homem é complexo, humano, cheio de altos e baixos. Hughes era um sujeito fascinante: impetuoso, movido a paixões instantâneas, um homem que não tinha medo de tomar decisões empresarialmente arriscadas apenas por simpatizar com um projeto.
Se fosse pobre, Howard Hughes jamais seria levado a sério. Como herdeiro da fortuna de um bilionário texano do ramo do petróleo, contudo, ele podia se dar ao luxo de passar dois anos e meio sem trabalhar, metendo-se a diretor de cinema. Pior: fazendo um único filme, ao custo de milhares de dólares por dia, apenas porque queria esperar pelas nuvens certas para filmar uma seqüência de ataques aéreos. Hughes era fascinado por aviação. Ele voava sempre que possível, dava pitaco nos projetos aerodinâmicos dos aviões que construía e não hesitou em comprar a TWA, uma das maiores empresas do ramo, quando a empresa ficou em dificuldades.
Há uma brilhante cena, logo no início de “O Aviador”, que mostra o quanto Hughes era obstinado e, ao mesmo tempo, ridicularizado por gente do mesmo tope. Em um restaurante da moda, ele aborda Louis B. Mayer (Harridon Held), chefão do estúdio MGM, para pedir duas câmeras emprestadas, a fim de completar as filmagens de uma cena importante para seu épico “Anjos do Inferno”. Ciente das excentricidades do então rapaz, o executivo o recebe, intrigado, com um leve sorriso. Eles travam o seguinte diálogo:
- Preciso de algumas câmeras. Duas, para ser mais exato. Já comprei todas as câmeras que pude encontrar, mas precisamos de mais duas. Desesperadamante. Acha que a MGM pode me ajudar?- Não temos o hábito de ajudar a competição. Quantas câmeras você tem?- Vinte e quatro.
Mayer olha de lado, incrédulo.
- Tem 24 câmeras e precisa de mais duas? Não dá para rodar a cena com 24?- Não, senhor.
O executivo sorri, zombeteiro.
- Vou te dar um conselho. Pegue seu dinheiro do petróleo e ponha no banco. Se continuar filmando assim, ninguém vai querer distribuí-lo. Ninguém irá querer assistir ao filme. E seu dinheiro do petróleo vai acabar. Ele ironiza: – Bem-vindo a Hollywood.- Vou me lembrar disto, Sr. Mayer.
O espectador encontra tudo nesse diálogo: a ironia fina de um profissional que pensa estar lidando com um amador, a surda e feroz competição entre os estúdios de Hollywood, a arrogância do aprendiz diante da zombaria do mestre. O diálogo é um excelente exemplo do bom roteiro de John Logan. O texto, filmado pelo diretor certo, ergue uma biografia quase perfeita de um titã, um homem que, mesmo nadando em dinheiro, foi sistematicamente rejeitado pelos colegas de altas rodas sociais, porque ousou peitar o establishment durante toda a sua vida. Ele sofreu as compreensíveis punições sociais por causa disso, como a segunda metade do filme, dominada pela briga com o empresário rival Juan Trippe (Alec Baldwin), dono da Pan Am, deixa claro.
Leonardo DiCaprio encarna o protagonista de modo impecável, destilando charme e energia juvenis e obtendo um registro de voz mais agudo do que o normal, para salientar a aparente fragilidade do jovem milionário. DiCaprio é apenas uma das pontas de um elenco tão farto quanto homogêneo em sua excelência. No meio de tantas feras, como John C. Reilly, Ian Holm e Jude Law (que faz uma ponta hilariante como o ator Errol Flynn), duas atrizes que interpretam namoradas de Hughes se destacam de modo oposto. A australiana Cate Blanchett, no papel de Katherine Hepburn, mostra a mistura exata de classe e fina inteligência, emolduradas por um sotaque de alta sociedade impecável. Já Kate Beckinsale, como Ava Gardner, é o contraponto negativo, o elo mais fraco do elenco, sem expressão e sem força. Acaba ganhando menos espaço na montagem por causa disso.
A montagem, costumeiramente um ponto forte nos filmes de Scorsese, aqui escorrega em alguns momentos. Obrigada a comprimir muitas cenas em 2h50 de filme, Thelma Schoonmaker acelera demais algumas seqüências, sobretudo na primeira metade do filme, que concentra a narrativa nas aventuras de Howard dentro de Hollywood. Mesmo assim, há uma boa quantidade de grandes cenas, como a linda passagem em que dezenas de aviões monomotores levantam vôo com o céu nublado, para a gloriosa filmagem de “Anjos do Inferno”. Outro momento brilhante, uma das mais deliciosas cenas do filme, é o passeio noturno de Hughes e Hepburn sobre Los Angeles, de avião. Ali, o rapaz seduz a altiva atriz com suas travessuras e, ao mesmo tempo, dá a primeira pista sobre a neurose obsessivo-compulsiva que iria lhe transformar em magnata recluso na meia-idade, muitos anos depois.
Como de hábito, Scorsese promove uma reconstituição de época minuciosa e impecável, com a ajuda de colaboradores fiéis, como o cenógrafo Dante Ferretti. A Hollywood dos anos 1930 e 1940 ganha, então, um retrato belíssimo. A exigência de Scorsese para com os detalhes é tão grande que ele exigiu do fotógrafo Robert Richardson que cada período aparecesse, no filme, com a textura e o uso de cores que remetessem à tecnologia de captação de imagens da época. Assim, as imagens do início de “O Aviador” possuem um tratamento de cores mais precário, típico do Technicolor. À medida que o longa vai avançando no tempo, as cores vão se tornando mais naturalistas, mais fiéis à realidade.
