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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Seabiscuit


Baseado no livro Seabiscuit - uma lenda americana (Cia. das Letras), de Laura Hillenbrand, o filme Seabiscuit: Alma de herói adapta a história verídica de três homens emocionalmente feridos, uma nação abalada e um cavalo incompreendido, que devolveu aos Estados Unidos seu orgulho.
Na década de 30, a Grande Depressão, período negro que começou com a queda da Bolsa de Nova York, levou milhares de pessoas ao desemprego, arruinou empresários, provocou falências e multiplicou as tensões sociais. Nessa época conturbada, Howard (Jeff Bridges), um dos maiores comerciantes de automóveis do país, redescobre o amor (depois de perder seu filho e esposa) e passa a investir em cavalos de corrida. Para o cargo de treinador, contrata Tom Smith (Chris Cooper), um vaqueiro calado e excêntrico, que não conseguia emprego fixo, mas que possuia uma empatia com os animais fora do comum.
Smith passa a rodar estrebarias em busca de um animal diferente, com potencial adormecido, para conseguir pagar barato e treiná-lo para tentar vitórias em páreos menores. Numa dessas visitas encontra o pequeno Seabiscuit, animal preguiçoso, de pernas tortas, maltratado e rebelde. O olhar dos dois se cruza e Seabiscuit é comprado. A escolha do jóquei é semelhante. O treinador esbarra em Red Pollard (Tobey Maguire) por acaso e identifica no rapaz as mesmas qualidades e problemas que tem o seu cavalo. Abandonado quando adolescente, o fracassado Red passa a vida fazendo bicos e montando por um teto e um pouco de comida. Juntos, Howard, Smith, Pollard e Seabiscuit começam um trabalho que entrará para a história.
Seabiscuit tem ares de épico. A grandiosidade dos circuitos, a recriação das corridas e a reconstituição de época são perfeitas. O diretor Gary Ross (A vida em preto e branco) mistura imagens de arquivo com as filmagens e ambienta o espectador em um dos períodos economicamente mais desesperadores que já viveu o povo americano. Além da história, daquele tipo que parece bom demais para ser verdade, a recriação das mais famosas corridas de Seabiscuit, documentadas em detalhes pelos narradores da época, é uma verdadeira lição de como registrar velocidade em película. Nada das pataquadas de filmes tipo Velozes e furiosos... em Seabiscuit, a ação tem uma carga emocional intensa, que só é aliviada quando os animais cruzam o disco final.
Para tanto, o cineasta utilizou jóqueis de verdade - incluindo o campeão Gary Stevens, que interpreta o amigo de Pollard, George Woolf. O próprio Maguire teve que aprender a montar como um profissional para o filme, esforço quase lhe custou o papel de Peter Parker em Homem-Aranha 2. Suas costas ficaram prejudicadas e foi necessário um intenso tratamento para que ele pudesse voltar a interpretar o herói aracnídeo.
Enfim, uma produção grandiosa, com trilha sonora impecável e atuações competentes (William H. Macy como o narrador Tick-Tock McGlaughlin está espetacular), Seabiscuit deve agradar a qualquer cinéfilo em busca de ação e emoção, mas que não queira se sujeitar a explosões, sangue e gritaria.
Ah, ser fã de turfe também deve ajudar, mas não é pré-requisito. Meu único contato com o esporte era a Bozo Corrida e eu adorei o filme.

http://www.omelete.com.br/cine/100001654/_i_Seabiscuit___Alma_de_heroi__i_.aspx

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Tucker: Um Homem e o Seu Sonho


