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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Scott Pilgrim contra O Mundo




Do diretor de Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso, vem a comédia de ação que parodia o mundo dos games e dos super-heróis: Scott Pilgrim contra O Mundo. Michael Cera interpreta um nerd que se apaixona por uma super-heroína (Mary Elizabeth Winstead) e precisa enfrentar a fúria (e os poderes) dos sete ex-super namorados dela.

No elenco também aparecem Chris Evans, Kieran Culkin, Anne Kendrick, Brandon Routh e Jason Schwartzman

A estética é única...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Juno

Teen movie é um drama raro, que olha a adolescência como ela é, e não como os adultos imaginam que ela seja
Por: Rodrigo Carreiro

Todo cinéfilo sabe que os grandes estúdios de Hollywood têm dificuldades históricas para fazer bons filmes adolescentes. Não é preciso ser grande conhecedor de cinema para entender o motivo. A maior parte dos artistas que trabalham na indústria do entretenimento, incluindo diretores e roteiristas, está muito acima da casa dos 30 anos. Pertencem, portanto, a gerações diferentes daquela que devem retratar. Para fazê-lo, por mais que tenham boa vontade, acabam recorrendo a estereótipos. O resultado é uma enxurrada de filmes bobos e cheios de clichês. “Juno” (EUA/Canadá, 2007) é uma rara e feliz exceção. O filme constrói um painel rico e excentricamente moderno de um tema difícil – a gravidez adolescente – e traça retrato acurado de uma geração que, até bem pouco tempo, ainda não havia sido bem representada em filmes de massa.
Mérito, em grande parte, do diretor Jason Reitman (“
Obrigado por Fumar”), e não apenas porque ele tinha 29 anos quando iniciou as filmagens – jovem o suficiente para entender as pessoas que iria retratar. O mérito de Reitman foi reconhecer talento no trabalho de uma roteirista amadora. Ou melhor, uma ex-stripper, blogueira e festeira de carteirinha que um dia se meteu a escrever um roteiro. Foi uma ousadia dele. A garota, que assina o texto com o pseudônimo Diablo Cody, tinha só 25 anos quando escreveu a saga em tom menor de uma garota de 16 anos que engravida acidentalmente, após a primeira relação sexual, e decide levar em frente a gestação (“bebês de dois meses têm unhas!”). Cody faz o tipo “21th Century Girl”, simultaneamente fofinha e durona – tatuagens de Betty Boop, franjas excêntricas, minissaias coloridas e botas de cano alto, pele mantida orgulhosamente alva por uma vida noturna agitada, e fã de Wes Anderson. Ela se mudou para a Califórnia para morar com o namorado que conheceu em bate-papos na Internet, e conheceu Jason Reitman por lá.
O que tudo isso quer dizer? Que Diablo Cody não é uma profissional de Hollywood. Para um profissional do ramo, escrever sobre adolescentes ou sobre uma tribo de canibais africanos seria a mesma coisa. Mas quando Cody sentou para escrever o roteiro de um filme jovem, não estava trabalhando em material puramente ficcional, por obrigação. Estava transportando material que havia vivido e observado para criar ficção sobre uma base real. “Juno” é o primeiro roteiro assinado por ela. Não é surpresa que o texto alimente um desprezo relativo – e saudável – pelas regras clássicas de uma narrativa cinematográfica. O objetivo de Cody não era criar um “filme para adolescentes”, mas uma história em que sua própria geração se reconhecesse. Já que não havia ninguém fazendo isso em Hollywood, ora, ela mesma poderia fazer, certo?
Vem daí a multifacetada e meticulosa composição de personagens. A protagonista, menina de personalidade forte e senso de humor peculiar, esperto e meio mórbido, faz o gênero “futura riot girl”: paredes do quarto forrada de fotos de homens mais velhos, fã de punk rock, acha que 1977 foi o melhor ano da história do rock’n’roll. Parte de Juno continua criança, como provam as bonecas nas prateleiras do quarto e o telefone em forma de hambúrguer, mas ela entende que é hora de crescer. Por isso, toma a decisão de perder a virgindade. Quem melhor para fazer isso do que o melhor amigo, um garoto tímido, magricela e fã de Tic Tac de laranja? Num teen movie comum, Bleeker (Michael Cera) seria saco de pancadas dos valentões da escola, mas não neste filme. A abordagem do diretor Jason Reitman é carinhosa e delicada. “Juno” foi feito por freaks para freaks.
