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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Ultimo Mestre Do Ar


Elenco: Noah Ringer, Nicole Peltz, Jackson Rathbone, Dev Patel, Aasif Mandvi, Shaun Toub, Cliff Curtis.
Direção: M. Night Shyamalan
Gênero: Aventura
Duração: --- min.
Distribuidora: Paramount Pictures
Estreia: 23 de Julho de 2010
Sinopse: Há muito tempo atrás, o mundo era dividido em quatro grupos: Nação do Fogo, Tribo da Água, Reino da Terra e Nômades do Ar. Essas nações viviam em perfeito equilíbrio, até o dia em que a Nação do Fogo atacou. O Avatar, mestre dos quatro elementos, é o responsável por manter o equilíbrio do mundo e quando o mundo mais precisou, ele desapareceu. Cem anos após esse acontecimento, dois jovens da tribo da água do sul encontram o avatar, um habilidoso dominador de ar chamado Aang.
Curiosidades:
» Trata-se da adaptação cinematográfica do desenho 'Avatar: A Lenda de Aang' (Avatar: The Last Airbender), que Shyamalan trabalha há dois anos para tirar do papel.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Procurado


Filme não tem nada a ver com a HQ. Tem, sim, idéias próprias
Marcelo Hessel/Omelete
O tempo inteiro o filme O Procurado desafia as leis da física, mas, se comparado com a HQ que lhe deu origem, fica parecendo até realismo à la
Batman Begins. O filme tem carros que dão saltos mortais e tiros que fazem curva, mas a minissérie em quadrinhos do roteirista Mark Millar e do desenhista J.G. Jones tem em suas realidades alternativas um nazista viajante do tempo, um africano imortal, um vilão feito de fezes e outro que literalmente pensa com a cabeça de baixo.
Tirando a premissa - cara com emprego miserável descobre ser herdeiro de um dos maiores assassinos do mundo - o filme e a HQ têm pouco em comum. O primeiro é um thriller de ação e conspiração, o segundo é uma provocação com o universo dos super-heróis e dos super-vilões. No traço de J.G. Jones os protagonistas se parecem com Eminem e Halle Berry. No filme são interpretados por James McAvoy e Angelina Jolie.
McAvoy é Wesley Gibson, sujeito cuja insignificância se resume pelo resultado zero das buscas por seu nome no Google. Jolie é Fox, uma assassina da sociedade secreta centenária Fraternidade, que aparece para avisar que o pai de Wesley, que ele sequer conhecia, foi morto. A missão de Wesley é vingá-lo - e aceitar que seu destino não é ser um loser das 9h às 18h, mas um fodão em tempo integral.
Se em
Guardiões da Noite o diretor russo Timur Bekmambetov cobria de efeitos um roteiro macarrônico, agora cobre de efeitos um roteiro minimamente depurado, o que já faz toda a diferença. Dá até pra atentar às boas sacadas visuais que não têm a ver com computação: a mira infra-vermelha sobre a pinta na testa da indiana, o rosto de Wesley visto pelo galão de água, o caminhão de gatos de cabeça balançante, a fusão das luzes do túnel para a banheira revigorante...
Não dá para esperar muita profundidade de O Procurado. Dura um segundo o questionamento de Wesley, "quem sou eu?" - depois de se perguntar, corta rápido e no plano seguinte ele mesmo dá a resposta. Bekmambetov só rende-se a um plano mais demorado se for estritamente necessário, como quando o close-up se prende no rosto de Jolie - bela como nunca - antes dela soltar uma frase importante. Espera-se que um filme de ação não dê tempo para o espectador respirar, e essa regra O Procurado segue religiosamente, sem perder o fio dramático.
Religiosidade, curiosamente, é um elemento que não existia na HQ e que Bekmambetov insere de forma velada. O subtexto é forrado de cristandades: o líder da Fraternidade fala em rebanho de ovelhas, há velas por todos os lados, Wesley deve seguir o caminho do pai, o respeito à mensagem cifrada lembra a Bíblia. E quando precisa buscar as raízes do grupo o protagonista vai a uma abadia na Europa. O Procurado não é um filme profundo, "de temas", mas provoca, tem idéias e invenção. Hoje em dia isso já é uma vitória.
Só seria melhor se o filme não conversasse com o espectador - e nisso se assemelha negativamente à HQ - com tanto menosprezo, do tipo "pare o que você está fazendo e me ouça". Em dois momentos, no começo e no fim, a narração em off de James McAvoy esgarça o ar de superioridade misturado com auto-ajuda. Precisava mesmo?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Senhor Das Armas


