segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Equilibrista


Documentário ganha espectador pelo que tem de construção romantizada e estrutura ficcional
09/04/2009Marcelo Hessel
O documentário O Equilibrista refaz a maior aventura da vida de Philippe Petit - o dia em que o francês andou por 45 minutos da Torre Sul à Torre Norte do World Trade Center sobre um cabo de aço - por meio de filmagens de arquivo, entrevistas recentes e reconstituições dramatizadas. É uma mera fotografia, porém, o momento mais assombroso do filme.
Na foto, tirada do nível da rua, vemos lá no alto o pequeno Petit se equilibrando no nada, para a direita, ao mesmo tempo em que um avião cruza o enquadramento no sentido oposto, para a esquerda. Em momento algum do documentário de James Marsh são mencionados literalmente os ataques aéreos às Torres Gêmeas. Mas quando o avião aparece em cena, um avião qualquer em 7 de agosto de 1974, o choque instantâneo nos traz a 11 de setembro de 2001.
São de embasbacar não só o talento, a vaidade e a teimosia de Philippe Petit, mas O Equilibrista não teria o mesmo valor - não teria ganho Sundance, o BAFTA, o Oscar - se não fosse a sombra das torres ausentes.
O inglês Marsh tem total consciência do imaginário que está manejando, tanto que busca gravações da construções do WTC em 1968. Vemos sendo levantadas as armações de ferro que tão fácil desabaram há oito anos; ao fundo, "Fish Beach", a música orquestrada de Michael Nyman, lembra aqueles temas "rumo ao progresso" de propragandas governamentais.
Um entrevistado diz que é como se as Torres tivessem sido erguidas para Petit. Pela forma como o filme romantiza o equilibrista francês, a declaração não parece longe da verdade. Não é o tipo de documentário, enfim, que se presta a imparcialidades. Ao final não fica claro como amores terminam, como amizades se desmancham, não ficamos sabendo sequer o que Philippe Petit achou dos atentados. O foco principal é edificar um mito.
O Equilibrista é um documentário menor por se furtar a fazer as perguntas incômodas? Não necessariamente, mesmo porque não é a investigação que interessa a Marsh. A genialidade do seu trabalho está justamente em trabalhar bem com elementos da chave oposta à do "bom" documentário: a manipulação dos fatos e a reencenação da história para mitificar ainda mais a jornada do herói. O Equilibrista é irresistível, emocionante, cativante - adjetivos normalmente associados a filmes de ficção - porque é mesmo a ficção que o longa procura.
O que nos leva de volta aos atentados.
Para empalidecer a barbárie fatalmente sortuda dos fundamentalistas, o WTC lembra que teve um dia um herói tipicamente ocidental: self-made man, perseverante, que brinca com a morte mas a domina, que desafia a lei, que perdoamos quando trai a mulher, que tem amigos confiáveis mas cientes de suas posições de coadjuvantes. O estilo da narrativa, meio filme de assalto, também é tipicamente ocidental. O arco dramático, com perigos crescentes, e o momento de superação, com uma quase desistência às raias da conquista final, são tipicamente ocidentais - como o são vários dos personagens, do maconheiro que arrega na hora H ao milionário que põe em risco seu nome para bancar a aventura.
É do mito Petit e é desses arquétipos tão próximos a nós que O Equilibrista se faz. Nessa hora, pouco importa se correspondem à realidade. O que importa é o que a história nos conta: que "o bem venceu", por 45 minutos, em 1974.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ervas Daninhas


