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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Baixio Das Bestas


Retrato dantesco de um pequeno município da Zona da Mata de Pernambuco, filmado com gosto pela polêmica e rigor formal
Por: Rodrigo Carreiro

Assistir a um filme de Cláudio Assis é dar uma espiada dentro da alma torturada do mais pernambucano de todos os cineastas do chamado Cinema da Retomada (pós-1994). Segundo longa-metragem da carreira do diretor, “Baixio das Bestas” (Brasil, 2007) dá um passo à frente na já ousada carga pesada de imagens de sexo e violência presentes em “Amarelo Manga” (2003), e oferece um produto cinematográfico ainda mais explosivo e coeso. É um filme extremamente agressivo, que tem gosto pela polêmica e se caracteriza por um paradoxo rico e interessante: o contraponto entre a temática subversiva (diálogos explosivos e viscerais, imagens explícitas de perversões sexuais) e composições visuais clássicas, de grande rigor formal.
Premiado nos importantes festivais de Brasília e Roterdã (Holanda), em 2007, “Baixio das Bestas” confirma que o interesse do cineasta, nascido em Caruaru, é se mover nos intestinos da sociedade, expondo suas partes podres através de personagens com desvios de comportamento rumo a extremos de violência e sexualidade. Utilizando uma série desnorteante de imagens fortes, apresentadas com desembaraço e agressividade, a narrativa costura habilmente as histórias de uma dúzia de personagens que sobrevivem como podem ao imobilismo sócio-econômico de uma pequena cidade da Zona da Mata pernambucana, dominada pela monocultura da cana-de-açúcar. Reunindo vários pequenos contos que usam como fio condutor o mesmo espaço geográfico, o filme compõe um mosaico da vida na região, como um Robert Altman embriagado. “Baixio das Bestas” arde no estômago como um copo de cachaça.
Os personagens são divididos em três núcleos. Há as prostitutas (Dira Paes, Marcélia Cartaxo, Conceição Camarotti), que passam os dias pintando as unhas e esperando a noite chegar. Há os burgueses de roça, rapazes ricos e desocupados, que dirigem picapes envenenadas, enchem a cara, fumam maconha, assistem a filmes pornográficos num cinema abandonado e têm uma quedinha especial por estupros. E há os velhos da cidade, que se reúnem todos os dias num boteco para jogar sinuca, dominó ou baralho, enquanto tagarelam sobre a falta de perspectiva de quem mora naquele lugar onde nada acontece. Todos parecem presos em rotinas circulares e sufocantes. Um cenário propício para que a cultura arcaica, machista e patriarcal do lugar faça aflorar perversões sexuais que o cinema comercial não tem coragem de abordar. Claro que um filme de Cláudio Assis não tem nada de normal.
Quando exibido em Brasília, o título foi recebido com espanto, provocando reações extremas. Ganhou vários admiradores, mas muita gente se sentiu incomodada com o espetáculo dantesco de degradação a que alguns dos personagens são submetidos. Na cerimônia de premiação, quando foi agraciada com seis troféus, a produção recebeu aplausos e vaias em doses iguais. A reação é compreensível, porque “Baixio das Bestas” ocupa um lugar na cinematografia brasileira contemporânea que não é freqüentado por nenhum outro cineasta. Ninguém faz filmes como Cláudio Assis, goste-se dele ou não. É um cineasta de extremos, que se recusa a filmar apenas para demonstrar habilidade na manipulação dos elementos fílmicos, ou para pagar as contas. Assis filma porque sente uma necessidade irreprimível de se expressar, ainda que de forma caótica e violenta, quase rancorosa.
Aí está um cineasta que merece o rótulo de autor. Via de regra, o trabalho de Assis tem como máximo objetivo aplicar choques de realidade na platéia. O cineasta acredita que só assim é possível arrancar o público da letargia em que o cinema de puro entretenimento o mergulhou. A filosofia de vida dele é viver intensamente, deixando todas as emoções aflorarem, inclusive as mais negativas; aproveitar passar pela vida com tanta intensidade quanto possível; arder como fogo. O diretor vive assim, seus filmes são assim, e seus personagens também refletem isso. São gente do povo, gente que usa dentadura e tem mais defeitos do que virtudes. Gente que com freqüência interrompe diálogos expositivos para vociferar frases soltas, como uma filosofia repleta de palavrões, que carregam a assinatura do diretor. Quem conhece Cláudio Assis vai reconhecer nas imagens e palavras de “Baixio das Bestas” a alma atormentada e agressiva do cineasta – e isto é um elogio. Afinal, as melhores obras não são aquelas que dizem algo a respeito do artista que as cunhou?
“Baixio das Bestas” é um filme incômodo. Os espectadores que já reclamavam do forte teor de sexo (o incrível plano-detalhe dos pêlos púbicos de Leona Cavalli) e violência (a vaca sendo morta a facadas) de “Amarelo Manga” talvez precisem manter distância deste título aqui. Estupros, pedofilia, voyeurismo, prostituição e todos os tipos de perversão sexual ganham na tela um retrato visceral, cheio de energia, realçado pela maravilhosa fotografia (assinada por
Walter Carvalho) em tons esverdeados e de terra. A luz do filme, primorosa, não apenas marca uma distância segura das tonalidades esmaecidas e urbanas de “Amarelo Manga”, mas também reflete com propriedade a cor e a textura de uma cidade da zona da mata, com suas estradas de barro e canaviais, botecos sem iluminação e maracatus.
