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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Queime Depois De Ler

Joel e Ethan Coen mostram o que acontece quando se leva o mundo da espionagem a sério demais
Marcelo Hessel/Omelete
O lacônico agradecimento dos irmãos Joel e Ethan Coen no Oscar 2008, depois de levarem os troféus de melhor roteiro, direção e filme por
Onde os Fracos não Têm Vez, é a síntese da postura dos dois diante de Hollywood. Uma postura irônica - e que percorre por inteiro Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008), a nova comédia dos irmãos.
Desta vez, os Coen satirizam os filmes de espionagem. Seguimos um ex-agente da CIA, Osbourne Cox (John Malkovich), que pediu demissão quando a agência lhe ofereceu um posto burocrático. Cox sente falta da ação dos tempos da Guerra Fria, diz ele. Pois ação não falta quando o livro de memórias que Cox está escrevendo cai nas mãos de dois palermas, instrutores de academia, Linda (Frances McDormand) e Chad (Brad Pitt) - que querem lucrar com o material.
À trama de chantagem somam-se a esposa de Cox, Katie (Tilda Swinton), que o trai com um segurança do governo, Harry Pfarrer (George Clooney), que marca um encontro pela Internet com Linda, que antes de mais nada está querendo fazer umas plásticas para ficar mais jovem, e por aí vai... É a trama circular de um Grande Lebowski pontuada pelo tom farsesco e sarcástico, banalizando a violência, de um Fargo.
Desde os cartazes à la Saul Bass, passando pela trilha sonora "tensa", até o estilo de filmagem que evoca os Bournes da vida (câmera simulando mira telescópica, ponto de vista de satélite, etc.), tudo em que Queime Depois de Ler funciona em função da sátira ao gênero. Curiosamente, os Coen aliam a sátira à homenagem: é a segunda vez, depois de E aí, meu Irmão, Cadê Você?, que George Clooney aparece em um filme dos irmãos pegando um cineminha.
O melhor do filme, porém, não é a sátira ao visual das histórias de espionagem, mas à empafia do gênero. Queime Depois de Ler mostra que a vida dos espiões é tão ridícula quanto a nossa: até mesmo um 007 tem cheques sem fundo devolvidos, e quando Cox recebe uma ligação em seu telefone secreto no porão, é engano. Mais do que isso: pode haver mais intriga, segredos e traições em uma relação de marido e mulher do que numa relação EUA - Rússia.
A chave é não se levar a sério demais. Foi essa a mensagem antipsicologizante que os Coen passaram no Oscar e essa é a mensagem que está implícita até no título do filme. Assista, divirta-se, ponto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Amigas Com Dinheiro


Comédia de situações tem senso de humor e inteligência, mas personagens vazios como balões de gás
Por: Rodrigo Carreiro