Há muita coragem no lançamento do O senhor das armas (Lord of war, 2005) às vésperas de um referendo histórico que pode proibir a venda e porte de armas de fogo no Brasil. Logo no início do filme, em uma rua coberta por balas dos mais diversos calibres, Yuri Orlov (Nicolas Cage) começa a despejar dados sobre a indústria na qual trabalha, a armamentista. Existem mais de 550 milhões de armas de fogo em circulação no mundo. Isso significa uma arma para cada 12 pessoas. A única pergunta é: como armar as outras 11?, diz ele sem demonstrar qualquer tipo de ressentimento.
Para entender como ele chegou àquele estágio, um flashback nos leva aos anos 80. Sempre com uma locução em off, Yuri conta que imigrou da Ucrânia para os Estados Unidos com seus pais. Um dia, em um restaurante, ele tem uma epifania: matar faz parte da natureza humana, como comer, e assim começa a lucrar com esta necessidade, vendendo armas ilegalmente. Junto com seu irmão mais novo, Vitaly (Jared Leto), ele logo está negociando com pessoas de todos os tipos de ilicitude, do tráfico de drogas, ao maior de todos, o tráfico de influências da politicagem.
Escrito e dirigido por Andrew Niccol (Gattaca, S1m0ne), o filme mostra detalhes da máfia controladora de uma indústria bilionária. Quem compra armas ilegais são os bandidos, os traficantes, os guerrilheiros, os tiranos, mas quem as fabrica são geralmente pessoas e conglomerados de muito poder entre as classes dominantes, não importa o país. Em
Tiros em Columbine (2002), Michael Moore mostra detalhes da cultura belicista norte-americana. Niccol afasta sua câmera e mostra casos mundiais de generais corruptos roubando armas de seu próprio batalhão, traficantes armando seu próprio exército e líderes africanos colocando crianças armadas nas ruas.
Embora os personagens pareçam formas caricatas do que já foi mostrado inúmeras vezes no cinema, na TV e nos jornais, todos os fatos foram pesquisados a fundo por Niccol. Os números são atirados como balas saindo de uma semi-automática, como por exemplo: Entre 1982 e 1992 foram roubados na Ucrânia mais de 32 billhões de dólares em armamento, no que acreditam ser o maior assalto do século 20. Ninguém foi condenado, ou investigado.
A diferença do filme ficcional de Niccol com o documentário de Moore é que este último era tão maniqueísta ao falar da indústria que acabava deixando o tema irônico, afinal é cômico ver como os armamentistas tentam defender algo feito para matar. Já o personagem de Nicolas Cage é uma contradição ambulante. Méritos ao ator, que consegue transformar um vendedor de armas em um cara frágil e do qual você até pode nutrir algum sentimento positivo, quase um carinho. Yuri sabe que o que faz é errado, mas não consegue parar, pois ele é realmente bom no seu trabalho, estando sempre à frente dos seus adversários, sejam eles outros vendedores, ou a polícia. Seu azar/maldição é que este ramo é ilícito e, pior, responsável pela morte de milhares de pessoas por ano.
Talvez o grande defeito de O senhor das armas seja seu excesso de zelo. O filme mostra muito cuidado com toda a parte gráfica do filme, que apresenta um dos pôsteres mais bem trabalhados do ano e uma seqüência de créditos iniciais que mostra a vida de uma bala, desde o seu nascimento, até o seu objetivo final, entrando na cabeça de uma criança. Ao mostrar cenas bem filmadas, trilha sonora pop e até bom uso de computação gráfica, o longa corre o risco de cair na prateleira dos filmes-pipoca, perdendo assim seu selo de filme-denúncia.
Ajuda também o texto escrito por Niccol, que transforma Yuri em um grande cínico. Há muita ironia no texto, como na citação de que após o fim da Guerra Fria, a AK-47 se tornou o maior ítem de exportação da Rússia. Seguido pela vodca, caviar e escritores suicidas, ou quando Yuri diz que não vendeu armas para Osama Bin Laden. Não por razões morais, mas porque ele só dava cheques sem fundos.
Mas ao bom entendedor, meia-palavra basta, cer?

Exilados


Johnnie To faz "faroeste lamen"
Érico Borgo/Omelete
Se você conheceu o chinês Johnnie To através de
Eleição - O submundo do poder, filme do cineasta que entrou em circuito comercial no Brasil em 2006, prepare-se para um diretor completamente diferente em Exilados (Exiled, 2006).
O tema é semelhante, máfia, crime, etc., mas a execução não poderia ser mais distinta. Em Exilados, To presta reverência ao spaghetti western de Sergio Leone e cria um verdadeiro faroeste em Macau (um faroeste lamen, talvez?) Sua contribuição ao gênero, porém, é um tanto tarantinesca: diálogos absurdos, violência estilizada e muito humor negro.
O roteiro, criado pelo diretor ao lado do grupo criativo Milkyway Image, coloca cinco pistoleiros companheiros numa última missão juntos. A premissa simples aposta na diversão, não na verossimilhança. Um tiroteio entre três pessoas num quartinho, por exemplo, pode acabar com todos vivos e sem nenhum arranhão. Wo (Nick Cheung), começa a história tentando levar uma vida tranquila ao lado da esposa e bebê, mas seu passado logo bate à porta. Blaze (Anthony Wong) e Fat (Lam Set), seu amigos de infância, precisam matá-lo por vingança a um atentado frustrado ao chefão local Boss Fay (Simon Yam). Os pistoleiros restantes, Tai (Francis Ng) e Gato (Roy Cheung), estão ali para salvá-lo. Não demora para que a velha gangue fique junta novamente, contra os poderes estabelecidos na cidade.
As homenagens ao "faroeste espaguete" estão em boa parte dos quadros. Antagonistas posicionados nos cantos da tela, gaita e violão elétrico ao fundo (evocando constantamente Ennio Morricone), honra em jogo o tempo todo. Mas a influência do cinema de ação chinês - especialmente o de John Woo dos velhos tempos - é também sentida. Câmeras lentas, poses exageradas, papel picado voando, muito tecido esvoaçante... To não economiza na estética. Está aí a cena da sala de operação - a melhor e mais engraçada - como prova.
Mas as quase duas horas da produção passam e essa mistura toda começa a incomodar e cansar. Felizmente, cresce na mesma proporção o interesse pelo quinteto de pistoleiros camaradas. Carismáticos, os atores cativam e dão aos seus personagens uma alegria contagiante. As piadas recorrentes (o policial às vésperas da aposentadoria, a latinha de energético, o apreço de um dos matadores por prostitutas) são ótimas e equilibram as longas seqüências de tiroteios. Mesmo nos momentos mais dramáticos, arrancam gargalhadas. To merece uma visita.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