Aos 87 anos, Alain Resnais prova que iconoclastia não tem idade
Marcelo Hessel/Omelete
Iconoclastia não tem idade. Aos 87 anos, Alain Resnais comete em seus filmes infrações contra a burocracia instituída do roteirismo que muitos estreantes não teriam coragem de cogitar. Em Ervas Daninhas (Les Herbes Folles) ele não vai tão longe na desconstrução como foi, por exemplo, em Ano Passado em Marienbad, para ficar na cinematografia mais consagrada do mestre francês, mas ainda assim é sempre muito bom partilhar de suas provocações.
Aqui, a trama começa e a câmera do diretor de fotografia Eric Gautier passeia de plano-detalhe em plano-detalhe. A especialidade de Gautier, capturar momentos com seu zoom veloz e exato, é plenamente aproveitada em Ervas Daninhas. Por alguns minutos sequer enxergamos o rosto dos dois protagonistas: Marguerite (Sabine Azéma), uma senhora dentista, solteira, de selvagens cabelos vermelhos, que acaba de ter sua bolsa furtada, e Georges (André Dussollier), o homem de idade, pai de dois filhos, de boca cerrada e dentes pequenos, que encontra e devolve os documentos da mulher.
Resnais começa a jogar com as expectativas dos romances parisienses, com seus neuróticos enamorados à primeira vista, quando Georges é impelido a perseguir Marguerite depois de ter devolvido-lhe os documentos. Ele é rechaçado. Depois recua. E finalmente passa a ser procurado por ela, que mudou de ideia quanto à atração que sente pelo misterioso Georges. Relações de causalidade à parte, ou mesmo qualquer racionalidade à parte, Ervas Daninhas é tocado adiante na base desses impulsos.
Em uma cena, a mulher de vermelho fica de tocaia esperando Georges sair do cinema - onde ele fora, obviamente, dada a famosa cinefilia da geração de Resnais, assistir a um filme antigo hollywoodiano de gênero. Marguerite pega ele na saída e Georges reage na lata: "Quer dizer que você me ama, então?". Essa facilidade com que "todos dizem eu te amo" vira, nas mãos de Resnais, material para comédia afiada sobre a imagem que na França se faz das paixões.
A certeza de que Ervas Daninhas trabalha com um esperto simulacro - uma cópia do mundo criado no imaginário das histórias de amor francesas - reside nas escolhas de câmera (planos ironicamente cafonas de grua, panorâmicas...) e na aberrante paleta de cores do filme. É como um Pedro Almodóvar por Resnais: o já citado cabelo vermelho, carros amarelos, neon por todo lado, meias-luzes a torto e a direito, película com esfumaçados meio Technicolor que lembram outro filme recente do diretor, Beijo na Boca, Não!.
Nesta sua época da maturidade, Alain Resnais parece cada vez mais interessado em revisitar, de forma crítica ou simplesmente cômica, as regras que regem gêneros diversos. Ervas Daninhas tem música de suspense, clima neo-noir, humor nonsense, drama familiar, cartela falsa de "The End" antes do fim, até a vinheta clássica dos filmes da 20th Century Fox (que não tem nada a ver com a produção do longa). Ao mesmo tempo em que domina formalmente o ofício, o cineasta experimenta como um enfant terrible.

