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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Chéri


A beleza pode fazer muito por uma mulher, porém, mais cedo ou mais tarde, vai cobrar seu preço. Aproveitar os belos traços da juventude é uma dádiva, mas envelhecer faz parte, e com as rugas vem uma infinidade de sentimentos até então inexplorados. O amor entre uma belíssima mulher madura e um rapaz mais jovem, que se tornou um clichê cinematográfico, ganha os contornos sombrios da velhice que atinge em cheio esta mulher. E não é qualquer mulher, é aquela que foi - e ainda é - uma das maiores referências de belezas hollywoodianas: Michelle Pfeiffer.
Cabe a atriz, hoje com 51 anos, dar vida à personagem principal de Chéri, o drama de Stephen Frears - que dirigiu Michelle no ótimo Ligações Perigosas - baseado no livro da renomada escritora francesa Colette, que chega às telas em 22 de janeiro.
Situado na exuberante Paris antes da Primeira Guerra Mundial, Chéri conta a história da relação amorosa entre a linda cortesã aposentada Léa (Michelle Pfeiffer) e Fred, apelidado de Chéri (Rupert Friend), filho de sua antiga companheira de profissão e rival, Madame Peloux (Kathy Bates).
Léa educa o imaturo e mimado garoto nas artes do amor, mas depois de seis anos Madame Peloux planeja secretamente um casamento entre Chéri e Edmée (Felicity Jones), filha de outra rica cortesã, Marie Laure (Iben Hjejle).
Léa parece aceitar tudo mas sileciosamente percebe que, se a idade fez com que ela fosse fundamental para o amadurecimento sentimental de Chéri, são os sinais da velhice que tiraram dela toda e qualquer chance de viver um grande amor.
Ao perceber que por sua cama, enquanto jovem, tantos homens passaram, e agora na velhice ela está só, Léa se confronta com algo que o espelho não pode revelar: mais do que passar o tempo com Chéri, ela o amou de verdade, e isso ninguém poderá mudar. Enquanto isso, o rapaz tenta se acostumar com a idéia de que pode se casar e viver à sombra do sentimento avassalador por Léa.
O grande trunfo do filme está em Michelle Pfeiffer, linda, loira e com a dignidade mantida em rugas que mostram o passar dos anos, mas que a mantém única na tela. Sua beleza perturbadora ajuda a conduzir os caminhos da cortesã Léa, uma mulher que viveu apoiada no belo e que já não tem mais nada em que se apoiar, a não ser sua experiência de vida. Michelle empresta o rosto que Léa merece ter, a beleza amarga pelo passar dos anos, mas mantida apesar do avanço da idade.
Como sempre, Frears se preocupa com cada detalhe do filme: fotografia, direção de arte, trilha sonora e toda parte técnica são um luxo. Vale ressaltar ainda a participação da sempre talentosa Kathy Bates como a mãe de Chéri.
Para as mulheres, Chéri soa como um tapa sem luva de pelica, uma forma de mostrar que o tempo passa e o amor vai com ele, sem dó nem piedade. Seria mais fácil se a gente não se importasse com as rugas que ganhamos com os anos, e nos preocupássemos apenas com o amor que sentimos por alguém.
Aliás, amar não deveria ser complicado, mas como o filme enfoca muito bem, a gente faz muita questão que seja.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Chéri



