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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Desventuras Em Série


O Divirta-se, guia cultural hebdomadário do Jornal da Tarde, faz uma brincadeira com o prêmio da Academia, elegendo Oscars de Melhor homem de salto alto (Má Educação) e Melhor meninas superpoderosas (Kill Bill), entre outros. Se eles decidirem dar um Oscar de Melhor animação nos créditos finais, Desventuras em Série (Lemony Snicket´s A series of unfortunate events, 2004) com certeza será o vencedor. Aquelas letrinhas que geralmente são chatas e fazem quase todo mundo sair do cinema mesmo com as luzes ainda apagadas são mostradas aqui de uma forma diferenciada, animada. E por animada, eu quero dizer "em movimento" e não "cheio de vida e energia", afinal, este não é um filme infantil alegre. Se é algo bonitinho e com personagens cantarolantes que você quer, melhor voltar para a página de estréias da semana, ou procurar na lista de DVDs que foram lançados nos últimos dias.
Quem já leu pelo menos um dos livros da série Desventuras em série, escrita e narrada por Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), sabe que a vida não é fácil para os irmãos Baudelaire. Violet (Emily Browning, de
Navio Fantasma), Klaus (Liam Aiken, de Estrada para Perdição) e a bebê Sunny (papel dividido entre as gêmeas Kara e Shelby Hoffman) estavam na Praia de Sal quando receberam a mensagem de que seus pais haviam morrido em um misterioso incêndio que aconteceu em sua mansão. Ainda em choque, eles são levados à casa de seu novo tutor, o ator conhecido como Conde Olaf (Jim Carrey), que fará de tudo para colocar as mãos na enorme fortuna herdada pelos três.
Neste misto de drama, aventura e fantasia, o diretor Brad Silberling e o roteirista Robert Gordon conseguiram transportar para a telona um pouco do senso de humor um tanto quanto bizarro que há nos livros e ainda aumentaram o clima sombrio. Boa parte desta última característica é uma conseqüência do trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, do designer de produção Rick Heinrichs e da figurinista Collenn Atwood. Os três são parceiros recorrentes do cineasta
Tim Burton, dono de um estilo único que equilibra o bizarro e o rebuscado, como se pode ver em longas como Edwards Mãos de tesoura, Ed Wood e Peixe Grande.
Apesar de mimetizar muito bem os ambientes e situações que Burton costuma criar, fica a curiosidade de saber o que o Burton de verdade faria com este universo. Talvez a primeira coisa seria mandar embora o ótimo (mas geralmente exagerado) Jim Carrey e contratar Johnny Depp. Depp já provou inúmeras vezes que consegue interpretar papéis bem diferentes entre si e conseguiria facilmente recriar os personagens que Olaf interpreta para tentar dar cabo dos pequenos Baudelaire. Uma outra ótima saída seria manter Carrey, porém com rédeas mais curtas, domado e no seu devido lugar. Afinal, as crianças deveriam ser as estrelas da série, mas o barulho feito pelo Conde Olaf de Carrey é tão alto que abafa qualquer ruído feito pelos sempre bem-educados órfãos, que por isso continuam em perigo durante todos os 108 minutos da fita.
Participações especiais em série
Mas Jim Carrey não é o único famoso do grupo. Para os papéis dos tios Monty e Josephine, foram chamados Billy Connolly (
Linha do tempo, O último samurai) e Meryl Streep (As horas, Adaptação). Quem empresta voz e perfil para narrador Lemony Snicket é Jude Law (Alfie, o sedutor, Perto demais). O guardião dos direitos dos meninos é Timothy Spall, de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e Agora ou nunca. E, para simplificar a lista, vale dizer também que Dustin Hoffman aparece rapidamente no papel de um crítico de teatro.
Porém, quem merece mesmo os créditos são as crianças, que estão ótimas. Logo na apresentação, já ficamos sabendo que Violet, de 14 anos, é a inventora da família e que quando ela prende suas madeixas com a fita, é porque está pensando em algo e não quer que uma coisa boba como um cabelo no rosto a atrapalhe. Klaus, dois anos mais novo, passa horas na biblioteca da família e consegue absorver todas as informações pelas quais já passou seus olhos. No entanto, a mais carismática é mesmo Sunny, cujo único dom até o momento é que ela gosta muito de morder as coisas. Qualquer coisa. Ah, e ela ainda não fala... pelo menos não a nossa língua. Mas não se preocupe com isso, pois até mesmo os seus grunhidos são legendados.
Desventuras em série se tornou um enorme sucesso literário porque apesar de ser feito para crianças não é infantil. E isso o filme conseguiu captar muito bem. Apesar das bocas e caras de Carrey, que podem causar caretas em alguns adultos, trata-se de uma aventura tão ou mais interessante que Pequenos espiões e Harry Potter. O motivo é simples: ao contrário do que acontece na história, Daniel Handler, ou Lemony Snicket, ouve as crianças e por isso mesmo, não as trata como seres não pensantes. Seria tão bom se os filmes nacionais voltados aos pequenos seguissem esta mesma trilha...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Mais Estranho Que A Ficção