Na concepção visual de “Baixio das Bestas” também aparece o mais rico paradoxo que envolve os talentos de Assis. Por trás do amor pelo grotesco deste diretor subversivo por imagens explícitas de sangue e sexo, está um cineasta disciplinado e de grande rigor formal. A estética de “Baixio das Bestas” não é, como se pode imaginar, despojada e irresponsável; pelo contrário, é meticulosa e sofisticada. Composições visuais e movimentos de câmera elegantes exprimem um autor de olho apurado. Há nítida preferência por planos fixos, que muitas vezes eliminam intencionalmente uma parte da ação (que ocorre portanto fora do quadro). Assis é também adepto de posições de câmera radicais, abusando de plongées em que a câmera olha de cima para baixo num ângulo de 180 graus (“a perspectiva de Deus”, diria Pauline Kael).
Outra estratégia visual muito comum do diretor consiste em revelar aos poucos a íntegra de cada ação, com travellings laterais suaves. Esses movimentos freqüentemente revelam elementos novos, que põem a composição inicial do quadro em nova perspectiva e exige um ajuste na atenção do espectador – é preciso estar sempre atento para novidades, mesmo nas tomadas mais longas, em que nada parece acontecer. Além disso, o crítico Luiz Carlos Merten percebeu um detalhe extra que enriquece ainda mais a experiência da platéia: “Há sempre uma ação no primeiro plano, mas também há um fundo – gente que passa, ônibus, bicicletas, caminhões. É como se outras histórias estivessem correndo paralelamente”, escreve o crítico paulista. Dá mais trabalho filmar assim, mas o resultado final é bem mais rico e complexo do que o habitual.
Ótimo exemplo deste tipo de composição visual sofisticada aparece logo no primeiro plano do filme, logo após as imagens de usinas no prólogo. Vemos inicialmente o exterior de uma velha igreja, à noite. Pela direita, entram no quadro um velho (Fernando Teixeira) e sua neta de 13 anos (Mariah Teixeira). O homem arranca as roupas da criança, deixando-a nua, parada e em pé. Aí a câmera se afasta, num lento travelling para trás, desnudando finalmente o cenário completo: dezenas de espectadores que pagaram para conferir o bizarro show de streap tease pedófilo. Nesta tomada sem cortes, breve e silenciosa, estão reunidos todos os elementos importantes do cinema de Cláudio Assis: o sexo, a polêmica, a controvérsia, a denúncia social e o rigor formal.

Arido Move


Filme de Lírio Ferreira celebra alegremente os ícones da turma que construiu o movimento mangue
Por: Rodrigo Carreiro
Um dos traços mais marcantes do chamado movimento mangue beat, que ganhou popularidade na virada do século em Pernambuco, foi uma inversão na forma como os burgueses do Recife viam a si próprios. De repente, a vergonha que sentiam por viver num lugar inóspito, do ponto de vista cultural, deu lugar a um orgulho palpável por estar geograficamente próximos de um grupo de pessoas celebradas nacionalmente como renovadores de uma tradição cultural. Nesse sentido, “Árido Movie” (Brasil, 2006) é um legítimo representante da cultura mangue no cinema. O filme, vencedor do Cine PE em 2006, celebra alegremente os ícones do Pernambuco jovem dessa turma.
Em resumo, “Árido Movie” é um catálogo de imagens do que significa ser, em 2005, um pernambucano de classe média, numa faixa etária entre 20 e 40 anos, vivendo num padrão de classe média e com alguma sensibilidade artística, em uma cidade do Grande Recife: praia de Boa Viagem, bares como Casa de Banhos e Biruta, o jornalista Xico Sá, cerveja, maconha, falta d’água, calor, Marco Zero, o músico Lirinha, mais maconha, Vale do Catimbau, um serão nostálgico e afetivo, o cantor Ortinho, e mais maconha. Essa reunião de ícones traduz o ambiente em que vive a galera mangue, e o filme emula tudo isso muito bem. Ou seja, “Árido Movie” tem potencial de se tornar cult para um público que se reconhece amplamente na tela e tende a amar cada polegada do filme, o que não significa que o produto final seja realmente bom.
É certo que o problema da
identidade cultural é central para os realizadores do mangue beat, em todas as suas vertentes artísticas (música, moda), mas Lírio Ferreira não foi especialmente feliz no tratamento que dá a essa questão. A impressão que o filme passa é de tentar abraçar o maior número possível de impressões sensoriais relacionadas ao orgulho de ser pernambucano, e o resultado final atira para todos os lados, resultando numa cacofonia que se mostra eficiente nas partes, mas estranhamente irregular no todo. “Árido Movie” cai na velha armadilha do excesso de ambição, ao tentar ser menos um filme e mais um tratado sobre o que significa ser pernambucano. O resultado pode até ser engraçado aqui e acolá, mas no todo vira um porre.
