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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Debi e Loide


Cruzamento dos Três Patetas com o Monty Python gera longa bobo e cheio de inspiração
Por: Rodrigo Carreiro

Jim Carrey ainda não era um ator milionário quando fez “Debi e Lóide” (Dumb and Dumber, EUA, 1994). De certa forma, o filme já deixa antever uma certa ousadia na escolha dos projetos que o astro iria deixar transparecer muitas vezes no futuro. Lloyd Christmas é um personagem perigosíssimo para um ator em início de carreira, porque deixa flagrante a maior inspiração da carreira do comediante: Jerry Lewis. A caracterização do sujeito o torna quase um sósia do ator responsável pelo primeiro “Professor Aloprado”. Isso, unido ao humor físico e repleto de caretas, deixaria uma marca profunda que Carrey levou muitos anos para superar. Mas uma coisa é fato: “Debi e Lóide” é uma comédia tão boba quanto inspirada.
O longa-metragem de 1994 catapultou a carreira dos irmãos Peter e
Bobby Farrelly em Hollywood. Embora a direção seja assinada apenas pelo primeiro (Bobby aparece somente como co-roteirista e co-produtor), o projeto exibe a marca politicamente incorreta que seria desenvolvida – e expandida – em filmes futuros pelos dois irmãos (“Quem Vai Ficar com Mary?”, tanto quanto demonstra o saudável desprezo da dupla para detalhes técnicos e/ou enredo coerente. Eles são bons contadores de piadas, e o filme é isso: uma coleção impecável de piadas engraçadíssimas que rolam pela tela durante 101 minutos.
A tradução brasileira do título parece boba? Ela é, mas não está muito longe do nome original do filme. Os
irmãos Farrelly, na verdade, sempre deixaram claro que tentam unir dois estilos de fazer comédia – o pastelão dos Três Patetas, de quem são fãs declarados, com o politicamente incorreto do grupo inglês Monty Python – em filmes sem muita preocupação com os componentes técnicos (fotografia, montagem, cenografia). “Debi e Lóide”, no entanto, dá a impressão de título de filme para crianças, quando a realidade é bem diferente.
Uma das piadas mais engraçadas da película, por exemplo, ocorre quando Lloyd vende, por U$ 25, um periquito para um garoto cego. Não parece engraçado, mas quando você sabe que o pássaro em questão foi decapitado por um mafioso, a piada fica engraçada – especialmente quando vemos a criança acariciando o bichinho, devidamente atado com fita isolante. É hilariante, embora algumas pessoas achem ofensivo esse tipo de humor. Se é o seu caso, passe longe de qualquer filme dos irmãos Farrelly.
A trama é muito simples, e funciona apenas como veículo para que Jim Carrey e um surpreendente Jeff Daniels – aqui bem distante do estilo sóbrio que sempre exibiu, mesmo quando atuou em comédias como “A Rosa Púrpura do Cairo” – façam palhaçadas e provoquem uma quantidade absurdamente grande de gargalhadas na platéia. Lloyd e o parceiro Harry Dunne (Daniels) são dois imbecis que só poderiam existir no cinema. Motorista de limusine, Lloyd cai de paixão por uma passageira (Lauren Holly) e “recupera” uma maleta esquecida por ela em um aeroporto. Sabendo que ela se dirige a Aspen, ele decide cruzar os EUA de carro (e, eventualmente, de Mobilete) para lhe devolver a pasta.
Harry entra na viagem por dividir com ele o carro (um furgão “fantasiado” de cachorro, com língua e tudo), o apartamento e a vida. O que Lloyd não sabe, porém, é que a pasta foi esquecida pela garota de propósito, pois era na verdade o milionário resgate exigido para libertar o marido dela. Assim, enquanto cruzam o país no furgão, a dupla de atrapalhados e perseguida por uma quadrilha disposta a tudo para ficar com o dinheiro. Um aviso: para assistir ao longa-metragem, esteja preparado para rir até não poder mais com piadas que envolvem garrafas de cerveja cheias de urina e coisas parecidas.