007 - Quantum Of Solace

Enredo é apenas uma desculpa para o diretor Marc Forster construir seqüências longas, brutais e bem editadas de ação, atualizando de vez o charmoso espião inglês para o século XXI
Por: Rodrigo Carreiro
O 22º longa-metragem da mais antiga franquia cinematográfica do cinema radicaliza o principal objetivo de “Cassino Royale” (2006), o título anterior da série: atualizar a imagem do espião inglês para o século XXI. Ancorado no extraordinário sucesso comercial alcançado pelo antecessor, “007 – Quantum of Solace” (EUA/Reino Unido, 2008) chuta o pau da barraca de uma vez por todas. O velho agente secreto com licença para matar – aquele homem charmoso, conquistador incorrigível, que derrotava adversários sem manchar a grava borboleta ou desfazer o penteado impecável – pertence ao passado. O novo James Bond (Daniel Craig) passa longe da pedra de gelo emocional que era o personagem, em suas vinte primeiras encarnações. Ele está de coração ferido. E se um cara como Bond já é perigoso em seu estado normal, deve virar um trator incontrolável quando fica com raiva, certo?
Escrito pelo mesmo trio de autores responsável por “Cassino Royale” (Neal Purvis e Robert Wade rascunharam o roteiro, finalizado depois pelo vencedor do Oscar Paul Haggis), “Quantum of Solace” não foi baseado num romance de Ian Fleming, criador de 007. Para demarcar com firmeza a distância entre o James Bond do século XXI e o antigo personagem, egresso da Guerra Fria, eles também decidiram fazer, pela primeira vez, uma seqüência lógica da aventura anterior. Até então, os 21 títulos da série funcionavam como obras independentes, que podiam ser vistas em qualquer ordem. O longa de 2008, porém, retoma a história do título de 2006 do ponto onde ela havia parado. Devastado pela morte da amada Vesper (Eva Green), no fim do filme, James Bond (Daniel Craig) decide ir contra as ordens de M (Judi Dench) e seguir investigando a misteriosa corporação internacional que financia terroristas e ditadores.
O enredo de “Quantum of Solace” (o título original, mantido no Brasil, é uma expressão idiomática inglesa difícil de traduzir, mas que poderia ser algo como “um mínimo de consolo”) não tem, na verdade, muita importância. É um McGuffin, uma mera desculpa para que o versátil diretor suíço-alemão Marc Forster possa desenvolver longas, brutais e extremamente bem editadas seqüências de ação física. Na trama, James Bond segue os passos de um empresário (Mathieu Amalric) que gerencia uma organização não-governamental ambientalista de influência mundial. Trata-se de uma instituição de fachada para negócios criminosos multimilionários. Mas o próprio Bond não está muito interessado nisso. O que ele quer mesmo é detonar todas as pessoas responsáveis pela morte da mulher amada. Para isso, não apenas desobedece às ordens do serviço secreto britânico, como também não hesita em usar amigos (e depois abandoná-los) apenas para cumprir a tarefa auto-imposta. Um homem de alma torturada, emocionalmente no fim da linha.
Sabendo que o sucesso do filme está diretamente vinculado às seqüências de ação, Marc Forster não perde tempo, e o filme abre com uma espetacular perseguição de carro por estradas italianas, seguida por outra perseguição incansável – desta vez, pelos telhados e varandas de uma pequena vila na costa da Itália. Espectadores atentos irão notar a enorme semelhança desta cena com a extraordinária seqüência de “O Ultimato Bourne” no Marrocos. Mais uma vez, fica evidente que a trilogia do agente sem memória estabeleceu o padrão de excelência que todos os filmes de ação deste início de século XXI tentam seguir. Tanto é verdade que o diretor de segunda unidade dos três filmes Bourne, Dan Bradley, foi contratado para auxiliar Forster nas filmagens em locação.
O resultado, sem dúvida, é muito bom. Contando com um trabalho de montagem veloz e eficiente, “Quantum of Solace” possui seqüências de ação extremamente brutais, filmadas sempre com câmera na mão, mas sem jamais perder o senso de geografia e o clima de urgência. O espectador nunca se sente desorientado (como freqüentemente acontece com aventuras de qualidade inferior) e também nunca perde a sensação de estar dentro da ação, com o coração acelerado, saltando de um lado para outrro, tomando e desferindo pancadas. Para alcançar este resultado, a equipe criativa utiliza cortes velozes e abusa dos “chicotes” (movimentos laterais de câmera rápidos e improvisados, como se a pessoa que estivesse manuseando o equipamento estivesse correndo).
A variedade de seqüências de ação é enorme. Além das já citadas perseguições de carro e sobre telhados, outras cenas de ação envolvem barcos e aviões. Com tudo isso, o inglês Daniel Craig prova mais uma vez que o papel lhe cai muito bem. Ele tem o corpo perfeito para alguém capaz de realizar tantas proezas físicas, e capacidade dramática acima da média. Sua expressão rígida e os olhos duros ajudam na composição do personagem, embora seja relativamente difícil, para a platéia, se relacionar num plano emocional com um homem que passa por um momento sem humor, e exercita seu charme pessoal apenas para cumprir objetivos estritamente pessoais. O restante do elenco dá conta do recado sem problemas, incluindo a bela Olga Kurylenco, atriz sul-africana-ucraniana que assume o posto de Bond Girl sem passar pela cama do espião.
Se a falta de um enredo consistente impede “Quantum of Solace” de se tornar um dos
grandes filmes da franquia, não resta dúvida de que o filme cumpre com eficiência o papel a que se propõe. De quebra, ainda agrega pontos extras ao currículo de Marc Forster, um diretor capaz de transitar sem dificuldades por terrenos tão distintos quanto os thrillers sobrenaturais (“A Passagem”), os dramas infanto-juvenis (“Em Busca da Terra do Nunca”) ou sexualmente explícitos (“A Última Ceia”), e as comédias metalingüísticas (“Mais Estranho que a Ficção”). Ah, e a canção-tema do filme, composta por Jack White e executada em dueto com Alicia Keyes, emoldura muito bem os créditos de abertura, buscando raízes no funk pesado à Led Zeppelin. Não faria feio num disco como “Physical Graffiti”, um dos grandes clássico do Led nos anos 1970. Para amantes de música bem feita, é um atrativo extra interessante.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/007-quantum-of-solace/