Aquele Querido Mês de Agosto



Longa português mistura documentário e drama para contar sua história
Marcelo Hessel/Omelete
Se a historinha de bastidor que o diretor Miguel Gomes conta é real mesmo, não importa muito - aos poucos descobrimos que "história real" é um conceito um tanto volúvel em Aquele Querido Mês de Agosto (2008), filme português que coloca, com muito bom humor, ficção, documentário e a arte da representação como um todo em curto-circuito.
A historinha é a seguinte: a equipe de filmagem de Gomes (vivido no filme por ele mesmo) se instala no interior do país para filmar a história de Tânia, adolescente que, depois do sumiço da mãe, vive uma relação intensa com o pai, relação essa que termina afetada quando Tânia se interessa por seu primo. Enquanto Gomes aguarda o dinheiro dos produtores (já está tudo montado na locação, mas não há sequer elenco escalado), ele decide botar a câmera para funcionar e registrar o que aparecer pela frente.
A metalinguagem está presente desde os créditos iniciais, que não saem como o diretor queria. A partir daí acompanhamos a equipe por gravações documentais e entrevistas com moradores da região em Aldeia de Benfeita, Pardieiros, no Rio Alva, em Coja, Anseriz, Pisão, Luadas, Vinhó... Agosto é a época dos festejos locais, com muito karaokê, comida, fogos-de-artifício. Vez ou outra aparece em cena aquele microfone de som direto, o boom, que os portugueses chamam de coelho, por ser fofinho.
A equipe assume que está ligando a câmera e pegando o que vê, mas a disposição desse material desde o início é sofisticada (ainda que os planos sejam quase todos estáticos e os cortes, raros), particularmente com o som de uma cena invadindo a outra - essa questão do som ainda vai render uma piada impagável no fim do filme. O caso é que a grande jogada de Aquele Querido Mês de Agosto é mostrar que há muito de ficcional na forma como essa "vida real" se apresenta e na forma como ela é ordenada no filme.
Em uma cena, por exemplo, o diretor Gomes filma jovens fazendo de conta, com sombras, diante dos faróis de um carro, que estão caçando um javali. Esse javali morto de mentirinha aparece minutos depois, morto de verdade, pronto a ser limpo para o jantar. Há uma ficção sendo feita ali com material documentado, portanto. Antes disso, o próprio material que Gomes colhe já vem impregnado de ficção. Como na história de Paulo, um sujeito ruim da cabeça que dá um salto mortal da ponte do Alva todo Carnaval. Para cada pessoa que conta a história de Paulo, ouvimos uma versão diferente. "Eu não vi, foi o que me disseram", diz um entrevistado.
Outro momento emblemático: quando o gringo da machadinha, no dia do seu aniversário, dá uma entrevista à equipe acompanhado de uma intérprete lisboeta, mas, ao invés de traduzir, ela refaz o depoimento do gringo com suas próprias opiniões. E aí ouvem-se os ecos do velho mantra semiótico de McLuhan, o meio é a mensagem. Seria muito difícil fazer um filme como Aquele Querido Mês de Agosto em outro lugar, porque é a tradição de história oral do interior de Portugal que o fundamenta.
Já seria um grande filme sobre a representação da realidade (e sobre o mito do gênero documentário de que é possível ver o mundo imparcialmente, sem os filtros do observador), um Gente da Sicília lusitano, não fosse a virada. De repente, sem qualquer mudança no estilo, começamos a assistir à encenação prevista lá no começo, a história de Tânia. O cineasta acabou pegando moradores do lugar para viver os personagens, pois, como havia dito antes para um produtor, ele "quer pessoas, não atores".
E se a primeira metade do filme era um documentário com toques de ficção, a segunda se mostra uma ficção com toques de documentário - antes de mais nada, porque já conhecemos a história anterior daquele cenário, como quando Tânia e seu primo passeiam sobre a ponte (a mesma ponte de onde Paulo pula todo Carnaval). E há temas tocados pela ficção que fazem parte daquela comunidade de fato, como o patriarcado arraigado. O resultado da inversão de representações é genial. Fica difícil saber até que ponto são mera encenação cenas como a do incêncio ou das procissões.
E o mais interessante é que Gomes não se desvia desse choque em momento algum. Nos últimos instantes de Aquele Querido Mês de Agosto, quando filma uma árvore num parque, ele faz questão de enfocar a plaquinha que explica-lhe a espécie. Por que, veja bem, estamos no cinema, terra da ilusão, então é prudente mostrar a plaquinha para que o espectador não fique pensando que aquela árvore é de mentira.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Palavra (En)cantada


