A crítica internacional parece ter uma tremenda dificuldade em analisar, classificar e rotular a obra dos irmãos Joel e Ethan Coen. É fato concreto e unânime que os dois estão entre os autores mais criativos e pessoais do cinema norte-americano, mas eles fazem filmes tão diferentes, tão oníricos, tão irreverentes que muita gente não consegue captar a essência dessas obras. Daí as apressadas classificações de “filme menor” que são atadas a comédias brilhantes como “O Grande Lebowski” (The Big Lebowski, EUA, 1998), um dos filmes mais engraçados e surpreendentes dos Coen.Quando alinhado à obra prévia dos Coen, “O Grande Lebowski” demonstra uma coerência temática admirável. O filme, como quase todos os dirigidos por Joel (e produzidos por Ethan, e roteirizados por ambos), traz um protagonista inicialmente envolvido em uma pequena confusão que, ao tentar resolvê-la, termina por disparar uma sucessão inacreditável de situações irreversíveis que levam o caso a extremos completamente originais e surpreendentes. “Fargo” era assim, “O Homem Que Não Estava Lá” também, e até “Barton Fink”, que não aborda diretamente a idéia de um crime ter sido, ou estar sendo, cometido, como nos outros casos.
Jeff Lebowski (Jeff Bridges) é o protagonista. Ele é um hippie barrigudo, cabeludo e quarentão cuja vida se resume a meia dúzia de pequenos prazeres: fumar maconha, tomar cerveja, jogar boliche com os amigos. Ele faz bicos para sobreviver e mora em um pequeno apartamento à beira-mar, sem ligar para prestações atrasadas. É o tipo de sujeito que horroriza qualquer um que use gravata para trabalhar, mas que secretamente invejamos pela postura blasé diante da sociedade. O tipo de cara para quem os grandes problemas do dia-a-dia de gente comum, como eu e você (pagar o aluguel, trocar o carro, consertar o ar-condicionado), não significa nada. “The Dude” (ou “O Cara”), como é conhecido pelos amigos, é um cara largadão, que vive de chinelos e bermudas, e não está nem aí para o que pensam dele.
O acontecimento que dispara o “efeito dominó” sobre a vida do nosso herói é a invasão do apartamento dele por dois ladrões. Os sujeitos o confundem com um homônimo multimilionário morador da praia de Pasadena, entram no apê, bagunçam tudo e, crime dos crimes, urinam no tapete da sala. Aí já é demais para Jeff: roubar tudo bem, mas estragar o tapete que é parte essencial da decoração da sua casa não dá. Ele decide arrumar dinheiro para comprar outro tapete, e acha que talvez o “grande Lebowski”, verdadeiro alvo dos criminosos, possa pagar por isso. Terá a ajuda de dois amigos íntimos, o veterano de guerra Walter (John Goodman, excepcional e hilariante) e o meio idiota Donnie (Steve Buscemi).
A jornada para conseguir um novo tapete tem tudo o que um amante de bom cinema deseja: lances desconcertantes, cenas hilariantes de comédia refinada (ou não) e até delírios da mente cheia de fumaça de “The Dude”, delírios que geralmente envolvem boliche e o uso de câmera lenta. Joel e Ethan Coen afirmam que “O Grande Lebowski” é uma tentativa de criar uma comédia noir (quem conhece a obra dos dois sabe que eles têm obsessão pelo estilo) ambientada nos dias de hoje. Eles conseguem. O filme é engraçadíssimo, tem uma trilha sonora de primeira qualidade e delírios visuais impagáveis, além de interpretações uniformemente boas, que ficam no limite entre a paródia e a comédia pastelão.
“O Grande Lebowski” é um trabalho de quem possui controle absoluto sobre sua criação. Autores com menos habilidade ou confiança no que estão fazendo jamais conseguiriam desenvolver roteiros tão seguros, que jamais derrapam para a obviedade. Você chamaria de refinado um texto que contém nada menos do que 281 vezes a palavra “fuck”? Não? Pois acredite: “O Grande Lebowski” é, sim, um dos roteiros mais refinados dos irmãos Coen, porque trabalha uma coleção de personagens improváveis, e reúne uma grande quantidade de cenas aparentemente impossíveis de serem ligadas, em um todo fluído que é comédia da mais alta qualidade.
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