O título de “Amigas com Dinheiro” (Friends with Money, EUA, 2006), tradução ao pé da letra do nome original, dá uma boa idéia do conteúdo do longa-metragem de Nicole Holofcener. Trata-se de um filme pequeno-burguês, que tenta traçar um painel multifacetado do que significa ser mulher e bem-nascida num país de primeiro mundo, nos Estados Unidos. O resultado é duvidoso: apesar de possuir senso de humor mordaz e diálogos inteligentes, “Amigas com Dinheiro” é vazio como um balão de gás. Seus personagens sem problemas financeiros deixam a impressão de que os habitantes da pirâmide sócio-econômica não têm conexão com o resto do planeta.
Lançado numa época em que se discute, especialmente no Brasil, a proximidade cada vez maior entre as linguagens do cinema e da televisão, a produção põe mais lenha nesta fogueira. Afinal, é bastante clara a influência das populares sitcoms norte-americanas na estética asséptica do filme. Muitas das seqüências são filmadas de modo calculadamente casual, quase desleixado, e deixam a impressão de que você está vendo um episódio ampliado de telesséries como “Gilmore Girls” ou “Sex and the City”. Não é surpresa verificar, aliás, que consta do currículo da cineasta a direção de diversos episódios desses dois seriados. Esta é uma referência fundamental para o espectador; se você curte uma dessas séries, tem boas chances de se divertir com o longa-metragem.
A fórmula narrativa, por sua vez, deriva de filmes com múltiplos personagens principais, cujas histórias se cruzam livremente. O resultado é um híbrido de dois filmes oscarizados, “
Crash – No Limite” (2005) e “Beleza Americana” (1999), com as vantagens e desvantagens que os respectivos títulos possuem. A qualidade dos diálogos e do texto é superior, e enfatiza com consciência o vazio emocional da classe média norte-americana, bem na linha do que Sam Mendes e Paul Haggis fizeram nos dois filmes acima citados. A estratégia deixa evidente a ambição por prêmios de “Amigas com Dinheiro”, já que seus inspiradores foram devidamente premiados com a estatueta dourada mais importante da indústria cinematográfica.
Por outro lado, todas as situações exibidas na tela são montadas cuidadosamente para que as quatro garotas e seus respectivos maridos – os personagens principais – tenham, em igual medida, partes boas e ruins, mas sem as áreas cinzentas que lhes dariam humanidade. O resultado final é um todo artificial, sem vida, de plástico. Os personagens não têm qualidade humana, não possuem vida própria além do filme. Lembram mais ratos de laboratório nas mãos de uma cineasta que deseja usá-los para lançar à platéia uma lição de vida em forma de filme. Falta a todos eles aquela fagulha de humanidade, decisiva para que a platéia torça por eles, sofra por eles, ria com eles e se sinta representada na tela.
A ação gira em torno de quatro amigas de infância, todas ricas, que levam vida de grã-finas em um bairro chique de Los Angeles. Três delas possuem cotidianos estabilizados, tanto profissional como emocionalmente: Frannie (Joan Cusack) cuida da casa e organiza eventos beneficentes, Jane (Frances McDormand) é estilista de sucesso, e Christine (Catherine Keener) tem uma carreira promissora como roteirista. Todas se consideram bem casadas. A quarta, Olivia (Jennifer Aniston), é o patinho feio da turma. Mesmo com diploma de professora, não possui emprego fixo e se sustenta como diarista. Também não tem namorado, a não ser que você considere namoro a obsessão por um sujeito casado com quem teve um caso alguns meses antes.
O filme abre com a já clássica cena de jantar, que nenhuma comédia de costumes – especialmente aquelas que querem deixar um gosto amargo na boca da platéia, como esta – pode deixar de incluir. As três amigas bem-sucedidas trocam piadinhas sobre as coisas boas da vida, e lamentam a situação horrível de Olivia. A partir daí, o filme se aproxima de cada personagem, apenas para mostrar à platéia que a idéia de
felicidade, para aquele pessoal, anda especialmente distorcida. De perto, as vidas de Frannie, Jane e Christine são estáveis, mas profundamente inócuas. São vidinhas confortáveis, mas bem distantes do ideal de felicidade que costumamos cultivar.
Nicole Holofcener filma tudo isso de maneira calculadamente casual, dando um jeito de causar pequenos terremotos em cada um dos cotidianos profundamente estabelecidos. Ela errou ao escalar Jenifer Aniston para o papel mais destacado do longa-metragem, pois a atriz – muito popular nos EUA e certamente incluída no elenco para aumentar o interesse do público – é bem mais jovem do que as outras três, e não convence ninguém como amiga de infância delas.
Além disso, algumas das histórias parecem mais interessantes do que outras, em especial o arco que envolve os acessos de fúria descontrolados de Jane e uma possível ligação desses rompantes com o comportamento do marido Aaron (Simon McBurney). No final, “Amigas com Dinheiro” é o tipo de filme que tem público certo: é engraçado, sofisticado e faz uma crítica inteligente do estado de coisas na sociedade contemporânea. O que lhe falta é calor humano.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/amigas-com-dinheiro/