Palavra (En)cantada, documentário dirigido por Helena Solberg, discute a relação entre música e poesia no Brasil
Depoimentos surpreendentes e belo repertório - O roteiro do Palavra (En)cantada tem sua narrativa construída na costura de depoimentos, performances musicais e bela trilha sonora. A abertura do filme é surpreendente, com Adriana Calcanhotto cantando, em franco-provençal, versos de Arnaut Daniel, poeta provençal do século XII, considerado um dos maiores da história, um artesão da integração entre palavra e som.
A partir da idéia sugerida por Lenine, de que os compositores brasileiros são descendentes diretos do trovador, o filme lança olhar sob diversos aspectos da formação cultural brasileira. Dos intérpretes que declamam poesia nos palcos aos cantadores nordestinos que improvisam diversos gêneros na viola, passando pelo Rap que, segundo o rapper Ferréz, "é uma mera continuação do cordel", Palavra (En)cantada é uma reflexão sobre a tradição oral e a diversidade cultural brasileira, resultado do cruzamento entre as culturas erudita e popular.
'Criou-se no Brasil uma situação que não existe em nenhum outro país: uma canção popular fortíssima, que ganhou uma capacidade de falar e cantar para auditórios imensos, e levar para esses auditórios poesia de densa qualidade, com a leveza que a canção tem', observa no filme o músico e professor de literatura da USP, José Miguel Wisnik.
Poetas-letristas, autores de livros que tornaram-se compositores, poetas que tentam usar a música para ganhar mais dinheiro, poetas do morro, tudo isso é assunto do Palavra (En)cantada . O filme é costurado por passagens instigantes, como a declarada rejeição de Chico Buarque ao título de poeta, e emocionantes, como as imagens captadas de Hilda Hilst pouco antes da sua morte, reclamando que os poetas não são valorizados no Brasil e contando que, para ganhar mais dinheiro, pediu para Zeca
Baleiro musicar seus poemas.
Filme é rico em imagens raras - Palavra (En)cantada apresentará imagens inéditas no Brasil, como a encenação de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, no Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, em 1966. Merecem destaque também imagens raras, que foram restauradas pela produção do filme, de Dorival Caymmi, nos anos 40, cantando e tocando O Mar ao violão. A canção, feita em Itapuã em 1937, foi escolhida pelo próprio compositor como a mais representativa do conjunto de sua obra.
O documentário também resgata um depoimento histórico de Caetano Veloso no Festival da Record, em 1967, logo após cantar Alegria, Alegria. Nele, Caetano fala de sua inspiração ao compor a música e ressalta a liberdade no uso da guitarra na música brasileira: “No Rio de Janeiro, disseram “Caetano vai usar guitarra numa música, quando chegar na Bahia vai tomar uma surra de berimbau”. O que eles não sabiam é que os baianos estão além!”.
Ponto de partida - A idéia do projeto surgiu há mais de três anos. No começo de 2005, Marcio Debellian, autor do argumento do filme, apresentou um projeto à Bienal do Livro para realizar pocket-shows de música e poesia durante o evento. O objetivo era mergulhar no universo particular de grandes compositores brasileiros, seus livros e autores preferidos, e como a relação de cada um com a poesia / literatura influenciava o seu processo criativo. O conceito do projeto era trazer música, leitura de poesia e bate-papo para espetáculos pequenos, de atmosfera intimista. Mas acabou crescendo e se transformando em um longa-metragem.
“O mergulho nesta pesquisa trouxe à tona assuntos que iam além do impulso criador de nossos artistas, e que falavam de aspectos significativos da formação cultural brasileira. Achei que o assunto merecia ser documentado”, diz Marcio. Ao final de 2005, Marcio Debellian e a Radiante Filmes, produtora de Helena Solberg e David Meyer, celebraram um acordo para a produção do filme. Um ano depois, haviam viabilizado os recursos para início das filmagens.

Inutil



Horas de Verão


Novo filme do francês Olivier Assayas se apóia no talento do diretor de fotografia Eric Gautier
Marcelo Hessel/Omelete
Alguns críticos consideram o diretor de fotografia Eric Gautier o melhor operador de câmera em atividade no cinema mundial. Alguns cineastas também, tanto que o francês de 47 anos trabalhou recentemente em três longas fora do circuito europeu: Diários de Motocicleta, Santos e Demônios e Na Natureza Selvagem. E atualmente roda Taking Woodstock com Ang Lee.
São os trabalhos recentes de Gautier com os cineastas Patrice Chéreau (Irmãos), Arnaud Desplechin (Reis e Rainha) e Olivier Assayas (Demonlover, Clean), porém, que melhor sintetizam seu talento. São filmes em que não há uma marcação de cena muito rigorosa, então o câmera precisa acompanhar a imprevisibilidade dos atores e também captar gestos e minúcias - ao mesmo tempo em que faz esse esforço parecer fácil, natural.
Gautier é mestre nisso, como fica evidente em Horas de Verão (L'Heure d'eté, 2008).
O filme escrito e dirigido por Assayas se passa ao longo de meses, mas trata de um período muito bem definido: um verão afetivo, das memórias de uma família que se reúne para passar férias em sua casa de campo. A casa em si, a 50 minutos de Paris, é um recanto de memórias: ali viveu um pintor cuja sobrinha-neta, Hélène (Edith Scob), agora está fazendo 75 anos de idade e preparando-se para deixar seu legado.
A questão é que dos três filhos de Hélène apenas o mais velho, Frédéric (Charles Berling), vive na França. Adrienne (Juliette Binoche) é artista nos EUA e Jérémie (Jérémie Renier) tem negócios em Pequim. Frédéric se indispõe quando a mãe lhe faz um breve testamento no dia do aniversário dela, mas o fato é que o futuro está logo aí. E a casa de campo é território do passado. Como preservar lembranças hereditárias, conciliá-las com o novo? É o que Assayas questiona nesse belo conto sobre o tempo.
O papel de Eric Gautier nesse passeio é inestimável. É como se fosse nosso guia turístico pela museologia da família. Em planos de média e longa duração, ele passa pelos corredores da casa de campo, registra móveis, pinturas, cerâmicas, filhos, netos, cunhadas. Seus movimentos são sutis. Os enquadramentos, com interações entre atores no primeiro e no segundo plano (e raramente lado a lado), investem nessa profundidade de campo para pegar as trocas de olhares com movimentos econômicos.
Há no roteiro alguns simplismos - como o momento na delegacia, para evidenciar o choque de gerações - mas o tom geral é dado não por essa idéia de choque, e sim por uma idéia, digamos, de transição tranquila. Essa percepção de que a imagem precisa ser retida com calma (daí o cuidado com movimentos desnecessários) está no centro da parceria de Gautier e Assayas.
Uma parceria que não é exibicionista, mas a serviço da história que se conta. O plano-sequência que fecha o filme, por exemplo, em que Gautier se aproxima do muro com a câmera na mão e em seguida sobe na grua para a panorâmica, é de dificílima execução, mas na tela parece a coisa mais simples do mundo.

