
Animação em stop-stop-motion recria com toque (e TOC) belga a brincadeira do Forte Apache
08/10/2009Marcelo Hessel
Filho de pais comunistas brincava de Forte Apache? Os meus não eram, até onde sei, então passei parte da infância simulando paisagens do Velho Oeste com meus cavalos, meus índios e meus caubóis. Eu não sabia o que era um confederado, nunca ouvira falar no massacre dos Sioux e estava muito feliz, obrigado.
A animação A Town Called Panic (Panique au Village, 2009) joga com essa memória e com a inocência inerente a ela. Por falta de comparação melhor, digamos que é como uma versão belga e light de Frango Robô, reciclando o imaginário popular dos EUA - o que já é comum acontecer em HQs franco-belgas como Lucky Luke e Oumpah-pah.
E por falta de definição melhor, vamos chamar esta animação de stop-stop-motion: os personagens são feitos de massa com aquela base fixa, de bonequinho de exército. Eles se movem como numa animação em stop-motion normal, mas esses movimentos são limitados nas pernas e a fluência de frames é mais truncada do que nos stop-motions "profissionais", para dar uma cara mais caseira.
É como se os diretores Stéphane Aubier e Vincent Patar estivessem filmando uma brincadeira de sábado de manhã, e o gostinho de infância é irresistível no início. Panique au Village foi produzido originalmente como uma telessérie de 20 episódios em 2002, pelo Canal +. O desafio, portanto, a partir daí, é dilatar essa brincadeira em uma história de 76 minutos.
Na trama, o Índio e o Caubói tentam pensar em um presente inédito para marcar o aniversário do Cavalo, que já tem bonés demais. Eles acabam encomendando pela Internet tijolos para construir uma churrasqueira. O problema é que o pedido vem errado: no lugar de 50 tijolos chegam milhões. A turminha então se mete em tremendas confusões.
Cientes de que o material se esgota rápido, ainda mais em uma trama solta, movida pelo absurdo, Aubier e Patar seguram o espectador com novidades visuais: do campo tipicamente europeu, com seus fazendeiros broncos, a aventura migra para uma caverna, depois para a neve, depois um mundo submerso. Em comum a todas essas variações: o telefone que toca o tempo todo para o Cavalo, que está atrasado para sua aula de piano.
Ao humor nonsense-pueril se adiciona a evidente obsessão-compulsão com que Aubier e Patar concebem cenários cheios de informações, tiradas e sutilezas. É a típica situação em que os realizadores talvez estejam se divertindo mais do que o espectador. Isso não impede A Town Called Panic de ser apreciado, mas um curta-metragem, na sala de casa, com o controle remoto na mão para repassar gags, talvez fosse mais recomendado.
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