007 - Cassino Royale


Estréia do ator Daniel Craig na pele do charmoso agente secreto atualiza o personagem para o século XXI em um filme musculoso
Por: Rodrigo Carreiro

Neste início de século XXI, a mais popular de todas as franquias cinematográficas envolvendo agentes secretos se viu em uma encruzilhada. A imagem habitual de James Bond, o espião inglês com licença para matar, sempre havia sido a mesma nos 40 anos anteriores – um sujeito charmoso e bonitão, sempre impecavelmente vestido com smoking e gravata-borboleta, segurando uma taça de dry martini numa mão e uma pistola com silenciador na outra. Não é preciso ser gênio para perceber que esta imagem pertence ao passado. Em pleno século XXI, James Bond precisava urgentemente de uma reinvenção radical. E é isto que “007 – Cassino Royale” (Casino Royale, EUA/Inglaterra/ República Tcheca, 2006) providencia para o herói.
Para compreender o problema por inteiro, é preciso analisar o contexto da série. Bond foi criado pelo escritor inglês Ian Fleming em 1953, quando o mundo era bem diferente. Duas superpotências disputavam uma corrida armamentista, nós associávamos um pouco provável fim do mundo à bomba atômica, o rock’n’roll nem havia sido criado, e se vestir de acordo com a moda era pôr um terno engomado. Em 2006, os Estados Unidos invadem o país que bem entendem sem pedir licença, a extinção da humanidade está ligada às nossas ações cotidianas (efeito estufa, lembram?), música para jovens é hip hop e metal, e moda tem a ver com piercings e tatuagens. Dry martini? Existe alguém na faixa de 20 anos que saiba o gosto desse drinque?
Como se não fosse suficiente, o próprio cinema se encarregou de revitalizar a fórmula dos filmes de espionagem, através de personagens inspirados em 007, mas devidamente atualizados para os novos tempos. É isto que são o desmemoriado Jason Bourne (“A Supremacia Bourne”) e o atlético Ethan Hunt (“Missão: Impossível”): homens jovens, com rostos bonitos e sex appeal, mas com defeitos. Eles não recorrem a traquitanas tecnológicas para escapar de uma ameaça; não têm medo de sujar a camisa e ir para o pau quando necessário. Foi pensando nisso que os produtores da série inglesa decidiram chamar o parrudo ator Daniel Craig para o papel, provocando uma enorme ondas de protestos dos fãs do 007 clássico. Os mais puristas reclamavam que um homem loiro não podia interpretar o agente assassino.
É difícil imaginar que alguém sério possa considerar a cor dos cabelos de um ator um fator determinante para sua escalação para um papel. Esta turma diminuta já odiava o longa-metragem antes mesmo de vê-lo. Se você integra o grupo, passe longe do filme. Mas se quer distância deste séqüito de seguidores radicais, alegre-se: “Cassino Royale” é para você. A produção atinge perfeitamente o objetivo de revitalizar a franquia, puxando James Bond para a realidade do século XXI sem, no entanto, deixar de lado as características que as produções protagonizadas pelo agente secreto sempre tiveram: belas mulheres, carros esporte de luxo, frenéticas seqüências de ação e muita ironia fina. Tudo isto adorna um filme brutal, físico, com seqüências de ação acrobáticas e um herói esperto e inteligente, mas também violento e cabeça-dura.
A história, lapidada pelo roteirista vencedor do Oscar Paul Haggis (“
Crash – No Limite”), apaga o passado do espião londrino e o focaliza no início da carreira, realizando sua primeira missão após receber os dois zeros à frente do número sete (ou seja, a lendária licença para matar). A tarefa que a chefe do serviço secreto inglês, Madame M (Judi Dench), passa para o novato promissor é complicada: identificar a fonte única dos recursos internacionais que vêm financiando atividades terroristas. Para levar a cabo a missão, Bond investiga bandidos de segundo escalão em Madagascar, Bahamas e Miami, antes de seguir o rastro do dinheiro até uma competição milionária de pôquer num cassino luxuoso de Montenegro. Tudo isso após um classudo prólogo em preto-e-branco e uma extraordinária seqüência de créditos, feita com um estilo lúdico de animação que brinca com temas de cartas do baralho.