Garapa



Em seu primeiro filme depois de Tropa de Elite, José Padilha documenta a fome no Nordeste
Marcelo Hessel /Omelete
Conhecido por sua luta contra a fome no sertão nordestino, o médico e professor Josué de Castro assine a epígrafe do documentário Garapa, o primeiro filme de José Padilha (Ônibus 174) depois de Tropa de Elite. Diz o médico que no Brasil é possível morrer de fome de dois jeitos: não comer nada ou comer mal e sofrer aos poucos com carências nutricionais.
As famílias de Fortaleza e do interior do Ceará, nos arredores de Choró, cujas rotinas Padilha documenta em seu filme, se encaixam no segundo caso. Muitas vezes, sua dieta se restringe à bebida do título, o melado fervido, já que um saco de açúcar é o que compensa comprar, segundo um entrevistado, depois de um dia de trabalho rural ocasional na região.
Sem rodeio, a câmera operada por Marcela Bourseau nos apresenta a esse drama a partir do ponto mais crítico: os corpos das crianças. Nus, magros mas barrigudos, andam de um lado para o outro e rolam no chão enquanto a equipe os filma, às vezes, dos pés à cabeça em um plano só, como se os medisse. Os pais visivelmente tentam ordenar a casa para "receber a visita" (e sentam os filhos no chão sobre camisetas para almoçar), mas não demora a vermos que a insalubridade é um dos fatores da miséria por ali.
Fatores não faltam, ademais. O alcoolismo, o descontrole de natalidade e o desemprego vão se amontoando entre dilemas que Padilha levanta seja pela imagem (ao contrapor dois homens de famílias diferentes em situação similar, um sóbrio e outro bêbado, por exemplo), seja pela palavra mesmo, questionando as mães sobre planos de maternidade. É problema demais para um filme só, e isso cria uma sensação de fatalismo cada vez maior, mas para falar da fome Garapa não tem mesmo como fugir desses fatores todos.
Se o teor temático é mais ou menos esperado, o que deve chamar mais atenção - e provocar discussões - em Garapa é a opção pela "estética Sebastião Salgado" de fotografar a pobreza em claro-escuro. Há momentos de evidente procura por uma poesia visual, como a chuva que cai sobre o varal de roupa construído com arame farpado, ou o achado que é uma menina loira de vestido todo branco contrastando com o pai desdentado que trança as pernas e "estraga" o enquadramento.
Seja na escolha dos filtros de luz, dos quadros ou - antes de mais nada - daquilo que vai filmar, Garapa parece o tempo todo estar fazendo algum julgamento daquilo que vê, ainda que a proposta seja observar a realidade como ela se mostra. Qual a finalidade, por exemplo, de filmar uma mulher esticando suas roupas sobre ripas de madeira? Essa imagem adiciona algo à discussão da fome ou foi registrada pelo apelo da sua precariedade?
José Padilha já teve que encarar questão semelhante em Tropa de Elite: afinal, está ali tomando uma posição ideológica ou tentando abrir uma situação intrinsecamente política a discussão? Se levarmos em consideração duas sequências no fim do filme, em que os cortes aceleram e associam grossamente, por exemplo, o cuspe de um homem no chão com a água que sua esposa bebe, Garapa pende um tanto para a tomada de posição.