Comédia romântica metalingüística agrada por criar empatia entre os personagens bonzinhos e o espectador
Por: Rodrigo Carreiro

“Esta é a história de um homem chamado Harold Crick e seu relógio de pulso”. A frase de abertura da comédia romântica “Mais Estranho que a Ficção” (Stranger than Fiction, EUA, 2006) dispensa uma análise mais profunda para deixar claro que o filme vai tentar, à custa de criatividade e uma boa pitada de metalinguagem, fugir do incômodo lugar comum que os exemplares do gênero têm freqüentado, desde sempre. O filme, bastante elogiado pela crítica internacional, marcou a elevação do roteirista Zach Helm à categoria dos escritores-autores, seguindo a linha aberta por Charlie Kaufman (“Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”).
A comparação com Kauffman não é despropositada. A ligação entre os dois roteiristas inclusive foi explorada ao máximo pela Sony, estúdio responsável pela distribuição do filme. Há, sim, semelhanças – e elas são ainda maiores do que se pode imaginar. Além de abusar da metalinguagem, criando uma “ponte” entre realidade e ficção, entre personagens da história e criadores dela, o filme também não tem medo de celebrar um romantismo deslavado, à moda antiga mesmo, assim como Kaufman faz. “Mais Estranho que a Ficção” é podre de romântico, tanto que defende a idéia (um bocado polêmica) de que por amor vale tudo, até mesmo largar mão da ousadia e ser convencional.
Dirigido por Marc Forster, cineasta eficiente que ainda não conseguiu mostrar uma personalidade própria, apesar de dirigir filmes divertidos e interessantes (“A Última Ceia”, “
Em Busca da Terra do Nunca”), o filme tem uma narrativa moderninha, ágil, e isto inclui uma série de efeitos gráficos utilizados, aqui e acolá, para sublinhar a personalidade obsessivamente pragmática do protagonista, o tal Harold Crick. Inteligentemente, Forster usa o recurso (visto antes em “Clube da Luta”, de David Fincher) com discrição, sem exageros, e isto garante que a narrativa seja veloz e cativante, sem irritar pelo excesso e pela repetição.
Harold Crick é um auditor da Receita Federal. Um metódico de carteirinha. O tipo de pessoa cuja vida é governada de forma autocrática pelos números. Ele passa a escova nos dentes 76 vezes a cada nova escovada. Pega sempre o mesmo ônibus, às 8h17, e tira um minuto e meio de pausa no trabalho, no meio do dia, para um cafezinho. Ou seja, Crick é um autômato, uma espécie de robô de carne e osso que repete funções sem pensar sobre elas. Até o dia em que Harold começa a ouvir uma voz feminina – a mesma voz feminina que nós, do lado de cá da tela ouvimos. Uma voz que narra a vida dele. Harold não acredita. Acha que está ficando louco.
Ao invés de um diagnóstico de esquizofrenia, contudo, ele recebe da terapeuta a dica de procurar um professor de Literatura. Não demora muito para que Harold descubra que é personagem de um romance, e está condenado a morrer no final, a não ser que descubra quem é a autora. Nisso, a platéia está à frente dele, pois sabemos que a mulher é Karen Eiffel (Emma Thompson), escritora famosa que sofre de bloqueio criativo. A novidade apavorante, ao contrário do que se pensa, é a melhor coisa que poderia acontecer a Harold. A voz ameaçadora lhe arranca da letargia e o faz vivo novamente. Quase sem querer, ele começa a fugir da rotina – e numa comédia romântica, todos sabemos onde isso vai dar. Harold, claro, se apaixona pela mais improvável das criaturas: Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), uma simpática padeira que caiu na malha fina e está sendo investigada… por Harold.
OK, “Mais Estranho que a Ficção” está longe de ser o filme que vai mudar sua vida. Até mesmo o criativo roteiro comete falhas grosseiras, como abrir espaço para uma personagem sem qualquer função narrativa: uma mulher durona (Queen Latifah), enviada a Karen pela editora, preocupada com o prazo de entrega do romance. Logicamente, a moça está ali apenas para servir de ouvido à escritora, de forma que ela possa compartilhar seus pensamentos na platéia sem ser mostrada como doida ou excêntrica, por falar sozinha. Afinal de contas, a narração em off (muleta que serve de solução para casos parecidos) já está sendo usada, mas em contexto tão diferente que utilizá-la de novo confundiria a cabeça do público.
De qualquer forma, a atmosfera cômico-melancólica funciona que o filme abraça funciona bem. O texto de Zach Helm é divertido, e cria empatia real entre o espectador e o personagem principal. O desempenho acima da média do elenco faz o resto. De repente, estamos torcendo para que tudo dê certo entre Harold e Ana, porque eles parecem tão bonzinhos, tão gente como a gente. Curiosamente, a solução bolada pelo roteirista para criar o inevitável happy end inclui até mesmo uma autocrítica disfarçada, injetada na história através da difícil decisão que Karen precisa tomar com relação ao destino do seu protagonista (“eu me contento com bom, ao invés de sublime”). Sim, ela está falando do filme. Zach Helm fez de propósito. E está tudo bem.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/mais-estranho-que-a-ficcao/

