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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dr. Fantástico


O projeto de cinema de Stanley Kubrick era único, diferente de todo e qualquer outro diretor que já existiu na indústria cinematográfica. Ao invés de encontrar um tema ou gênero com o qual se identificasse e passar a militar nele, como faziam, e fazem todos os bons diretores (Hitchcock e os suspenses, Spielberg e os divórcios), Kubrick tinha apenas uma obsessão: fazer o filme definitivo de cada gênero. Megalomaníaco? Pretensioso? Certamente. Ocorre que o ex-fotógrafo não era um diretor comum. Era um gênio. Um homem excêntrico, maníaco por detalhes, às vezes moralmente repulsivo, mas um gênio de talento sem paralelo. Por isso, conseguiu em parte cumprir um objetivo aparentemente inatingível. “Dr. Fantástico” (Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Inglaterra, 1962) é a contribuição imortal de Kubrick à comédia.
Quem lembra do diretor de “
Laranja Mecânica” como um sujeito sisudo e mal humorado, que ele de fato era, pode imaginar como era difícil, para Kubrick, fazer a platéia sorrir. Na verdade, quando comprou os diretos do livro de Peter George, sobre a Guerra Fria, o cineasta pensava em fazer um drama político. Somente quando começou a trabalhar no roteiro é que percebeu que estava diante de uma situação absurda demais, surreal demais. Exterminar todas as espécies de vida no planeta, afinal, não é um tema comum. Kubrick decidiu que a melhor abordagem seria através de uma sátira, com personagens tão caricaturais que chamassem a atenção do mundo para o ridículo da premissa da Guerra Fria: duas superpotências (EUA e Rússia) se armando até os dentes para garantir a paz.
Como fazer rir não era o seu forte, Kubrick tratou de chamar aquele que considerava o único ator capaz de tornar realidade as idéias que imaginava: o comediante Peter Sellers. Este trouxe o co-roteirista Terry Southern para o projeto, e ficou com a incumbência de interpretar quatro personagens-chave do longa-metragem. Mais tarde, por não conseguir desenvolver com segurança um sotaque caipira, ele acabou desistindo de um deles e ficando “somente” com três. Kubrick também se cercou dos melhores atores que podia: o genial (e subestimado) George C. Scott e o veterano Sterling Hayden, por exemplo.
Na verdade, a comédia já estava pronta antes mesmo de ser filmada. Kubrick não precisou inventar nem aumentar a realidade para criar a sua sátira; bastou reunir algumas histórias verdadeiras e criar, a partir delas, uma ficção. O filme começa com um general enlouquecido, Jack D. Ripper (Sterling Hayden), ordenando um ataque nuclear não autorizado à União Soviética. Ele tem certeza de que os comunistas estão envenenando a água potável do mundo inteiro, um boato muito comum nos EUA, durante os anos 1950. Um preocupado ajudante de ordens, o capitão Mandrake (Sellers), tenta impedir o fato, mas não consegue. Prestou atenção na piada refinada, de alto calibre que está nos nomes dos personagens? São pequenos detalhes, como estes, que transformam um bom filme em obra-prima.
Quando descobre o problema, o presidente dos EUA, Merkin Mufflin (Sellers de novo, careca e estupidamente engraçado), já não pode fazer muita coisa. Ele reúne o Conselho de Guerra e ouve, estupefato, um resumo da situação, da boca do alarmado general Buck Turgidson (Scott): o avião com a bomba atômica está no ar, incomunicável, e vai cumprir a missão a qualquer custo. A cena em que Turgidson explica a situação a Mufflin é simplesmente perfeita. Não é à toa que George C. Scott, um ator talentosíssimo, achava que a melhor performance da carreira estava em “Dr. Fantástico”. Ele interpreta no limite do caricato, sem jamais ultrapassá-lo. Consegue ser hilariante sem deixar de se levar a sério.
Peter Sellers, como não poderia deixar de ser, brilha no papel triplo, com diferentes sotaques e caracterizações perfeitas. Seu melhor momento é o alucinado personagem-título, um antigo oficial nazista promovido a conselheiro do presidente dos EUA. Óculos escuros, sorriso maníaco, o sujeito usa uma luva negra na mão direta, uma mão que tem vida própria e teima em fazer saudações nazistas, à medida que o longa-metragem chega ao clímax e enfileira uma seqüência genial de cenas antológicas.
É um clímax atrás de outro, sem pausa para repistrar: o embaixador russo tentando fotografar a Sala de Guerra, mesmo sabendo que o mundo vai acabar em questão de minutos; o oficial caubói T.J.
King Kong (Slim Pikens, em outro personagem de nome sarcástico) que “monta” a bomba como a um cavalo; as tomadas de bombas explodindo ao som da lírica canção “We’ll Meet Again”. “Dr. Fantástico” não é uma comédia besteirol e nem faz rir o tempo todo, mas poucos filmes conseguem ser tão sarcásticos, inteligentes e bem interpretados quanto este.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/dr-fantastico/
DOWNLOAD: http://www.filmeja.com/2009/03/dr-fantastico-dr-strangelove-or-how-i.html