Filmado por apenas US$ 7,5 milhões, o longa se encaixa perfeitamente no estilo de filmes fofinhos, que provoca chiliques no público alternativo do Festival de Sundance. Seria, por equivalência, o correspondente a “
Pequena Miss Sunshine” na safra 2007. A diferença entre os dois títulos, porém, é abissal. Ao contrário do outro, “Juno” tem personalidade própria. Não recorre a fórmulas narrativas e não tenta dar lição de moral – aliás, quem diria que um filme distribuído pela conservadora Fox trataria uma gravidez adolescente de forma tão surpreendente, e ainda por cima exibindo um final tão esquisito e incomum? Além disso, o filme capta com perfeição o senso de hedonismo da juventude contemporânea, aquela idéia não-verbal de que o universo deve girar torno de você, e que não vale a pena desviar a atenção dos prazeres da vida com nada. Você entende o espírito.
Com todas as virtudes computadas, também não é um filme perfeito. Longe disso. Um dos maiores problemas está na direção de arte excessiva, poluída e com influência acentuada dos filmes do diretor Wes Anderson (a lista dos dez DVDs preferidos da roteirista Diablo Cody inclui “Os Excêntricos Tenenbaums”). Basta reparar na vestimenta que Bleeker utiliza para fazer educação física na escola – qual o colégio que usaria um fardamento exótico e colorido como aquele? Além disso, se o filme acerta na composição dos personagens adolescentes, por outro lado erra feio no que diz respeito aos adultos – exceção feita ao personagem Mark (Jason Bateman), que é na verdade um adolescente preso no corpo de um cara de 30 anos. Um exemplo? Quando ficam sabendo sobre a gravidez, os pais de Juno tomam uma atitude não apenas irresponsável, mas surreal, especialmente para uma família cuja madastra chora durante uma ultrassonografia.
A trilha sonora folk, com quantidade generosa de música acústica, ajuda a aproximar “Juno” de obras como “
Ensina-me a Viver” (1971), de Hal Ashby, cuja atmosfera agridoce é idêntica. De fato, o número de canções soa excessivo, mas a música funciona, pois tem uma qualidade de rascunho melódico que casa bem com a idéia de um filme sobre uma personalidade em construção. Como se tudo isso não bastasse, o elenco está ótimo. A jovem Ellen Page tem a fragilidade e o tom decidido da personagem-título, demonstrando mais uma vez (“MeninaMá.com”) que está no caminho certo para se tornar uma das grandes atrizes de sua geração. Jason Bateman mostra química impecável com a protagonista, e Jennifer Garner não compromete. Michael Cera meio que repete o mesmo personagem de “Superbad” (2007), mas a participação é pequena e por isso o que poderia ser um problema se torna um dado positivo, já que após o grande sucesso do filme de Greg Mottola, fica fácil para o público vê-lo na pele do jovem confuso e apaixonado que não sabe como verbalizar os sentimentos.
O sucesso de “Juno” nas bilheterias norte-americanas – arrecadação superior a US$ 80 milhões, mesmo após um lançamento discreto que ocupava apenas salas periféricas e alternativas – assinala um momento especial para o gênero teen, dentro dos grandes estúdios. Afinal de contas, a safra de 2007 trouxe títulos anormais, como o ótimo e já citado “Superbad”, que lançam um olhar de igual para igual aos adolescentes. “Juno” se encaixa perfeitamente dentro desta nova tendência, e o sucesso alcançado na temporada de prêmios, até mesmo com indicação ao Oscar de melhor filme, faz do filme de Jason Reitman uma espécie de ponta-de-lança deste movimento. No fim das contas, os defeitos de “Juno” importam menos do que a vontade palpável de observar a adolescência como ela é, e não como os adultos imaginam que ela seja.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Superbad