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O homem que não estava lá


A expressão film noir evoca uma porção de elementos: bares, detetives, mulheres fatais, revólveres e fumaça, muita fumaça. Com exceção do último, nenhum deles está em “O Homem Que Não Estava Lá” (The Man Who Wasn‘t There, EUA, 2001). Pode até parecer um paradoxo, mas acredite: o trabalho dos irmãos Coen é um legítimo representante dessa quase extinta categoria cinematográfica. E não somente isso. “O Homem Que Não Estava Lá” é uma obra-prima, um filme de técnica meticulosa, roteiro brilhante, interpretações sutis – tudo o que se pode exigir de cinema classe A, do tipo que não se faz mais hoje em Hollywood.
O leitor pode até perguntar onde estaria o elemento noir no filme de Joel e Ethan Coen, mas a pergunta cala logo nos primeiros minutos da projeção. Cada fotograma da obra é puro film noir, na ambientação, no clima onírico, na melancolia que exala da tela como um perfume suave e, sobretudo, na magistral direção de fotografia de Roger Deakins. Claro, o filme foi magnificamente fotografado em preto-e-branco, e somente esse detalhe já é capaz de transformá-lo imediatamente na mais perfeita homenagem às películas que retratavam a Califórnia sombria e decadente da década de 1940.
Vale ressaltar que o preto-e-branco de “O Homem Que Não Estava Lá” não é um preto-e-branco comum, filmado displicentemente. Nada disso. Depois de uma pesquisa exaustiva, o fotógrafo Roger Deakins tomou algumas decisões técnicas que influenciaram brutalmente o resultado final. Primeiro, ao contrário do normal, ele decidiu filmar com negativo colorido e somente durante o processo de
revelação abolir as cores. Essa técnica ressaltou tremendamente a expressão facial e o olhar dos atores, jogando-os num primeiro plano quase impossível de se ver numa obra colorida.
Além disso, Deakins usou várias fontes de luz, vindas de diferentes direções, para iluminar cada uma das seqüências e deixar pessoas e objetos imersos em sombras. O resultado desse trabalho perfeccionista, que exigiu dezenas de horas de testes de figurino e locações para garantir o resultado, é capaz de deixar boquiaberto o mais desatento dos espectadores. O branco de “O Homem Que Não Estava Lá” é mais alvo do que lençol em comercial de sabão em pó. O preto, mais negro do que barril de petróleo iraquiano. E o tom chumbo da fumaça – sagrada fumaça, ingrediente indispensável num verdadeiro film noir – domina o que resta do mundo das tonalidades intermediárias.
Falar em fumaça, aliás, é falar em Billy Bob Thornton. Em mais uma atuação de gala, ele interpreta o barbeiro Ed Crane, um sujeito melancólico, caladão. Além de cortar cabelos numa cidadezinha californiana em 1949, a única coisa que Ed faz é fumar (cigarros Chesterfield sem filtros, que expelem fumaça em abundância fora do normal) e suportar os outros. No trabalho, ele agüenta a matraca do cunhado Frank (Michael Badalucco). Em casa, atura a frieza e as traições da mulher, a contadora Doris (Frances McDormand, esposa do diretor Joel). Até que, num dia comum, um cliente (Jon Polito, hilariante sob uma peruca à Cauby Peixoto) entra na barbearia e começa a falar sobre abrir um negócio no ramo da lavagem a seco. E isso muda tudo.
Sabe-se lá por que cargas d‘água, Ed vê na fictícia lavanderia uma chance de mudar de vida. Assim, decide chantagear o patrão e amante da esposa, Big Dave (o subestimado James Gandolfini, da telessérie Família Soprano). Parece simples, mas as coisas logo vão sair do controle e atirar tanto Ed quanto as pessoas que lhe rodeiam numa seqüência estonteante de acontecimentos insólitos. De prisões a acidentes, acontece de tudo. No caso dos irmãos Coen, que escreveram juntos o belo roteiro, a palavra “inimaginável” é exata. “O Homem Que Não Estava Lá” desafia o espectador a todo instante a prever o que irá acontecer a seguir, mas o filme sempre toma rumos completamente inesperados.
Como experiência cinematográfica, dá para dizer sem medo de errar: “O Homem Que Não Estava Lá” é um deleite para olhos e ouvidos. Ouvidos sim, porque a bela música de Beethoven, que permeia os 116 minutos de exibição, contribui para deixar o clima ainda mais melancólico. Feito para homenagear os romances de James Cain (de O Destino Bate à Sua Porta e importante escritor noir), o filme dos irmãos Coen cumpre perfeitamente a proposta inicial e vai além: inscreve seu nome na galeria dos grandes momentos da respeitável carreira da dupla.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/homem-que-nao-estava-la-o/