Um sonho de perfeição que morreu com Tucker
"O que é bom para a GM é bom para os Estados Unidos..."
(ditado popular capitalista)
Numa classificação genérica, seria um filme sobre a indústria automobilística - e não automobilismo, especificamente, a biografia de um construtor (fracassado) de um modelo que não emplacou.
Seria. Não é. "Tucker - Um Homem e seu Sonho" (Astor, hoje, 5 sessões, último dia em exibição) é um filme que transcende. É sobre o idealismo, um sonho, a família, o poder das supercorporações capitalistas e até mesmo a publicidade. Tudo isto realizado com poesia, um certo humor, muita ternura e a mesma garra que Francis Ford Coppola, 50 anos, demonstrava há 17 anos passados com "O Poderoso Chefão" (The Godfather), no qual, partindo de uma ficção (mas quase real) também traçava um painel sobre a vida, os valores e as instituições americanas - aprofundadas ainda mais na seqüência, dois anos depois (numa das raras vezes em que uma continuação cinematográfica conseguiu ser melhor do que a primeira parte).
Enaltecido pela crítica mais influente como exemplo do melhor Coppola desde "The Godfather" - em que pesem outros grandes momentos neste período ("A Conversação", 74; "Apocalipse Now", 79 e "O Selvagem da Motocicleta", 83), "Tucker - The Man and his Dream" é daqueles filmes que levam o espectador ao entusiasmo e - usando aqui uma expressão até certo ponto vulgar, mas bem específica - preenchendo as medidas que se exigem de uma obra cinematográfica.
Projeto acalentado por Francis e seu amigo (e produtor) George Lucas há mais de 20 anos, é a cinebiografia de Preston Tucker (1903-1956), o homem que sonhou em fazer um carro do futuro, com a máxima segurança e economia (35 quilômetros com 3 litros de gasolina) - o que, naturalmente, assustou a ganância dos poderosos da indústria automobilística - especialmente as três maiores corporações de Detroit - Chrysler, Ford e, naturalmente, a GM.
"Tucker - Um Homem e seu Sonho" é um filme up, positivo. Da seqüência de abertura - com o jovial Preston chegando em sua acolhedora casa, trazendo 12 cães de raça e entusiasmo por uma nova idéia, todo o filme transmite uma atmosfera de otimismo e esperança que mesmo as maiores dificuldades por ele enfrentadas - pressões das corporações, a imposição do péssimo caráter, Bennington (Dean Goodman) como "presidente" de sua empresa - para ajudar a conseguir acionistas e o afastamento de seu sócio e melhor amigo, Abe (Martin Landau), condenado no passado por fraude bancária - até o dramático julgamento final, que o ameaçava de dezenas de anos de cadeia - não tiram a confiança, um sorriso de pessoa positiva e a honestidade com que Ford e os roteiristas Arnold Schulmann e David Seildler construíram o personagem - numa interpretação excelente de Jeff Bridges.
O pecado de Tucker foi criar um carro bom e barato demais para o seu tempo (motor traseiro adaptado de helicóptero, velocidade de 160km/h, aerodinâmica invejável e, sobretudo, uma máxima segurança aos usuários que, na época, era desprezada pelos fabricantes de veículos).
Americano de Capac, Michigan, Preston Tucker foi criado - juntamente com o irmão - pela mãe (perdeu o pai aos dois anos de idade). Em 1923 casou com Vera Fucqua (no filme, interpretada por Joan Allen), com quem teve 5 filhos. Foi operário da linha de montagem da Ford, policial, gerente de vendas das indústrias que fabricavam Studebakers, Packards e Dodges. Sua reputação como vendedor se reforçou a partir do sólido conhecimento que demonstrava sobre os produtos que comercializava. Sempre inventivo, chegou a criar para o Exército um veículo blindado que só tinha um defeito: uma grande velocidade - e que aparece numa das primeiras seqüências.