É curioso notar que a reinvenção de James Bond ocorre pelas mãos de uma equipe que já acompanha o personagem há muitos anos, detalhe que enfatiza ainda mais a necessidade que os produtores sentiam de atualizar o agente secreto. O diretor, Martin Campbell, já havia dirigido uma aventura de 007, “Goldeneye” (1995), de onde trouxe o fotógrafo Phil Meheux. Os roteiristas Neal Purvis e Robert Wade escreveram os dois últimos filmes do espião. David Arnold assina a trilha sonora de um longa-metragem do personagem pela quarta vez. Judi Dench repete o papel de Madame M. E mesmo assim, com tantos nomes familiares, a franquia exibe fôlego renovado. Bom sinal.
Com orçamento reduzido à metade do que vinha sendo gasto nos últimos filmes da série (US$ 72 milhões), Campbell encontrou uma forma de cortar custos justamente nas seqüências de ação, fazendo que elas sejam poucas (e, porém, longas, o que valoriza bastante os momentos de maior adrenalina). O cineasta investe em um estilo mais orgânico, todo baseado em edição veloz e muita movimentação de câmera, com pouco uso de computação gráfica. A técnica se revela eficaz desde a primeiríssima cena de ação, quando Bond precisa perseguir um bandido pelas ruas caóticas de Madagascar, passando por uma construção e acabando dentro de uma embaixada. A seqüência é musculosa e alucinada, passando perfeitamente à audiência o novo estilo do agente secreto, mais brutal e físico do que charmoso e intelectual.
A escalação de Daniel Craig no papel principal encaixa à perfeição no papel. O ator possui o rosto anguloso e os olhos apertados de um boxeador, bem como um porte físico avantajado, o que torna perfeitamente críveis as peripécias mais audaciosas do agente secreto – se alguém pudesse mesmo fazer o que ele faz, certamente teria um corpo musculoso. Como se não bastasse isso, Craig possui boa desenvoltura dramática e se sai bem também na parte romântica da trama (um filme de James Bond não estaria completo sem uma Bondgirl decente, e aqui temos nada menos do que duas, a italiana Caterina Murino e a francesa Eva Green, ambas belíssimas). É interessante notar, ainda, que o ator sempre parece meio desconfortável dentro de um smoking clássico com gravata-borboleta, e isto é bastante adequado para o objetivo primário do longa-metragem, que é reconstruir a imagem de James Bond para o público jovem do século XXI.
No final das contas, o diretor Martin Campbell agradou a gregos e troianos, já que conseguiu transformar 007 em um agente secreto moderno, espanando o cheiro de mofo que a franquia começava a exalar, mas sem abrir mão do terno negro e do dry martini que fazem parte da imagem clássica do personagem. Definitivamente, James Bond não é um tiozinho que não dialoga mais com a “galera”. Em um dos melhores e mais bem bolados diálogos de “Cassino Royale”, Bond solicita uma dose caprichada de sua bebida favorita a um garçom, e trata de explicar a ele como preparar um dry martini com vodka, uma audácia que escandalizaria puristas. Obviamente, o alvo não está no barman, mas nos jovens sentados do lado de cá da tela – eles precisam saber que James Bond bebe a mesma coisa que eles, ora bolas! Este é um exemplo de como “Cassino Royale” combina tradição e modernidade para se transformar numa boa aventura de espionagem.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/007-cassino-royale/

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Diamante de Sangue

Thriller de ação é apenas eficiente, mas ganha pontos por denunciar trabalho escravo e contrabando em Serra Leoa
Por: Rodrigo Carreiro

