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quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Preço da Traição


David é um cinquentão inteligente, simpático e galanteador. Charmoso o suficiente para acender na sua esposa Catherine o terrível e devastador alerta do ciúme. Insegura em relação à fidelidade do marido, ela contrata os serviços da bela prostituta Chloe, que terá como missão testar a fidelidade de David.
Se você, literalmente, acha que já viu este filme antes, não estranhe. “Chloe” é refilmagem da produção francesa "Nathalie X", que Anne Fontaine co-escreveu e dirigiu em 2003. Nesta nova versão, saem Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emmanuell Béart, e entram, respectivamente, Julianne Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried (de "Mamma Mia" e "Garota Infernal).
Agora o roteiro é de Erin Cressida Wilson - também roteirista de "Secretária" (2002), mas os maiores méritos do filme não estão exatamente no roteiro, mas sim na direção sempre segura e elegante de Atom Egoyan.
Egípcio, de origem armênia, e radicado no Canadá, Egoyan é figurinha carimbada no circuito artístico, já tendo assinado os tristes e emocionantes "O Doce Amanhã" e "O Fio da Inocência", entre outros. "O Preço da Traição" é um trabalho mais palatável do cineasta, mais sintonizado com questões de mercado (mesmo porque os EUA estão entre os seus produtores, ao lado de França e Canadá), mas nem por isso de qualidade inferior.
Ainda que dentro de um registro estético bastante hollywoodiano - com locações suntuosas, iluminação majestosa, trilha sonora onipresente e direção de arte hiperbólica - “O Preço da Traição” consegue exibir a marca de Egoyan, onde prevalecem a reflexão, a introspecção, os poucos e elegantes movimentos de câmera, e principalmente a forma sem pressa de contar a história. Dirigido com dignidade, o filme prefere não se ater apenas à rasa questão da traição ou da não traição. Evitando o moralismo, ele vai além, e esmiúça com talento as dúvidas da protagonista, o medo do envelhecimento, a necessidade de ser aceita, e suas inseguranças humanas e sexuais, não apenas como esposa, mas também como amante e mãe. E com um detalhe: a personagem em questão é ginecologista, ou seja, teoricamente uma especialista nos corpos das mulheres. Mas que talvez necessite percorrer um longo caminho para entender a alma feminina, se é que ela é entendível. Ou seja, um personagem rico, verdadeiro arcabouço emocional sustentado com total eficiência por mais uma interpretação brilhante de Julianne Moore.
Ah, quando falarem sobre as cenas “polêmicas” de “O Preço da Traição”, não dê ouvidos: não há nada que já não tenha sido exibido na novela das oito. Os EUA ainda são o único país do mundo livre que se escandaliza com cenas de sexo suave bem dirigidas.
O detalhe triste do filme fica por conta de Liam Neeson, cuja esposa na vida real, Natasha Richardson, faleceu durante as filmagens. O cronograma da produção foi alterado para que Liam pudesse acompanhar o funeral e, mesmo assim, retornar ao set para os dois dias que lhe restavam para filmar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Single Man


Colin Firth foi premiado no último sábado (12) , no festival de Veneza por sua atuação em ” Single Man”, filme que marca a estréia de Tom Ford -estilista da Gucci, Yves Saint Laurent e da marca que leva seu nome - na direção.
O Filme, baseado no romance homônimo de Christopher Isherwood, trata do luto de um professor (Colin) após a perda de seu companheiro de 16 anos. Ao elaborar o luto e a perda do parceiro, o personagem lida com amor e solidão.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

I'm Not There


A inspirada cinebiografia fictícia de Bob Dylan
Mario "Fanaticc" Abbade/Omelete
I’m not there (2007), do diretor Todd Haynes, não é uma biografia sobre o compositor e cantor Bob Dylan. Não no formato convencional, pelo menos. Haynes baseia-se nas lendas por trás do mito para contar, reescrever e criticar os fatos marcantes da vida de Dylan. Terá o artista sido um poeta, um pastor ou a voz do trabalhador norte-americano? Seus fãs e diversos especialistas na cultura pop dirão que sim. Ao mesmo tempo, o próprio Dylan nega todos esses atributos. Talvez por isso tenha permitido que suas músicas fossem utilizadas no filme. Ao construir um painel contraditório amparado em fatos e lendas, Haynes joga mais lenha na fogueira. Com certeza Dylan deve estar se divertindo com tudo isso.
