Mostrando postagens com marcador Alain Resnais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alain Resnais. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Beijo Na Boca, Não!



Comédia musical de 2003 de Alain Resnais enfim estréia no Brasil
Marcelo Hessel /Omelete
O cineasta francês Alain Resnais (Medos Privados em Lugares Públicos) não filmava há seis anos, quando lançou Pas sur la Bouche em 2003. Apesar do hiato, há uma relação direta com seu filme anterior, Amores Parisienses (1997), que por sua vez se liga a La Vie est un Roman, de 1983. São as comédias musicais de Resnais, em que os personagens dialogam com o espectador e, via metalinguagem, o cineasta presta homenagem ao gênero.
Pas sur la Bouche finalmente estréia no Brasil, com o título Beijo na boca, não!. A história se inspira em uma opereta de 1925 escrita por André Barde e Maurice Yvain, e a metalinguagem fica evidente já no começo, quando o empregado da mansão parisiense dos Valandray, Faradel (Daniel Prévost), consegue se livrar de três belas jovens, biconas que estavam comendo todo o chá da tarde - depois da primeira canção do filme, em que as convence a pegar uma liquidação nas Galerias Lafayette, ele vira para a câmera e solta: "Pronto, conseguimos nos livrar do coro".
E começa a trama, com ecos das comédias de costume shakespeareanas e das screwball comedies de Hollywood. O casal Gilberte (Sabine Azéma) e Georges Valandray (Pierre Arditi) está para receber um rico empresário estadunidense, mas Georges mal suspeita que o gringo, Eric Thomson (Lambert Wilson), foi o primeiro marido de sua esposa. Enquanto Gilberte se desespera com a iminência do encontro, outros casais se desencontram no vaivém da mansão, entre flertes e números musicais.
Não se trata de um musical clássico, com coreografias produzidíssimas. Tirando uma música coletiva que envolve um bailado de espelhos e colunas, o filme de Resnais é mais uma cantoria encenada com atenção a gestuais, movimentos de câmera e cortes sofisticados. O grande chamariz, porém, são as cores. Desde os filtros de lente até a decoracão kitsch, passando pelo brilho de jóias e porcelanas, tudo remete aos grandes musicais em cores dos anos 40 da MGM - e na cena em que os personagens entram na vila é impossível não atentar para os tons no cenário típicos do Technicolor.
A certa altura, o personagem metido a artista de vanguarda mostra aos convidados da mansão seu número de "arte total" - exposição misturada com música. Resnais tira sarro dessas megalomanias sensoriais. Diretor de clássicos inovadores da linguagem como Hiroshima, Meu Amor e Ano Passado em Marienbad, o francês hoje se permite fazer filmes despretensiosos com seus atores mais próximos, como Pierre Arditi e Sabine Azéma. Ícone de uma geração cinefílica e crítica que soube valorizar os filmes hollywoodianos mais comerciais dos anos 40 e 50, hoje celebra os filmes daquela época à sua moda - e particularmente dá a Lambert Wilson um personagem de sotaque inglês impagável.
O mais importante é que Resnais não descuida da encenação: ângulos e planos são escolhidos com rigor, mas sem exibicionismo. Beijo na boca, não! prescinde do supérfluo e agrada justamente porque sabe muito bem onde quer chegar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ervas Daninhas


Aos 87 anos, Alain Resnais prova que iconoclastia não tem idade
Marcelo Hessel/Omelete
Iconoclastia não tem idade. Aos 87 anos, Alain Resnais comete em seus filmes infrações contra a burocracia instituída do roteirismo que muitos estreantes não teriam coragem de cogitar. Em Ervas Daninhas (Les Herbes Folles) ele não vai tão longe na desconstrução como foi, por exemplo, em Ano Passado em Marienbad, para ficar na cinematografia mais consagrada do mestre francês, mas ainda assim é sempre muito bom partilhar de suas provocações.
Aqui, a trama começa e a câmera do diretor de fotografia Eric Gautier passeia de plano-detalhe em plano-detalhe. A especialidade de Gautier, capturar momentos com seu zoom veloz e exato, é plenamente aproveitada em Ervas Daninhas. Por alguns minutos sequer enxergamos o rosto dos dois protagonistas: Marguerite (Sabine Azéma), uma senhora dentista, solteira, de selvagens cabelos vermelhos, que acaba de ter sua bolsa furtada, e Georges (André Dussollier), o homem de idade, pai de dois filhos, de boca cerrada e dentes pequenos, que encontra e devolve os documentos da mulher.
Resnais começa a jogar com as expectativas dos romances parisienses, com seus neuróticos enamorados à primeira vista, quando Georges é impelido a perseguir Marguerite depois de ter devolvido-lhe os documentos. Ele é rechaçado. Depois recua. E finalmente passa a ser procurado por ela, que mudou de ideia quanto à atração que sente pelo misterioso Georges. Relações de causalidade à parte, ou mesmo qualquer racionalidade à parte, Ervas Daninhas é tocado adiante na base desses impulsos.
Em uma cena, a mulher de vermelho fica de tocaia esperando Georges sair do cinema - onde ele fora, obviamente, dada a famosa cinefilia da geração de Resnais, assistir a um filme antigo hollywoodiano de gênero. Marguerite pega ele na saída e Georges reage na lata: "Quer dizer que você me ama, então?". Essa facilidade com que "todos dizem eu te amo" vira, nas mãos de Resnais, material para comédia afiada sobre a imagem que na França se faz das paixões.
A certeza de que Ervas Daninhas trabalha com um esperto simulacro - uma cópia do mundo criado no imaginário das histórias de amor francesas - reside nas escolhas de câmera (planos ironicamente cafonas de grua, panorâmicas...) e na aberrante paleta de cores do filme. É como um Pedro Almodóvar por Resnais: o já citado cabelo vermelho, carros amarelos, neon por todo lado, meias-luzes a torto e a direito, película com esfumaçados meio Technicolor que lembram outro filme recente do diretor, Beijo na Boca, Não!.
Nesta sua época da maturidade, Alain Resnais parece cada vez mais interessado em revisitar, de forma crítica ou simplesmente cômica, as regras que regem gêneros diversos. Ervas Daninhas tem música de suspense, clima neo-noir, humor nonsense, drama familiar, cartela falsa de "The End" antes do fim, até a vinheta clássica dos filmes da 20th Century Fox (que não tem nada a ver com a produção do longa). Ao mesmo tempo em que domina formalmente o ofício, o cineasta experimenta como um enfant terrible.