O diretor Edward Zwick é uma espécie de contrabandista de conteúdo cinematográfico. Ao longo da carreira, ele se especializou em disfarçar, como se fossem meros thrillers de ação, filmes-denúncia sobre política internacional, quase sempre estrelados por grandes astros de Hollywood, como Denzel Washington e Tom Cruise. Dois dos trabalhos que levam a assinatura dele (“Nova York Sitiada”, de 1998, e “O Último Samurai”, de 2003) foram baseados nessa fórmula. “Diamante de Sangue” (Blood Diamond, EUA, 2006) a repete mais uma vez, incluindo Leonardo Di Caprio na receita, e atinge resultado parecido – embora elogiável do ponto de vista ideológico, não vai além do eficiente e do convencional sob o aspecto cinematográfico.
Em “Nova York Sitiada” o cineasta fez uma leitura (deveras profética, observando-se que o atentado de 11 de setembro aconteceria três anos depois) sobre o problema dos radicais islâmicos infiltrados nas grandes metrópoles do Ocidente, e em “O Último Samurai” explorou a temática das diferenças culturais entre asiáticos e norte-americanos. “Diamante de Sangue” segue a mesma linha, investindo em pesada denúncia sobre o contrabando de pedras preciosas em Serra Leoa, o pequeno país africano imerso em guerra civil. Neste ponto, o resultado conseguido pelo filme é positivo, já que Zwick se esforça para elaborar em detalhes um pano de fundo que permita à platéia compreender sem esforço os motivos pelos quais a guerra nunca termina naquele território minúsculo.
Via de regra, Serra Leoa é um dos territórios mais ricos do mundo em minas de diamantes. Como o mercado de jóias está sempre ávido por aumentar a extração da pedra, grandes complexos de joalharia internacionais incentivam a ação de mercenários violentos que, incitando as divergências entre as diferentes tribos locais e abastecendo-as com armas pesadas, mantêm a região em permanente conflito. Toda a situação – inclusive o horrendo hábito dos guerreiros locais de cortar as mãos das crianças de tribos rivais, bem como a utilização de trabalho escravo – é explicada em minúcias durante o longa-metragem.
A história documenta o encontro de três personagens bem distintos. Um deles é Danny (Leonardo Di Caprio), mercenário sul-africano acostumado a trocar armas por diamantes. O segundo é a jornalista norte-americana Maddy (Jennifer Connelly), garota ambiciosa que está por lá para escrever uma reportagem que lhe permita desvendar o complexo esquema de contrabando montado pelas joalharias. O terceiro vértice do triângulo é um pescador humilde da etnia mende, Solomon (Djimon Hounson). Separado à força da família e levado a um campo ilegal de extração de minérios para trabalhar como escravo, ele dispara a ação ao encontrar uma enorme pedra de 100 quilates e escondê-la, despertando a cobiça de muita gente, de Danny aos peixes grandes.
“Diamante de Sangue” é um thriller político convencional, com um pequeno desdobramento paralelo romântico. Esta última parte, implausível e excessivamente melodramática, responde pelos trechos mais fracos do filme – é realmente difícil acreditar que duas pessoas tão diferentes quanto Danny e Maddy possam se apaixonar, mas afinal de contas o envolvimento amoroso do herói é inevitável nos
grandes filmes de Hollywood. Infelizmente, o trabalho de Edward Zwick não empolga em nenhuma frente: tem cenas de ação apenas competentes, mas que nunca impressionam, e usa personagens estereotipados (o mercenário amoral redimido pelo amor, a jornalista cheia de idealismo, o homem local para quem a família é tudo o que importa).
No todo, parece uma mistura de “Hotel Rwanda”(filme de Terry George que denunciou a violenta situação do país africano em 2004) com “O Jardineiro Fiel” (em que Fernando Meirelles também misturou thriller e
romance para contar uma história explosiva sobre ações irresponsáveis da indústria farmacêutica na África). No entanto, Zwick não consegue imprimir a ousadia do primeiro longa na escolha dos personagens (lá o herói era um belga negro, enquanto aqui eles são um branco e uma norte-americana) ou a estrutura arrojada do segundo, que investia numa montagem não-cronológica caminhando rumo a um final tão surpreendente quanto pessimista. “Diamante de Sangue” termina com um tom de esperança que não casa, de maneira alguma, com a horrível realidade que o filme se propõe a denunciar.
De certa forma, as melhores cenas acontecem quando os personagens de Leonardo Di Caprio e Jennifer Connelly, com desconfiômetros ligados ao máximo, estão se conhecendo. Entre um flerte e outro, eles se atracam em uma discussão interessante sobre a ética dos jornalistas investigativos (“eu uso Solomon tanto quanto você me usa”): afinal de contas, Maddy se esforça tanto para escrever uma grande reportagem por idealismo e senso de justiça? Ela deseja parar a guerra ou impressionar leitores? Quando um repórter força a barra para fazer uma entrevista com alguém que não quer responder as perguntas, está usando o entrevistado? Embora não aprofunde estas questões, “Diamante de Sangue” as levanta – e isto, juntamente com a denúncia de uma grave situação internacional que o cinema nunca havia feito antes, é uma virtude. Mais política do que cinematográfica, claro.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/diamante-de-sangue/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Besouro