Num desafio contra o tempo e as maiores dificuldades, conseguiu desenvolver o protótipo do carro do futuro - o Tucker Torpedo, cujo lançamento, amparado numa inteligente campanha publicitária, motivou os americanos a comprarem US$ 23 milhões de ações de sua empresa (coincidentemente, o mesmo valor da produção deste filme), mas, os poderosos de Detroit não aceitaram que sobrevivesse e o corrupto senador Hommer Ferguson (interpretado por Lloyd Bridges, pai de Jeff, que vive Tucker) seria um dos principais responsáveis pela armadilha que o levaria a justiça, acusado de não ter fabricado os veículos e enganado os acionistas. Absolvido, Tucker viria a morrer oito anos depois. Dizem alguns de seus biógrafos que chegou a pensar em fabricar um modelo, o "Carioca", na então nascente indústria automobilística brasileira (e o presidente JK seria simpático a idéia), o que poderia ter modificado a nossa própria indústria. Naturalmente que as poderosas multinacionais que aqui se instalaram nos anos 50 devem ter cuidado de puxar o seu tapete (este fato nem é mencionado no filme).
Uma produção requintada, com sua reconstituição de época das mais esmeradas (a direção de arte de Dean Tovoularis se preocupou com os mínimos detalhes) e a fotografia de Vittório Storaro utilizando técnicas visuais que, mesmo não sendo inéditas, são extremamente funcionais (conversações telefônicas filmadas ao vivo num processo de divisão de tela; palcos contíguos representam duas situações separadas por milhares de quilômetros, de tal maneira que Tucker possa, numa mesma cena, sair de smoking de uma festa para receber a chave da cidade de paletó e gravata, como se apenas atravessasse uma parede) são aspectos que tornam fascinante o filme. Uma pesquisa cuidadosa, com utilização de filmes publicitários da Tucker, bem como seqüências familiares (além da participação da neta, Cynthia Tucker, como consultora) enriquecem sinceramente o filme. Também o compositor Joe Jackson, encarregado de coordenar a trilha sonora (editada no Brasil há 90 dias pela Polygram) somou a temas inéditos, músicas de época e alguns dos jingles com os quais a Tucker anunciava pelo rádio (e ainda iniciante televisão) "hoje, o carro do futuro". Carmino, pai de Francis Coppola, compositor de (quase) todos seus filmes também colaborou, já que mais do que qualquer outro, este teve um aspecto familiar: desde o clima de Preston e seu amor pela esposa e filhos, a lealdade com os amigos, até a emotiva dedicatória que Francis faz ao final, lembrando o seu filho, Gio (Giancarlo), morto aos 17 anos em 27 de maio de 1986, num acidente de barcos, quando das filmagens de "Jardins de Pedra").
Impressionante é a presença de Dean Stockwell, numa seqüência um tanto estranha, como o multimilionário (e também inventor e igualmente perseguido pelos canalhas de Washington que representavam interesses de grandes empresas) Howard Hughes (1905-1976) que, surpreendendo ao próprio Preston Tucker, lhe dá a dica sobre a fábrica de helicópteros, livre das pressões do governo e das empresas automobilísticas, que lhe poderia resolver os problemas no fornecimento do motor para seus veículos. Assim como Anthony Quinn, aparecendo apenas 8 minutos em "Sede de Viver" (Just for Life, 1956, de Vincent Minelli), como o pintor Gaughin, ganhou o Oscar de melhor coadjuvante, Stockwell, por esta brevíssima presença foi indicado ao mesmo prêmio - embora perdendo para Kevin Kline ("Um Peixe Chamado Wanda").
Admirável, positivo dentro da melhor tradição do cinema capaz de enaltecer - sem glorificar - pessoas que merecem ser mais conhecidas, "Tucker" sofre, como obra filmada, o mesmo destino dos veículos que ele produziu (51 carros, dos quais 46 ainda existentes, um deles num museu de carros antigos em São Paulo): a frustração de não atingir o público maior. Um filme que mereceria no mínimo três semanas de exibição encerra, melancolicamente, hoje, sua carreira em Curitiba.

