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sábado, 21 de novembro de 2009

A Conversação



Pequeno projeto pessoal de Coppola é thriller de espionagem genial e maravilhoso estudo de personagem
Por: Rodrigo Carreiro

Francis Ford Coppola estava na crista da onda em 1974, pouco depois de ter lançado o fenomenal “O Poderoso Chefão”, e alcançado estupendo sucesso de crítica e público. Ao mesmo tempo em que preparava o segundo volume da trilogia, um longa-metragem que muita gente considera melhor do que a saga anterior dos Corleone, o cineasta ítalo-americano acalentava um pequeno thriller de espionagem que seria, também, um maravilhoso estudo de personagem. “A Conversação” (The Conversation, EUA, 1974) não fez muito sucesso, mas permanece na memória de muitos cinéfilos como um dos trabalhos mais fascinantes de Coppola.
O diretor, que também escreveu o roteiro, diz que a inspiração do thriller veio do fato que deu partida ao escândalo de Watergate, quando espiões foram pegos tentando instalar escutas clandestinas na sede do Partido Democrata, em época de
eleição (para mais detalhes sobre o caso, assista ao sensacional “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula). Enquanto os jornalistas investigavam os políticos por trás da espionagem, Coppola ficou pensando como seria a consciência daqueles espiões, pagos para escutar conversas alheias.
Das ruminações de Coppola nasceu Harry Caul (Gene Hackman), um personagem fascinante. Trata-se, claro, de um espião profissional. Um dos melhores, verdadeira lenda no círculo dos detetives particulares. Como conseqüência da profissão que abraçou, Caul é um homem profundamente solitário. Sua única diversão é tocar saxofone, mas ele não tem uma banda; acompanha seus discos prediletos de jazz, tentando preencher os espaços entre os solos lancinantes de Miles Davis. Visita freqüentemente uma prostituta, sente ciúmes dela, mas não se permite uma ligação mais profunda.
A primeira seqüência do filme, uma genial tour-de-force de fotografia e edição de som, mostra como Harry Caul é talentoso naquilo que faz. A cena abre com uma ampla tomada de uma praça cheia de gente. Há um lento zoom, até que a câmera focaliza Harry no meio da multidão. Ele e alguns empregados estão utilizando um método revolucionário de múltiplos microfones para gravar a conversa de um jovem casal. Outro espião teria dificuldades para cumprir a tarefa, mas não Harry. Mais tarde, ele opera três gravadores e consegue editar uma fita limpa, com a íntegra da conversa. Trabalho de gênio.
No entanto, o diálogo que emerge das fitas deixa Caul encucado. Ele foi contratado por um executivo (Robert Duvall) para provar que a esposa (Cindy Williams) está lhe traindo com um empregado bonitão (Frederic Forrest). Pelo papo que ouve, Harry acha que a conversa da fita pode significar que o empresário vá matar a mulher. O detetive é um homem católico, que carrega tremenda culpa por ter provocado, durante um trabalho realizado alguns anos antes, a morte de outro casal. Ele teme que possa acontecer novamente. Assim, a fita lhe traz um sentimento ambivalente: orgulho pela perfeição do trabalho, e medo do que pode acontecer a partir dele. A situação dispara um processo de
paranóia que foge do trabalho e se instala na vida pessoal do espião.
A narrativa de “A Conversação” se alterna entre a vida e o emprego de Harry Caul. Se no último ele é metódico e organizado, na primeira é o inverso. Sua vida pessoal é uma bagunça. Harry é um homem atormentado, sozinho, vulnerável. Tenta manter-se a todo custo numa redoma, mas fracassa miseravelmente: os proprietários do apartamento possuem a chave de lá, tanto clientes quanto amigos têm o número do telefone que ele pensa ser secreto, e a correspondência que chega à casa dele é seguidamente aberta. De forma magnífica, Coppola filma o momento de fusão entre a privacidade e a vida pública de Harry Caul, duas partes de sua existência que ele tentava a todo custo manter compartimentadas.
Desta forma, o cineasta cumpre com louvor a tarefa de realizar um duplo filme: um belíssimo e complexo estudo de personagem, e um thriller inteligente e cheio de tensão. A atuação de Gene Hackman – sutil, silenciosa e cheia de nuances – ajuda muito neste objetivo, mas há muitos outros pontos altos: o elenco coadjuvante sensacional (John Cazale, como em “Um Dia de Cão”, rouba a cena), a maravilhosa trilha sonora pontuada por linhas minimalísticas e melancólicas de piano, e o final ambíguo e surpreendente. Em resumo, um filmaço.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/conversacao-a/

O Poderoso Chefão 2



Seqüência do épico mantém a unidade estética e temática do anterior, ampliando o escopo em alguns pontos
Por: Rodrigo Carreiro