Personagens consistentes e piadas (bem) construídas sobre clichês fazem a diferença nesta comédia engraçada
Por: Rodrigo Carreiro

O último grande movimento autoral ocorrido no seio da indústria cinematográfica norte-americana foi a ascensão, entre as décadas de 1960 e 70, da geração chamada New Hollywood. Diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e William Friedkin produziram um punhado de clássicos (de “O Poderoso Chefão” a “Touro Indomável”) a partir de uma lição aprendida com os autores franceses da nouvelle vague: bons filmes precisam partir de personagens consistentes. Ao que parece, a lição também foi devidamente incorporada pela equipe criativa de “Superbad – É Hoje!” (EUA, 2007), uma surpreendentemente engraçada comédia adolescente de baixo orçamento.
Os integrantes da turma vêm fazendo comédias de costumes interessantes, ao mesmo tempo vulgares e carinhosas, desde “O Virgem de 40 Anos” (2005). Mesmo que ainda não seja possível chamar Seth Rogen (ator e co-roteirista), Judd Apatow (diretor e produtor), Greg Mottola (diretor) e demais colegas de autores, é fato que eles têm produzido material muito acima da média da comédia norte-americana, cada vez mais previsível e modorrenta. Mesmo trabalhando estritamente com clichês e convenções do gênero, e através de um registro que é muitas vezes chulo e limitado (palavrões, gírias, piadas sobre sexo e dejetos corporais), os filmes da trupe conseguem se destacar em meio as mar de mediocridade que impera no cenário do humor em Hollywood. E a principal razão para isto está nos bons personagens, 100% conectados com a juventude contemporânea.
À primeira vista, “Superbad” recicla e atualiza um subgênero raro da comédia dos EUA, que é composto pelos chamados “high school movies” (literalmente, os “filmes de escola”). Este tipo de trabalho se caracteriza por tematizar a fase de transição dos adolescentes entre o colégio e a faculdade. Originalidade não é um ponto forte do roteiro de “Superbad”, escrito pelos amigos Evan Goldberg e Seth Rogen (ator que interpreta o policial gordo de bigodes). A referência mais óbvia é “American Graffiti” (estréia de George Lucas no cinema e filme importante no co texto da geração New Hollywood): toda a trama se passa em um único dia, próximo do final das aulas do último ano de colégio, e culmina com uma festa noturna regada a álcool e tentativas toscas de fazer sexo.
Espectadores familiarizados com este tipo de filme vão reconhecer aqui ecos de “
Jovens, Loucos e Rebeldes” (1993), “Picardias Estudantis” (1982) e “American Pie” (1999). Este último, em particular, tem sido muito citado pela crítica norte-americana, por ser protagonizado também por um grupo de jovens amigos nerds cuja amizade entra em crise, enquanto eles buscam transar de qualquer maneira antes do fim do ano letivo. A comparação é tão inevitável quanto injusta. “Superbad” tem trama parecida, sim, e trabalha com elementos cômicos semelhantes – profusão de palavrões, garotos em situações embaraçosas, fluidos corporais –, mas é um filme muito melhor e mais consistente, inclusive porque radiografa de modo muito mais verdadeiro e consistente os hábitos da faixa etária que se propõe a atingir.
A diferença não está apenas na qualidade das piadas. Alguns elas são sensacionais, construídas com cuidado e sem pressa, como as situações vexatórias que giram em torno da mancha de sangue na calça de Seth (Jonah Hill). O fato é que os personagens têm alma. São gente como nós, provocam empatia genuína com os adolescentes na platéia (ou com os adultos que não esqueceram ter sido, um dia, adolescentes). Poderiam existir de verdade. Dá para sentir que eles têm um passado e um futuro, existem em uma dimensão complementar ao filme – enfim, são personagens sólidos. Quando o longa termina, é até possível imaginar os personagens retomando suas vidas.
Isto faz toda a diferença. Na sessão em que vi o filme, um grupo de garotos barulhentos que inicialmente mostrava disposição para estragar a projeção ficou quieto após algumas risadas, fazendo um silêncio só interrompido ocasionalmente por gargalhadas. É preciso respeitar um filme que consegue esse efeito calmante sobre uma platéia com déficit crônico de atenção, especialmente quando a duração total beira as duas horas, o que é bem mais do que o normal, para comédias adolescentes. O sucesso em absorver os espectadores a tal ponto indica claramente que os personagens se conectam com as pessoas da geração à qual pertencem, e isso é sempre bom.
A história gira em torno de amizade do já citado Seth com Evan (Michael Cera), dois meninos que se enquadram na categoria de sacos de pancada da escola. Não são muito inteligentes, nem bonitos, nem atléticos. Os dois vivem os últimos momentos de uma amizade que perdurou por toda a infância. Eles estão prestes a ir para faculdades diferentes. O enredo acompanha um dia promissor na vida de ambos: haverá uma festa noturna na casa de uma amiga em comum, e eles foram convidados (algo raro!), ganhando a missão suplementar de abastecer o estoque de bebidas da casa para a farra. É uma tarefa complicada nos EUA, onde só maiores de 21 anos podem comprar álcool. Isso dispara uma sucessão de confusões e desencontros engraçadíssimos, que descambam num final absolutamente inusitado e agridoce.
Vale a pena observar as atuações espontâneas de todo o elenco. O carismático Jonah Hill e Michael Cera são ótimos, mas o grande ladrão de cenas é Christopher Mintz-Plasse, único adolescente de verdade nas filmagens (tinha 17 anos e era acompanhado diariamente pela mãe). O personagem dele passa a maior parte do filme acompanhado de dois policiais hilariantes (um deles é o co-roteirista Seth Rogen), mais interessados em garantir cerveja grátis do que em proteger a comunidade. Preste atenção das cenas finais desta linha narrativa, que além de incomum também é muito engraçada. Os dois personagens adultos, já perto do final do filme, engatam o discurso esclarecedor que explica e justifica a enorme dose de carinho e atenção dedicada por toda a equipe criativa aos personagens e à história. Pode não ser um clássico, mas “Superbad” é jóia.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/superbad-e-hoje/