Superprodução traz ação ao cinema nacional, mas o faz com herói relutante demais
Érico Borgo/Omelete
Questiona-se frequentemente a insistência do cinema brasileiro em manter-se dentro de determinados gêneros. Comédias, romances, dramas, documentários e policiais dominam o panorama. Onde está a produção mainstream de filmes de ação? Ficção científica? Terror? Suspense?
João Daniel Tikhomiroff, o brasileiro mais premiado no Festival de Publicidade de Cannes (são quase 50 Leões), encarou o problema de frente e realizou, em seu primeiro longa-metragem, uma das mais ambiciosas produções nacionais, Besouro.
A trama conta a história do maior capoerista de todos os tempos, Besouro, interpretado por Ailton Carmo. Depois que o mestre que o colocou nas primeiras rodas de capoeira é assassinado a mando do coronel local (Flavio Rocha), Besouro inicia uma luta contra a cultura escravocrata que ainda predominava no Recôncavo Baiano em plenos anos 1920.
Gravado em Igatu (BA), na Chapada Diamantina, o filme é uma adaptação livre do livro Feijoada no Paraíso, de Marco Carvalho. A trama mistura fatos com mitologia afrobrasileira, o universo dos Orixás. O cenário sobrenatural serve de ótima desculpa para feitos sobre-humanos em lutas e sequências de visões. Para viabilizar o registro de combates à la Tigre e o Dragão (com direito a corrida sobre as árvores e velozes golpes flutuantes) foi contratado o chinês Huen Chiu Ku - o mesmo que coreografou o filme de Ang Lee e Kill Bill de Tarantino.
Chamar especialistas estrangeiros para resolver desafios de filmagens é algo pouco comum no nosso cinema - mas trivial em Hollywood. Veterano publicitário, acostumado com prazos apertados, colaborações e efeitos especiais, Tikhomiroff não tem aquele orgulho desnecessário de boa parte dos cineastas locais. Assim, capoeiristas são pendurados para lutar em cabos que no passado encantaram o mundo em filmes como Matrix.
Para um primeiro esforço do cinemão brasileiro nesse sentido, Besouro é louvável. Um primor de estética. No entanto, problemas de roteiro o impedem de tornar-se uma aventura realmente memorável. O dispensável triângulo amoroso é o maior deles. Tikhomiroff o defende alegando que "todo o herói precisa de um amor". Mas não seria o amor de Besouro seu povo? A personagem Dinorá (Jessica Barbosa), criada para o filme, é interessante - sua cena de vingança é uma das mais empolgantes -, mas é ao lado do amigo de Besouro (e depois antagonista) Quero-Quero (Anderson Santos de Jesus) que ela funciona melhor, até pela novidade de termos um herói sem romance, comprometido com sua luta.
Besouro é também vítima de seu próprio alarde. Astro do Kung-Fu preparando as coreografias, 10 milhões de reais de orçamento... Esperavam-se muito mais cenas de luta e grandiosidade. Mas no final o herói é muito mais contemplativo e relutante que atuante de verdade. Isso não deixa de ter seu apelo, claro, com a influência de Besouro despertando em seu povo o espírito de luta. Mas já que foi vendida como um filme de super-herói, de ação, faltou à produção a indispensável catarse heróica - o confronto final, o muque na cara. O protagonista se prepara, comunga com os deuses, veste seu "uniforme"... e nada.
Há certas regras que definem o cinema de gênero. Besouro é corajoso ao buscar novas, mas isso limita seu apelo. A jornada do personagem resulta deficiente, seu martírio sem glórias. De certa maneira, ao enfrentar o marasmo do cinema nacional, Tikhomiroff é mais herói que seu retratado.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Cinzas Do Passado


Versão restaurada do quarto filme de Wong Kar Wai é seu único trabalho no gênero das artes marciais
Marcelo Hessel/Omelete
Em 1994, seis anos antes de O Tigre e o Dragão transformar os populares filmes de artes marciais chineses em artigo "de arte" para as massas no Ocidente, o diretor Wong Kar Wai estreava seu primeiro e único filme do gênero, Cinzas do Passado. Com o relançamento agora da versão redux, restaurada, é curioso comparar com os Zhang Yimou da vida e identificar como o gênero wuxia foi sendo simplificado nos anos 2000 para cair no gosto do público estrangeiro.
Wuxia é o nome dado ao subgênero de filmes de ação que ambienta novelas de cavalaria na China antiga. "Wu" vem de wushu, "arte marcial", enquanto "xia", ou "honorável", é o código de conduta dos cavaleiros errantes chineses. Cinzas do Passado pega emprestado da literatura de Jin Yong (pseudônimo de Louis Cha) dois desses personagens para estabelecer um painel poético da complexa relação que o wuxia monta entre natureza, homem, ética e filosofia.
Os dois personagens, os espadachins Ouyang Feng (Leslie Cheung) e Huang Yaoshi (Tony Leung Ka Fai), se encontram todo ano, a cada primavera, para dividir histórias. Desta vez, Huang traz um presente que ganhou de uma mulher: um vinho mágico que apaga memórias de quem o bebe. Ouyang recusa. Huang mal entorna a bebida e sai desabalado atrás da mulher - ainda que suas lembranças já tenham sido imediatamente esquecidas.
A cada estação do ano que se segue, acompanhamos Ouyang e descobrimos as causas e consequências daquele estranho ato de Huang. Um espadachim quase cego, uma mulher de dupla personalidade, um habilidoso mas displicente manejador de sabre e uma jovem atrás de ajuda cruzarão o caminho de Ouyang - que já não aceita contratos como espadachim muito por conta de uma desilusão amorosa indiretamente provocada por Huang.
O jianghu (literalmente, "rios e lagos"), universo mítico onde se passam as novelas wuxia, já é naturalmente um cenário propício para alegorias bucólicas envolvendo a imensidão do deserto ou o bailado de florestas ao vento. Nas mãos de Kar Wai, essas possibilidades se amplificam. Basta ver as constantes projeções de luz nos rostos dos atores para perceber que o cineasta dos estilizados
Dias Selvagens, 2046 e Um Beijo Roubado já era naquele tempo adepto dos exageros.
Uma obsessão constante na carreira de Kar Wai são as desilusões amorosas, e Cinzas do Passado não foge da sina. Mais do que um filme de artes marciais - com lutas esparsas, filmadas com arrojo mas sem grandiloquência nem wire-fu - trata-se de uma história de paixões (Kar Wai já enquadrava em 1994 o rosto liso de sua musa Maggie Cheung com afeto). A restauração é, enfim, uma sessão aconselhável tanto para quem aprendeu a gostar de Kar Wai depois de Amor à Flor da Pele (2000) quanto para quem procura um wuxia pré-pasteurização.