A pergunta óbvia de quem deseja se informar sobre “O Poderoso Chefão 2” (The Godfather: Part II, EUA, 1974): é melhor do que o primeiro? Pois bem, não dá para saber. As preferências dos cinéfilos se equivalem. A única resposta objetiva possível é que se trata de um filme maior, porque tem 20 minutos a mais. Melhor ou pior, não importa; importa que é sensacional, sim, e mantém a unidade estética e temática do anterior, ampliando o escopo em alguns pontos e tecendo uma teia complexa de relações que já não era fácil de acompanhar. Além disso, marca uma característica interessante da trilogia, que será aprofundada de maneira definitiva na terceira parte – o uso de fatos históricos reais que são penetrados pela ficção.
Boa parte da trama de “O Poderoso Chefão 2” se passa em Cuba, para onde Michael Corleone (Al Pacino) viaja, junto com o irmão Fredo (John Casale), a fim de fechar um negócio importante. Após assumir em definitivo o lugar deixado vago pelo pai, e eliminar concorrentes, Michael transformou a família Corleone na mais poderosa máquina mafiosa dos EUA. Agora, ele deseja mudar a base geográfica, transportando tudo para a Califórnia (EUA), além de diversificar os negócios – investindo em jogos de azar, em ações de empresas multinacionais e na política – e, finalmente, legalizá-los. Para isso, precisa administrar problemas familiares com os irmãos Fredo e Connie (Talia Shire) e com a mulher Kay (Diane Keaton).
Essa é a trama número 1 do filme, mas existe outra, cronologicamente anterior: a saga de Don Vito Corleone (Robert De Niro), de imigrante italiano que chega aos EUA sem um tostão a homem poderoso do
submundo nova-iorquino. Via de regra, o filme salta de uma história para outra a cada 20 minutos. A montagem é bem feita, mas é também o ponto fraco da película, pois não há simetria entre as duas histórias. Coppola teve problemas com a opção pela montagem paralela. Chegou a modificá-la, após uma exibição-teste em que recebeu muitas críticas por ter fragmentado demais as duas histórias. Por isso, combinou-as em intervalos regulares mais longos. Funciona, OK, mas não é fluido e perfeito como na parte 1 da trilogia.
Se não existe simetria nas duas histórias, essa qualidade está presente quando os dois filmes são colocados lado a lado. Como na produção anterior, Coppola inicia “O Poderoso Chefão 2” com uma festa. Há um atentado contra Michael, e em seguida o filme o mostra se dedicando aos negócios. Embora o enredo seja complicado e inteligente, Coppola faz um trabalho brilhante ao mostrar como Michael, ao tentar proteger os Corleone da única maneira que sabe, acaba se afastando cada vez mais da família – dos irmãos e da esposa Kay (Diane Keaton) – sem poder reverter o processo. Para proteger quem ele ama, Michael precisa se afastar deles. Novamente, este é o grande tema do filme: o amor pela família.
“O Poderoso Chefão 2” é, de fato, a fachada de Michael: impassível, poderosa, resoluta. Ele aparenta ser um homem de aço, que nunca hesita. A experiência o transformou em expert no jogo político, o jogo das aparências. Mas é apenas fachada. No íntimo, Michael é um homem torturado, amargo e, claro, hesitante. Só que esse é um Michael que jamais conseguimos vislumbrar. Talvez esteja aí o truque supremo de Coppola: ele filma “O Poderoso Chefão 2” do
ponto de vista de Fredo e Connie, colocando a platéia na mesma posição dos irmãos do grande chefe. Os dois vêem tudo acontecer, e pensam que entendem o que estão vendo, mas na verdade nunca conseguem ir além do jogo de aparências, e só compreendem de fato os acontecimentos depois que eles viram passado.
No elenco, o grande destaque é Robert De Niro, que recebeu um dos seis Oscar destinados à produção. De Niro se mudou para a Sicília, estudou italiano (a maior parte dos diálogos dele é travada nessa língua) e até modificou a voz, passando a utilizar uma entonação rouca, que se aproxima do sussurrar de Marlon Brando no primeiro filme. Sua postura altiva e silenciosa, de olhos penetrantes e às vezes melancólicos, nos faz acreditar que ele é mesmo a versão jovem do velho Vito. Quanto a Al Pacino, a verdade é que a magnética interpretação conseguida no primeiro filme facilita o trabalho, e nos faz acreditar que ele é Michael Corleone, e não um ator interpretando. Resumindo, é perfeito.
Outro destaque é a fotografia assombrosa de Gordon Willis, que vai ainda mais fundo no uso do contraluz e faz algumas tomadas inigualáveis com o uso da sombra. Anos mais tarde, ele se mostraria arrependido por radicalizar tanto nos contrastes claro/escuro – há tomadas em que praticamente só se consegue vislumbrar o branco nos olhos dos personagens –, mas o resultado final é realmente único, e belíssimo; algumas tomadas parecem quadros de
Caravaggio. A reconstituição de época de Dean Tavoularis, que preparou alguns quarteirões de Nova York para filmar o trecho com De Niro em locação, também impressiona pela perfeição. Para completar, há mais uma galeria de cenas inesquecíveis, incluindo o primeiro assassinato de Vito (a mão de De Niro pegando fogo talvez seja a imagem mais forte do filme), uma discussão incrivelmente realista entre Michael e Kay e, claro, o epílogo sombrio exibido sob o som de uma oração. Lindo, lindo, lindo.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/poderoso-chefao-2-o/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Alice Não Mora Mais Aqui