Fargo


Sete indicações ao Oscar, com vitórias nas categorias de roteiro (Joel e Ethan Coen, também diretores) e atriz (Frances McDormand). Bilheteria quatro vezes maior do que o orçamento de US$ 7 milhões. Uma posição garantida entre os 120 melhores filmes da história no maior banco de dados sobre Cinema do mundo, o Internet Movie Database. Essa trajetória de sucesso explica porque “Fargo” (EUA, 1996) se transformou no mais conhecido filme da mais criativa e original dupla de irmãos cineastas nascida nos Estados Unidos. Mas não pense que são apenas os prêmios que fazem do longa-metragem um dos pontos mais altos da carreira dos Coen, uma carreira repleta de grandes filmes e – raridade na indústria cinematográfica – sem nenhuma obra decepcionante.
“Fargo” faz parte daquela minoria de filmes que conseguem ser divertidos e profundos ao mesmo tempo, sem abdicar da simplicidade narrativa. Híbrido de thriller criminal com comédia de situação e drama familiar, a produção possui uma mistura certeira de personagens consistentes, diálogos inteligentes, humor negro pontuado por um leve molho surreal, e observações cortantes sobre o lado escuro da natureza humana. É um filme que funciona como uma partitura de Mozart, uma sinfonia de movimentos sem uma única nota fora do lugar. Tudo isso feito com simplicidade e despretensão, sem qualquer traço de ambição ou grandiloqüência. “Fargo” é apenas uma ótima história bem contada – e, como todo grande filme, acaba sendo muito mais do que isso.
Considerado de forma quase unânime como o mais brilhante trabalho de Joel e Ethan Coen, “Fargo” só viu esta posição ameaçada pelo igualmente perfeito “
Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007). Curiosamente, é possível traçar uma porção de paralelos entre os dois. Ambos têm enredos constituídos inteiramente por personagens que gravitam em torno de uma mala cheia de dinheiro. São narrados do ponto de vista de xerifes com grande capacidade dedutiva, e que se sentem mal com a banalidade da violência que vêem diariamente no trabalho. Demonstram ouvindo impecável para os sotaques carregados e comportamentos cordiais dos habitantes do meio-oeste dos EUA (Ye-eah!). Já no visual, funcionam como opostos complementares, ying e yang: um (“Fargo”) valoriza paisagens geladas e cores frias, com tonalidades brancas e azuladas; o outro (“Onde os Fracos Não Têm Vez”) é feito de tons crepusculares, quentes, vermelhos e alaranjados.
Em “Fargo”, a trama é disparada por Jerry (William H. Macy), um vendedor de automóveis afundado em dívidas. Desesperado, ele bola um plano audacioso e contrata dois sujeitos mau-humorados (Steve Buscemi e Peter Stormare) para seqüestrarem a esposa. Ele sabe que o sogro milionário não lhe emprestaria US$ 750 mil para que ele abra o próprio negócio, mas pagaria US$ 1 milhão sem pestanejar para ter a filha de volta. O plano arrojado exige também que ele engane, de quebra, os dois seqüestradores, que estão pedindo um resgate de apenas U$ 80 mil. A execução do seqüestro não acontece exatamente como esperado, e os imprevistos põem a xerife Marge (FrancesMcDormand) no encalço dessa turma toda. Detalhe: Marge está gravidíssima, com um barrigão de sete meses, sofre de enjôos matinais e come que nem uma louca.
Trabalhando com o excepcional diretor de fotografia Roger Deakins, que extrai tomadas panorâmicas espetaculares das planícies cobertas de neve de North Dakota e Minnesota, os irmãos Coen demonstram ser exatamente o oposto de seus personagens: enquanto dentro da tela tudo foge do controle, do lado de cá os cineastas criam um estado de caos controlado absolutamente perfeito. A narrativa é extremamente cinematográfica, sem usar os diálogos como muletas. Até mesmo a única subtrama que parece destoar do conjunto (o encontro de Marge com um ex-colega de escola extremamente solitário) espelha, numa escala menor, o drama da condição humana de Jerry, o protagonista infeliz.
Graças ao excelente roteiro escrito pelos dois irmãos, os personagens são uniformemente consistentes. A dinâmica entre eles é impecável, e todos soam perfeitamente naturais e acreditáveis. Jerry, por exemplo, é um arquétipo. Embora tenha uma capacidade de raciocínio limitada, é um sujeito de tenacidade admirável, que refazer os planos e tenta seguir em frente a cada novo imprevisto, mesmo quando as dificuldades parecem grandes demais. O vendedor de carros é um carinhoso idiota, um inocente útil. Quem não conhece alguém como ele? Já Marge – o sotaque de Frances McDormand é impecável – simboliza um aspecto diferente desta mesma tenacidade. O papel da policial grávida, aliás, representa a diferença crucial entre “Fargo” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Uma diferença que se manifesta no tom do filme, que aqui preserva uma ponta de otimismo inexistente no outro filme. Este otimismo está no porto seguro que o marido (John Carroll Lynch, excelente) representa para ela. Muito, muito bom.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/fargo/

