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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cabo Do Medo



Primeiro remake assinado por Scorsese tem De Niro no melhor da forma Por: Rodrigo Carreiro
Muita gente estranhou ao ver o nome de Martin Scorsese, membro importante da seleta galeria de diretores-artistas dos Estados Unidos, no comando do filme que acabaria por lhe dar o Oscar, o policial “Os Infiltrados”. Para a maior parte dos cinéfilos, assinar uma refilmagem é trabalho para cineastas de segundo escalão. Esta turma provavelmente esqueceu que o longa-metragem de 2006 não era o primeiro remake da carreira de Scorsese. Antes, ele já havia feito outro, o elogiado “Cabo do Medo” (Cape Fear, EUA, 1991), a pedido de dois amigos muito especiais: o ator Robert De Niro e o colega de ofício Steven Spielberg.
O filme, baseado em um tenso thriller de 1962, era um projeto pessoal de De Niro e foi conduzido pela Amblin, produtora de Spielberg. Problemas de agenda acabaram por afastar o diretor de “E.T.” do projeto, mas antes disso ele ligou para o amigo Scorsese e fez a proposta. Scorsese relutou, mas afinal decidiu ir em frente, considerando que comandar uma produção com grande potencial de bilheteria poderia lhe render uma posição favorável na indústria cinematográfica, de modo que ele tivesse cacife para, no futuro, tocar projetos pessoais como “A Última Tentação de Cristo”, que ele já tentava levar às telas havia dez anos (e finalmente conseguiria, um pouco mais tarde).
Atuar como diretor contratado, porém, nunca significou para Scorsese uma abordagem desleixada ou preguiçosa. Como sempre, o cineasta de Nova York trabalhou duro para imprimir uma forte assinatura autoral na história. E conseguiu. Embora “Cabo do Medo” tenha uma condução melodramática, culminando com um final explosivo, excessivamente estilizado e até um pouco exagerado, o cuidado com a mise-en-scéne (o conjunto dos elementos fílmicos) deixa evidente que se trata de um filme de Martin Scorsese. Aqui, o cineasta comprova, de uma vez por todas, que é um fantástico diretor de atores, sem deixar de lado o olho apurado para composições visuais refinadas.
O personagem principal é um show particular de Robert De Niro. Max Cady, ex-presidiário que acaba de sair da prisão após 14 anos de sofrimento, é uma figura fascinante, que provoca repulsa e fascínio em doses iguais. Preso por estupro, ele entrou na cadeia analfabeto e saiu como um misto de advogado, pregador religioso e filósofo existencialista. Em meio a citações da Bíblia e referências a Thomas Wolfe e Henry Miller, Cady incorpora um sujeito de personalidade excêntrica. O corpo tatuado e as roupas extravagantes lhe dão um molho idiossincrático. A interpretação do ator, com sotaque sulista e expressão corporal confiante ao extremo, dá o toque final. Uma personalidade tão perturbada quanto magnética.
Após sair da cadeia, Cady vai infernizar a vida do advogado Sam Bowden (Nick Nolte), o defensor público que escondeu evidências contra a vítima do estupro, ato que, em última instância, lhe jogou na cadeia. Usando métodos pouco ortodoxos, o ex-detento causa desequilíbrio na harmoniosa vida familiar de Bowden, bagunçando o coreto da mulher dele (Jessica Lange) e da filha adolescente (Juliette Lewis). A direção de Scorsese capricha na tensão crescente, e tem seu ponto alto na longa e espetacular seqüência em que De Niro e Juliette se encontram no anfiteatro da escola – a conversa entre os dois, totalmente improvisada no set, é uma verdadeira aula de interpretação, irradiando uma quantidade colossal de tensão sexual.
“Cabo do Medo”, no entanto, não é perfeito. Há pequenas falhas até mesmo na direção de arte, área em que os filmes de Scorsese não costumam falhar – acreditar que uma jovem de 15 anos teria na parede do quarto um pôster de Jimi Hendrix, em pleno ano de 1991, é um pouco demais. Além disso, Scorsese tem a mão pesada para seqüências de ação, e isto fica evidente durante o clímax do longa-metragem, que acontece dentro de um barco, durante uma tempestade. Os defeitos, entretanto, não interferem na qualidade superior deste thriller com substância.