Desventuras Em Série


O Divirta-se, guia cultural hebdomadário do Jornal da Tarde, faz uma brincadeira com o prêmio da Academia, elegendo Oscars de Melhor homem de salto alto (Má Educação) e Melhor meninas superpoderosas (Kill Bill), entre outros. Se eles decidirem dar um Oscar de Melhor animação nos créditos finais, Desventuras em Série (Lemony Snicket´s A series of unfortunate events, 2004) com certeza será o vencedor. Aquelas letrinhas que geralmente são chatas e fazem quase todo mundo sair do cinema mesmo com as luzes ainda apagadas são mostradas aqui de uma forma diferenciada, animada. E por animada, eu quero dizer "em movimento" e não "cheio de vida e energia", afinal, este não é um filme infantil alegre. Se é algo bonitinho e com personagens cantarolantes que você quer, melhor voltar para a página de estréias da semana, ou procurar na lista de DVDs que foram lançados nos últimos dias.
Quem já leu pelo menos um dos livros da série Desventuras em série, escrita e narrada por Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), sabe que a vida não é fácil para os irmãos Baudelaire. Violet (Emily Browning, de
Navio Fantasma), Klaus (Liam Aiken, de Estrada para Perdição) e a bebê Sunny (papel dividido entre as gêmeas Kara e Shelby Hoffman) estavam na Praia de Sal quando receberam a mensagem de que seus pais haviam morrido em um misterioso incêndio que aconteceu em sua mansão. Ainda em choque, eles são levados à casa de seu novo tutor, o ator conhecido como Conde Olaf (Jim Carrey), que fará de tudo para colocar as mãos na enorme fortuna herdada pelos três.
Neste misto de drama, aventura e fantasia, o diretor Brad Silberling e o roteirista Robert Gordon conseguiram transportar para a telona um pouco do senso de humor um tanto quanto bizarro que há nos livros e ainda aumentaram o clima sombrio. Boa parte desta última característica é uma conseqüência do trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, do designer de produção Rick Heinrichs e da figurinista Collenn Atwood. Os três são parceiros recorrentes do cineasta
Tim Burton, dono de um estilo único que equilibra o bizarro e o rebuscado, como se pode ver em longas como Edwards Mãos de tesoura, Ed Wood e Peixe Grande.
Apesar de mimetizar muito bem os ambientes e situações que Burton costuma criar, fica a curiosidade de saber o que o Burton de verdade faria com este universo. Talvez a primeira coisa seria mandar embora o ótimo (mas geralmente exagerado) Jim Carrey e contratar Johnny Depp. Depp já provou inúmeras vezes que consegue interpretar papéis bem diferentes entre si e conseguiria facilmente recriar os personagens que Olaf interpreta para tentar dar cabo dos pequenos Baudelaire. Uma outra ótima saída seria manter Carrey, porém com rédeas mais curtas, domado e no seu devido lugar. Afinal, as crianças deveriam ser as estrelas da série, mas o barulho feito pelo Conde Olaf de Carrey é tão alto que abafa qualquer ruído feito pelos sempre bem-educados órfãos, que por isso continuam em perigo durante todos os 108 minutos da fita.
Participações especiais em série
Mas Jim Carrey não é o único famoso do grupo. Para os papéis dos tios Monty e Josephine, foram chamados Billy Connolly (
Linha do tempo, O último samurai) e Meryl Streep (As horas, Adaptação). Quem empresta voz e perfil para narrador Lemony Snicket é Jude Law (Alfie, o sedutor, Perto demais). O guardião dos direitos dos meninos é Timothy Spall, de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e Agora ou nunca. E, para simplificar a lista, vale dizer também que Dustin Hoffman aparece rapidamente no papel de um crítico de teatro.
Porém, quem merece mesmo os créditos são as crianças, que estão ótimas. Logo na apresentação, já ficamos sabendo que Violet, de 14 anos, é a inventora da família e que quando ela prende suas madeixas com a fita, é porque está pensando em algo e não quer que uma coisa boba como um cabelo no rosto a atrapalhe. Klaus, dois anos mais novo, passa horas na biblioteca da família e consegue absorver todas as informações pelas quais já passou seus olhos. No entanto, a mais carismática é mesmo Sunny, cujo único dom até o momento é que ela gosta muito de morder as coisas. Qualquer coisa. Ah, e ela ainda não fala... pelo menos não a nossa língua. Mas não se preocupe com isso, pois até mesmo os seus grunhidos são legendados.
Desventuras em série se tornou um enorme sucesso literário porque apesar de ser feito para crianças não é infantil. E isso o filme conseguiu captar muito bem. Apesar das bocas e caras de Carrey, que podem causar caretas em alguns adultos, trata-se de uma aventura tão ou mais interessante que Pequenos espiões e Harry Potter. O motivo é simples: ao contrário do que acontece na história, Daniel Handler, ou Lemony Snicket, ouve as crianças e por isso mesmo, não as trata como seres não pensantes. Seria tão bom se os filmes nacionais voltados aos pequenos seguissem esta mesma trilha...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Os Fantasmas de Scrooge