Huckabees – A Vida É Uma Comédia


Comédia alucinada de David O. Russell segue estilo surpreendente do roteirista Charlie Kaufman
Por: Rodrigo Carreiro

Albert é um poeta e ativista ambiental que acredita em coincidências como sinais de algum evento místico. Depois de esbarrar por três vezes consecutivas com um refugiado sudanês vestido de porteiro de hotel, em plena metrópole norte-americana, o rapaz fica convencido de que o acontecimento deve simbolizar algo importante para a sua vida. Por isso, decide procurar uma dupla de investigadores, intitulados “detetives existenciais”, a fim de descobrir o que se esconde por trás de tal coincidência. Essa é a trama que dá partida ao bizarro “Huckabees – A Vida É Uma Comédia” (I Heart Huckabees, EUA/Alemanha, 2004), peripécia cinematografica cometida pelo cineasta David O. Russell, talentoso e irreverente diretor responsável pela sátira de guerra “Três Reis”.
Russell é o mais célebre seguidor das tramas tresloucadas do célebre roteirista Charlie Kaufman. De fato, Kaufman foi o sujeito que estabeceleu esse novo gênero de filme (poderíamos chamá-lo de “comédias dramáticas surrealistas com toques de metalinguagem”) como sucesso, em 1999, com “
Quero Ser John Malkovich”. Russell faz parte do time criativo que rodeia o roteirista: escalou como ator o diretor Spike Jonze (de “Malkovich”) na brilhante sátira “Três Reis”, e até fez uma ponta como ator no filme seguinte da parceria Jonze + Kaufman, “Adaptação”. Em “Huckabees”, ele tenta refletir sobre algumas das questões mais antigas a serem discutidos pela Filosofia: quem somos nós, humanos? De onde viemos? Para onde vamos?
Se a tentativa dá certo ou não, fica ao gosto do espectador. “Huckabees” é o tipo de filme que se ama ou se odeia, e é difícil ficar no meio termo. É um filme verborrágico, repleto de diálogos, com muitos personagens que se ligam das maneiras mais disparatadas ou absurdas, e tem muitos momentos de riso fácil, às vezes acompanhados de tiradas instigantes sobre as questões filosóficas acima citadas. Um dos detetives existenciais contratados por Albert, por exemplo, tem uma teoria segundo a qual tudo, no universo, está ligado por conexões invisíveis, e exemplifica a sua teoria usando um cobertor.
O elenco de “Huckabees” é um dos pontos fortes do longa-metragem. Albert, o protagonista, é interpretado por Jason Schwartzman (de “
Três É Demais, filme de Wes Anderson, autor cuja influência também é possível perceber em “Huckabees”). Durante o filme, Albert faz amizade com um bombeiro, Tommy (Mark Whalberg). Os dois detetives, marido e mulher, são Bernard (Dustin Hoffman, com um penteado estilo anos 1960 hilariante) e Vivian (Lily Tomlin). A francesa Isabelle Huppert aparece com destaque no papel de Caterine, uma espécie de guru de auto-ajuda que vem a ser, na verdade, a maior rival do casal de detetives. Há ainda Jude Law e Naomi Watts, fazendo um casal da moda – ele um empresário, dono da loja Huckabees do título, e ela modelo de TV – que pode, ou não, estar conectado aos problemas de Albert. Isso se você acreditar na teoria do casal de detetives, sim?
“Huckabees” é um verdadeiro moto-contínuo de idéias. A impressão que se tem é que David O. Russel passou os cinco anos que separam este projeto de “Três Reis”, seu filme anterior, juntando pedaços de piadas, gags, teorias existencialistas, frases bacanas, diálogos espertos, e depois deu um jeito de enfiar tudo num só longa-metragem. Como nos filmes escritos por Charlie Kaufman, há muitas surpresas e lances desconcertantes, além de grandes cenas de comédia (o jantar na casa da família do refugiado do Sudão é especialmente engraçado). Faz falta, no entanto, um fio condutor mais firme, que una todas as cenas em um enredo mais suave, mais fácil de seguir e menos pretensioso. Sim, pretensioso. Por trás de toda a descontração e o clima de improviso, existe uma vontade nítida do filme: ser levado a sério.
Na época do lançamento nos EUA, Russell afirmou que a idéia central para o longa-metragem havia surgido após os ataques de 11 de setembro, em Nova York. O diretor diz que as pessoas passaram os três ou quatro meses seguintes mergulhados em longas discussões a respeito de temas profundos, como a origem do universo e o sentido da vida – e foi o clima frenético e alucinado dessas conversas, diz Russell, que ele quis captar. Se essa foi a idéia, o diretor acertou na mosca: frenético é a palavra exata para descrever “Huckabees”. Mas um pouco mais de despretensão não faria mal a ninguém.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/huckabees-a-vida-e-uma-comedia/