http://www.cinereporter.com.br/dvd/cabo-do-medo/

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Barton Fink


Todo mundo que gosta dos filmes bizarros e elegantes dos irmãos Coen sabe que a primeira obra-prima incondicional de Joel e Ethan foi “Barton Fink – Delírios de Hollywood” (EUA, 1991). A carreira do longa-metragem nos círculos cinéfilos é impecável: foi a primeira produção na história a faturar os três principais prêmios em Cannes (filme, direção e ator), teve três indicações ao Oscar e ganhou a pecha de filme de arte em uma época em que filmes dos EUA, especialmente produzidos dentro de Hollywood, eram solenemente desprezados por amantes de cinema não-comercial. Não são muitos os que sabem, contudo, que “Barton Fink” nasceu de um tremendo bloqueio criativo vivido pelos irmãos Coen.
Na época, entre 1989 e 1990, Joel e Ethan estavam escrevendo “Acerto Final”, um longa-metragem sobre o mundo dos gângsteres no qual depositavam muita esperança. Os dois, porém, travaram. Levaram meses para completar o roteiro. No desespero por não conseguirem acertar o tom, Joel e Ethan começaram a rabiscar um outro texto, sobre um roteirista em crise que (adivinha!) não conseguia nem sequer começar a pôr no papel o enredo de um filme para o qual tinha sido contratado. Deram ao sujeito o nome de Barton Fink e ambientaram a época, por razões diversas (que serão explicadas adiante), em 1941.
A produção foi rápida e espontânea, quase um parque de diversões se comparado ao difícil parto de “Acerto Final”. Por razões que só os deuses do cinema podem explicar, o projeto concebido como uma espécie de temporada de férias resultou bem melhor do que o filme sério oficial dos Coen (embora “Acerto Final” seja bacana). Em “Barton Fink”, os irmãos abandonaram o status de surpresa promissora que cultivavam desde a estréia, com “
Gosto de Sangue”, em 1984, e viraram cineastas consagrados. Também foi com “Barton Fink” que eles completaram uma galeria de colaboradores fiéis que os acompanhariam durante toda a carreira vindoura: o fotógrafo Roger Deakins e o compositor de trilhas Carter Burwell, entre outros.
O enredo: Barton Fink (John Turturro) é um roteirista teatral promissor, em 1941. Ele acaba de escrever uma peça de sucesso, que está na Broadway, quando recebe uma proposta milionária de um estúdio de Hollywood. Apesar da firme convicção de que o teatro é uma arte mais nobre do que o cinema, ele fica seduzido pela grana. Resmungando, embarca para Los Angeles com uma máquina de escrever e pede para ficar hospedado em um hotel vagabundo. Barton acredita que os artistas, para produzirem boa arte, precisam viver em dificuldades. Ele quer evitar a boa vida de Los Angeles. É uma espécie de auto-punição por ter aceitado um trabalho milionário: ele sua em bicas dentro de um quarto apertado. O lugar é tão quente que a cola do papel de parede derrete, enquanto Barton luta contra as folhas em branco.
Evidentemente, o filme é construído como uma crítica ácida à indústria do cinema, defendendo sem cerimônia a idéia de que Hollywood é um inferno (preste atenção às seqüências finais, quando a afirmação vira algo literal) para um artista de verdade, um cara que vê o que faz como arte e não apenas como diversão ligeira. Como os Coen não deixam pedra sobre pedra, o próprio papel do artista também é devidamente satirizado (o escritor se leva a sério demais, é pomposo e ostenta o tempo inteiro um ar superior, mesmo produzindo banalidades).
O primeiro trabalho que o estúdio lhe pede para fazer é o roteiro de um filme de luta livre. Ele resmunga mais um pouco, acha que está sendo subvalorizado, mas nada pode fazer a não ser aceitar. No hotel, o sujeito faz um amigo na pessoa de Charlie Meadows (John Goodman), um estranho caixeiro viajante que tenta ajudá-lo com o roteiro. Também tem um caso com a secretária do comerciante, Audrey Taylor (Judy Davis). Como quase todos os protagonistas dos irmãos Coen, vai perder o controle sobre seu destino aos poucos, enquanto se embaralha com o roteiro e se envolve em assassinato.
A trama de “Barton Fink” é uma colcha de retalhos construída com pedaços de histórias verdadeiras e referências obscuras, a começar pelo próprio protagonista: Barton Fink é uma mistura de William Faulkner e Orson Welles. Nos anos 1940, Faulkner realmente foi contratado em Hollywood para fazer um filme de luta livre, e fazia tudo a contragosto, pelo dinheiro, louco de vontade de retornar logo aos romances. A trajetória seguida pelo roteirista da ficção (da consagração nos palcos de Nova York para Hollywood) também não deixa dúvida: é uma referência a Welles, que fez o mesmo caminho antes de dirigir “
Cidadão Kane”, também lançado em 1941.
Coincidências? Claro que não. Joel e Ethan Coen têm fama de nunca esclarecer sobre a verdadeira inspiração dos seus roteiros (eles negaram zombeteiramente que “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?” fosse baseado em Homero), mas já admitiram que retiram idéias de histórias reais. Na verdade, não existem coincidências em filmes dos irmãos Coen. Existem, sim, humor sofisticado e cínico, ironia crítica, diálogos impagáveis, personagens deliciosos e um flerte evidente com o film noir (a caracterização da época, a fotografia pesada e escura, a clássica personagem da mulher fatal). “Barton Fink” é uma comédia de humor negro de primeira classe.
Este foi o filme que marcou a maturidade artística dos irmãos Coen; definiu não apenas o tom surreal dos roteiros que os dois iriam trabalhar dali para a frente, mas também o universo cool e divertido em que todos os seus trabalhos passariam a ser ambientados. A galeria interminável de
grandes filmes que os dois enfileiraram a partir dele (“Fargo”, “O Grande Lebowski”, “O Homem Que Não Estava Lá” e muitos outros) deve muito a “Barton Fink”. Ainda por cima, arrancaram performances perfeitas do elenco, da performance histriônica de John Turturro, no papel-título, à química inigualável deste com o tom fanfarrão de John Goodman. “Barton Fink” é jóia, pode crer.
http://www.cinereporter.com.br/dvd/barton-fink-delirios-de-hollywood/