História com mais de um século e meio é adaptada com tecnologia de amanhã
Érico Borgo/Omelete
Um Conto de Natal, uma das obras mais conhecida de Charles Dickens, já ganhou dezenas de adaptações para as telas. O texto de 1843 virou filme, um curta-metragem, pela primeira vez logo na aurora do cinema, em 1910, pela Edison Manufacturing Company.
Desde então, o conto teve as mais diversas interpretações. Dos Muppets a Bill Murray, passando por Tio Patinhas e Matthew McConaughey, o velho Scrooge ganhou versões em todos os gêneros e com maior ou menor grau de fidelidade ao original. Dessa forma, o clássico natalino avança através das eras. Do cinema mudo e preto e branco, ganhou som, depois cor, efeitos especiais... e agora estreia na mais avançada tecnologia disponível no mercado, o 3-D estereoscópico com captura de movimentos e projeção em IMAX.
Robert Zemeckis, que já explorou essa tecnologia toda em
O Expresso Polar e a aperfeiçoou em A Lenda de Beowulf, agora atinge pleno domínio da técnica. Mas ainda que Um Conto de Natal tenha virado o high-tech Os Fantasmas de Scrooge - surpresa! -, ele mantém todo o teor melodramático do original.
A história é a velha conhecida de sempre. O velhote avarento Ebenezer Scrooge trata mal os empregados e a pouca família que tem, já que considera o Natal uma festa sem sentido. Mas na véspera da festividade é visitado pelo fantasma de seu velho sócio, que avisa: ele será visitado por três outros fantasmas que lhe mostrarão os Natais passados, o Natal presente e os Natais vindouros. E Scrooge embarca em uma jornada sobrenatural para aprender o significado da família, amigos e da compaixão.
A marca Walt Disney Company que estampa o filme e a contratação de Jim Carrey para dublar e interpretar Scrooge e todos os fantasmas (a versão brasileira tem a voz de Guilherme Briggs) , podem até prenunciar um filme leve, familiar. Mas o resultado é sombrio, dramático e assombroso em diversos momentos.
Claro, Zemeckis insere elementos aventurescos na produção - como os alucinados travelings aéreos a cada vez que um fantasma apanha o pobre Scrooge pela mão ou algumas perseguições cheias de suspense -, mas isso é pura pirotecnica. É no drama que o filme se sustenta.
Gary Oldman como o ajudante Bob Cratchit está perfeito. Quando o sofrimento do personagem e sua família começa dá até pra esquecer o visual levemente caricato das pessoas. E Zemeckis filma como diretor iraniano, com longos planos-sequência, jogando pela janela nessas cenas tudo o que se entende por "cinema blockbuster" e seus planos de 7 segundos no máximo. Ele fica ali, movendo a câmera colada nos rostos, evidenciando a profundidade e registrando aquele teatro todo, cortando apenas quando realmente necessário, para trocar radicalmente um ângulo ou cena. Como se não bastasse, ainda dá ao público momentos nunca vistos no cinema 3-D. A cena expressionista em que Scrooge acende a vela, surgindo em primeiro plano da escuridão, é de enorme beleza.
Fica a dúvida, porém, em relação ao público-alvo do filme. Definitivamente não é uma história para crianças. Há sustos, muita vertigem e lamentação. Mas os adultos já conhecem de cor a trama, não se surpreendem mais com a técnica e podem se aborrecer com as citadas exageradas viagens aéreas pela cidade vitoriana. Assim, quem pode se interessar por este Os Fantasmas de Scrooge? Ele é bonito e fiel à obra, mas a história está velha. Cobri-la de pixels que saltam à vista só traz modernidade por um ângulo...