domingo, 27 de setembro de 2009

Sherlock Holmes



Filme de ação que Guy Ritchie dirige para a Warner Bros com Robert Downey Jr., Jude Law e Rachel McAdams no elenco principal.
O filme é baseado na inédita HQ de Lionel Wigram intitulada Sherlock Holmes. A visão de Wigram elimina algumas frescuras vitorianas e enfoca mais na ação, inclusive com elementos presentes nos primeiros textos de Arthur Conan Doyle com o personagem, como sua habilidade no boxe e na esgrima.
“Sherlock Holmes”, um dos primeiros candidatos a blockbuster a estrear em 2010, é um filme muito gostoso de ser visto. Mas que tem muito pouco - quase nada - a ver com o personagem criado por Arthur Conan Doyle. O Sherlock deste novo filme vem totalmente repaginado, longe do conceito clássico do detetive que resolve seus casos apenas fumando seu cachimbo, e amparado exclusivamente pelo seu forte poder de dedução. Agora, temos um Sherlock que briga, que dá socos e pontapés com total eficiência, de muita ação física, e capaz de escapadas magníficas típicas de um Indiana Jones. Ah, o poder de dedução permanece. Ufa! Mas se o personagem é tão tão tão distante do original, por que ele - e o filme - se chamam “Sherlock Holmes”? Por que simplesmente não assumir que é um personagem novo? É uma simples questão financeira. Produzir um filme é caro. Produzir um candidato a blockbuster é mais caro ainda. Talvez só exista no cinema moderno uma única coisa mais cara que produzir um candidato a blockbuster: divulgar um candidato a blockbuster.Assim, não é à toa que os grandes estúdios estão sempre à procura de nomes que já tenham, de antemão, alguma forte identificação com o público, para que estes mesmos nomes sejam transformados em filmes. A conta é simples: na hora de pagar uma campanha de marketing, é menos caro divulgar um filme como nome já famoso - Batman, Homem Aranha, Shrek, Star Wars, etc, etc, etc... Sherlock Holmes - do que começar tudo do zero, divulgando um nome de algum personagem que ainda tenha de ser apresentado ao grande público. É o bom e velho conceito de franquia.Mas voltando ao filme propriamente dito, a trama começa mostrando o novo Sherlock (Robert Downey Jr., ótimo como sempre) meio chateado com seu fiel escudeiro Watson (Jude Law, outro grande protagonista). Motivo: Watson está prestes a se casar e a abandonar o mundo das investigações. É neste contexto de despedida que a famosa dupla vai tentar resolver o mistério de Lord Blackwood (Mark Strong, também bastante eficiente como vilão), um poderoso político inglês preso e condenado por assassinato, mas que continua aterrorizando Londres mesmo após o seu enforcamento.Os fãs de Guy Ritchie podem ficar sossegados: o diretor continua utilizando aqui o mesmo estilo que o consagrou em seus trabalhos anteriores como “Snatch - Porcos e Diamantes” ou “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”. Ou seja, muita ação, cortes de grande rapidez, enquadramentos diferenciados, ritmo incessante e uma estética bastante influenciada pela narrativa de histórias em quadrinhos. E - claro - sarcasmo, muito sarcasmo. Boa parte dos méritos do filme reside em seus diálogos afiadíssimos e irônicos. Direção de arte e fotografia atuam em conjunto para criar com bastante eficiência uma Londres ao mesmo tempo imponente, majestosa, sombria e assustadora, em tons de preto e azul escuro. Enquanto a trilha de Hans Zimmer busca sair do convencional e se apoia num belo trabalho baseado em cordas (mesmo porque o protagonista se inspira tocando violino). Porém, como vem acontecendo com os blockbusters, trata-se novamente de uma trilha que não dá sequer um minuto de silêncio aos ouvidos da plateia. O resultado é um entretenimento divertido e muito bem produzido. Escapismo de primeira linha feito sob medida para curtir nas férias, desde que não se exijam coerência e realismo na trama... elementar meu caro leitor.