París, início do século 20. As artes e os costumes liberais conhecem o seu apogeu durante o período que ficou conhecido como Belle Époque. Em meio à riqueza e à opulência, duas ex-prostitutas de alto luxo, milionárias após anos de serviços prestados aos mais altos escalões da política e da realeza, tentam encarar a aposentadoria com tranquilidade e dignidade. A ainda belíssima Lea (Michelle Pfeiffer) e sua amiga/rival Madame Peloux (Kathy Bates) trocam farpas, conversas, confidências e falsas gentilezas sempre que possível. E têm um fortíssimo ponto em comum: Lea está apaixonada pelo jovem Chéri (Rupert Friend), ninguém menos que o filho de Madame Peloux, o que só faz aumentar a animosidade entre elas.
A partir do livro “Chéri”, que a polêmica autora francesa Gabrielle Colette (1873-1954) escreveu em 1920, o roteirista e dramaturgo Christopher Hampton e o diretor Stephen Frears criaram um painel dos costumes, da moral (ou da falta dela), e dos jogos de aparência de uma parte da alta sociedade europeia pré-Primeira Guerra Mundial.
Não é a primeira vez que Hampton e Frears trabalham juntos. Eles já haviam realizado com muito sucesso o premiado “Ligações Perigosas”, de 1988. Hampton, um talento vindo do teatro, também roteirizou “Desejo e Reparação” (que teve direção de Joe Wright), entre outros. Frears, por outro lado, já é um nome bem mais conhecido dos cinéfilos, em função de seus sucessos “Minha Adorável Lavanderia”, “Liam”, “Alta Fidelidade”, e “A Rainha’’, entre muitos outros.
“Chéri”, ainda que com resultados interessantes, fica um pouco aquém da média dos trabalhos do ótimo Frears. O filme enche os olhos através da direção de arte e da fotografia nunca menos que exuberantes, onde cada fotograma é praticamente transformado numa belíssima pintura. Esta impressionante precisão estética chama a atenção ao se compor (e se contrapor) integralmente com o conteúdo temático do roteiro: Lea e sua antagonista são mestres do mentir e do fingir, colocando as aparências acima de tudo. Trata-se de uma sociedade em que se regojiza em grupo e se sofre em solidão. Um universo de questionáveis valores morais que o filme, sabiamente, faz questão de não julgar.
Contudo, entre tanta beleza estética, a direção não consegue passar para o público a mesma carga emotiva que seus protagonistas estariam destilando na trama. “Chéri” é um pouco distante, uma tela algo fria, belissimamente emoldurada.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A Época Da Inocência


Nos créditos iniciais dos filmes americanos geralmente aparece 'A film by Martin Scorcese' ou 'A Martin Scorcese film' mas no caso deste "A Época da Inocência" aparece 'A Martin Scorcese Picture', sendo que entre os significados de 'picture' pode estar 'pintura' ou 'quadro' e neste caso poderia significar 'Uma Pintura de Martin Scorcese'. E realmente o visual do filme é belíssimo e poderia muito bem ser uma 'pintura', uma obra de arte. Scorcese estava em excelente forma. Aqui ele mostra segurança na direção de atores; tanto que o filme teve indicação ao Golden Globes para atriz (Michelle Pfeiffer) e atriz coadjuvante (Winona Ryder) porém o restante do elenco é um primor: Geraldine Chaplin, Richard E. Grant, Jonathan Pryce, Robert Sean Leonard, Joanne Woodward e até mesmo Michael Gough.Os figurinos de Gabriella Pescucci foram o único Oscar para "A Época da Inocência". O filme teve indicações ao Oscar também para atriz coadjuvante, direção de arte, trilha sonora e (muito justo) roteiro adaptado por Martins Scorcese e Jay Coks baseado no livro da romancista e designer Edith Wharton, falecida em 1937. O romance já havia sido levado às telas em outras duas oportunidades enquanto Edith vivia, uma versão muda de 1924, e outra em 1934 dirigida por Philip Moeller, com Irene Dunne como a Condessa Ellen Olenska, John Boles como Newland Archer e Julie Haydon como May Welland.Essas indicações dizem muito da condução do filme. Martin Scorcese trabalho o compromisso, a pressão social e a aceitação; e demorou bastante para entregar o filme, fazendo isso somente após tê-lo feito do jeito que queria.Na realidade o filme funciona como um crítica à sociedade nova-iorquina do século XIX em que as pessoas viviam suas vidas com preocupações mesquinhas, enquanto tentavam aparentar algo irreal. Vemos a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), uma bonita dama, que retorna da Europa ao convívio familiar em Nova York, após uma crise no seu casamento. Sua prima May Welland (Winona Ryder) está prestes a se casar com o advogado Newland Archer (Daniel Day-Lewis), que se encarrega do processo de divórcio de Olenska e passa a ter um caso com ela.O filme é rico nos detalhes e na reconstituição da época, o fundo histórico do livro serve para a história desse triângulo amoroso. Martin Scorsese filma com precisão e tem o elenco em suas mãos. Porém, Scorcese foi tão meticuloso que demorou mais de um ano na pós-produção, até deixar o filme como queria. Talvez "A Época da Inocência" tenha marcado a filmografia de Scorcese por ele ter filmado uma história polêmica de forma meticulosa e precisa, porém, sem as imagens fortes e violentas de filmes como 'Taxi Driver' e 'Os Bons Companheiros'. Os que estavam habituados com essa parte da filmografia de Scorcese podem ter estranhado, mas aqueles que apreciam o cinema certamente foram comtemplados com uma obra singular e bela que funciona como um meio de análise, não só da sociedade nova-iorquina do século XIX, mas da sociedade de 1993 e também a de 2008.
http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=8978