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Lolita


Amor e obsessão encontram-se no mesmo ramo, contudo em extremos diferentes, estes dois sentimentos por vezes se confundem e a partir daí é difícil a sua identificação e separação, estes dois aspectos peculiares da raça humana encontram-se representados no romance literário de Vladimir Nabokov, sob a forma do corpo adolescente de Lolita, uma rapariga na flor da idade que gera motivo de atracção por parte do professor Humbert (James Manson), num conflito entre a sobriedade e a loucura carnal. Estamos a inícios dos anos 60 e matéria-prima como a já referida peça literária era motivo de repulsa por parte de Hollywood que conservava a sua gestão de “bons valores familiares”, é só lembrar das controvérsias que várias organizações mantinham com o material transposto por Billy Wilder nos seus filmes, conhecido por ser um realizador ousado, nota que dois anos depois da data do filme Lolita, Kiss Me, Stupid de Billy Wilder foi rejeitado pelo grande público com influência da Liga Católico-Romana da Decência que condenou a fita pela sua temática arrojada. Lolita foi dirigida por Stanley Kubrick, um dos nomes maiores do cinema internacional, num tempo em que dava nas vistas graças a Spartacus com Kirk Douglas como protagonista. Ao lidar com este erotismo pedófilo, Kubrick contornou a sua fita para outros enredos como por exemplo centrando-se destacavelmente na personagem camaleónica de Peter Sellers, que apresenta aqui uma “senhora” interpretação. Sue Lyon, com apenas 14 anos mas favorecidamente de aparência mais velha, é notável e bem honrosa no seu papel de Lolita, depositado todo o sex-appeal e ao mesmo tempo a inocência juvenil. Todavia o resultado de Lolita ficou muito aquém do esperado, tendo o realizador aclamado de não ter captado toda a essência da obra de Vladimir Nabokov, a verdade é que nesta obra, Kubrick não é ele próprio, toda a sua marca desvanece no tratamento de conteúdo tão polémico. Enquanto o realizador era distinguido pelos seus longos planos e pela sua perfeição técnica e visual, em Lolita a obra desenrolou como qualquer outro filme “made in Hollywood”, porém um dos bons. Sendo uma narrativa mais veloz e vivaça que as obras que antecederam e que sucederão, a película consegue-se assegurar graças a variadas tentativas de ousadia de Kubrick e pela magnificência dos desempenhos de Sellers e Lyon. E sabendo que o ser humano é capaz das mais vastas loucuras, Lolita continua a ser uma pérola da sétima arte e um inicio de que o cinema clássico não deve ser restrito aos bens familiares, perdida a inocência de Hollywood.
http://cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt/380844.html