Ao longo de sua carreira, o cineasta Martin Scorsese desenvolveu, em seus filmes, um olhar crítico e eminentemente masculino a respeito da sociedade norte-americana. A maior parte dos trabalhos que assinou são aquilo que à boca pequena chamamos de “filmes de macho”, com linguagem crua e imagens viscerais de violência, além de palavrões e misoginia aos borbotões. Por tudo isso, é provável que o road movie feminista “Alice Não Mora Mais Aqui” (Alice Doesn’t Live Here Anymore, EUA, 1974) seja o menos scorseseano de todas as produções que o diretor levou a cabo. Em essência, trata-se de um filme – excelente! – de alma delicada e feminina.
A bem da verdade, como boa parte dos melhores trabalhos de Scorsese, o projeto não saiu da cabeça do diretor, que trabalhou como mero funcionário contratado. A grande responsável pela germinação do longa-metragem foi a atriz Ellen Burstyn, que vivia então o melhor momento da carreira. Colhendo os louros do grande sucesso de público que foi “O Exorcista”, feito no ano anterior, a atriz recebeu carta branca da Warner para apresentar um projeto ao estúdio. Levou, então, o roteiro de “Alice Não Mora Mais Aqui”, um raríssimo longa que tinha uma mulher acima de 30 anos como protagonista.
Cabe aqui um rápido parêntese para contextualizar a produção. É importante lembrar que em 1974 o movimento feminista estava no auge, nos Estados Unidos, e portanto um filme como “Alice…” tinha público certo, desde que fosse vendido à parcela correta de cinéfilos, basicamente os freqüentadores de cinemas na faixa dos 30 anos. Por outro lado, a Warner sabia que este seria um drama adulto de pequenas proporções, e não queria gastar milhões contratando um diretor famoso. Foi
Francis Ford Coppola quem sugeriu a Ellen Burstyn o nome de Scorsese, um iniciante com apenas dois títulos no currículo. A Warner deu luz verde, e o então desconhecido cineasta nova-iorquino, faminto por trabalho, agarrou-o com unhas e dentes.
Perfeitamente encaixado dentro da revolução criada nos intestinos de Hollywood por uma geração de jovens diretores talentosos que não tinha medo de criticar a sociedade norte-americana em painéis realistas da vida nos subúrbios, “Alice Não Mora Mais Aqui” parece uma contraparte feminina do ótimo “
Cada Um Vive Como Quer” (1970), de Bob Rafelson. Ou seja, é um drama de estrada sobre pessoas comuns, que dão duro para conseguir sobreviver em um ambiente socialmente hostil. No filme de Scorsese, temos um perfeito panorama do quão difícil significa ser uma mulher com mais de 30 anos, viúva e com um filho pequeno, em uma sociedade machista e misógina como é a norte-americana, em especial nas pequenas e conservadoras cidades do interior.
A personagem principal, Alice (Burstyn), é obrigada a cair na estrada com o filho Tommy (Alfred Lutter III) depois que o marido morre num acidente banal. Na verdade, da maneira com Scorsese mostra, ela saiu de um
inferno para cair em outro pior. Antes da fatalidade, Alice sonhava com um divórcio para poder perseguir o sonho de virar cantora, pois vivia um casamento infeliz ao lado de um sujeito grosseiro, agressivo e estúpido. A tão querida liberdade aparece, contudo, regada a lágrimas e dor, e a mulher não demora a descobrir, da pior maneira possível, que a vida fora da segurança do casamento, para uma balzaquiana com uma criança, pode ser extremamente difícil.
Sozinha no mundo e sem economias, Alice é obrigada a enterrar o sonho de virar cantora e aceitar bicos como garçonete para poder sobreviver. O filho, Tommy, tem que aprender a passar os dias sozinho, trancado em quartos de motéis baratos, esperando a mãe sair do trabalho. Para completar, Alice logo descobre que retomar uma vida amorosa digna é tarefa das mais complicadas. No ambiente machista das pequenas cidades do interior rural dos EUA, há uma regra não-escrita que parece tão natural para os habitantes quanto respirar: uma mulher sozinha e com filho pequeno não tem direito de recusar um homem, seja ele quem for.
Tudo em “Alice Não Mora Mais Aqui” funciona perfeitamente. O elenco soberbo (Burstyn ganhou o Oscar, enquanto Diane Ladd e Kris Kristofferson compõem coadjuvantes densos e Harvey Keitel tem uma pequena, mas feroz participação fundamental), a trilha sonora sorumbática, o afiado senso de humor sem um pingo de auto-complacência, o ótimo núcleo juvenil da história – Jodie Foster tem pelo menos uma seqüência brilhante, furtando uma loja de instrumentos musicais – e a abertura impagável que satiriza brilhantemente “O Mágico de Oz” (1939), tudo isso faz de “Alice…” um grande filme.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/alice-nao-mora-mais-aqui/