Haynes escalou seis diferentes atores para viver várias passagens marcantes da vida de Dylan. Uma escolha acertada, já que o polêmico compositor interpretou ele mesmo diversas facetas de sua personalidade conturbada durante décadas. Haynes já tinha feito isso em Velvet Goldmine, em que combinou as biografias de artistas como David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, Brian Ferry, entre outros para explicar o movimento glam. No caso de Dylan os escolhidos foram os atores Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw, Christian Bale, Heath Ledger, Cate Blanchett e Richard Gere.
Marcus Carl Franklin faz um personagem que se autodenomina Woody Guthrie, um guitarrista prodígio de 11 anos. Nessa representação percebemos o inicio da carreira de Dylan, em que o cantor era devoto de Guthrie, um prolífico compositor folk. Dylan conheceu Guthrie já adoentado e internado em um Hospital. Isso é retratado no filme na personalidade no jovem guitarrista. Nessa época Dylan modificou seu nome original, Robert Allen Zimmerman, algumas vezes, até chegar à versão final. Em 1959 ele usou Elston Gunn em duas apresentações com o cantor Bobby Vee. No filme de Todd Haynes ele usa uma cena interessante com o guitarrista de 11 anos para pontuar essa mudança. O garoto recebe o conselho de "viver seu próprio tempo, cantar sobre sua época".
Daí surge Christian Bale no papel de Jack Rollins, que nitidamente representa os anos em que Dylan tornou-se um defensor dos direitos civis e foi catalogado como um cantor de músicas de protesto. Durante esse período juntou-se a cantora Joan Baez em diversas apresentações. Inclusive na "Marcha para Washington", em que Martin Luther King Jr. fez o mitológico discurso "Eu tenho um sonho". Baez é representada por Julianne Moore na trama.
Bale, além de interpretar a fase que o cantor escreveu diversos clássicos que inspiraram uma geração, também protagoniza a célebre passagem em que Dylan recebeu o prêmio Tom Paine do National Emergency Civil Liberties Committe na época do assassinato do presidente John F. Kennedy. Sentindo-se manipulado, Dylan agradeceu bêbado com um discurso inflamado sobre as coincidências entre sua personalidade e a de Lee Harvey Oswald, assassino de Kennedy.
Ao mesmo tempo, temos cenas intercaladas de Ben Whishaw representando o lado poético de Dylan. As imagens são capturadas em close-up e Haynes aproveita as origens teatrais de Whishaw para criar um diálogo franco com o público. São cenas que provocam uma reflexão sobre os pensamentos de Dylan.
Depois temos a entrada de Heath Ledger interpretando o ator Robbie Clarke, que está protagonizando uma espécie de biografia do personagem Jack Rollins. Ele representa os flertes de Dylan com o cinema em filmes e documentários que deram errado nas bilheterias pelas suas propostas visivelmente artísticas. Há referências a Renaldo and Clara, filme que Bob Dylan dirigiu em 1978, especialmente na parte que trata do relacionamento de Renaldo, sua esposa Sara e a sua companheira Clara. Ao mesmo tempo Ledger protagoniza o lado caseiro de Dylan, sua vontade de ter uma família, através do dia-a-dia do compositor longe dos shows. Sua pouca vocação em pilotar motos também é encenada, o que levou a um acidente na vida real.