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Perfume


Biografia de um fictício personagem amoral com um dom extraordinário mistura thriller e drama de época
Por: Rodrigo Carreiro
Uma das tarefas mais difíceis para qualquer cineasta é conseguir elaborar uma maneira visual de sugerir as sensações geradas por alguns dos cinco sentidos humanos. Tato e olfato, em particular, representam um desafio quase intransponível: como representar visualmente aquilo que sentimos quando tocamos algo que nos emociona? Mais complicado ainda é reproduzir um odor maravilhoso sem poder recorrer ao olfato. Este foi o desafio primário enfrentado pelo diretor alemão Tom Tykwer para filmar “Perfume – A História de um Assassino” (Alemanha/França/Espanha, 2006), mistura de filme de época com thriller macabro, baseada em um best-seller literário de 1985.
Primário, mas não o único. O romance de Patrick Süskind vendeu 15 milhões de exemplares em 40 línguas. O recluso autor passou anos recusando ofertas para vender os direitos do livro, por um motivo mais que prosaico: queria ver ninguém menos que
Stanley Kubrick transformá-lo em filme. A propósito, Kubrick chegou a analisar a possibilidade, mas afinal decidiu que a história era infilmável, exatamente porque tratava das sutilezas do olfato. O diretor de “Laranja Mecânica” concluiu que não fazia sentido levar às telas uma história sobre cheiros, já que não podia fazer a platéia senti-los. Ele não acreditava nas chances de poder evocar apropriadamente as maravilhas olfativas utilizando apenas imagens e sons.
Após a morte do cineasta, em 1999, Süskind finalmente concordou com o filme. O produtor Bernd Eichinger lhe pagou 10 milhões de Euros, e esmerou-se em costurar uma complicada produção internacional, com fundos vindos de financiadores franceses, espanhóis e alemães. “Perfume” acabou por se tornar o filme mais caro já produzido em continente europeu, com orçamento de US$ 65 milhões. De fato, cada centavo desta quantia fabulosa pode ser visto na tela, com enorme número de externas (filmadas nas ruas centenárias de Praga, na República Checa), recriação impecável dos cenários (a feira livre de Paris, as ricas perfumarias, as ruas escuras e sujas da área portuária da capital francesa, os campos floridos da cidade de Grasse) e um improvável clímax, que reúne centenas de figurantes em uma seqüência apoteótica. Há também uso abundante de gruas e trucagens digitais caríssimas para criar elaborados movimentos de câmera, que conferem à narrativa a atmosfera épica e imponente de uma grande produção.
Compensar os custos proibitivos de um filme tão gigantesco custou ao cineasta Tom Tykwer (“