Para completar, Scorsese também demonstra que é um cineasta completo ao filmar a seqüência da queda de um avião, repleta de efeitos especiais gerados por computador, com impressionante grau de realismo. Tudo bem, “O Aviador” pode não ter o sabor de novidade de “Taxi Driver”, o impacto inigualável de “Touro Indomável” e nem a sofisticação narrativa de “Os Bons Companheiros”. Mas apresenta coerência com a temática que domina a obra de Scorsese e tem muito mais qualidades do que defeitos.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/aviador-o/

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Matadores de Velhinhas


Personagens surreais, diálogos deliciosamente camp (exagerados), trilha sonora repleta de canções rurais dos EUA e um senso de humor negro inigualável. “Matadores de Velhinha” (The Ladykillers, EUA, 2004) revisita com eficiência o universo muito particular dos irmãos Joel e Ethan Coen, após uma ligeira derrapada (“O Amor Custa Caro”, apenas razoável). Se “Matadores de Velhinha” não chega a estar à altura dos grandes momentos dos irmãos cineastas, que estão entre os mais originais e criativos artífices do cinema contemporâneo, pelo menos revela-se um longa de humor inspirado e belas imagens.
Na verdade, o longa-metragem tem alguma semelhança com o excelente “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”. Naquela comédia, os
irmãos Coen buscaram inspiração livre nos fatos narrados na “Odisséia”, de Homero, e adicionaram isso fartas doses de paixão pelo ritmo da vida rural nos EUA. Tudo isso, claro, temperado com o humor negro peculiar de Joel e Ethan. Em “Matadores de Velhinha”, a inspiração vem de Edgar Allan Poe, embora esteja disfarçada de remake de um antigo filme inglês de 1955.
Como no longa-metragem original, “Matadores de Velhinha” narra uma história simples e surreal. O professor G.H. Dorr (Tom Hanks), um excêntrico professor sulista, aparece de surpresa na casa da viúva Marva Munson (Irmã P. Hall), numa cidadezinha à beira do rio Mississipi, querendo alugar um quarto da casa. Ele diz que deseja levar os colegas músicos de um grupo especializado em música renascentista para ensaiar no porão empoeirado do lugar. A senhora, encantada com o charme excêntrico do intelectual, aceita.
Ela não sabe, porém, que a história não passa de desculpa para que Dorr execute o roubo do cofre de um
cassino localizado num barco. Ocorre que o cofre fica bem perto da casa. Dorr e seus asseclas pretendem, então, cavar um túnel ligando os dois lugares para efetuar um assalto perfeito. Como em qualquer filme dos irmãos Coen, é evidente que o plano original do protagonista vai progressivamente acumulando problemas, até sair completamente de controle – e tudo de uma maneira absolutamente imprevisível para o espectador.
“Matadores de Velhinha” captura os irmãos Coen (aqui assinando a direção de um filme juntos, oficialmente, pela primeira vez) no melhor de sua forma. Os cineastas constroem, com o cuidado habitual, um protagonista peculiar, com nuanças de comportamento que o fazem capaz de parecer ao mesmo tempo caricato e assustador. Dorr usa um vocabulário pomposo ao falar, citando freqüentemente passagens de Poe; se veste de forma impecável, com ternos e gravatas dignos das universidades (do século XIX); tem um cavanhaque ligeiramente diabólico e um topete um tanto engraçado; e possui uma risada descontrolada que é a cereja no topo do bolo. Ele não parece um intelectual antiquado – é o próprio, graças à boa interpretação de Tom Hanks.
O elenco de apoio segue a performance com a habitual competência. Os quatro membros da quadrilha estão absolutamente hilariantes, com destaque para Tzi Ma e seu hábito alucinado de esconder um cigarro aceso dentro da boca, com a ajuda da língua. Enquanto isso, Irma P. Hall e suas pernas tortas domina a cena sempre que está diante da câmera. E se os trejeitos curiosos dos coadjuvantes podem dar a impressão de um besteirol, o texto refinado e a trilha sonora espetacular (T. Bone Burnett aparece desta vez com uma coleção impecável de música gospel) transformam pura diversão em algo mais.
Mesmo com tantos atores bacanas e diálogos brilhantes, o destaque maior do filme está mesmo atrás da câmera: o fotógrafo Roger Deakins prova, mais uma vez, que é um dos maiores nomes da sua profissão em atividade. A fotografia, em tons laranjas e esverdeados, é rigorosamente primorosa, desde a escolha da paleta de cores até os enquadramentos precisos. Infelizmente, a crítica foi rigorosa com o filme e o tem julgado como uma obra menor dos irmãos Coen (de fato, não há como colocá-lo no mesmo patamar de “Fargo” ou “
Gosto de Sangue”). Por outro lado, “O Grande Lebowski” ou “O Homem Que Não Estava Lá” também foram vistos dessa maneira, antes que o tempo se encarregasse de mostrar que eram integrantes legítimos da filmografia extensa e impecável de dois dos maiores (e mais despretensiosos) cineastas das últimas décadas.