http://www.millarch.org/artigo/um-sonho-de-perfeicao-que-morreu-com-tucker

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Grande Lebowski

A crítica internacional parece ter uma tremenda dificuldade em analisar, classificar e rotular a obra dos irmãos Joel e Ethan Coen. É fato concreto e unânime que os dois estão entre os autores mais criativos e pessoais do cinema norte-americano, mas eles fazem filmes tão diferentes, tão oníricos, tão irreverentes que muita gente não consegue captar a essência dessas obras. Daí as apressadas classificações de “filme menor” que são atadas a comédias brilhantes como “O Grande Lebowski” (The Big Lebowski, EUA, 1998), um dos filmes mais engraçados e surpreendentes dos Coen.
Quando alinhado à obra prévia dos Coen, “O Grande Lebowski” demonstra uma coerência temática admirável. O filme, como quase todos os dirigidos por Joel (e produzidos por Ethan, e roteirizados por ambos), traz um protagonista inicialmente envolvido em uma pequena confusão que, ao tentar resolvê-la, termina por disparar uma sucessão inacreditável de situações irreversíveis que levam o caso a extremos completamente originais e surpreendentes. “
Fargo” era assim, “O Homem Que Não Estava Lá” também, e até “Barton Fink”, que não aborda diretamente a idéia de um crime ter sido, ou estar sendo, cometido, como nos outros casos.
Jeff Lebowski (Jeff Bridges) é o protagonista. Ele é um hippie barrigudo, cabeludo e quarentão cuja vida se resume a meia dúzia de pequenos prazeres: fumar maconha, tomar cerveja, jogar boliche com os amigos. Ele faz bicos para sobreviver e mora em um pequeno apartamento à beira-mar, sem ligar para prestações atrasadas. É o tipo de sujeito que horroriza qualquer um que use gravata para trabalhar, mas que secretamente invejamos pela postura blasé diante da sociedade. O tipo de cara para quem os grandes problemas do dia-a-dia de gente comum, como eu e você (pagar o aluguel, trocar o carro, consertar o ar-condicionado), não significa nada. “The Dude” (ou “O Cara”), como é conhecido pelos amigos, é um cara largadão, que vive de chinelos e bermudas, e não está nem aí para o que pensam dele.
O acontecimento que dispara o “efeito dominó” sobre a vida do nosso
herói é a invasão do apartamento dele por dois ladrões. Os sujeitos o confundem com um homônimo multimilionário morador da praia de Pasadena, entram no apê, bagunçam tudo e, crime dos crimes, urinam no tapete da sala. Aí já é demais para Jeff: roubar tudo bem, mas estragar o tapete que é parte essencial da decoração da sua casa não dá. Ele decide arrumar dinheiro para comprar outro tapete, e acha que talvez o “grande Lebowski”, verdadeiro alvo dos criminosos, possa pagar por isso. Terá a ajuda de dois amigos íntimos, o veterano de guerra Walter (John Goodman, excepcional e hilariante) e o meio idiota Donnie (Steve Buscemi).
A jornada para conseguir um novo tapete tem tudo o que um amante de bom cinema deseja: lances desconcertantes, cenas hilariantes de comédia refinada (ou não) e até delírios da mente cheia de fumaça de “The Dude”, delírios que geralmente envolvem boliche e o uso de câmera lenta. Joel e Ethan Coen afirmam que “O Grande Lebowski” é uma tentativa de criar uma comédia noir (quem conhece a obra dos dois sabe que eles têm obsessão pelo estilo) ambientada nos dias de hoje. Eles conseguem. O filme é engraçadíssimo, tem uma trilha sonora de primeira qualidade e delírios visuais impagáveis, além de interpretações uniformemente boas, que ficam no limite entre a paródia e a comédia pastelão.
“O Grande Lebowski” é um trabalho de quem possui controle absoluto sobre sua criação. Autores com menos habilidade ou confiança no que estão fazendo jamais conseguiriam desenvolver roteiros tão seguros, que jamais derrapam para a obviedade. Você chamaria de refinado um texto que contém nada menos do que 281 vezes a palavra “fuck”? Não? Pois acredite: “O Grande Lebowski” é, sim, um dos roteiros mais refinados dos
irmãos Coen, porque trabalha uma coleção de personagens improváveis, e reúne uma grande quantidade de cenas aparentemente impossíveis de serem ligadas, em um todo fluído que é comédia da mais alta qualidade.