Corra Lola, Corra”), escolhido para dirigir a obra, algumas concessões. O filme teve que ser falado em inglês, apesar de a trama se passar na França do século XVIII; parte do elenco teve que ser recrutado entre rostos conhecidos, vindo diretamente de Hollywood (Dustin Hoffman, Alan Rickman), para atrair mais público. A ação também precisou seguir fielmente a história contada no livro, acrescida de um toque místico-existencial (o trecho em que o protagonista vai viver numa caverna) e nudez feminina (meio mórbida, já que as garotas estão quase sempre mortas). Tudo isso para aumentar as chances de conquistar as platéias internacionais, especialmente o público norte-americano, de modo que os investidores pudessem recuperar o investimento e obter lucro.
Mesmo com tantas exigências da parte dos produtores, Tykwer conseguiu um resultado interessante. Ele filma a história do fictício Jean-Baptiste Genouille (Ben Wishaw), um rapaz pobre e ignorante brindado com extraordinária habilidade olfativa na tumultuada Paris pré-Revolução Francesa, com montagem ágil e senso estético um pouco exagerado. A opulência visual é tão requintada e estilizada que torna o resultado um pouco kitsch, com explosões de cores básicas nas cenas mais ensolaradas, e muitas sombras/tons pastéis nos trechos noturnos. Mesmo assim, há tomadas panorâmicas muito bonitas, que parecem ter saído das telas de pintores como Rembrandt e Caravaggio. O visual lembra um pouco “Amèlie Poulain”, só que situado na França de 200 anos atrás.
O maior desafio de Tykwer, como dito antes, foi encontrar uma solução visual para expressar o êxtase do protagonista quando estimula o olfato. Ele conseguiu isto a partir da montagem. Primeiro, acerta ao ambientar o prólogo em locais fétidos, como a feira livre de Paris (“o lugar mais fedorento do mundo”), sempre enfatizando o grotesco. As imagens da infância de Genouille, em “Perfume”, são sempre em locais cheios de lixo e sujeira, provocando mal-estar na platéia. Quando o longa-metragem entra no segundo ato, e o rapaz passa a freqüentar perfumarias e ambientes da nobreza, o filme nos bombardeia com closes fechados de narizes e objetos cheirosos (rosas, laranjas) em plano/contraplano, quase sempre em muita câmera lenta. O efeito pretendido é de realçar, através da harmonia e das cores, um paraíso de cheiros, em contraponto ao inferno de nojo da primeira parte. Funciona.
Além disso, Tykwer não tem medo de usar toda a primeira metade para desenvolver o personagem e criar clima. Por isto, a ação que o título do filme nos promete demora um pouco para se concretizar. No fundo, não se trata de um thriller nos moldes tradicionais, mas de um estudo de personagem incomum – um sujeito frio e amoral, perturbado por um dom quase sobrenatural, que acabou por lhe alienar do resto da humanidade e interferiu em sua capacidade de sentir emoções. Ou seja, embora reúna características do thriller e do drama de época, realiza mais do que um amálgama dos dois gêneros. De resto, há ótimos atores – merece destaque especial a participação de Dustin Hoffman, como o criador de perfumes que ensina os macetes da profissão a Genouille – e um final absolutamente inesperado (e interessante).

http://www.cinereporter.com.br/dvd/perfume-a-historia-de-um-assassino/