Gosto de Sangue

Desde o início da febre dos DVDs, cada vez mais diretores lançam edições especiais de seus filmes. Muitas vezes alegam que a versão para o cinema não representava sua visão da obra. Outros têm a oportunidade de consertar ou acrescentar cenas para que o público tenha uma melhor compreensão da história. Às vezes, essas versões chegam a aumentar a duração do filme em 40 minutos.
Lançado originalmente em 1984, Gosto de Sangue (Blood simple), dos irmãos Coen, também está ganhando sua versão especial. A diferença é que em vez de aumentar, eles reduziram seu filme.
Nessa “versão dos diretores”, Ethan e Joel Coen criaram um pequeno prólogo que tem como função preservar os filmes de valor artístico. O discurso do falso executivo Mortimer Young sobre o cinema independente da época é engraçado e irônico. Passada a brincadeira, Gosto de Sangue conta a história de Marty, dono de um bar no Texas, casado com Abby, que por sua vez é amante de Ray, um empregado do bar. O marido desconfiado contrata então um detetive particular para segui-los e matá-los. A trama converge para um clímax sangrento e surpreendente. Uma história que mistura suspense e humor negro.
Gosto de Sangue marcou a estréia dos irmãos Coen. E, já de cara, eles receberam o Grande Prêmio do Júri no Sundance Film Festival de 1985. Trata-se de uma pequena produção noir com desencontros, trapaças e suposições incorretas em que os personagens não sabem o que está acontecendo até a cena final. Uma deliciosa comédia de erros. Enfim, uma reunião do que os dois irmãos iriam permear em sua carreira.
Tudo é tão perfeitamente construído que lembra Alfred Hitchcock (1899 - 1980). Vários elementos do mestre do suspense aparecem na trama: o homem inocente envolvido num caso de assassinato, as cenas de voyeurismo e até mesmo uma homenagem a Psicose (Psycho, 1960), com um carro em movimento numa chuva torrencial. A trilha sonora de Carter Burwell no sistema THX soa ainda mais misteriosa e aterradora. No elenco, destacam-se Frances McDormand, em seu primeiro papel principal, e M. Emmet Walsh. A química dos dois funciona muito bem, com Walsh nas falas cômicas e McDormand personificando a vulnerabilidade e inocência.
O filme não envelheceu com o tempo. As gordurinhas retiradas deram mais ritmo à narrativa. Assisti-lo remasterizado é uma experiência gratificante e uma oportunidade de entender por que os irmãos Coen são famosos por filmes que dizem muita coisa, mas que no final não significam nada.
Omelete