A trama em si é bastante interessante, aglutinando novos e velhos elementos característicos da cultura pernambucana. O protagonista é um expatriado. Jonas (Guilherme Weber) trabalha como homem do tempo numa grande emissora de TV. Quando o pai (Paulo César Pereio) que ele não vê desde criança morre, assassinado na fictícia cidade sertaneja de Rocha, ele é obrigado a voltar a Pernambuco para enterrar o parente, metendo-se inadvertidamente numa tentativa de vingança bem típica do Sertão, arquitetada por tios, primos e irmãos (Matheus Nachtergaele, Aramis Trindade, o cantor Ortinho) que fazem o tipo “brucutus sertanejos desconfortáveis com o menino mimado da cidade grande”.
A primeira metade do filme é bem amarrada, contando com uma abertura vigorosa que apresenta uma miríade de personagens durante uma festa num boteco de Rocha e vai, aos poucos, identificando-os e cruzando-os entre si. Jonas passa pelo Recife, vê a mãe (Renata Sorrah), encontra um trio de amigos de faculdade (Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão) e segue viagem. Na estrada conhece Soledad, uma videomaker e artista plástica (Giulia Gam), também em viagem a Rocha, a fim de fazer um documentário sobre um velho místico no estilo Antônio Conselheiro (José Celso Martinez Correia) que vive isolado numa fazenda local. O destaque no elenco é José Dumont, à vontade no papel de um barman e mecânico que dirige um misto de boate/boteco/posto de gasolina no meio da terra seca.
Ferreira e os roteiristas Eduardo Nunes, Hilton Lacerda e Sérgio Oliveira têm problemas para conduzir a narrativa em ritmo fluido, o que resulta num produto cheio de sobressaltos. Há uma tentativa evidente de imprimir ao filme um tom de auto-descoberta, melancólico, porém intercalado com doses generosas de humor. Ocorre que a fusão não ficou bem feita, pois os dois elementos ficaram compartimentados demais, cada um concentrado numa narrativa distinta. A jornada de Jonas é mais séria e misteriosa; a trama paralela envolvendo seus três amigos é ensolarada e engraçada. Aliás, tão meticulosamente engraçada que soa forçada e artificial.
Na verdade, o trio de personagens poderia ser eliminado do filme sem nenhum prejuízo à ação dramática principal. Eles não acrescentam nada à jornada de Jonas. Mas têm, é claro, um papel importante no perseguido objetivo de “pernambucanidade” do filme, que é apresentar a faceta maconheira da região e da faixa etária do seu público-alvo. A viagem dos três ao sertão é, na verdade, uma visita ao zoológico humano do interior do estado, com o mal-disfarçado objetivo de abastecer o estoque de erva do grupo – uma viagem bem familiar a todo mundo que convive no ambiente boêmio do mangue beat.
Um dos problemas mais visíveis de “Árido Movie” é a vontade ardente de enfiar no roteiro a maior quantidade possível de coloquialidades típicas do “pernambuquês”, em um excesso que acentua o artificialismo da produção. A certo momento, um dos personagens exclama uma das anedotas mais batidas dos recifenses como se fosse uma frase original: “Maconha dá amnésia e outras coisas que eu não lembro”. Isso não acontece uma ou duas vezes; os diálogos são pontuados por esse tipo de expressão. A estratégia deve ter causado uma dificuldade extra aos roteiristas, que precisavam inserir nos diálogos esse tipo de pérola, o que acabou por empobrecer a narrativa, inclusive criando problemas no desenvolvimento dos personagens. O Jonas bem rascunhado na primeira metade do filme não parece a mesma pessoa que solta bobagens do tipo “eu me sinto um estrangeiro em todo lugar”, perto do final. Talvez o sol sertanejo tenha desmiolado a cuca do rapaz.
Outro ponto curioso e a fotografia de Murilo Salles, um profissional que não atuava na função há 20 anos. As composições cuidadosas (excelente a tomada aéres que emoldura os créditos, na abertura), os longos planos com a câmera em movimento (alguns soando como exibicionismo gratuito, como o plano circular entre as pedras do Cachorro e do Elefante) e enquadramentos caprichados dão a impressão de uma obra sofisticada, mas por outro lado o tratamento da luz pode ser, para alguns, problemático. As cenas interiores têm iluminação quase expressionista, cheia de sombras e pontos escuros, enquanto os espaços externos são mostrados em frios tons azulados, sem a luz ofuscante que caracteriza a região. É um sertão de sonho, irreal. O resultado é artificial.
No final, é inevitável uma comparação com “
Cinema, Aspirinas e Urubus”, filme pernambucano da mesma safra que também teve orçamento minúsculo e lida com a mesma questão da identidade cultural, mas de uma maneira completamente diferente. O que o filme de Marcelo Gomes tem de delicado e intimista, o longa de Lírio Ferreira possui de vigoroso e esparrento. O primeiro consegue ser universal através do tratamento formal rigoroso e contido, possuindo um foco nítido no que realmente interessa. Já o segundo vai com tanta sede ao pote que passa da conta e termina encerrando seu interesse a um público regional.