Cate Blanchett interpreta o rompimento de Dylan com a música folk em detrimento do rock, com uma guitarra elétrica acompanhada de uma banda. Sua personagem se chama Jude Quinn. Percebemos nessa parte várias cenas que remetem ao ótimo documentário No Direction Home: Bob Dylan, do cineasta Martin Scorsese, como também Dont Look Back, do diretor D.A. Pennebaker, que documenta a turnê de Dylan na Inglaterra, em 1965. Temos seqüências das vaias da platéia no Newport Folk Festival, por causa das mudanças do estilo de Dylan tocar suas canções. Isso culminou no conflito com o público no Royal Albert Hall em que o compositor foi chamado de "Judas" pelos espectadores enraivecidos, em 1966. Na verdade esse episódio aconteceu no Manchester's Free Trade Hall.
Durante esse período temos o encontro de Dylan com os Beatles e com o poeta beat Allen Ginsberg. São cenas antológicas e divertidas. Todos sabem do episódio de Dylan com os Beatles. Aqui referenciado com um seqüência típica do filme A Hard Day’s Night. No mesmo segmento surge o personagem Keenan Jones (Bruce Greenwood), um repórter da BBC incumbido de desmistificar o homem por trás do mito. As seqüências com as discussões dos dois retratam a relação conturbada entre Dylan e a mídia. Greenwood também será Pat Garrett, outro personagem que irá confrontar Billy, mais um alter-ego de Dylan, interpretado por Richard Gere.
Nesse segmento percebe-se uma alusão ao filme Pat Garrett & Billy the Kid, do cineasta Sam Peckinpah. Dylan fez o papel de Alias, um membro da gangue de Billy. Era um personagem coadjuvante. O filme foi um fracasso nas bilheterias, mas emplacou a canção "Knockin’ On Heaven’s Door". Esse segmento com Gere também remete a Hearts of Fire, outro filme em que Dylan participou. Na trama, ele faz um astro do rock aposentado que se tornou um fazendeiro de galinhas chamado de Billy Parker. Haynes mostra assim o lado "ermitão" de Bob Dylan, um artista que ficou afastado da mídia por algum tempo para apreciar a vida pacata no campo, longe dos holofotes. A seqüência envolvendo o trem e Billy representa o ressurgimento de Dylan anos depois.
Christian Bale ainda retorna como o mesmo Jack Rollins, representando o momento em que Dylan converteu-se à religião católica. Na época ele lançou dois álbuns de música gospel. O disco Gotta Serve Somebody reservou a Dylan o Grammy por Melhor Vocal Masculino em 1979, provando a versatilidade do cantor.
Todos os segmentos têm bons desempenhos. Tecnicamente utilizam diversos recursos da linguagem cinematográfica para causar reflexão e debate. Slides, preto e branco, cor, granulações e edição ritmada de acordo com a dramaturgia encenada na telona, entre outros diversos expedientes. O diretor de fotografia Edward Lachman realiza um trabalho digno de premiação.
Mas o segmento mais atraente para com o público é o que traz Cate Blanchett personificando Dylan, que resultou no premio de melhor atriz do Festival de Veneza 2007. Os diálogos ácidos e a má vontade para com o sucesso, a mídia e público têm altas doses de humor. Isso facilita o diálogo com o espectador que não é fã de Dylan. A performance dela chama mais atenção do que os demais alter-egos de Dylan, apesar de todos estarem muito bem. Do outro lado, o segmento menos encantador é o de Richard Gere. Não por causa do ator, mas pela abordagem surrealista que deve incomodar os mais tradicionalistas.
Essa e as demais escolhas estéticas de Haynes têm como objetivo facilitar a apresentação das várias faces de Dylan. Assim ele teve também a liberdade necessária para colocar suas próprias idéias interpretativas sobre o compositor. Até por que seria pretensão achar que podemos compreender um indivíduo simplesmente pelos fatos marcantes de sua vida. O objetivo aqui é tentar elucidar o que estava acontecendo no interior do artista, uma eterna contradição de emoções e motivações, durante essas passagens. Mas descobrir quem foi realmente Bob Dylan nos seus anos de juventude continuará sendo um mistério - algo que Haynes evidencia com um longo solo de gaita de "Mr. Tambourine Man". A única certeza é que, independente de sua importância para a contracultura ou os movimentos dos direitos civis, o legado de Bob Dylan reside em sua música.